29.4.15

FELIZ ANIVERSÁRIO SEXTA


O Sexta nasceu há 8 anos. É já um rapazinho a  despedir-se da infância.  Nestes oito anos muita água correu por baixo da ponte, trazendo algumas coisas boas, outras más.  Nelas e sempre que por aqui andei, (fiz algumas interrupções nos períodos mais críticos) contei com o vosso carinho e a vossa amizade. Alguns, muito poucos são companheiros de há seis, sete anos, ( o primeiro ano eu escrevi só para mim, pois não sabia que tinha que procurar outros blogues e nem como divulgar o Sexta) a maioria dos primeiros amigos, trocaram os blogues pelo Facebook. Outros, descobri há pouco, ou me descobriram. Nestes anos, alguns perderam a virtualidade, e se tornaram reais.
Para todos um enorme OBRIGADA. E festejem comigo. 

27.4.15

MARIA PAULA - PARTE XXI



Na manhã seguinte, ainda os primeiros raios de sol, não eram vistos, Diogo, que pouco tinha dormido, saltou da cama. Fez a barba, com certa dificuldade, pois se esquecera de comprar lâminas e nunca aprendera a usar a navalha, com a destreza com que o pai o fazia.
Quando, pronto para a viagem apareceu na cozinha, já os pais tinham tomado a primeira refeição do dia, que ali, eles chamavam de ”mata-bicho”. Não por estarem à espera dele, mas porque ali toda a gente se levantava muito cedo, e se deitava igualmente cedo. Na aldeia, apenas havia um pequeno café-mercearia com TV, onde os homens se juntavam ao domingo, quando havia um jogo importante. E as mulheres quando havia a transmissão de Fátima, em Maio ou Outubro. A aldeia ainda não tinha luz eléctrica, o café tinha um gerador. 
O resto da aldeia usava iluminação a petróleo, excepto o padrinho de Diogo que também tinha gerador.
A mãe preparara para ele, um suculento pequeno-almoço, com pão que ela própria fizera na véspera, queijo de cabra, presunto, fruta e um tinto verde.
- O carocho já está atrelado à carroça – disse o pai.
- Obrigado pai. Não me esperem para jantar. Não sei se encontrarei hoje a Maria Paula, mas ainda que assim seja, dormirei em Coimbra e volto amanhã.
- Vai com Deus, filho – disse a mãe abraçando-o
-Que ELE fique também consigo, minha mãe – respondeu, dirigindo-se à carroça, onde o pai já o esperava.
Os quarenta minutos até Amarante passaram a correr, tão amena foi a conversa entabulada entre pai e filho.
- Se te demorares mais do que o previsto, telefona para o teu padrinho, ou para o café. Não nos deixes em cuidado. Eles nos darão o recado. Tens os números?
-Tenho pai. Não se preocupem comigo. Escapei da guerra em Angola, não é em Coimbra que me vai acontecer algo de mal – disse o jovem subindo para a camioneta que o levaria até ao Porto, onde apanharia o comboio para Coimbra. À medida que o tempo passava, sentia-se mais ansioso, e cada vez mais nervoso.

25.4.15

25 DE ABRIL

                           SEMPRE A FINGIR
Ontem
Olhavas, e fingias que não vias
os órfãos e viúvas de guerras inglórias
o desespero dos emigrantes clandestinos
as terras abandonadas pelo terror da fome
a força sacrifício dos ideais feitos homens
encerrados e torturados nas prisões do meu país.
Acordaste numa manhã de Abril e ficaste admirado
porque nas nossas mãos o sangue era cravo rubro
nas nossas gargantas o medo era hino à Liberdade
os nossos braços enlaçavam-se na esperança do momento.
Acordaste... e como quem muda de camisa
puseste-te ao nosso lado.

Era o tempo
de fingires ser democrata.


Hoje
olhas, e finges que não vês
os campos perdidos sem sementes
as fábricas de máquinas paradas
o desespero e desencanto acampado à porta
do desemprego.
Olhas, e finges que não vês
as crianças que vão para a escola engolindo a fome.

Os idosos abandonados à dor da miséria.
E a juventude sem esperança, que naufraga
no mar da emigração, fugindo dum país sem futuro,
deixando atrás de si,  o desespero e a saudade
de mulheres e filhos.

E continuas a fingir ser democrata !


Elvira Carvalho

O ano passado, escrevi um texto sobre o 25 de Abril. Como não mudei uma linha no meu pensamento, e para não me repetir assinalo a data com este poema. Se alguém estiver interessado no texto pode lê-lo AQUI



24.4.15

MARIA PAULA - PARTE XX



foto minha

Sentou-se na margem do rio, e deleitou-se com a paisagem ao redor. Não pode deixar de pensar que a gente do local, era privilegiada pela natureza. Belas paisagens, bons ares, vizinhos de confiança. Ali as chaves tinham pouca serventia. As pessoas saiam de casa batendo a porta que ficava no trinco. Na volta puxavam o trinco com um cordel passado para o lado de fora por um furo na porta. De noite corriam um ferrolho pela parte de dentro. Os currais dos animais eram também fechados com ferrolho. Diogo, tinha vivido no Porto enquanto estudante, e visitara Lisboa nas várias saídas de licença, enquanto estivera na base naval do Alfeite. Conhecera bem Luanda, onde estivera 25 meses em comissão. Três belas cidades, muito diferentes entre si, mas com uma coisa em comum. Em nenhuma delas, ele encontrara aquele sossego, aquela paz, aquela confiança entre vizinhos. Alegravam-se com as alegrias e choravam com as tristezas uns dos outros. Era como se todos fossem uma grande família. Nas cidades, o progresso, e o turismo, tornaram a vida muito diferente.
“ Um dia quem sabe, o turismo chegue aqui, este é um bom lugar para uma praia fluvial, e o turismo pode alterar completamente este local” – pensou enquanto olhava os pequenos círculos na água, formados pela pedra que acabara de lançar no rio.
Levantou-se, sacudiu as calças, e dirigiu-se ao pequeno pomar, onde sabia que ia encontrar o pai.
- Boa tarde, pai. Precisa de ajuda?
- Boa tarde, filho. Uma ajuda nunca se recusa. Mas decerto não foi para isso que vieste. Queres falar? Perguntou fitando o rosto sério do filho
- Como o pai me conhece bem.
- Vem, vamos sentar-nos ali na beira do tanque. Então? É por causa da tal rapariga? A tua mãe contou-me a conversa que tiveste com ela.
- Pois é pai, é por causa da Maria Paula. Estive a pensar e cheguei à conclusão de que não vale a pena esperar a baixa da Marinha para a procurar. Decidi ir amanhã para Coimbra.
- Tens a certeza de que é o melhor para ti, filho? Essa rapariga vem de outras terras, outros costumes. Não seria melhor alguém de alguma aldeia próxima?
- Não, pai. Nunca conheci ninguém como a Maria Paula. E olhe que tive vários namoricos desde os meus quinze anos.
- Um pai sempre deseja o melhor para os seus filhos, e por eles é capaz de fazer qualquer sacrifício. Mas há uma coisa que um pai nunca consegue fazer. Viver a vida por eles. Se achas que essa rapariga é o melhor para ti...
- Maria Paula, é uma excelente rapariga, meu pai. Valente e corajosa. O pai não imagina o que ela já passou. E é de boas famílias, não se preocupe.
- Então filho, faz o que o coração te manda. Como diz o povo “quem bem faz a cama, bem se deita nela.”



E hoje é o dia internacional do livro. Um livro é sempre um amigo que nos leva a viajar por terras desconhecidas e nos desperta várias emoções. É sempre fonte de aprendizado. Se mora em Lisboa, dê uma olhada AQUI por favor
Então tenham um bom dia, e boas leituras



22.4.15

10º BOOK-CROSSING BLOGUEIRO


Este foi o livro que na minha participação do 10º book-Crossing blogueiro,  libertei esta manhã no parque Catarina Eufémia, no Barreiro quando ia para uma aula na Universidade Sénior. Depois sentei-me uns bancos mais à frente pensando fotografar quando alguém o recolhesse. Durante 10 minutos passaram por ali várias pessoas de faixas etárias diferentes, já que é caminho de passagem para quem se dirige aos CTT, os jovens que vão para a Escola Alfredo da Silva, e quem vai para a sede do Barreirense. Alguns olhavam e seguiam em frente, outros, tive a sensação que nem o viram. Como entretanto se fazia tarde para a minha aula, não cheguei a ver quem o recolheu.

21.4.15

MARIA PAULA - PARTE XIX


foto da net

Durante uns dias, Diogo, andou pela aldeia. Foi visitar o padrinho, encontrou-se com os pais de alguns amigos, que o saudaram com a cordialidade com que todos se tratam nas aldeias. Encontrou a ti’Carlota, talvez a mais velha mulher da aldeia. Diogo não sabia quantos anos teria a mulher, mas decerto era exemplo de longevidade. Desde que tinha memória, sempre se lembrava dela, toda vestida de preto, - era viúva - e já bem entrada nos anos. Encontrou-se também com algumas crianças, quase adolescentes que deviam vir da escola. Naquela manhã, cruzou-se com o ti’António do Moinho. O homem abraçou-o com grande emoção.
- Já me tinham dito que havias regressado. Agradece a Deus por estares vivo rapaz. O meu Carlos ficou lá em Moçambique. Morreu em Omar, há seis meses, a menos de um mês de acabar a comissão. Maldita guerra.
Diogo sentiu como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Apesar de Carlos, não ter sido um companheiro de brincadeiras, - o jovem, era sete anos mais novo do que ele, -  conhecia-o desde que nascera. Era irmão do Luís, o seu grande amigo de infância. Emocionado, sem palavras que pudessem confortar o coração ferido daquele pai, apertou-o num longo e comovido abraço. Depois perguntou:
- E o Luís?
- Fugiu para França, pouco antes de ser alistado, tem um bom salário e até já está a pensar em casar. Se o irmão tivesse feito o mesmo, hoje estaria vivo. Mas ele nunca quis, apesar dos conselhos do irmão. É como dizem, cada um já nasce com o destino marcado.
- Talvez Sr. António, - respondeu Diogo que não acreditava, nessa coisa de que tudo o que nos acontece é por culpa do destino.
- Quando escrever ao Luís, diga-lhe que gostaria de o ver, quando vier a Portugal.
Fica descansado, rapaz – respondeu o outro, apertando-lhe o ombro em jeito de despedida.
Diogo, virou a esquina da única rua, verdadeiramente digna desse nome, na aldeia e dirigiu-se à margem do rio, atravessando o extenso milheiral, pertença do seu padrinho, o homem mais abastado da aldeia. Quantas vezes em criança, ia para ali no Verão, com os outros miúdos da aldeia. Uma constante preocupação para os mais velhos, sempre com medo que algum deles, por lá se afogasse. 




19.4.15

MARIA PAULA - PARTE XVIII

                                 Foto da net


Dois dias depois, saciada a curiosidade dos pais, relativamente à sua comissão em Luanda, enquanto tomava o pequeno-almoço, eis que a mãe faz a pergunta que tinha entalada na garganta.
- E a tal rapariga que namoravas lá, e com quem dizias que ias casar?
- Como vos contei, a guerra estava instalada em Luanda e os pais mandaram-na para Coimbra, onde o irmão estudava. Pouco antes da partida ela acabou o namoro dizendo que não via futuro para nós.
- Uma rapariga ajuizada, filho. Vocês são de mundos diferentes. O que precisas é de uma rapariga daqui. Uma pena que a Lurdinhas, já esteja de casamento marcado. É uma excelente menina, os compadres gostam de ti, e podiam ser uma ajuda no teu futuro.
-Ora valha-a Deus, minha mãe. O meu futuro, será o que eu fizer dele. Com o meu saber e o meu talento. Sem “cunhas”, nem padrinhos.
- Será? Neste mundo quem não tem padrinhos, nunca sobe a escada da fortuna.  Mas, então o que pensas fazer? Ainda pensas em ir para Lisboa? Eu e o teu pai temos falado sobre isso. Como filho único, gostávamos de te ter por aqui perto. Braga ou Porto, talvez.
- Não sei, mãe. Agora tenho estes dias de licença. Depois tenho que me apresentar na base naval. Não sei quanto tempo ainda terei que estar lá até me darem baixa. Já fiz os quatro anos de serviço o mês passado. Depois, penso ir a Coimbra. Vou tentar encontrar a Maria Paula e ter uma conversa séria com ela. Sei que não é do vosso agrado, mas ela é a mulher que eu quero para mãe dos vossos netos, - disse levantando-se da mesa e afastando a cortina da janela, perguntou mudando o rumo à conversa:
- Que foi feito dos meus amigos? Ontem dei uma volta por aí e não vi nenhum. 
- Uns foram para a tropa e ainda não voltaram, outros fugiram de salto para a França, para não irem à guerra. E outros ainda casaram e foram viver para a cidade. Os jovens não têm amor à terra, querem uma vida melhor. Aqui só vêm de visita, para ver a família e levar alguma ajuda, que a vida nas cidades não é como aqui. Lá, compra-se tudo, da água ao sal. 


A todos um bom Domingo

17.4.15

MARIA PAULA - PARTE XVII



Estação de S. Bento no Porto. Foto da net

Diogo chegou ao aeroporto de Figo Maduro, em meados de Julho de 75. Depois da apresentação na base do Alfeite, foi-lhe dado como aos restantes camaradas, (atenção que este termo, não tem aqui conotações politicas, ligadas a qualquer sector partidário. Na  Marinha, os “filhos da escola” sempre se trataram assim) uma licença de sessenta dias.
Diogo dirigiu-se a Santa Apolónia para apanhar o comboio Foguete para o Porto. Pelo caminho, notou que havia na cidade grandes mudanças. Não na estrutura da cidade. O Terreiro do Paço, com os respectivos ministérios, a estátua de D. José, o rio, a gare de embarque para o Barreiro,  os vendedores ambulantes, o caminho para Santa Apolónia, tudo estava no mesmo sítio e mais ou menos igual. As pessoas. Essas sim, estavam diferentes, mais abertas, sorriam com facilidade, olhavam-se nos olhos sem receio. Que diferença de quando ele partira, quando as pessoas passavam apressadas, cabisbaixas, temerosas até da própria sombra.
O comboio chegou ao Porto, e o jovem dirigiu-se à paragem da camioneta que o levaria até Amarante, concelho da pequena aldeia onde nascera, e onde viviam seus pais. Respirou fundo, uma sensação de felicidade invadindo o peito, e em pensamento ergueu aos céus, um agradecimento, pelo regresso são e salvo.
Quando a camioneta parou no largo da Igreja de S. Gonçalo, em Amarante, já o pai o esperava com a carroça, para fazerem o resto da viagem.
Por alguns minutos, os dois juntaram-se, num abraço forte, cheio de emoção. Quantas vezes, nos últimos tempos, Diogo pensou que não voltaria a ver os pais. Que sequer regressaria?
Depois colocou a mala na parte traseira de carroça, e subiu sentando-se à esquerda, e pegando nas rédeas. O pai subiu pelo outro lado e iniciaram a viagem até à aldeia, conversando animadamente. Sentia-se feliz.  Era como se regressasse à adolescência, quando acompanhava o pai a Amarante, para venderem os legumes da quinta, e ele pedia ao pai, que o deixasse conduzir a carroça. Depois, vieram os estudos, a Universidade, a Marinha e por último a comissão em Angola, que nos últimos tempos se transformara numa descida aos Infernos.
Os quarenta minutos até casa passaram quase sem dar por isso. E em casa esperava-o o abraço, e o choro de alegria da mãe, a par de um jantar cujo aroma divinal se sentia a vários metros de distância.

Bom fim de semana

16.4.15

MARIA PAULA - PARTE XVI



                       Coimbra anos 70 -  foto da net 


Poucos dias depois da chegada a Coimbra, e de rever alguns amigos, antigos colegas da Universidade, Paulo já estava ciente de algumas coisas. Primeiro, a história de que todos os cidadãos nascidos em solo português, são portugueses, não passava de uma frase bonita sem correspondência na prática.
Segundo o governo português, não estava minimamente preparado, nem acautelado com o que efectivamente podia acontecer com uma descolonização feita às pressas, nem para fazer face às necessidades das centenas de pessoas que todos os dias chegavam a Lisboa, fugidos da guerra que se instalara em Angola.
Terceiro, talvez porque a imprensa na Metrópole, não noticiava um décimo do que realmente se passava em Angola, em Portugal, a população desenvolvera uma estranha aversão a quem chegava. Chamavam-lhes “os retornados”, e eram vistos como intrusos, que tinham estado em África a explorar os negros, e vinham para cá para lhes roubarem os empregos. Nada mais errado. A maioria dos que chegavam, eram simples trabalhadores, que nunca tinham tido um negro a seu serviço. Muitos eram já, segunda ou terceira geração, nascida em Angola, e nunca tinham posto os pés na Metrópole.
A vida apresentava-se para estes expatriados, muito difícil. Os que tinham familiares em Portugal, procuravam o apoio deles. Os outros tinham que esperar uma solução do IARN, organismo recém-criado pelo estado, para acolher e dar assistência a todos os refugiados. E as soluções quase nunca ocorriam com a celeridade que se desejava, e necessitava.
Um mês depois de ter chegado a Coimbra, Paulo integra a equipa do Hospital da Universidade de Coimbra, e a família pode respirar um pouco mais tranquila. Luena, continua sem trabalho, e o ordenado dos filhos, era até aí, escasso para todas as despesas.
 Maria Paula, continua distribuindo sorrisos e simpatia no seu trabalho. De tal modo que muitos jovens que nunca tinham entrado numa padaria, fazem agora questão de ir, todos os dias, buscar o pão, na esperança de dois dedos de conversa. Pese a sua simpatia, no fundo dos seus olhos há uma certa tristeza. E no seu coração, uma enorme saudade de Diogo, de quem não sabe nada. Nem sequer, se é morto ou vivo.



12.4.15

MARIA PAULA - PARTE XV


                Aeroporto de Lisboa  em 75. Foto da net


Era o último dia de trabalho de Paulo, já com viagem marcada para o dia seguinte quando se deu o ataque ao Hospital de S. Paulo. Quando este terminou, ao som das armas sucederam-se o som dos gritos das pessoas, em pânico, desejando sair do hospital o mais rápido possível, tropeçando nos cadáveres, espalhados pelas alas mais atacadas.
Foi necessário acalmar estas pessoas e ao mesmo tempo socorrer os feridos. Mais tarde pela calada da noite, levar-se-iam pelas traseiras para o Hospital Maria Pia, todos os feridos graves.
Já passava da meia-noite, quando Paulo chegou a casa, completamente exausto, e embora tivesse a viagem no avião marcada para as oito da manhã, não conseguiu dormir, a mente desperta pelo horror vivido nesse dia.
Pela manhã conseguiram embarcar, com a roupa do corpo, e uma pequena mala, com algumas peças de roupa, o seu estojo de médico e um livro de medicina, cada um. Foi tudo o que eles conseguiram trazer, de tudo o que tinham juntado em toda a vida.
Aqueles que resolveram vir para Lisboa, logo após o 25 de Abril, ainda tinham conseguido mandar parte dos seus haveres por barco.
Paulo nunca tinha pensado abandonar Angola. Era a sua terra, aquela onde pela primeira vez vira a luz do dia, onde crescera e aprendera a amar, onde seus filhos nasceram, e onde repousavam os restos mortais de seus pais. A terra que ele julgava amar acima de tudo. E digo, julgava, porque quando a luta pela sobrevivência se torna presente, ela impõe-se a tudo o resto, até mesmo ao amor pela terra que nos viu nascer.
Ao desembarcarem na Portela, foram surpreendidos por um cenário dantesco. Quase todo o edifício estava lotado de pessoas que como eles tinham fugido de Angola e não tinham para onde ir, nem a quem se dirigir. Na altura chegavam a Lisboa em ponte aérea mais de 500 pessoas por dia. Viviam e dormiam no aeroporto, amontoados no chão, cobertos pelo desespero.
Felizmente para Paulo e Luena, o filho, viera busca-los ao aeroporto, eles tinham lugar para os pais, na pequena casa alugada em Coimbra, pelo que não tiveram de passar por mais uma provação, embora muitas estivessem ainda para vir. 




Uma boa semana para todos.

10.4.15

MARIA PAULA - PARTE XIV

Imagem daqui


Não foi fácil para Maria Paula habituar-se a Coimbra. A jovem tinha uma mentalidade, e uma noção de liberdade muito diferente das jovens que o irmão lhe apresentou. Depois, ela era uma jovem demasiado bonita, e isso despertou sentimentos diferentes nos jovens que conheceu. Enquanto os rapazes se sentiam atraídos pela sua beleza e simpatia, adejando à sua volta como abelhas à roda de uma flor, as raparigas sentiam inveja e zanga por se sentirem preteridas, sempre que a jovem se fazia presente. 
Em Luanda as coisas iam de mal a pior, os pais não conseguem mais mandar dinheiro, proibidas que foram as transferências, e em Coimbra os dois irmãos têm que prover ao seu próprio sustento. Por esse motivo, Pedro, abandonou a Universidade e arranjou emprego no escritório de um advogado. Maria Paula não tardou a empregar-se no balcão de uma padaria. A preocupação dos jovens, eram os pais que não desistiam da cidade, talvez por causa da avó.
Zaila, dizia que era demasiado velha para viajar para outro país. Aquela era a sua terra, ali nascera, se fizera mulher, casara, fora mãe e enviuvara. Ali havia de morrer um dia. Mas quando os três movimentos que tinham lutado contra o colonialismo, começam a lutar entre si pelo controlo de Angola, e em particular por Luanda a situação torna-se insustentável. A independência só seria decretada a 11 de Novembro de 1975, mas a partir do final de Março, o clima na cidade já era de guerra civil. Por essa altura quando uma pessoa saía de casa, nunca sabia se voltava. Dias havia que era quase um milagre sobreviver mesmo em casa, com os constantes ataques de granadas, roquetes e g3.
Por esses dias o coração cansado da velha Zaila, parou enquanto dormia. De manhã, quando a filha deu por isso, nada havia a fazer.
Então Paulo decidiu que era altura de sair de Angola. Mas antes de conseguir partir para Lisboa, ainda sofreu o desgosto de ver o Hospital de S. Paulo, seu local de trabalho e sua segunda casa, ser atacado, e ver morrer alguns dos seus colaboradores. Na verdade o hospital era cobiçado pelos três movimentos, que desejavam fazer dele o seu quartel-general. Apesar de se manter uma força militar portuguesa, em defesa do hospital, ela nada podia fazer contra a avalanche de roquetes lançados contra o hospital num curto e mortífero ataque que durou menos de um minuto.

Bom fim de semana


6.4.15

MARIA PAULA - PARTE XIII






A partir de Julho começam a sair para a Metrópole os barcos e aviões, com aqueles que seriam depois conhecidos como os retornados. A grande maioria, brancos, que viviam há muitos anos em Angola, com toda a sua vida organizada por lá, agricultores e comerciantes. Outros mais jovens pertenciam a uma geração já nascida em Angola. E ainda muitos negros designados por africanos que fugiam, porque temiam tanto a guerra, como os conflitos étnicos  instalados,  que só se sentiam protegidos junto dos militares brancos, e que se instalaram nos jardins e praças de Luanda.
 Os angolanos designados na Metrópole, por africanos, não eram  um  povo uno, nas suas etnias, tribos e crenças.
 Não foi por acaso, nem pelo tamanho de Angola que existiram três movimentos  de libertação. Entre outras etnias, de menor influência, existiam os quimbundos, que predominavam de Luanda a Malange, e que apoiavam o  MPLA. Os bacongo, noroeste de Angola, apoiavam a FNLA e os ovimbundo, Leste e sul de Angola, apoiantes da UNITA.
 O que iria mais tarde dar lugar a uma guerra civil que duraria até ao fim do século. O General Silvino Silvério Marques, cedo constata que não tem condições de travar o caos que se avizinha.
Assim para tirar de Luanda toda esta gente, foi necessário uma enorme ponte aérea, entre Luanda e Lisboa.
 Como médicos os pais de Maria Paula, sabem melhor do que ninguém das atrocidades que se cometem nos musseques e até mesmo na cidade. Assim trataram de falar com o filho e com alguns amigos em Coimbra para que recebessem Maria Paula. E mesmo sabendo que a filha não queria sair de Luanda, trataram de impor a sua autoridade para a obrigarem a partir para a Metrópole, pouco depois dos  acordos de Alvor em Janeiro de 1975.
Por essa altura Maria Paula e Diogo já tinham terminado o namoro. A ruptura  aconteceu depois de um dia em que vários vizinhos de Maria Paula se juntaram para baterem em Diogo, o que só não aconteceu porque o pai de Maria Paula, chegou no momento exacto , e ele era um homem respeitado por todos, devido não só à sua profissão, mas também ao seu carácter.  E foi assim que dois   dias antes do Carnaval, Maria Paula chegou ao aeroporto de Lisboa, onde o irmão a esperava para a levar para Coimbra.
Foi com imensa alegria e muito amor que os dois se abraçaram, embora nos dois permanecesse a preocupação pelos pais e avó que tinham ficado em Luanda.