31.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE X






Já era noite, quando Miguel estacionou o seu “carocha “ junto de casa. Enquanto recolhia as compras, olhou para a janela, e franziu o sobrolho ao ver a casa às escuras. Que teria acontecido? Teria a jovem ido embora sem lhe dizer nada? Apressado entrou em casa, acendeu a luz, e respirou aliviado ao vê-la a dormir no sofá com um livro aberto nas mãos.
“Deve ter adormecido de cansaço” pensou pousando os sacos em cima da mesa. Aproximou-se e tocou-lhe ao de leve no rosto. A jovem acordou assustada.
- Deixei-me dormir- disse, em voz baixa, como quem pede desculpa
- Eu vi,- disse ele sorrindo. E acrescentou:
-São horas de jantar, a pizza espera por nós. Separou dois sacos e estendeu-lhos.
- São para si. E pegando nos restantes dirigiu-se à cozinha sem esperar sequer um agradecimento. A jovem foi para o quarto e despejou os sacos em cima da cama. Olhou a roupa, e pela primeira vez esboçou um leve sorriso.
Depois dirigiu-se à cozinha onde Miguel acabara de pôr a mesa, e se preparava para abrir a caixa da pizza.
- Obrigado.
- Não vai passar a vida a agradecer-me pois não? Pense que eu sou seu pai, e como tal compete-me cuidar de si.
Foi ilusão sua, ou a jovem empalidecera? Preocupado perguntou:
-Que foi? Disse alguma coisa que não devia? Ou lembrou-se de algo? Parece que ficou perturbada.
- Não foi nada, disse a jovem sentando-se. Um leve arrepio, mas já passou.
 Miguel não insistiu. Limitou-se a partir e a servir a pizza, que comeram em silêncio. Terminado o jantar, a jovem lavou a loiça e Miguel enxugou-a e arrumou-a no sítio.
Depois, apontando um saco, junto à porta que dava para o quintal, disse:
-Nesse saco, está o detergente que pediu. E também um copo, uma escova e a pasta de dentes. Se precisar de algo mais, terá que me dizer, e amanhã compro. Nunca tive uma mulher em casa, não sei bem que coisas costumam usar. 
Calou-se. Se esperava algum comentário, não o recebeu. Retomou o monólogo. 
- Hoje é Segunda-feira, e às Segundas, é noite de tertúlia com os amigos. Quando quiser pode deitar-se. Não precisa esperar por mim, não sei a que horas, volto. O quarto tem chave, pode fechar a porta por dentro.  
A jovem mantinha-se calada, o que levou o homem a perguntar:
Ouviu o que eu disse?
Fez um aceno afirmativo.
-Então boa noite. Durma bem.
Boa noite Miguel- retorquiu docemente.


30.10.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE IX


                                                 Foto da net

 Pouco depois, aprestava-se Miguel para sair, quando a jovem disse:
- Queria lavar a minha roupa. Mas não encontro detergente. Não há?
-Sinceramente não sei. Quando cá estou, é a D. Adélia, uma senhora que já trabalhava para a minha avó, quem vem duas vezes por semana, fazer limpeza e tratar das roupas.
- Preferia ser eu mesma a cuidar das minhas.
-Quer que lhe traga um detergente?
-Se fizesse o favor…
- Bom. Mas vou demorar. Ah, e já agora, tinha pensado encomendar uma pizza para o jantar. Gosta?
- Penso que sim, - respondeu a jovem a medo.
- Então até logo. Lamento não ter televisão, mas a única coisa que me interessa para além da pintura, é a leitura. Já lhe disse que pode ler o que quiser?
Ela assentiu com a cabeça e Miguel saiu fechando a porta com suavidade. A jovem foi até à estante e retirou um livro ao acaso.
Sentou-se no sofá e tentou embrenhar-se na leitura.
Enquanto isso, Miguel dirigiu-se à cidade e procurou uma tabacaria, onde comprou dois dos mais importantes jornais diários. Depois procurou um recanto mais sossegado num café e começou a folhear os jornais. Procurava alguma notícia sobre a jovem, mas não encontrou nada. Pensando que talvez já tivesse saído, dias atrás, voltou  à tabacaria, e  perguntou se tinha os jornais dos últimos dias.
-Não. Os que não se vendem num dia, são devolvidos no dia seguinte. Se quiser consultar outros, só na biblioteca.
Miguel agradeceu e dirigiu-se à biblioteca onde durante mais de uma hora folheou os jornais da última semana, sem que tivesse visto alguma notícia que se pudesse relacionar com a jovem.
Desiludido, saiu e foi ao supermercado, onde fez algumas compras. Depois dirigiu-se à loja, onde já estiver de manhã, e pediu à empregada roupa de dormir, para uma jovem.
Torceu o nariz para as peças demasiado reduzidas e sensuais que a empregada, lhe apresentou e pediu algo mais simples, justificando que se tratava de uma prenda para a filha.
A empregada, sorriu, e foi buscar umas caixas onde repousavam uns juvenis pijamas, compostos por top e calções, e umas camisas de dormir, que mais pareciam umas t-shirt, compridas. Comprou também um roupão de algodão acetinado, branco. Efectuadas as compras que achou necessárias, colocou tudo no carro e dirigiu-se para casa, não sem antes passar pela pizzaria.


29.10.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE VIII


                                       Foto da net


Enquanto a jovem arrumava a cozinha, na sala, Miguel foi testando as telas e juntando as que já estavam secas, tentando libertar um pouco o espaço. Nunca se tinha preocupado com isso, pois nunca levava ninguém lá a casa, e ele próprio pouco parava por lá. Agora era diferente.
Tinha de sair. Esquecera de comprar roupa para a jovem dormir. 
Se ela quisesse sair, podiam ir às compras.
Minutos depois apareceu na cozinha.
- Quando acabar, podemos sair. Quem sabe se recorda de alguma coisa algum lugar.
- Não,- quase gritou a jovem. Depois mais calma acrescentou:
Se não se importa, eu prefiro ficar. Pelo menos hoje. Tenho medo do que posso encontrar. Por favor!
-Você é que sabe. Mas não pode encerrar-se num casulo e ficar a hibernar. Mais cedo ou mais tarde terá que enfrentar o seu medo, e procurar encontrar o seu passado.
- Eu sei. Mas como fazer isso se não lembro de nada.
- Pode encontrar alguém que a conheça. Que lhe diga quem é.
- E terei que viver segundo o que me dizem, sem saber se é verdade ou mentira? O senhor mesmo, disse que não me conhece e não sabe quem sou. Mas, eu estava sozinha consigo, quando acordei. Como fui lá parar? Quem me levou? E como é que o senhor não viu nada?
- O que lhe disse é verdade, mas parece-me que não confia em mim. A única coisa que posso acrescentar, talvez sirva para a pôr mais confusa ainda. Por isso não lho disse antes. Mas talvez o devesse ter feito. Você preparava-se para saltar da falésia. Eu impedi que o fizesse, desmaiou e quando acordou foi o que sabe. Não há mais nada que eu saiba, ou que esteja a esconder.
Ante a palidez da jovem, calou-se, ajudou-a a sentar-se e preparou-lhe um copo de água com açúcar.
-Eu… eu, ia matar-me? - Balbuciou incrédula.
- A menos que tivesse algum para-quedas escondido, brincou Miguel tentando desanuviar a tensão da revelação.
- Mas porquê? O que é que eu fiz de tão errado, para querer acabar com a vida?
- As vezes, não fazemos nada. A vida é alegria e dor, e às vezes a dor é tão grande que acaba com a própria existência. Um dia saberemos o que aconteceu, não se martirize mais.
 - O senhor é um anjo.
-Longe disso, menina, longe disso. E por favor, o meu nome é Miguel.
A jovem levantou para ele os olhos rasos de água, e murmurou
- Obrigado Miguel.





28.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE VII



                                           foto da net


Quando a jovem entrou na cozinha a comida já estava na mesa, e Miguel esperava por ela, para iniciar a refeição.
- Sente-se. Vamos comer. Confesso que estou cheio de fome.  
Estendeu-lhe um prato com uma coxa de frango assado e batatas fritas. - Se gosta de salada, sirva-se, disse apontando para a travessa de tomate, salpicada de orégãos.
A refeição foi penosa para os dois. O homem porque tentava sem conseguir, introduzir uma conversa, que pudesse levar a jovem a vislumbrar uma nesga que fosse, sobre a sua identidade. A jovem porque estava demasiado preocupada, para ter fome. Não sabia quem era, nem como tinha chegado ali. Não sabia quem era aquele homem, nem porque estava com ele. Até ali, parecia ser confiável. Tinha agido consigo como um cavalheiro. Mas seria sempre assim? E ainda que fosse, quanto tempo demoraria a fartar-se dela e a pô-la na rua? Já não era muito jovem, via-se que estava habituado a viver sozinho. Quanto tempo aguentaria uma intrusa no seu espaço? E ela? Quem era ela? Seria solteira? Casada? Porque não se lembrava de nada?  Porque não tinha documentos? Uma mulher não sai de casa, sem mala, sem documentos. Então porque ela não tinha nada? Teria sido assaltada? Isso explicaria o facto de estar sem mala. Mas, porque raio, não se lembrava de nada? Por mais que se esforçasse, só se lembrava de ter acordado na relva, junto do pintor. Era como se tivesse nascido no momento em que abriu os olhos. Teria levado alguma pancada na cabeça? Mas não.
Tinha acabado de lavar a cabeça e não encontrara nenhum hematoma.
 Sentia-se desesperada. Queria que o pintor lhe dissesse alguma coisa, que lhe desse uma pista.
Mas ele dissera que ela não estava com ele, não era seu modelo, e nunca a tinha visto antes.Então, o que poderia ele dizer-lhe para a ajudar?
Terminaram a refeição e Miguel começou a retirar a loiça da mesa em silêncio.
- Deixe eu arrumo a cozinha – ofereceu-se ela.
- Estou habituado a fazê-lo, - respondeu ele, não sem uma ponta de dureza na voz, magoado com o silêncio da jovem.
Talvez ela tenha percebido, porque disse.
- Desculpe-me. Nem sei como lhe agradecer o que está a fazer por mim. Mas acredite que me é muito dolorosa esta situação. Nem sequer sei como me chamo. Estou desesperada.
O homem caminhou até ela, acariciou-lhe os cabelos como se ela fora uma criança e disse;
- Não se preocupe. Quando menos esperar vai lembrar-se. E se isso a faz feliz, pode lavar a loiça,- acrescentou sorrindo.




27.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE VI




Foto do google




Voltou mais de uma hora depois, carregado de sacos, que depositou junto da jovem.
- Comprei-lhe roupas. Não sei se são exactamente a sua medida, mas servirão para poder tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde logo se vê o que mais precisa. E trouxe um frango assado para o almoço. Vamos almoçar já ou prefere primeiro o duche?
- Creio que o duche – disse a jovem pegando nos sacos e levando-os para o quarto.
- Tudo bem.  Vou buscar uma toalha limpa e depois fazer uma salada para acompanhar o almoço.
No quarto, a jovem foi tirando as peças dos sacos. Dois pares de calças, dois camiseiros, um vestido rodado, uma saia justa e um pulôver, um par de ténis, umas sabrinas e algo que fez a jovem corar, três conjuntos de roupa intima. Escolheu as calças brancas, um camiseiro também branco, as sabrinas e um dos conjuntos interiores e dirigiu-se à casa de banho. Temia passar pela cozinha. Que pensaria o homem, quando a visse com a roupa. Imaginá-la-ia com as minúsculas peças vestidas?
Felizmente Miguel estava de costas para ela, entretido com a salada.
Ao entrar na casa de banho, pensou se teria que tomar duche de água fria, mas com que adivinhando-lhe os pensamentos Miguel gritou.
- O esquentador está na casa ao lado e já está aceso.
 A jovem fechou a porta à chave e começou a despir-se. Continuava apática, tudo nela era mecânico, como se o seu espírito se tivesse ausentado do corpo.
Meteu-se debaixo do chuveiro e durante alguns minutos deixou que a água morna deslizasse pelo seu corpo esbelto como se fosse uma carícia.
Depois esfregou-se com raiva, como se quisesse fazer saltar de dentro dela, quem dela se ausentara. Por fim incapaz de se controlar, deu livre curso às lágrimas que se misturaram na água.
 Terminado o banho, procurou a toalha, e só então reparou, no frasco de creme hidratante e na escova.
 “Deve estar muito habituado a lidar com mulheres" - pensou enquanto espalhava o creme pelo corpo nu. 
Vestiu-se. As calças estavam ligeiramente largas na cintura, mas tudo o resto estava perfeito.
Passou a escova no cabelo, e olhou-se no espelho, perguntando-se quem era aquela pessoa, cuja imagem  ele lhe devolvia.



FOLHA EM BRANCO PARTE V



                                                                                               Foto do museu de Loulé

Miguel dirigiu-se à porta e encontraram-se num quintal. De um lado do muro, uma espécie  de arrecadação com duas portas.
Do outro lado, um tanque e um estendal.
Miguel abriu a primeira porta dizendo;
- Aqui é a casa de banho.
E afastando-se deixou ver os azulejos cor de terra, que contrastavam com as loiças brancas. O lavatório, embutido num armário branco, encimado por um espelho e uma prateleira onde pontificavam alguns objectos de higiene pessoal, e num canto, um cortinado de riscas coloridas, servia para ocultar o chuveiro.
- Foi construído pouco antes da morte da avó. Como vê a casa tem mais de cem anos, e nessa altura, uma casa de banho era um luxo que poucas casas tinham. Quando herdei a casa podia fazer obras, mas venho aqui muito raramente, quase sempre nesta altura do ano, porque a luminosidade e os tons são mais belos nesta época.
A jovem fez um movimento de assentimento com a cabeça, mas não pronunciou uma palavra, sabe-se lá perdida em que labirintos interiores.
O homem abriu a outra porta e deixou à mostra duas grandes arcas.
-Contém o “enxoval” da avó. Toalhas, lençóis e outras coisas da casa. As roupas de vestir,  doei tudo para um lar, depois da sua morte. Também não creio que alguma coisa lhe servisse – disse sorrindo.
A jovem continuava aparentemente ausente, e o homem interrogou-se sobre se seria capaz de levar a cabo, o que se tinha proposto, quando resolveu acolher a jovem.
- Agora que já conhece a casa, fique à vontade, eu vou comprar alguma coisa para o nosso almoço. Não quero deixá-la fechada, por isso prometa-me que vai esperar por mim.
A jovem não respondeu.
Miguel aproximou-se, e levantando-lhe o queixo, forçou-a a olhar para ele.
- Promete que me espera, enquanto eu vou comprar o nosso almoço?
Posso confiar em si?
A jovem olhou-o com os olhos rasos de água e fez um movimento de assentimento com a cabeça.
Sentindo um nó na garganta, Miguel pegou nas chaves e na carteira e saiu batendo a porta, como se quisesse com esse gesto, afastar a emoção que teimava em assalta-lo.


25.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE IV


                                           foto do google

Numa parede um grande sofá, parcialmente coberto por uma manta alentejana, onde pontificavam algumas almofadas de croché, amarelas e castanhas. Na parece em frente um aparador, e sobre ele, na parede, um grande quadro com dois jovens, vestidos de uma forma esquisita, talvez traje do século passado. No centro uma mesa, cujo pé, fora um dia uma máquina de costura. Por toda a sala, quadros espalhados mostravam bem qual a profissão do dono da casa.
Num canto na parede do sofá, uma porta, que Miguel abriu dizendo;
- O quarto.
Depois reparando que a jovem continuava a olhar o retrato acrescentou,
-Eram os meus avós.  
E pegando-lhe na mão disse;
- Venha ver o seu quarto. Como a casa só tem um, enquanto aqui estiver, fica no quarto, eu fico no sofá. Não será por muito tempo, logo vai lembrar de tudo e voltar à sua casa.
Miguel sabia que isso não era certo. A jovem poderia levar muito tempo para recuperar a memória, e ele talvez estivesse a meter-se numa camisa-de-onze-varas, como diria a avó Ermelinda se fosse viva. Mas sem saber porquê, sentia necessidade de animar a jovem, tanto quanto sentia de a proteger.
O quarto era pequeno. Uma cama de ferro, pintada de branco, uma mesa-de-cabeceira antiga com tampo de mármore, sobre o qual um  candeeiro com abajur em bola, e um livro. Havia ainda  um pequeno armário de portas escuras e lisas.
Na parede sobre a cabeceira da cama, um crucifixo de madeira, completava a decoração do quarto.
-Vamos, - disse Miguel, venha ver o resto da casa. Afastou um cortinado junto ao aparador e seguiram por um largo corredor.
Nele em tábuas corridas amontoavam-se dezenas de livros, o que demonstrava o gosto de Miguel pela leitura.
- Esta é a minha biblioteca. Pode ler o que quiser, e quando quiser.
E aqui é a cozinha.
A cozinha como tudo na casa era pequena. Num canto o fogão, e a seu lado uma grade de madeira com algumas panelas e frigideiras penduradas. Encostado à parede interior uma mesa rectangular com duas cadeiras, e sobre a mesa, num nicho na parede, alguns pratos e copos. Na parede que dava para o exterior a um canto uma porta, depois um frigorífico, e quase junto ao fogão, uma janela. Sob esta o lava loiça.

24.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE III



foto da net
Miguel aproximou-se. Colocou-lhe um dedo debaixo do queixo, obrigando-a a olhá-lo.
O desespero que viu no seu olhar, foi tão grande que ele sentiu uma vontade imperiosa de cuidar e proteger a jovem. Era um sentimento estranho e avassalador.  
“Deve ser, assim que um pai se sente, perante o sofrimento da sua filha” - pensou enquanto a olhava. 
- Não se preocupe, - disse tentando incutir nela uma tranquilidade que ele mesmo não sentia. Logo ou amanhã lembrará.
Venha comigo. A minha casa não é lá grande coisa, mas nela encontrará abrigo até que se lembre de quem é e onde mora. Aqui sozinha não está bem. Este local é muito belo, mas às vezes é traiçoeiro, - disse enquanto dava voltas à cabeça, indeciso, sem saber se devia ou não contar à jovem, que meia hora antes, ele a salvara de se esborrachar no fundo da falésia.
Por fim decidiu que era melhor não dizer nada. Colocou a maleta sob o braço esquerdo, pegou o cavalete com a mão esquerda e estendeu a mão direita à jovem.
- Venha.
Como um autómato a jovem deu-lhe a mãe e começaram a caminhar em direcção à estrada, onde Miguel tinha o seu velho carro.
Aí chegado, abriu a porta do velho “carocha” e fez entrar a jovem. Depois guardou o material de pintura e sem uma palavra, sentou-se ao volante e arrancou em direcção à sua casa nos arredores da cidade.
Era uma habitação antiga, à qual se tinha acesso por dois altos degraus em pedra, ladeados por um pequeno corrimão de ferro, que já fora verde, mas que agora apresentava largos pedaços ferrugentos.
- A casa é muito antiga. Era de minha avó, foi aqui que nasceu meu pai. Este corrimão, foi posto aqui,quase no fim da vida da avó Ermelinda, para a ajudar na subida, - disse Miguel enquanto galgava os dois degraus com facilidade. Venha, não tenha medo- disse abrindo a pesada porta de madeira
A jovem seguiu-o e encontrou-se num pequeno patamar donde partiam três degraus de pedra que davam acesso à sala. Embora a casa fosse um rés-do-chão, no exterior, no interior estava quase ao nível do primeiro andar.
Subidos os três degraus, encontraram-se numa sala, com uma grade de ferro, à volta do fosso da escada.



20.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE II






Tudo arrumado, Miguel acendeu um cigarro. A jovem estava a levar mais tempo a acordar do que aquilo que ele previra. Quem seria? À primeira vista, não tinha documentos, pois não trazia nenhuma bolsa, nem se lhe notava na roupa qualquer carteira.
A jovem soltou um gemido e pouco depois abriu os olhos. E que olhos! Grandes, de um quente e aveludado castanho dourado. Na mente de Miguel ficou impressa a imagem que mais tarde iria transpor para a tela. Ele não era um pintor famoso, daqueles cujas obras vão para os museus, mas modéstia à parte considerava-se um bom pintor. Tinha palmilhado meio mundo, e em todos os lugares onde expôs, os seus quadros sempre se venderam bem, e sempre foi disso que ele viveu. Nunca se tinha dedicado a pintar o ser humano. Era um apaixonado da natureza, e  sempre optara por perpetuar as suas maravilhas, mas aquela imagem da jovem, deitada na vegetação o corpo soerguido sobre o cotovelo esquerdo, olhando-o de forma inquiridora, era por demais sugestiva.
Aproximou-se da jovem
-Como se sente?
- Confusa, -respondeu a jovem numa voz melodiosa. – O que faço aqui? Que lugar é este? E quem é o senhor?
Miguel engoliu em seco.“Querem ver que é doida?” – Pensou.
Estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se.
- Vamos por partes, - disse calmo. Chamo-me Miguel. E a menina?
- Não sei, - respondeu desconcertada.
Passou a mão, de dedos longos e finos pela testa, como se quisesse lembrar de alguma coisa e por fim murmurou.
- A verdade é que não me lembro. Não me lembro de nada. A minha cabeça está vazia.
Fez-se silêncio. A cabeça da jovem podia estar vazia, mas a de Miguel estava a mil. Quem seria a jovem? Teria sido a comoção do momento que lhe fizera perder a memória? Ou já tinha acontecido antes, e fora o desespero de não saber quem era que a levara a tentar o suicídio? De súbito a jovem quebrou o silêncio, como quem acaba de ter uma ideia.
- Mas você sabe quem eu sou, verdade? Não teria vindo para aqui se não fossemos conhecidos. Vejo que é pintor. Sou sua modelo? 
-Não, - retorquiu Miguel. A menina não veio comigo.
-Como assim?- Interrogou a jovem. Pois se estava aqui dormindo, enquanto pintava.
Apertou a cabeça entre as mãos e desatou a chorar.
-Que se passa comigo? Porque não me lembro de nada? Porquê?- Gritou em desespero.




17.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE I



FOTO MINHA



 O homem que se encontrava por trás de uma tela, perto da falésia, era sem dúvida, além de pintor, um amante da natureza, já que a paisagem ao redor era de cortar a respiração. Era alto e magro, de cabelos compridos, e desalinhados, Vestia umas calças de ganga, que já tinham conhecido melhores dias, e uma camisa de xadrez. A julgar pelas pequenas rugas à volta dos olhos, e pelos fios de prata que iam salpicando o seu cabelo, andaria algures entre os quarenta e os quarenta e cinco anos.
Com vigorosos traços de espátula e cor, ia fazendo surgir na tela, a falésia altiva, com o mar a espraiar-se de mansinho a seus pés, numa suave carícia.
De repente ao levantar os olhos da tela a paisagem tinha-se alterado. Ali perto uma jovem contemplava o mar absorta.
Miguel, assim se chamava o pintor franziu o sobrolho. Tinha escolhido aquele ponto, mais distante da falésia, por ser aquele onde habitualmente os turistas não iam, nas suas incursões, naqueles belos dias de Outono, quando o sol aquece a terra de forma suave, e sem os calores ardentes do Estio.
Sentiu um arrepio. Largou a espátula e foi-se aproximando da jovem, que continuava sem dar pela sua presença. Mais perto percebeu pelo tremor do seu corpo que chorava, e frenético quase correu para ela, agarrando-a precisamente no momento em que decidida, ela se encaminhava para a beira da falésia, numa clara intenção de suicídio.
Contra a resistência da jovem, Miguel aprisionou-a nos seus braços fortes, retirando-a daquele local perigoso.
De repente, a jovem parou de resistir, e o homem sentiu que o seu corpo deslizava entre os seus braços.
Percebeu que tinha desmaiado. Ergueu-a nos seus braços fortes e levou-a até junto de onde se encontrava o seu material de pintura. Aí chegado estendeu-a suavemente no solo, e só então viu bem a mulher. Era muito jovem. Quase uma criança. Franziu o sobrolho numa expressão que lhe era característica sempre que alguma coisa o incomodava. Começou a arrumar o material, enquanto pensava que raio poderia levar uma mulher tão jovem e tão bonita a querer acabar com a vida.  Sim porque a jovem era muito bonita. Um corpo esbelto, assentava numas pernas longas que a julgar pelas calças justas, eram bem torneadas. Um rosto oval, testa alta, nariz pequeno e bem feito, boca pequena de lábios bem delineados, e uma farta cabeleira de cabelos castanhos, levemente ondulados. Os olhos, bom, os olhos, teria que esperar que acordasse para ver a sua cor.




Nota: Começo hoje a publicação de um novo conto, que espero vos venha a agradar tanto quanto os anteriores. Será publicado duas vezes por semana. As aulas na Universidade Sénior já recomeçaram o tempo é mais escasso.



14.10.15

MEMÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA


                      Esta é a única foto que tenho da época. Nela se vê, meus pais,e o quintal, cercado de canas para que as galinhas não comessem os legumes. 




Eles eram dois pobres trabalhadores, que viviam num velho barracão. Não tinham dinheiro, nem água, nem luz, mas eram jovens, e em três anos tiveram três filhos, o mais velho dos quais sou eu.
Lembro-me do pequeno quintal, roubado ao mato pelo braço do meu pai. E do poço escorado com tábuas velhas, que um dia ruiu, e obrigou o meu pai a abrir outro de cimento. É que a água do rio estava ali mesmo ao pé da porta, mas era salgada. E o chafariz ficava a mais de 500 metro. E dos móveis feitos pelo meu pai , com as tábuas salgadas, de velhos botes, que já não serviam para a pesca. Lembro-me disso porque no Inverno a roupa lá guardada, sempre ficava húmida.
E lembro-me daquele ano em que, o vento ciclónico arrancou todas as telhas do velho barracão. E de como nessa noite, a chuva ensopou as mantas de trapos que nos cobriam.
Lembro-me ainda da primeira e única boneca que tive.
Era de papelão. Negra. E eu que nunca tinha visto um negro, pensei que estava suja. E fui metê-la ma celha onde a minha mãe tinha a roupa na barrela. A boneca ficou em papas, e para aplacar o meu desgosto, ganhei dois bofetões da minha mãe, zangada com a roupa toda tingida.  Era essa mesma celha, que servia de banheira para nós, na hora do banho.
Ah! memórias da minha infância!...
Como eu ficava contente quando estreava um vestido, (feito quase sempre dos retalhos menos puídos, dos vestidos velhos da minha mãe.)
E o meu pai, que passava os seus tempos livres, sempre a cavar, sempre a semear. Para que nunca nos faltasse na mesa uma sopa.
E as brincadeiras com os meus irmãos.
E os meus 12 anos feitos a trabalhar na fábrica de cortiça, e o armazém da lenha, e a seca do bacalhau, e os livros devorados de noite, à luz do teimoso.
E eu a fazer-me mulher sem ter sido menina, e a revolta a crescer comigo, no desejo de agarrar entre as minhas mãos, a vida que me esperava, e lutar com ela até vencer ou ser vencida.
Ah! Memórias da minha infância!...

9.10.15

SINCERAMENTE


Pendem-me a cabeça, sonhos que ruíram.
A realidade do sonho  existe?

Ardem-me os olhos, de te chorar mundo.
Tenho a boca seca do pó da miséria.

Estremece-me o peito, de angústias cansado;
tenho as mãos em sangue de cavar a dor.

Começo a apedrejar a verdade
que trazia clandestina
em qualquer recanto da minha ilusão.

Sinceramente não gosto desta Verdade!...







5.10.15

ADEUS, MINHA TERRA, MEU PAÍS



                        Adeus, minha terra meu país...



Adeus, minha terra, meu país...
Tu e eu
estamos tão unidos e tão separados
como o Sonho e a Vida.
Um feliz e alegre
a outra tão amarga.
Estamos tão unidos e tão separados
como o Amor e a Guerra.
Um a gerar a Vida
a outra a destruí-la.


Adeus minha terra, meu país...

Quando alguns querem
morre a esperança
e a  terra fica grávida
de fome e miséria.
O amanhecer nunca é belo,
Para quem está cego de desespero.
É por isso. Só por isso
que estando tão unida a ti, parto.
E, antes que rompa o dia,
antes que a flor da coragem,
murche
no meu angustiado peito,
olho para trás, só mais uma vez,
e grito.


Adeus, minha terra, meu país...






2.10.15

REFLECTINDO



No último dia de campanha eleitoral, apetece-me falar de eleições. Não, não venho falar de partidos políticos, nem daquilo que este ou aquele candidato representa. Vivemos todos no mesmo país, sabemos bem como vivemos, e eu não vou passar atestado de burrice a ninguém, que esse é o papel dos políticos, não o meu. Venho falar-vos de que nunca em campanha alguma, eu ouvi tantos amigos e vizinhos dizerem que não vou votar. Espero que não seja o vosso caso, família e amigos. Queria só deixar aqui o mesmo que sempre digo a quem me diz que não vai votar.
A democracia não se fez só para exigirmos os nossos direitos. Ela também tem direitos, que são simultaneamente deveres. Um deles é o dever de irmos às urnas, porque só exercendo-o temos o direito de escolha, e o direito de apoiar ou reclamar de quem no futuro exerce o cargo.
Quando os militares de Abril fizeram a revolução, eles queriam essencialmente duas coisas. O fim da guerra nas colónias, e o sagrado direito de o povo se expressar e escolher quem iria representar no governo os seus direitos.
É uma falta de respeito enorme por quem lutou para nos dar esse direito a abstenção.
Se precisamos de um médico, de um advogado, de um engenheiro, escolhemos um e vamos lá falar com ele. Então se precisamos de um governo ou presidente, porque nos abstemos de ir lá?
O voto é a voz do povo. Algum de vós quer ser mudo? Eu não.

Desejo-vos um bom fim de semana