29.3.15

MARIA PAULA - PARTE XII

                                              
Ao Hospital chegam todos os dias muitos feridos. Alguns em estado tão grave que poucas horas resistem. Nos Musseques os militares contabilizam os mortos. Por essa altura Maria Paula já quase não vê o namorado. Por um lado Diogo tem cada vez a vida mais difícil no quartel. Por outro a vida de Maria Paula alterou-se completamente. A avó Zaila, perde todos os seus haveres no incêndio do Cazenga,e refugia-se em casa da filha. O seu tio Vemba, irmão de Luena, estava desaparecido e a avó passava os dias a chorar. Por outro lado Maria Paula tornou-se voluntária para ajudar a cuidar dos refugiados acampados nos terrenos do Colégio. Os militares levavam todos os dias as refeições para o colégio, mas era necessário fazer a sua distribuição, era preciso ajudar na hora da utilização das instalações para a higiene e para outras necessidades. Os Irmãos faziam o que podiam, mas toda a ajuda era pouca. Porque todo o edifício das aulas tinha que estar operacional de modo a que as aulas prosseguissem sem problemas. Maria Paula chegava muitas vezes a casa perto da meia-noite. Sempre acompanhada pelo Irmão Bento, ou pelo Irmão Carlos, que tinham uma licença especial dos militares para o fazerem, apesar do recolher obrigatório. Ficavam os fins-de-semana para namorar, mas para onde ir? Na ilha estavam aqueles que foram os primeiros retornados, os trabalhadores negros, maioritariamente de Cabo Verde, mas também angolanos, quase todos vindos das obras, completamente paradas depois do 25 de Abril. Cinemas à noite estavam encerrados. Na baixa eram olhados de revés. Os brancos viam em Diogo, um traidor pelo seu namoro com Maria Paula, os negros desprezavam Maria Paula pelo namoro com um branco. Nunca em toda a sua vida Maria Paula tinha sentido descriminação racial até aquela data. Ficar em casa, também não era solução, a presença da velha Zaila, deixava-os sem a privacidade que a sua condição de jovens apaixonados pedia. Também não se queriam afastar da cidade pois temiam algum ataque. Tudo isso, aliado ao cansaço, e ao medo, ia matando aos poucos o amor que os unira até aí. E assim aos poucos o namoro foi esfriando, separados por uma barricada invisível, mas sempre presente.


28.3.15

MANUEL




Se llamava Manuel, nació en España,
su casa era de barro, de barro e caña.
Las tierras del señor humedecían
su sudor y su llanto dia tras dia.

Introduzi a primeira quadra dum belíssimo poema de Serrat para falar de um certo Manuel, que não nasceu em Espanha, mas cuja vida foi igualmente sofrida. Chamava-se Manuel, nasceu no interior norte deste país, que para alguns - muito poucos - é um jardim à beira-mar. Quarto filho de uma pobre mulher que nunca conheceu marido, nasceu em Abril, precisamente onze dias depois, do desastre português na batalha de La Lys. Nunca frequentou a escola. Começou a trabalhar ainda menino. Os filhos do patrão, ensinaram-lhe a ler e a escrever. A meninice e a juventude ficou para trás nessa pequena aldeia, no dia em que migrou para o sul procurando melhor vida. Na margem sul do Tejo, começou a trabalhar numa seca de bacalhau. Aí conheceu a mulher com quem casou e que viria a ser a companheira de toda a vida. Sua casa não era de barro, mas era um barracão de madeira, assente em pilares de cimento à beira-rio. Era um barracão sem água nem luz, mas que o patrão lhe tinha cedido e do qual não pagava renda. Aí lhe nasceram três filhos em menos de três anos. Como se não fosse suficiente o sacrifício, trouxe para a sua casa e ajudou a criar os dois cunhados mais novos, pouco mais velhos que a sua primeira filha, quando a sogra adoeceu. Com autorização do patrão, rompeu ao mato um bocado de terreno para semear alguma coisa que lhe ajudasse a criar os filhos. Com as próprias mãos, abriu um poço, para regar o terreno e para ter água em casa. Trabalhava dia e noite disfarçando as lágrimas e a revolta em piadas brejeiras, e em brincadeiras carnavalescas. Dizia que a vida levada a sério, endoidecia qualquer um. Adorava futebol. Não havia rádio, nem dinheiro para o comprar. Com um dínamo, uma bobine fio de cobre e pouco mais, ele construiu uma engenhoca a que chamava galena, e que lhe permitia com uns auscultadores ouvir os relatos de futebol. Pegou a vida pelos cornos, apesar da sua figura franzina. Foi o exemplo de que os homens não se medem aos palmos. Anos mais tarde, as filhas casadas, a idade da reforma chegou com mais uma provação. A mulher, companheira de sempre, sofreu um AVC e ficou paralisada do lado esquerdo. Era nove anos mais nova do que ele, mas nunca mais conseguiu bastar-se a si própria, muito menos fazer alguma coisa em casa. E Manuel começou uma nova luta. Tratar da mulher e levar para a frente a casa.Com alguma ajuda dos filhos, que apesar de toda a boa vontade, tinham  a sua vida, seus empregos e as suas casas. Uma das filhas inclusive, vivia longe, noutra cidade. Mas ele continuou alegre e brincalhão. De sorriso fácil, e sempre com um chiste pronto, a qualquer hora e situação. Com a paixão pelo futebol, e pela vida, costumava dizer com uma certa graça, que sabia que havia de partir um dia, mas que iria forçado, pois de vontade, a morte nunca o apanharia. Chamava-se Manuel, nasceu em Portugal, em Abril de 1918, partiu a 28 de Março de 2009.
E eu tenho um enorme orgulho em ter sido sua filha, e uma saudade cada dia maior


Maria Elvira Carvalho

27.3.15

MARIA PAULA - PARTE XI



Apesar de nas ruas da cidade parecer estar tudo na mesma, Luanda vive dominada pelo medo. Como se estivesse sentada num barril de pólvora, a que só faltava alguém acender o rastilho.
E esse rastilho foi aceso na noite de 10 de Julho de 1974, com dois trágicos acontecimentos. A morte de um enfermeiro negro numa rixa, num bar, e a morte de um taxista branco no musseque do Rangel.
Em poucos dias vários musseques foram incendiados, deixando muita gente desalojada. E vários mortos. Por um lado os extremistas brancos, que não queriam perder a posição ocupada até aí por uma independência que receavam. Por outro os elementos da PIDE que tinham sido integrados na nova força policial, conhecidos pelo seu fervor ultra colonialista e racista que incentivavam e promoviam os desacatos. 
Como sempre nestas situações quem mais sofre são os mais pobres. E nos musseques não havia apenas população negra. Longe disso. Havia muito branco, gente pobre, que até aí vivera em sã convivência com os negros, irmanados nas más condições de vida, e na luta por uma vida melhor.
Essa convivência era agora impossível, não só pelo medo, como porque também eles ficaram sem tecto com os incêndios. Assim começou o êxodo para a cidade, onde a vida ainda parecia quase normal.
O Colégio Cristo-Rei, onde Maria Paula trabalhava, era dirigido pelo Irmão Santini, que era o director da Cáritas em Luanda. E o Colégio tinha à volta do edifício um grande espaço, com um campo de futebol, escorregas e espaço para outras actividades dos alunos no recreio e nas aulas de ginástica ao ar livre, que foi oferecido aos primeiros desalojados para montarem as suas tendas e viverem até que o governo arranjasse uma solução, já que se recusavam a regressar aos musseques, perdidos os seus parcos haveres nos incêndios.
Os musseques passaram a ser patrulhados por militares, e a situação foi acalmando, enquanto aos poucos, se começava a deteriorar na cidade. Os militares sofreram humilhações por parte de alguns brancos que não se coibiam de os mandar regressar ao Puto, dizendo que eles se encarregavam de acabar  rapidamente com a história de Independência.
O governador vê-se obrigado a decretar recolher obrigatório, e aumentar o policiamento da cidade.



26.3.15

MARIA PAULA - PARTE X



Lembram-se?

Os dias que se seguem, são de grande expectativa. O povo não sabe ao certo o que esperar do novo governo de Portugal. Já se sabe que o regime ditatorial acabou, mas os movimentos independentistas continuam a apelar à luta, pela independência total de Angola, enquanto o governo português, pela voz do general Costa Gomes, que, na primeira semana de Maio chega a Luanda ,apela à continuação da luta contra os movimentos de libertação, até que estes depusessem as armas e se comprometessem com uma solução política.
"Nenhuma província, nenhum grupo, nenhuma raça, terão permissão para impor uma solução que não tenha passado pelo crivo de um teste democrático",
 E acrescentou de seguida:
- "É nossa intenção continuar a luta contra as guerrilhas, e essa posição manter-se-à até que os guerrilheiros aceitem a nossa oferta para depor as armas e se apresentem como um partido político legal".
Embora se tenham libertado os presos políticos das cadeias de Luanda e Moçâmedes, nem por isso o povo  se sentia mais confiante.
Dizia-se que a PIDE fora extinta, mas como os seus agentes foram integrados num novo serviço de informações, denominado Comando da Polícia de Informação Militar, o povo continuava com medo, pois na verdade não se sabia até que ponto, não se mudara apenas o nome, à tenebrosa polícia.
Deste modo, não era só Maria Paula que estava confusa. Havia todo um povo que não sabia o que podia acontecer, mas temia-se que a qualquer momento, um qualquer acto impensado, acendesse o rastilho da guerra na cidade.
As notícias que chegavam da Metrópole, pelos telefonemas do irmão, não contribuíam em nada para sossegar Maria Paula e os pais, pois enquanto a Junta de Salvação Nacional pela voz do General Spínola afirmava, "os nossos esforços centrar-se-ão no restabelecimento da paz no Ultramar, mas o destino do Ultramar Português terá de ser decidido por todos os que àquela terra chamaram sua"; a sociedade civil, contrapunha, pela voz de Mário Soares.
"Sou abertamente pela independência, e, na minha opinião e na do meu partido, é necessário negociar urgentemente com os movimentos de libertação".


21.3.15

ESTOU CANSADA - 21 de MARÇO - DIA MUNDIAL DE POESIA



ESTOU CANSADA

Estou cansada
Das crianças que não sabem rir
Porque a fome  
Qual chibata
Vergasta sem piedade
Os seus frágeis corpos

Em construção


Estou cansada
Dos jovens sem emprego,
Nem esperança
Que partem todos os dias
Procurando o futuro
Num qualquer recanto longínquo.


Estou cansada
De tanta mulher, maltratada
Espancada
Morta,
Rosas arrancadas ao jardim da vida

Por jardineiros cruéis


Que um dia juraram amá-las.




Estou cansada
 Dos homens que não fazem amor
Os corpos demasiado cansados
A alma sepultada no medo
De naufragarem no mar 
Do desemprego.




Estou cansada
De tantos idosos esquecidos
 Abandonados
Aos dias, quase sem comida
Que sobram
Às suas magras pensões.


Estou cansada

De tanta incompetência
De tantos impostos,
De tanta mentira,

De tanta corrupção.
Estou cansada, dos ideais esquecidos
Condenados sem nenhum recurso
Nas mentes abarrotadas de ambição
Dos líderes políticos.

 Elvira Carvalho





16.3.15

MARIA PAULA - PARTE IX



Largo da Mutamba  

Quem se lembra dele?


Maria Paula ia muitas vezes a pé para o emprego. Gostava de caminhar, de observar as pessoas, as moradias, os jardins. Naquele dia, não notou absolutamente nada de diferente, embora o facto de não ter ouvido o noticiário de manhã lhe causasse uma certa estranheza.
Saudou o Irmão Carlos, com quem se cruzou no átrio do Colégio e dirigiu-se à secretaria para iniciar mais um dia de trabalho. Sintonizou o pequeno transístor que tinha em cima da secretária, e logo os acordes de uma marcha militar se fizeram ouvir.
O Irmão Bento veio até à secretaria buscar uns papéis, e Maria Paula perguntou:
- Irmão, já ouviu hoje as notícias?
- Não, Maria Paula, não deram notícias, em nenhum dos emissores que sintonizei. Alguma coisa se passa. Em breve saberemos.
O Irmão saiu e Maria Paula, ligou para o comando para falar com Diogo, mas foi-lhe dito que ele tinha saído para o tribunal.
Perto do meio-dia, Diogo telefonou. Mas inquirido sobre se saberia o que se passava, disse que não podia falar, e Maria Paula ficou preocupada.
Quase a terminar o dia de trabalho, depois da saída dos alunos, o Irmão Bento disse-lhe, que segundo um ordenança, que tinha ido recolher o filho de um general, tinha acontecido uma tentativa de golpe militar, na Metrópole. Mas ele não sabia dizer mais nada, nem sabia se já tinha sido neutralizado ou não.
Pouco depois, o expediente terminou e à saída encontrou Diogo à sua espera.
- Boa tarde, amor. Não te esperava – disse entrando no carro.
Saudaram-se com um breve beijo na face, ali era o local de trabalho de Maria Paula e os Irmãos eram muito rigorosos em questões de moral.
- Tinha que falar contigo. Não pude fazê-lo depois. Houve um golpe militar na Metrópole. Não temos acesso a grande informação, a PIDE controla todas as chamadas, mas parece que é sério.
- Meu Deus! – exclamou Maria Paula.  – E nós? Que nos acontecerá?
- Sinceramente não sei. Se for tão sério como parece, e conseguirem implantar um novo governo, provavelmente vão dar a autodeterminação às províncias, pois os militares estão muito cansados, desta maldita guerra que nunca mais acaba e tem ceifado a vida a muitos jovens.
- Eu sei. Não esqueças que meu pai é médico no hospital militar. Principalmente de Cabinda e do Leste, chegam todos os dias soldados mortos ou estropiados.
-É melhor não sairmos esta noite. Podem chamar-me de repente.
- Tudo bem. Já tinha dito à mãe que jantava em casa. Queres jantar connosco?


12.3.15

AS JÓIAS DA CARREIRA DA ÍNDIA

As aulas do segundo período estão a acabar e integrada no estudo do Auto da Índia, de Gil Vicente,  fomos ao Museu do Oriente ver a exposição denominada, As jóias da carreira da Índia. Não as jóias da Índia porque apesar poucos são os exemplares em jóia que chegaram aos nossos dias. Porquê? Porque o nosso gosto ocidental, não se enquadrava no  oriental, demasiado exuberante e pesado. Daí que as jóias chegavam a Portugal e eram entregues a famosos ourives que as desmontavam, derretiam o ouro e faziam novas jóias segundo a moda ocidental, que como sabem está sempre em mudança, o que faz com que muitas vezes a mesma jóia, fosse várias vezes desmontada e refeita, conforme ia passando de mães para filhas. De qualquer modo existem alguns colares originais, e muitas outras peças de ourivesaria da época, numa exposição muito interessante que vale a pena ver. E agora algumas fotos, que não são de grande qualidade, porque "o meu sabonete" como lhe chama o meu professor, não dá para mais. Cliquem nas imagens para verem melhor.


 Estas jóias colocadas numa vitrina de vidro com espelho por baixo, permitem a quem visita a exposição observar duas peças diferentes, A que os nossos olhos vêm em primeiro plano e a que é reflectida no espelho. Isto acontece porque a joalharia oriental não tinha direito nem avesso de tal modo era trabalhada que permitia na prática que cada peça fosse usada de indiferentemente de um lado ou de outro que embora diferentes eram ambos lindos e tudo se resumia à melhor escolha para o gosto ou ocasião. 





Estas duas peças eram chamadas de afogadores , (ou afagadores) e embora muito bonitas eram consideradas jóias pornográficas e eram usadas pelas cortesãs. Isto porque o olhar de um homem era atraído pela beleza da peça e depois os três pingentes  indicavam a direcção dos sítios íntimos da mulher. Por gostarem das peças, mas não se atreverem a usá-las, alguns nobres encomendaram peças com Jesus no centro, transformando-as assim em jóias castas, que as suas esposas poderiam usar sem problema, porque nenhum homem se atreveria a ter maus pensamentos na presença de Jesus. Essas são as que escaparam de serem derretidas e chegaram aos nossos dias como estas duas. 





Quem quiser ver todas as outras peças, que eu fotografei, pode fazê-lo Aqui  Quem viver em Lisboa, 
o melhor mesmo é ir até lá. 

9.3.15

MARIA PAULA - PARTE VIII


Haverá algum dos meus leitores que tenha passado por Luanda e não se lembre deste edifício?


No último ano de Medicina, Pedro veio a Luanda passar com a família as férias de Natal. Conheceu Diogo, simpatizou com o pretendente da irmã, e com a naturalidade própria da juventude em breve se tratavam como se fossem amigos de longa data.  A cidade tinha uma vida cosmopolita, em que a maioria das pessoas, não faziam ideia do que era a guerra, e até a ideia de combates era uma coisa muito longínqua que apenas aflorava a mente de alguns.
Enquanto isso uma minoria de activistas, da FNLA, preparava para esse Natal de 73, uma operação de guerrilha urbana dentro da cidade de Luanda, a partir da Universidade, que só não teve um final trágico, porque foi descoberta e desactivada a tempo.
Claro que os civis não chegaram a saber de nada. A polícia politica e os comandos militares, tinham um esquema muito bem montado, com tropas especiais, militares africanos, treinados pela PIDE, os Flecha, a Defesa Civil, e as milícias da Organização Popular de Vigilância. E foi assim que naquela manhã de Abril, as pessoas saíram de casa para os seus empregos ou outros afazeres, sem suspeitarem do que se passava na Metrópole.
Era o dia 25 de Abril. Como de costume Maria Paula acordou cedo, mas quando se dirigiu à sala para o pequeno-almoço, os pais já estavam acabando a refeição. O rádio ligado fazia ouvir uma marcha militar. Olhou o relógio.
- Não são horas do noticiário? – Perguntou, sentando-se à mesa.
- São, - respondeu o pai. Passa-se qualquer coisa de estranho. Há meia hora que liguei o rádio, e ainda não ouvi o locutor. Só marchas militares.
- Que estranho! -.Murmurou enquanto se servia de um pedaço de bolo.
- Não deve ser nada, - interveio a mãe. Provavelmente atrasaram-se. E por falar em atraso, já viram as horas? – Disse levantando a loiça da mesa. E como se de repente se lembrasse de algo, perguntou:
-Jantas em casa, hoje, ou vais jantar com o Diogo?
- Não combinámos nada. Janto em casa.
- Muito bem, - disse enquanto agarrava na mala de mão.
 Vais comigo, ou com a mãe? – Perguntou o progenitor, enquanto desligava o rádio.
- Se não se importam, vou a pé. Apetece-me caminhar. Mas desço convosco, - respondeu encaminhando-se para a porta
Cá em baixo, despediram-se com um beijo e cada um seguiu o seu caminho.

BOM FIM DE SEMANA


NOTA :
Para os amantes de bons blogues, está de regresso "O Sino da Aldeia"   do Jorge P. Guedes.  Dêem uma voltinha por lá e vão ver que vale a pena. 

8.3.15

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Para todas as MULHERES, amigas ou não, conhecidas ou desconhecidas, neste dia que se convencionou ser da MULHER, (como se não o fossemos todos os dias) e que devia ser jornada de luta, pela igualdade de direitos, e está convertido quase só, a almoços ou jantares de mulheres. Ofereço-vos este ramo de rosas virtuais, já que nenhuma flor simboliza tanto a mulher como a rosa. A vida da mulher é assim. Primeiro, o botão, depois ele desabrocha numa flor que a todos encanta, passado algum tempo perde o brilho e começa a morrer. Do princípio ao fim o pé da rosa, está sempre cravado de espinhos. Como a nossa vida.
Posto isto desejo-vos um bom dia, não só hoje, mas todos os dias da vossa vida.

2.3.15

MARIA PAULA VII



                                                                     Luanda vista da ilha

Diogo estava fascinado, não apenas pela presença física de Maria Paula, mas pelo seu senso comum, pelas suas ideias, pela sua conversa. Reconhecia na jovem uma inteligência, e uma cultura pouco comum nas jovens da sua idade, mais preocupadas com a sua aparência, do que com o conhecimento. Por seu lado a jovem também estava encantada com o seu novo amigo. Mais velho, mais experiente, mais maduro. Tão diferente, dos outros jovens com quem convivera até aí. 
Da admiração, ao amor não demorou muito. E foi assim que em Setembro de 73, já eram namorados, com a devida autorização dos pais de Maria Paula.
Diogo escreveu aos pais, contando-lhes a novidade e mandando-lhes a fotografia da jovem.
Na volta a resposta não foi muito animadora. A verdade é que os pais sempre pensaram na possibilidade de um casamento com Lurdes, a filha dos padrinhos de Diogo, mais abastados que seus pais, e capazes de ajudarem o genro a subir na vida. Diogo sabia dos anseios dos pais, mas a vida era dele e não estava disposto a abdicar da mulher que amava.
Claro que ele não contou a Maria Paula a reacção dos seus pais. Pela sua cabeça passava a ideia, de acabada a comissão, sair da marinha, - ele não era militar de carreira – voltar a Luanda, abrir um escritório de advocacia, na cidade e casar-se. Sabia que ia ser um grande desgosto para os pais, mas a cidade oferecia-lhe outras perspectivas que não teria em Lisboa, e ele acreditava que ali estaria a sua felicidade.
 De namoro firme, era vê-los, jantando na Portugália, deliciando-se com os gelados do Baleizão, brincando como duas crianças nas areias da ilha, trocando beijos no escurinho do cinema Restauração, ou simplesmente passeando de mão dada pela marginal. Isto claro nas horas vagas, já que ambos tinham responsabilidades. Por vezes Diogo, ia busca-la ao trabalho, no Colégio Cristo-Rei, e era convidado para jantar em casa de Maria Paula.
Enquanto eles viviam a felicidade dos jovens enamorados, o vulcão
da revolução rugia e contorcia-se prestes a explodir.




                Fachada e área de recreio do Colégio Cristo-Rei em Luanda
                                               fotos minhas.



1.3.15

MARIA PAULA - PARTE VI



                                           cinema Restauração. A foto é do Google, desconheço o autor.
Em Julho de 73, os pais de Maria Paula mudaram-se para a Paiva Couceiro. Um quarto andar, por cima do Bazar Oriental, mesmo em frente à Missão de S. Paulo. Muito mais perto para Maria Paula, que como gostava de caminhar, muitas vezes fazia o trajecto para o emprego a pé, atenta à vida que fervilhava à sua volta.
Naquele dia, um sábado de Setembro, Maria Paula saiu do cinema Restauração, onde tinha ido assistir a estreia do filme “Nosso amor de ontem” com Barbara Streisand e Robert Redford, artistas muito em voga na altura, quando esbarrou com Diogo, que vinha do estádio dos Coqueiros, onde assistira a um emocionante jogo de futebol, entre o Atlético Sport Aviação, vulgo “ASA” e o Sport Luanda e Benfica, vulgo “Águias de Luanda”. Com a naturalidade que se vivia em Luanda, (quem lá esteve nesta data, sabe que contrariamente ao ambiente fechado que se vivia em Portugal continental, nas províncias ultramarinas havia um à-vontade e uma naturalidade entre as pessoas, que lhes permitia dispensar grandes formalidades,) - os jovens não precisaram de quem os apresentasse para entabularem uma agradável conversa.  



                    estádio dos Coqueiros. Foto do arquivo digital de Aveiro


Foi amor à primeira vista? Talvez. Porém se não foi amor foi uma empatia muito grande. Diogo não era um jovem imberbe como a maioria dos jovens militares de passagem por Luanda, embora ele estivesse na cidade a cumprir uma comissão militar. Ele era advogado em serviço no comando naval de Angola, na cidade. E era capaz de jurar que nunca, nos seus vinte e oito anos de vida, tinha visto uma jovem tão bela. Maria Paula tinha alguns amigos militares. Poucos. E nunca se tinha entusiasmado por nenhum. A maioria deles tinham namoradas no "Puto". Estavam ali em missão, só queriam passar o melhor possível o tempo em que não estavam no quartel, ou nos acampamentos militares. Conhecia muitas jovens que se deixavam enfeitiçar, faziam projectos para o futuro, e depois acabada a comissão os jovens partiam com a promessa de voltarem quando acabassem o serviço militar e nunca mais voltavam. Algumas iam mais longe e o resultado era mais uma criança sem pai. Contudo ao conhecer Diogo, sentiu que o seu jovem coração se abria para a vida.
Consentiu que o jovem a acompanhasse a casa, e acabou aceitando um convite para ir ao cinema no dia seguinte.