30.11.15

UM CRIME PERFEITO...

Na semana passada, a professora de escrita criativa mandou-nos escrever um conto  policial, obedecendo a estes tópicos. Tinha que ser uma mulher que matava o marido empurrando-o de umas rochas quando ele tirava uma fotografia, e a máquina tinha que se disparar no momento da queda.
Eu nunca experimentei o policial. Escrevi este conto. Aguardo a vossa opinião                                                                 


                              
                                         Fisgas do Ermelo


Já não eram um casal jovem, mas estavam ainda longe da velhice. Ele alto e magro, de rosto fechado e pouco dado a conversas. Pendia-lhe do pescoço, presa por uma alça negra, uma máquina fotográfica que a miúdo usava, e parecia ser a única coisa que lhe dava prazer, enfastiado que estava com a tagarelice da mulher Estavam de férias em Vila Real e encontravam-se a visitar o parque do Alvão. Por vaidade, ou talvez não, frequentemente ela pedia ao marido que a fotografasse. Coisa que ele fazia sem qualquer esgar de alegria, como quem cumpre uma tarefa. Se entre eles algum dia houve amor, há longo tempo tinha desaparecido. Viviam juntos, por quê? –  Ele já se tinha interrogado mais do que uma vez. Hábito, falta de vontade de encarar um divórcio, medo da solidão. Agora ela tinha inventado aquela viagem de férias, em vez de como era habitual nos outros anos irem para o Algarve. E o que mais o aborrecia, eram as demonstrações de carinho em público, que não tinham correspondência em privado, e que só tinham surgido depois que se hospedaram no hotel.
. Ela, quase tão alta como ele, elegante e sorridente. Era por natureza, alegre, e extrovertida.
Caminhava alegre, surpreendendo-se com a paisagem agreste do parque seguindo o trilho das fisgas do Ermelo, local de altas escarpas que ela vira na pesquisa que fizera na Internet. Na cabeça o plano que delineara, desde que vira a notícia de uma turista que ali morrera por acidente enquanto tirava umas fotografias, três meses atrás.
 O amor pelo marido, morrera há muito tempo. Há mais de dois anos que ela tinha outro amor, no coração, com o qual queria viver, sem peias nem esconderijos. Mas para isso ela precisava livrar-se do marido, já que era dele todo o dinheiro, e em caso de divórcio, não acreditava que ele lhe desse algo mais do que aquilo que tinham desde que se casaram. O resto era dele, estava no contrato nupcial. O dia anunciava-se de grande canícula, um daqueles dias que os transmontanos chamam de inferno, pois àquela hora, pouco passava das nove da manhã, já estava bem quente.
Finalmente chegaram às escarpas, de onde se via um panorama magnífico. Os dois, quase  na berma da escarpa, olham o vale lá no fundo e o belo horizonte. O marido tira várias fotos. E quando se preparava para sair do local, eis que a mulher se coloca bem na frente dele pedindo que lhe tirasse um retrato. O marido argumenta, que está demasiado perto, não fica nada de jeito, e aí ela pede para ele recuar um passo. Ele recua, ela avança e a situação mantém-se já que a distância é a mesma. Depois de ter recuado por três vezes, e de ela ter avançado outras tantas, ele não pode recuar mais, pois sabe que está na beira do abismo, e pode cair a qualquer momento. Inesperadamente a mulher estica o braço com violência e empurra o homem que se desequilibra mergulhando no abismo, ao mesmo tempo que a máquina se dispara.
A tremer, a mulher aproxima-se da beira das escarpas. O corpo do marido repousa lá no fundo, entre enormes pedaços de rocha. Mas a malfadada máquina ficou ali. Caída numa saliência da escarpa, uns três metros mais abaixo. Ela pensa que a máquina fotografou o crime. Se alguém a encontra, e será fácil a polícia encontra-la quando investigar a morte do marido, ela está perdida. O plano tão bem delineado, será facilmente descoberto através da maldita fotografia. Só havia uma solução. Difícil sim, mas não impossível. Então toma uma decisão. Devagar, com imenso cuidado, começa a descer a escarpa, o medo apertando-lhe o peito, o coração batendo desenfreado. Está quase a apanhar a máquina. Um pequeno esforço mais e pode regressar pelo mesmo caminho e livrar-se daquela prova que a incriminará. Mas eis que no momento em que apanha a máquina,  a pedra sobre a qual apoia o pé direito resvala, fazendo com que perca o equilíbrio,  e ela vai estatelar-se lá em baixo bem ao lado do marido.
Horas mais tarde, um turista dá o alarme, polícia e bombeiros chegam ao local. O casal está morto. A mulher segura ainda a máquina fotográfica. Na tentativa de descobrir o que se passou, a polícia visiona as fotografias. Pensa que deviam ser um casal muito apaixonado, dada a quantidade de fotos feitas pelo marido, em que aparece a mulher, sempre sorridente e feliz.
 Por fim a última fotografia que regista apenas, um pedaço de céu azul.


Fim

Maria Elvira Carvalho

29.11.15

VAMOS CONVERSAR?

                        foto do google


Chegou ao fim o conto que durante mais de quarenta dias vos  entreteve por este cantinho.Seguido por muitos, aqui e no google+,  uns tiveram coragem de deixar um comentário, outros apenas um gosto, outros ainda entraram mudos e saíram calados. 
O texto de hoje é uma forma de partilhar convosco, algumas conclusões a que os vossos quase mil comentários me levaram

1º  Mal o conto começou, começaram-me a pedir um final feliz, uma história de amor. Realmente a vida actual anda tão stressante que só mesmo o amor para lhe dar sentido. De resto, desde que "matei" a protagonista em "A Ti'Esperança dos olhos verdes" que sabia que me iam "desancar" se o final não fosse o que imaginavam. O que me chamou a atenção, foi o facto de muitos, se preocuparem mais com o romance dos protagonistas do que com o facto de um deles não ter memórias, ou com as dúvidas do outro, pela diferença de idades.Adiante. O facto é que vocês sentiram o  romance dos protagonistas muito antes de eles terem dado por isso.
2º O factor da diferença de idade, foi introduzido de propósito para ver a vossa reacção.
E foi quase unânime, a opinião de que a idade não interessa, o importante é o amor. Se não me engano apenas duas leitoras e um leitor, assumiram claramente que não acreditavam num relacionamento duradouro com tal diferença de idades. Para os restantes a idade não conta . Mas será sempre assim? Vamos fazer um pequeno exercício. Suponham que eu trocava a idade aos protagonistas. 
. A Mariana teria 47 anos e o Miguel 20. Que vos parece? Iam continuar a apostar nesse amor da mesma maneira? Será que apenas três leitores duvidariam do sucesso da relação?
Por último, senhoras e cavalheiros, acharam Miguel, um carácter demasiado bom para ser verdade, o que me levou a pensar no desencanto com que olhamos à nossa volta, e no pouco que conhecemos quem nos rodeia
O Miguel existe. Talvez não se chame Miguel, nem seja pintor, mas homens de carácter, capazes de grandes actos de abnegação e amor ao próximo, existem sim.  Inspirei-me num.
Resta-me acrescentar que dedico esta história a todos os homens que vêm na mulher um ser seu igual, e a amam e respeitam como tal.
Agradeço a todos a participação. Amanhã terão aqui um pequeno conto policial. É a minha primeira incursão no género e espero que vos agrade.

Tenham um óptimo domingo.

27.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE LI


Encostou-se mais a ele, o corpo tremendo, mais de ansiedade que de medo. Insistiu
- Não te atormentes mais, nem me tortures. Deixa de lutar contra fantasmas que só existem na tua cabeça.  Eu sou real, e o meu amor por ti, é tão real, quanto esta tempestade.
 Segurou-lhe o rosto entre as mãos, e aproximou o seu do rosto dele, até quase se tocarem. Insistiu:
- Beija-me. Agora. Ou não te perdoarei nunca.
Incapaz de resistir, por mais tempo, ele obedeceu.
E, tal como um rio, que no auge da tempestade, galga  margens e arrasta tudo à sua passagem, assim o beijo que os uniu, despoletou tal paixão, que destruiu  medos e inseguranças, deixando apenas um homem e uma mulher que se amavam, e se entregavam às primícias desse amor.
Lá fora chovia torrencialmente. Aos poucos a tempestade afastava-se, e a trovoada, ficava cada vez mais distante.
Mais tarde, quando a luz voltou, ela sussurrou:
Tens fome?
-De ti. - Respondeu com paixão
Ela riu baixinho. E de novo as bocas se procuraram ansiosas, as mãos  se perderam nervosas, em carícias  delirantes,  e os corpos se envolveram na ancestral dança do amor.





************************************** - EPÍLOGO -******************************** 



Já se passaram mais de quatro anos, desde aquela noite de Dezembro.   Tempo em que muita coisa aconteceu na vida dos dois protagonistas desta história. 
Mariana recuperou os seus documentos, bem como a chave da sua casa.Continuou com as sessões de psicoterapia, durante algum tempo, até interiorizar que o sentimento de culpa, que quase a endoidecera, não tinha razão de ser.
 Casaram numa manhã de sol,no início da primavera. Numa cerimónia, simples e íntima, na presença de Luísa, da filha e do namorado desta, e de alguns amigos do noivo.
 Mariana, voltou à universidade e terminou o curso. Por seu lado, Miguel era cada dia mais respeitado por público, e críticos. O seu quadro,  " Folha em branco"., que retratava Mariana, naquele dia, entre a vegetação da falésia, tal como ele a vira, fizera o maior sucesso, e fora alvo de vários estudos, e muitas ofertas, mas Miguel não o vendeu. Tinha lugar de destaque na sua sala.  
Tinham vivido na casa dela, enquanto remodelavam aquele apartamento, e quando as obras acabaram e voltaram para ali, venderam a outra casa.
Mantinham Luísa como empregada. E Maria continuava a ser, a  sua melhor amiga, embora ela tivesse recuperado a antiga amizade de algumas colegas da Universidade.
Mariana estava cada dia mais bela, mais mulher, mais madura.
Irradiava felicidade.
Por vezes, ao olhá-la, voltava a insegurança de Miguel, o temor de a perder, o medo de que a jovem o trocasse por alguém da sua idade. Tinha esse medo enraizado no peito, muito embora lutasse contra isso todos os dias. Mas às vezes, era maior que as suas forças. Ensombrava-se-lhe o rosto, entristecia-se-lhe o olhar.
Atenta, Mariana afastava essa dúvida, com todo o amor que sentia pelo marido.
Ela sabe, que essa, é uma nuvem,  que ainda vai demorar a sair do horizonte de Miguel.
Mas  hoje é um dia especial. Miguel faz cinquenta e um anos. Daqui a pouco descerá do estúdio, sairão para jantar, e festejar com alguns amigos.  
Mariana acaba de se arranjar e espera ansiosa pelo marido. Ela tem uma prenda especial para ele.
Quando ele desce, ela enlaça-o e murmura-lhe  algo ao ouvido.
 -Verdade?- pergunta ansioso, mergulhando o olhar, naqueles olhos castanhos que tanto ama.
Acena afirmativamente  com a cabeça.
 Sentindo um nó na garganta, o coração batendo desenfreado no peito, ele aperta-a contra si, e murmura emocionado:
-Bendita sejas, Mulher!


FIM


Maria Elvira Carvalho.



FOLHA EM BRANCO - PARTE L.





Dizem que o tempo voa, mas para Mariana, os dias decorriam numa lentidão exasperante. Miguel passava os dias no estúdio, apenas descia para almoçar, sabendo que Luísa e a filha estavam em casa. À noite, não descia para jantar, e quando vinha dormir era já madrugada. Mariana, passava os dias com a amiga, que devido à época de festas que atravessavam, não tinha aulas. 
Ora saíam, ora se fechavam no quarto, ouvindo música, ou perdendo-se em longas conversas. Não era de estranhar que se tivessem tornado inseparáveis. Para Mariana, a amiga, era a única pessoa, mais ou menos da sua idade, com quem convivia desde há largos meses. Maria, admirava a amiga, pelo que ela sofrera, e pelo carinho com que sempre a tratara.
E assim se chegou àquele dia 30 de Dezembro, um invernoso dia de vento e chuva. Luísa e a filha, saíram a meio da tarde, em dias assim era mais difícil apanhar transportes e elas moravam no outro lado da cidade.
-Deixei o jantar preparado, menina. É só aquecê-lo no Micro-ondas, - disse antes de partir.
- Não se preocupe Luísa. Aproveitem,  ir agora, parece que a chuva e o vento amainaram um pouco.
Pouco depois a chuva voltava em força.
Sete e meia da tarde, ouviu-se o primeiro trovão.
“Só cá faltava a trovoada” murmurou contrariada.
Correu os cortinados, apagou a luz e dirigiu-se à sala.
Abriu um livro, mas não conseguiu ler. A trovoada estava cada vez mais próxima, e  ela cada vez mais nervosa.
Miguel descia as escadas, quando um relâmpago, fez da noite dia, e o trovão soou ameaçador por sobre as suas cabeças, ao mesmo tempo que a luz se apagava, mergulhando a casa na escuridão.
Ela gritou assustada, e rapidamente ele estava a seu lado abraçando-lhe o corpo tremente.
Tens medo? – Perguntou baixinho
Contigo não.- Respondeu no mesmo tom.
Novo relâmpago, novo trovão, desta vez ainda mais assustador, como se a tempestade que eles traziam no peito, se tivesse  materializado lá fora, no espaço.

Ela apertou o cerco dos seu braços e pediu num sussurro:
-Beija-me, Miguel!
Ele afastou-a ligeiramente
- Não me tentes, Mariana, não me tentes!




26.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLIX



Quando na manhã seguinte acordou, Mariana já encontrou em casa a empregada e a sua filha.
- Bons dias.
- Bom dia, dorminhoca.- Respondeu Maria
- Vieste cedo! Tínhamos combinado alguma coisa?
- Não. Mas estava ansiosa por falar contigo.
- Já tomaste o pequeno-almoço?
- Já. Mas acompanho-te com um café.
- Pode ir para a mesa, menina. Levo-lhe já o pequeno-almoço, - disse Luísa.
- Obrigado Luísa. Viu o Miguel?
-Não, menina. Quando chegámos já não estava.
Foi para a sala e Maria foi atrás.
- Parece que não dormiu em casa, - disse baixinho
- Porque dizes isso?
-Porque a mãe estranhou o quarto arrumado.
Engoliu em seco. Onde teria ficado? E com quem?
Tinham-se sentado. Mariana, numa das cabeceiras da mesa ,a amiga, a seu lado, numa das laterais.
Maria inclinou-se para a frente e perguntou baixinho:
-Como foi?
-O quê?
- A noite de Natal, tu e Miguel.
- Não foi, -respondeu triste
-Ó que pena!
Depois, vendo a tristeza da amiga, acrescentou:
-Deixa lá. Vão aparecer outras oportunidades.
Calou-se enquanto a mãe colocava na mesa, uma travessa com torradas, um sumo de laranja e uma taça com frutos secos.
Quando Luísa se retirou, Mariana disse:
- Fazem-me falta as sessões de análise. Preciso desabafar.
- Estou aqui, - retorquiu Maria com seriedade, colocando a sua mão sobre a da amiga. - Se te serve de algo…
Serviu. Ante o espanto da amiga, Mariana contou tudo, desde os seus tempos de estudante, jovem tranquila e cheia de sonhos até à conversa com Miguel no dia anterior. As torradas arrefeceram, o sumo e os frutos ficaram intactos. Quando Luísa veio retirar a bandeja, ralhou com a filha, que estava a impedir a menina de comer, e com ela, porque assim ficava doente, as pessoas não vivem sem comer, e retirou-se zangada
Mariana retomou a conversa interrompida, e quando terminou, a amiga apertou-lhe a mão num gesto de carinho. 
- Como deves ter sofrido! E agora? Que vais fazer?
- Recuperar as minhas coisas, e voltar para a minha casa. Tentar seguir a minha vida. Sei que não vou esquecer Miguel. Mas não consigo viver neste jogo de gato e rato, esperando por ele, e ele fugindo de mim.
- Eu no teu lugar não desistia. Não dizem que “água mole em pedra dura, tanto dá até que fura”? Então, amiga, se ele é o rochedo, sê tu a água.
- Não tenho forças, para isso. Estou farta de sofrer!
- Acredito. Deves ter sofrido horrores. Que história, meu Deus! Parece uma novela.
Mariana esboçou um sorriso e disse com tristeza:
- A vida, é bem mais complicada que uma novela, Maria.






FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVIII




Foto do google

Tinham-se conhecido, muitos anos atrás. Miguel tinha dezanove anos, era estudante. Olga, quarenta e era uma mulher  muito bela, alegre, que vivia dos favores que o seu corpo proporcionava aos homens. Ganhara fama a sua beleza, e era procurada pelos homens mais ricos da cidade. Mas também por jovens estudantes, que gastavam no seu leito, a maior fatia das suas mesadas. Miguel fora um desses estudantes.
Era muito novo, quase um rapazinho. Ele apaixonou-se pela bela mulher, que lhe ensinava todos os prazeres do sexo, despertando-lhe, sentidos e emoções, nunca antes experimentados.
Ela gostou do rapaz que a tratava com cuidado e carinho, fazendo-a esquecer-se da realidade da sua vida, para se sentir apenas uma mulher amada. Foi tão intenso, que Miguel, um sonhador com alma de poeta, como ela costumava dizer, chegou a pedir-lhe para ficarem juntos, mesmo que para isso  tivesse de abandonar os estudos, e ir trabalhar para a sustentar. Ela não se iludia. Sabia que mais dia, menos dia, Miguel ia encontrar alguém,da sua idade, e nunca mais punha os pés na sua casa.
E isso aconteceu, uns tempos depois, quando Miguel se apaixonou por uma colega na universidade. Lembrar-se-ia sempre, da tarde em que chegou com o ar mais sério do mundo, e lhe contou, pedindo-lhe desculpa, por ter traído o seu amor.
Para ela não foi nenhum drama. Nunca tivera ilusões. E aquilo, era o rumo natural da vida.
Pensou que nunca mais ia aparecer. Seria o que faria qualquer outro no seu lugar. Mas Miguel não era qualquer um. Era um ser especial como ela não conhecera outro na sua vida.
Apesar de nunca mais, se ter deitado  na sua cama, de vez em quando,  Miguel aparecia por lá. De manhã, sabendo que estava sempre sozinha nessa altura.
Conversavam um pouco, bebiam um chá e ia-se embora antes da hora  do almoço. E foi assim ao longo dos anos, antes e depois, dela ter largado a 
"vida", e se ter tornado uma simples e idosa dona de casa.
 Às vezes não aparecia durante um ano ou mais. Mas quando alguma coisa o incomodava, era com ela que ia desabafar. Como quando os pais morreram. Como agora.
- Não te atormentes. A história é totalmente diferente. Desde logo, porque uma mulher de vinte anos é muito mais madura, do que tu eras nessa idade. Não confunde sentimentos, sabe muito bem o que quer. Depois, nem tu nem eu nos amávamos, embora na altura pudesses ter pensado que sim. Tu ficaste deslumbrado, pela mulher mais velha, que te despertava os sentidos. Eu, gostava do  rapazito, que me tratava como se eu fosse uma rainha. Nada mais. 
Entre nós, nunca houve amor, Miguel. Atracção física, troca de experiências, um pouco de carinho, talvez. Mas, amor não. Nenhum de nós traiu o outro, porque não há traição, onde não há amor.
Anda, vai para casa. Escuta o teu coração. E se realmente, amas a rapariga, aproveita a oportunidade que a vida te dá e sê feliz. O tempo passa rápido, e quando damos conta, a vida está no ocaso como o sol no fim do dia.
Miguel não queria ir para casa, Não naquela noite. A tensão, a que obrigara o corpo, deixara-o de rastos. Estava muito cansado, sentia-se sem forças, não queria tonar uma decisão que ia mudar a sua vida naquele momento. Podia vir a arrepender-se.
Posso, ficar aqui, esta noite?
- Claro que sim. Vou buscar um cobertor que a noite está fria.
Quando voltou, já Miguel dormia estendido no sofá. Tirou-lhe os sapatos, estendeu sobre ele o cobertor, apagou a luz e retirou-se em seguida.






25.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XLVII




Deixou-a à porta de casa, dizendo-lhe para não o esperar, e arrancou.
Uma vez em casa, a jovem atirou-se para cima da cama a chorar.
Estava revoltada. Não sabia como lutar contra o novo inimigo que se levantara entre ela e Miguel.
Era irónico, que fosse o facto de ser muito nova, o impedimento para ser feliz. Ela que tantas vezes, se sentia demasiado velha, para a sua idade.
Enquanto isso, Miguel batia à porta, de uma casa no extremo oposto da cidade.
A porta, abriu-se:
- Boa noite, Olga!
A mulher exclamou surpresa:
- Miguel! Há quanto tempo! Entra, homem, entra.
Afastou-se para o deixar passar, e ele encaminhou-se para a sala, e sentou-se pesadamente no sofá.
Parecia conhecer bem a casa.
A mulher, de meia idade, cabelo totalmente branco,preso no alto da cabeça, vestindo uma singela bata de chita, conservava no rosto alguns traços do que devia ter sido uma grande beleza.
Seguiu atrás dele e ficou na entrada da sala, olhando-o com atenção.
-Há tanto tempo que não aparecias. Pensei que estavas no estrangeiro, até que há pouco tempo vi a reportagem da tua exposição. Parabéns por ela. Li que foi um êxito.
- Obrigado. Na verdade, voltei poucos dias antes da exposição. Estive em Roma e depois, lá em baixo no Algarve.
- Bom, mas decerto não foi para me falares das tuas viagens que vieste até cá. Vá, despeja lá isso que te atormenta, Sou toda ouvidos, - disse ela sentando-se no velho cadeirão em frente do sofá.
Então, Miguel falou. Durante quase duas horas, contou tudo o que se passara, desde aquela manhã na falésia, até à conversa dessa tarde em Sintra.
Quando terminou ela disse.
- Muito especial deve ser essa mulher, para te deixar nesse estado.
- Não sei que fazer, Olga. Estou desesperado.
- E contudo não tem nada que saber, homem. Se ela te ama, e tu correspondes, qual é o motivo desse desespero?
Mas não percebes? Eu tenho  quarenta e seis  anos e ela tem vinte.
Na mente feminina fez-se luz. 
 Sorrindo  a mulher levantou-se.  Aproximou-se de Miguel, e poisou a sua mão no ombro dele.
- E tu temes que se repita a nossa história? – Perguntou com ternura



25 DE NOVEMBRO DIA DA ELIMINAÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


A violência  contra a mulher é um flagelo dos nossos dias. Rara é a semana em que não sabemos que mais uma mulher sucumbiu  às mãos de quem um dia jurou amá-las. Muitos dos meus contos retratam essa realidade. Celeste, Graça, Rita, Rosa, Elisa, Carlota, são contos onde descrevo essa realidade em várias vertentes. Este é mais um...




                                              Amélia



 Amélia, engoliu as lágrimas, afivelou a máscara de mulher feliz, e saiu para a rua. O dia estava lindo, o sol aquecia o corpo e era como um balsamo para o seu coração.
Era ainda uma mulher muito bonita apesar de já não ser muito jovem. Tinha uma farta cabeleira negra, uns doces olhos castanhos, e uma boca bem desenhada. Alta, magra mas bem proporcionada. E era sobretudo uma excelente atriz, embora nunca tivesse subido num palco. Porque ninguém diria, ao vê-la caminhar pela rua, pisando com segurança, saudando com um sorriso um ou outro conhecido, ou brincando com as colegas no emprego que não era uma mulher feliz.
Oriunda de uma família pobre, Amélia estudara até ao final do secundário com grande sacrifício dos pais. Impensável entrar para a Universidade, naquela época, a vida era muito difícil e embora ela tivesse sonhado com mais, viu-se obrigada a procurar emprego. Pouco tempo depois, conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus filhos.
Alexandre, parecia ser um bom rapaz, era alegre, e a sua boa disposição encantou-a. Depois de um curto namoro,  casaram num domingo de Maio.
Ainda nem bem terminara a lua-de-mel, e Amélia já se dava conta de que o marido não era aquilo que ela imaginara. Saía após o jantar, com um “até já vou ali ao café “, mas raramente voltava antes da meia-noite, uma hora. Amélia arrumava a cozinha, preparava os almoços para o dia seguinte, as roupas e finalmente caía cansada na cama, já que no dia seguinte tinha que se levantar cedo. Quando o marido chegava, raramente vinha “sozinho”. A acompanhá-lo vinha um insuportável hálito a álcool. Amélia fingia que dormia, para não iniciar uma discussão altas horas da noite. Na manhã seguinte, quando lhe chamava a atenção, ele era agressivo, dizia que ela era maluca, que estava a insinuar que ele era bêbado e que bêbado, tinha ela o juízo. Por essa altura Amélia soube que estava grávida. 
Quando contou ao marido ele ficou muito feliz e durante três ou quatro dias não saiu de casa à noite. Renovaram-se as esperanças de Amélia. Porém, como sol de Inverno, durou pouco, nem deu para que as esperanças da mulher ganhassem raízes.
Quando Amélia desabafou com a mãe, esta que fora criada no conceito de obediência ao marido, disse-lhe:
- Tem paciência filha. Ele é bom marido, isso é o álcool. E depois a tua avó sempre me dizia: “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”.
Foi nessa altura que Amélia, afivelou a máscara de mulher feliz e enveredou pela carreira de atriz no palco da vida.
O filho nasceu, foi uma enorme alegria para ela, mas nem o nascimento do filho trouxe um novo comportamento ao marido. Cada dia bebia mais, cada dia estava mais agressivo. Não que lhe batesse, diga-se em honra da verdade que isso nunca chegou. Mas os gritos, os nomes que lhe chamava, e até as coisas que partia, era tão mau ou pior do que as agressões físicas.
Quando o filho tinha três anos, depois de uma violenta briga, Amélia tomou a decisão de se separar do marido. Nessa altura o divórcio ainda não tinha chegado a Portugal.
O marido caiu de joelhos, implorou perdão, disse que daí para a frente ia ser diferente, que nunca mais iam brigar, prometeu o mundo e a lua como se costuma dizer.
Pensando no filho, ela decidiu dar mais uma oportunidade ao casamento.
 Alexandre levou um mês sem sair depois do jantar. Estava muito mais calmo, parecia um homem diferente, muito embora algumas vezes parecia que já tinha bebido um pouco, quando chegava do trabalho, mas enfim não seria grande coisa, já que ele se mostrava controlado. Por essa época Amélia engravidou de novo.
Uma malfadada infeção na garganta, uns medicamentos que tomou, que possivelmente anularam o efeito da pílula. Porque ela jurava que a tomara sem falha. Pouco depois o marido voltou a sair à noite e a chegar a casa, não bêbado, mas como  o povo diz,  “atravessado” Quando vinha bêbado, caía na cama, às vezes até vestido e dormia. Quando vinha “atravessado” implicava com tudo, dava pontapés nas coisas, dizia palavrões, ameaçava bater-lhe. O tempo corria, o segundo filho de Amélia, nasceu era uma menina linda que fez o encanto do irmãozinho.
No dia em que a menina fez um ano, o marido fez um "escarcéu" com ela numa loja de roupas infantis, que a deixou indignada e envergonhada. Era a primeira vez que o fazia em público, e Amélia saiu da loja sem compras e a chorar.
Em casa, pensou seriamente na vida que levava, no dinheiro que ganhava, e chegou à conclusão de que para se separar do marido só se fosse para casa dos pais, pois o seu ordenado, não chegava para pagar uma casa, e por comida na mesa para ela e os filhos. Sem falar que havia que pagar à ama dos filhos, ou não poderia trabalhar.
Pensando nisso pegou nos filhos, disse ao marido que ia visitar os pais, e foi sondá-los. Porém não encontrou apoio da parte deles. A mãe voltou com a tal máxima de “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”, o pai disse que não lhe arranjara marido, fora escolha dela, por isso era ela que tinha que resolver o problema, e “ que entre marido e mulher ele não metia a colher”
Voltou para casa, e no dia seguinte antes do marido ir para o trabalho, pôs os pontos nos is.
 Ela estava farta daquela vida. Ou ele deixava a bebida ou ela deixava de ser sua mulher. A escolha era dele. E como sempre que ela ameaçava separar-se, o marido implorou, fez promessas, teve o desplante de dizer que bebia porque a amava, e tinha medo de a perder pois não saberia viver sem ela. Amélia, percebeu que ele era doente, e teve pena dele, dela e dos filhos. Dele, porque não reconhecia que era doente e precisava de ajuda, dela porque era jovem e tinha pela frente um futuro de sofrimento, e dos filhos que amavam o pai e não tinham culpa de nada. Mas quando o marido voltou a beber, Amélia comprou um divã e instalou-se no quarto da filha. E nunca mais foi mulher de Alexandre embora vivam na mesma casa. Quando os filhos casaram, Amélia podia enfim pedir o divórcio. Mas nessa altura Alexandre estava muito doente, e nem ela teria coragem de o abandonar, nem os filhos, iam compreender que o fizesse nessa altura, depois de uma vida inteira de sofrimento.
Passaram-se quatro anos. Alexandre conseguiu superar a doença, já não bebe, mas está mentalmente muito envelhecido, quem sabe se efeito do álcool bebido sem regra, durante tantos anos. Ela sofre, porque nada é mais triste do que ver, dia a dia, a degradação mental do marido.
Hoje, Amélia põe toda a sua felicidade e enlevo nos dois netinhos que os filhos já lhe deram. 
E no emprego que apesar da crise, mantém. O futuro… quem poderá saber o futuro? Há muito que ela vive um dia de cada vez.
Fim


Maria Elvira Carvalho

24.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVI


                                                    foto do google

Depois do lanche, percorreram o centro, admiraram a fachada do Palácio Nacional de Sintra, e a paisagem envolvente, de onde se destacava no cimo da serra, o Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros.
Já ao findar do dia, encaminharam-se para o carro.
Como a jovem continuava calada, Miguel disse:
-  Estás muito calada hoje. Que se passa? Estás zangada?
Foi como quem ateia fogo ao rastilho. A ira, a decepção, a dor da rejeição, explodiram-lhe no peito fazendo-a levantar a voz
- Que se passa, Miguel? És tu que me perguntas, que se passa? Tu a quem ontem, confessei o meu amor, abrindo-te o meu coração? Tu que fizeste com que me sentisse a mulher mais reles do mundo, quando me rejeitaste?
Sentiu como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Doía-lhe profundamente a mágoa dela.  Sentindo-se penalizado, respondeu sincero.
- Não te rejeitei. Sabe Deus como queria aceitar a generosa dádiva do teu amor. Mas não é possível. Não posso, -  murmurou com amargura.
- Porquê Miguel? Porque não podes? O que te impede? Não me amas? Tens alguém? É isso?
- Não. Não, tenho ninguém.
- Então, não te entendo. Que pode impedir-nos de ser felizes?
Ele parou. Pôs-lhe as mãos nos ombros, obrigando-a a olhar para ele.
- Olha para mim. Olha com atenção. Vês as rugas à volta dos meus olhos? Os fios brancos no meu cabelo? Tenho quase quarenta e sete anos. Tens vinte, Mariana. Vinte. Podias ser minha filha…
- Mas não sou. E a diferença de idade não me interessa. O que me importa é o teu amor.
- Hoje, talvez não. Mas, serás capaz de dizer o mesmo daqui a vinte anos, quando estiveres na plenitude da vida, e eu na curva descendente? - Perguntou com amargura.
Tinham entrado no carro, mas continuavam no mesmo sítio.
Ó Miguel! Quanto sofrimento! – Levantou a mão, e acariciou  a face masculina - A vida é para ser vivida, hoje, neste momento. Daqui a vinte anos, até posso já ter morrido. Aliás, neste mesmo momento, eu podia já ter morrido. No acidente de carro ou naquele dia na falésia.  Ninguém sabe o que será o dia de amanhã. É o presente que interessa. Repara na palavra. Presente. É o hoje que temos para viver como uma dádiva, um presente da vida. Vamos vivê-lo e ser feliz. Por favor Miguel. Não nos condenes ao sofrimento.
-Não posso, Mariana. Nem  sabes, quanto o desejo. Mas não posso! Conheço-me bem. Se hoje nos amassemos, eu não suportaria perder-te depois.
Amargurado, pôs o carro a trabalhar e arrancou velozmente.


FOLHA EM BRANCO - XLV


O empregado conduziu-os à mesa, e estendeu-lhes a ementa, retirando-se em seguida
Voltou pouco depois, com as entradas. Perguntou se já tinham escolhido, tomou nota do pedido e afastou-se. 
Mariana olhou à sua volta. O restaurante estava completamente cheio. Gente que conversava e ria, famílias pequenas e mais numerosas, todas irmanadas na mesma alegria. Poucos casais.
Talvez recém-casados, no seu primeiro Natal a dois. Imaginou-se assim, recém-casada com Miguel, e involuntariamente corou.
- Está calor aqui dentro,- disse tentando disfarçar.
Terminado o almoço, seguiram em direcção à Boca do Inferno, depois pela marginal até à praia do Guincho. Seguiam devagar admirando a paisagem, que naquele lugar, é de cortar a respiração.
Miguel estacionou perto da praia, e ficaram algum tempo olhando as ondas de espuma branca,  que se desfaziam no areal.
Retomaram a marcha começando a subir a serra,  na estrada para o cabo da Roca, porém um pouco mais à frente, Miguel entrou numa estrada estreita, rodeada de vegetação, típica  da serra e foram sair junto do Palácio da Peninha. Estacionou aí e saíram para admirar a paisagem, verdadeiramente deslumbrante.
De volta ao carro, seguiram pela mesma estrada. Logo a seguir, encontraram o desvio para o Palácio da Pena e Castelo dos Mouros, porém seguiram em direcção ao centro, passaram pela Quinta da Regaleira, uma maravilha , misto de natureza, e talento do homem, seguindo depois para o centro histórico.
O passeio era maravilhoso, mas os dois continuavam tensos e mudos.
Estacionou à saída do centro.
Saíram.  Na rua, estava bastante frio. A jovem levantou a gola do casaco.
-Tens frio?
Ela moveu a cabeça em sinal afirmativo. E ele passou-lhe o braço pelos ombros, como se quisesse protegê-la do frio, com o calor do seu corpo. Um acto natural e tantas vezes repetido ao longo daqueles meses, mas que agora lhe transmitia uma emoção diferente.  Quebrando o silêncio, que desde a manhã, persistia em acompanhá-los disse:
- Vamos lanchar. Conheces os travesseiros de Sintra?
- Só as queijadas.
 -Experimenta os travesseiros. São uma verdadeira delícia.
Mariana, sentia cada vez mais dificuldade em aparentar uma calma que não sentia. Ela não entendia que ele estivesse a lidar com ela, como se fosse uma miúda, depois da confissão que lhe fizera na véspera, e pensou que não estava nada interessada nos travesseiros. Porem, não disse nada.
- Quando vamos ao Algarve? – Perguntou ele mudando o rumo da conversa.
-Penso que logo no dia 2. No dia 4 tenho a sessão de psicoterapia, a que não quero faltar.
Tinham chegado à pastelaria. Procuraram uma mesa vaga, mas tiveram que se contentar com um lugar ao balcão.



23.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XLIV


foto do google

O sol brilhava, naquele dia de Natal, embora estivesse bastante frio.
No seu quarto, Mariana acabara de se arranjar, disfarçando com o corrector os círculos arroxeados que lhe circundavam os olhos e davam conta da noite mal dormida. Escolheu  umas calças de fazenda preta, e uma camisola de gola alta da mesma cor. Completava a indumentária com umas botas também  pretas. O cabelo estava de novo entrançado. Parecia mais alta, mais estilizada a figura.
E Miguel? Por onde andaria? - Interrogava-se.
Quando meia hora antes se levantara, ele já não estava em casa.
“Volto logo” era tudo o que estava escrito no bilhete preso na porta do frigorífico.
Arrumou o quarto, apanhou do chão o belo vestido preto, que levou para o cesto da roupa suja, e dirigiu-se à sala, onde deu início à tarefa de arrumação da mesma, pois se encontrava com loiças, frutos e restos de velas, testemunho da noite anterior.
Pouco depois ele chegou.
- Bom dia. Vim buscar-te, para almoçar.
Assim, tranquilamente, como se não tivesse acontecido nada na noite anterior. Sentiu-se frustrada, enraivecida, com vontade de o arranhar. Mas era preciso que ele não percebesse.
-Bom dia Miguel. Faz muito frio lá fora?- Perguntou aparentando uma naturalidade que não sentia.
- Bastante. É melhor ires bem agasalhada.
- Está bem. Não me demoro.
Entrou no quarto, deixando o homem perplexo. Estava tão diferente da mulher apaixonada da noite anterior. Decerto nem se lembrava do que tinha dito horas antes ali mesmo. O que provava, que ele estava certo. Tinha que sufocar aquela lembrança e fazer por esquecer.
- Estou pronta. Podemos ir.
Tinha vestido um grosso casaco de fazenda e na cabeça, um gorro de lã, dava maior graciosidade ao seu rosto.
Já na rua, seguiram em direcção ao carro.
- Pensei que almoçávamos aqui mesmo no bairro.
- Neste dia há poucos restaurantes a funcionar. Vamos almoçar a Cascais, já fiz a reserva há dias. Depois damos uma volta até Sintra. Toda aquela zona é muito bonita e o sol convida.
Não respondeu.
- Não dizes nada? Não te agrada?
- Sim claro, - respondeu sem entusiasmo.  
O silêncio instalou-se entre eles, acompanhando-os  na viagem o resto do trajecto.


FOLHA EM BRANCO - PARTE XLIII


Mariana deixou-se cair no sofá. Desalentada. Que se passara? A noite estava a ser maravilhosa. Ela sentia-se tão feliz enquanto dançavam. O que, ou porque, se quebrou o encanto? Porque a rejeitara? Acaso  tinha sido ilusão sua, a emoção que lhe julgara sentir, momentos antes, enquanto dançavam?
Ela fora sincera, abrira o seu coração, confessara-lhe o seu amor de mulher. E ele não a levara a sério.
Com as costas da mão, limpou com raiva, as lágrimas que lhe enevoavam o olhar.
E agora? Que fazer? Não podia arrancar do peito, aquele fogo que a devorava. Insistir e ser rejeitada de novo? Morreria de vergonha. Triste e desiludida, recolheu ao quarto.
Despiu o belo vestido, atirando-o com raiva para um canto do quarto.
Já deitada, dava voltas no leito sem conseguir dormir. Por fim deu largas à sua frustração e chorou até adormecer. Ela não sabia, que no quarto ao lado, o homem também não conseguia dormir, submergido num mar de dúvidas e inquietações.
Ele estava sentado na cama, a cabeça enterrada entre as mãos.
Relembrava a noite. Minuto a minuto, desde que ela saíra do quarto. Onde estivera escondida, aquela mulher que se apresentava na sua frente? Estava maravilhosa naquele vestido negro. Miguel tinha visto ao longo da vida muitas mulheres bonitas, Tinha conquistado algumas. Muitas, talvez. Nunca porém nenhuma o impressionara tanto. Depois do jantar, enquanto dançavam, sentindo o corpo dela, colado ao seu, o calor dos seus braços, envolvendo-o, sentiu que alguma coisa se quebrava dentro dele. O que ele sentia, não era de modo algum um amor fraternal, e muito menos paternal. Era o amor de um homem por uma mulher
Pela primeira vez, desejara aprisionar a boca dela na sua, num beijo apaixonado. O sua noção da realidade, impedira-o.
Em breve faria quarenta e sete anos, Ela tinha vinte. Era natural que se sentisse fascinada pelo homem mais velho, tal como muitas alunas se sentem fascinadas pelos seus professores, e pensam que estão enamoradas. E nela, que tinha sofrido tanto, e nos últimos meses não convivera com nenhum outro homem, era ainda mais plausível. Não podia iludir-se nem aproveitar-se da situação. Quando voltasse para a sua casa, a universidade, e os amigos da sua idade, a confissão dessa noite, haveria de parecer-lhe ridícula. E quem sabe não iria odiá-lo por ter-se aproveitado da sua fragilidade. Ah! Se ele fosse mais jovem!
Agora, outra realidade se impunha. Como continuar a fingir, que nada tinha acontecido, e que ela representava para ele, o que sempre fora? Onde arranjar forças?
O dia raiava e ele continuava sem adormecer

22.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLII


Miguel não conseguia desviar os olhos da jovem. Desde o primeiro dia, sempre a achara muito bonita, mas também sempre a vira como uma adolescente. Nunca assim, tão bela, tão feminina, tão mulher.
Depois do jantar, Mariana tomou a iniciativa. Escolheu um CD de música romântica, e quando se ouviram os primeiros acordes, estendeu-lhe a mão dizendo:
-Vem, apetece-me dançar.
Ele enlaçou-a, e ela passou os braços à volta do pescoço masculino, fechou os olhos e deixou-se levar. Dançaram largo tempo, em silêncio, embalados mais pelas emoções, do que pela música, cada um sentindo no seu, o desejo pelo corpo do outro. Para ela, que cedo descobrira o seu amor por Miguel, e o fora alimentando de sonhos para o futuro, a noite era a concretização de um desses sonhos. Para ele que começou por ter pena da jovem, que se foi afeiçoando a ela, sempre olhando-a como uma miúda, que se sentira um pouco pai da jovem, confundindo sentimentos, o que estava sentindo agora, era como um pesadelo, não fazia sentido, era uma aberração e um sacrilégio. Por isso, quando sentiu os dedos femininos na sua nuca, movendo-se numa suave carícia, empurrou-a com firmeza.
-Basta! Já chega!
Passou a mão pela testa, e deixou-se cair no sofá.
Ela não desistiu. Sentou-se no braço do sofá, e inclinou-se para ele.
Porquê Miguel? Não gostas de dançar? – Perguntou baixinho, provocando,  com aparente ingenuidade.
O perfume dela, envolvia-o, inebriava-o. Tinha vontade de abraçá-la e beijá-la até à exaustão.
Em vez disso cerrou os punhos, apelando a toda a sua força interior.
- Não brinques, comigo.
- Não estou a brincar, Miguel. Não percebes que te amo? Que estar nos teus braços me faz a mulher mais feliz da terra?
Levantou-se de um salto, todos os músculos retraídos.
- Não sabes o que dizes. Não devias ter bebido…
Levantando-se, aproximou-se dele:
-Não é o álcool que me dá a volta à cabeça. São os teus olhos, a tua presença, o teu cheiro. Tu é que me dás a volta à cabeça, me inebrias e me pões tonta. Porque resistes?
Miguel travava uma dura batalha consigo mesmo. Por um lado, as palavras de Mariana, soavam aos seus ouvidos como um canto de sereia, e iam ao encontro dos seus instintos masculinos.  E se o desejo de se deixar ir, de a apertar nos seus braços e mostrar-lhe como ele era capaz de amar, era grande, por  outro, o seu código de honra, o facto de saber que ela não tinha mais ninguém no mundo, e a promessa que a si mesmo fizera de a proteger  impediam-no de tomar outra atitude que não fosse a rejeição.
Esforçando-se por se controlar, disse com voz rouca:
- É muito tarde.Vai dormir. Amanhã  conversamos.
E voltando-lhe as costas, encerrou-se no quarto.



FOLHA EM BRANCO PARTE XLI




                                            foto do Google


E chegou a noite de Natal.
Dias antes, ela e Maria, tinham armado a árvore de Natal decorando-a  com bolas e luzes. Colocaram-na junto do aparador. Espalharam pelos móveis algumas velas, natalícias.
Agora, durante a tarde, enquanto Luísa preparava a ceia, Mariana e a amiga preparam a sala para a festa.
Quando terminaram, Maria disse:
- A mesa está linda. Parece para um jantar romântico.
Ruborizou-se. E Maria que tinha tanto de inteligente, quanto de discreta, pensou que acabara de descobrir o segredo da amiga,  mas nada comentou.
Só ao fim da tarde, quando se despediu desejando um feliz Natal, a abraçou e lhe sussurrou ao ouvido:
-Boa sorte.
Mariana arranjou-se cuidadosamente. Queria surpreender Miguel.
Mostrar-lhe que era uma mulher. Não a miúda que ele sempre dizia que era, Depois se veria até onde conseguiria ir.
Não fora o imenso amor que nutria por ele, e teria ido imediatamente, buscar as suas coisas, e partido para a sua casa.
Mas amava-o. Tanto que lhe doía só de pensar, na sua vida sem ele. Por isso, tinha decidido que só depois das festas, ia ao Algarve recolher as suas coisas. Na volta, teria que regressar a casa. Não tinha como continuar ali, depois de ter recuperado a memória. Logo o tempo que a si mesma dera, para conquistar Miguel, era muito curto. Mas ela estava decidida a aproveitar cada segundo desse tempo, usando de todas as suas armas, para o conquistar e não ter que separar-se dele. Por isso, ela preparara com tanto cuidado essa noite.
 Os sapatos de salto, e o vestido preto, longo e justo, que lhe moldava o corpo na perfeição, faziam-na parecer mais alta, e mais mulher
O decote em V realçava-lhe o colo. Escovou com cuidado o cabelo, deixando-o solto. Por fim realçou a beleza dos seus olhos com um toque de rímel,  e passou um pouco de brilho nos lábios, apenas para realçar o seu desenho, e torná-los mais sedutores.  Nada de exageros de que não gostava e decerto não a iam favorecer em nada. Sentiu, quando Miguel entrou. Deu-lhe tempo para que se arranjasse, esperando com impaciência a hora em que já pronto, a chamasse.
Quando isso aconteceu, abriu a porta e saiu aparentando uma segurança, que no fundo não sentia.
E saboreou como uma vitória, a surpresa e admiração no olhar masculino.