31.1.15

QUEM SABE FAZ A HORA... FINAL


-Vem comigo Sandra, vamos até lá fora. Está sufocante aqui.
- O que te sufoca, são os teus receios, não o ar aqui dentro - retorquiu-lhe a amiga.
Saíram. Na rua alguns jovens conversavam. E estava frio. Mas estranhamente Cecília sentiu-se bem.
- Será que ainda demora? E será que vem mesmo?
- Claro que vem. Tem calma. Vamos voltar para dentro que está frio.
Entraram. E Cecília voltou a embrenhar-se nos seus pensamentos. Lembrou do sofrimento que lhe causara a morte do marido. E do luto que a si mesma impôs. Mas depois... com o passar do tempo, não era mais a figura calma e doce do marido que ela recordava, mas o jovem impetuoso e apaixonado que ficara em Portugal. Tentou esquecer. E tentou refazer a vida. Em vão. Pela amiga com quem falava quase todos os dias no chat, sabia da vida de João. Dos seus desvarios, das noitadas, da vida de excessos de celibatário. E a ideia começou a germinar. Resolveu voltar e procura-lo. Disse-o a Sandra que a incentivou.
Lembrou-se da avó, que costumava cantar:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Despediu-se do emprego e marcou viagem. Só depois contou aos pais, a quem prometeu, que mandaria notícias tão depressa tivesse a vida organizada. E depois quem sabe, também eles voltariam para a sua Lisboa de que tinham tantas saudades. E agora ali estava ela, esperando ansiosa, e disposta a lutar, para conseguir a felicidade com que sonhava desde menina, ao lado do homem que sempre estivera dentro do seu coração. Sentiu a mão da amiga apertar os seus dedos, e ao olhar para a porta, todo o seu corpo estremeceu, enquanto as suas faces se ruborizavam, ao reconhecer a figura masculina.
AGORA era a hora...

Fim



Elvira Carvalho 







 Quero agradecer todo o apoia que recebi durante o período em que estive bastante doente. Não que esteja totalmente recuperada, mas estou francamente melhor, e com a continuação do tratamento espero ficar bem. 

29.1.15

QUEM SABE FAZ A HORA... PARTE III


Cecília era uma bela mulher. Alta, morena, corpo curvilíneo, e um rosto onde se destacavam dois belos e expressivos olhos verdes. Boca pequena e carnuda, ladeada por duas pequenas covinhas sempre que sorria. Tinha acabado de fazer 36 anos, e estava em toda a plenitude da sua beleza.
Há muitos anos atrás era quase uma menina, tinha namorado o João. Na verdade ele fora o primeiro e único amor da sua vida, muito embora outros homens tivessem entrado nela.
- Então amiga, arrependida? - perguntou Sandra.
- Bem sabes que não. Mas estou apreensiva. E se depois de me ver, ele não sentir nada? Tenho medo: - disse baixinho. Tão baixinho que Sandra mais adivinhou que ouviu. E perdeu-se de novo nas suas recordações.
No final dos anos 80 muitas empresas abriram falência, muita gente perdeu o emprego. O pai de Cecília fora um dos que se viram de um momento para o outro sem emprego. O irmão, que emigrara há anos para o Brasil, insistia para que ele fosse para lá. Artur resistia, (apesar das saudades que tinha do irmão, e dos pais que já tinham ido), por causa da esposa e da filha que não mostravam vontade em sair de Lisboa. Perdido o emprego, e sem grandes esperanças de conseguir outro que lhe permitisse o mesmo nível de vida, não lhe restou outra coisa que convencer a mulher e a filha a fazer as malas.
No Brasil, Cecília levou muitas noites sem dormir. Chorando de saudades. De Lisboa, dos amigos e principalmente do João. Escreveu longas e inflamadas cartas de amor, que nunca enviou. Com o passar do tempo, as lágrimas foram secando. Um dia quase sem dar por isso viu-se noiva do primo. Influenciada pelos pais, pelos tios, e também pelo devotado amor que Alberto lhe dedicara desde o dia em que a conheceu. Para Cecília, tanto fazia. O seu coração tinha ficado lá longe. Só a avó se preocupava. Que ela não parecia uma noiva feliz. Que ela não demonstrava a alegria de uma noiva. Mas ainda assim Cecília casou num dia de Santo António. Um casamento que durou três anos. Três anos dum enlace, onde havia respeito, amizade, e carinho, mas onde nunca houve pelo menos da sua parte, desejo, ou paixão, muito menos amor. E não fora aquele fatídico acidente, que vitimara Alberto, talvez Cecília se tivesse resignado àquela vida. Ou talvez não, quem sabe.

26.1.15

QUEM SABE FAZ A HORA... PARTE II

Acordou sobressaltado com o toque do telefone. Atendeu e do outro lado uma voz maviosa, falou o seu nome. Ficou surpreendido e irritado. Quem tinha o desplante de lhe ligar, numa hora tão imprópria.
-João, estás-me a ouvir? Fala a Cecília, não te lembras de mim?
- Bom... - gaguejou João enquanto tentava descobrir, quem raio era aquela Cecília, que parecia conhecê-lo tão bem.
- Estou a ver. Não te lembras de mim é o que é. Devia ficar zangada sabes? Não te lembrares da tua primeira namorada...
- Cecília Pedrosa? - perguntou incrédulo, levantando-se de um salto.
- Ah! Afinal lembras-te - disse, soltando uma sonora gargalhada.
João raciocinava a mil. Cecília Pedrosa. Mas então ela não estava no Brasil? E como é que se lembrara de lhe telefonar? E como obtivera o nº do seu telefone?
- Cheguei ontem do Brasil. E acabo de encontrar a Sandra que me deu o teu nº.
“Diabos, parece que escutou os meus pensamentos”, pensou.
- Olha, - continuou Cecília do outro lado. Estamos aqui em Alcântara, num barzinho que tu conheces bem, segundo diz a Sandra. Não queres vir ter connosco?
Sandra era a irmã do Zé. O bar só podia ser o que costumavam frequentar. Sandra era uma boa amiga. Não daria o seu número, a qualquer uma.
E depois Cecília tinha sido a sua primeira namorada, ainda antes da faculdade. Mas depois fora para o Brasil e nunca mais soubera dela... Estaria casada?
- Então João? - a voz do outro lado soava com impaciência
- Eu vou - numa fracção de segundo João resolvera arriscar. Afinal era noite de Sexta-feira, no dia seguinte poderia dormir até tarde.
Desligou o telefone e dirigiu-se ao quarto para se vestir. Veio-lhe novamente à memória, uma pergunta? Estaria casada? Sacudiu a cabeça. Decerto que não. Uma mulher casada, não telefona a um ex-namorado convidando-o a sair. Continuaria bonita? Já lá iam uns bons anos. Mentalmente fez contas. Deve estar com 36 anos, murmurou para si enquanto fechava a porta.
E caminhando a passos largos dirigiu-se ao elevador.



24.1.15

QUEM SABE FAZ A HORA... PARTE I





Naquela noite João chegou cedo a casa. Estava muito cansado. A tarde no escritório, fora de arrasar. Há dois dias que Helena, a colega, estava doente. Ele tinha agora o dobro do trabalho. Normalmente nem se queixava. Gostava da sua profissão, e não ganhava mal. Mas agora andava muito cansado. Física e espiritualmente. A idade começava a pesar. Não que fora velho, longe disso. Acabara de fazer 40 anos e era um belo homem. Mas um homem chega a determinada altura e começa a não achar graça, às saídas com os amigos, às ressacas do dia seguinte, e principalmente a chegar a casa e sentir sobre si o peso da solidão.
Mergulhado no confortável sofá, João pensava que era chegada a hora de dar um novo rumo na sua vida. Pensou em quantos dos seus amigos de infância estavam solteiros.
O Zé, o Nuno, - não o Nuno casou o mês passado - pois, era ele e o Zé.
Pegou no comando e desligou a TV. Não lhe apetecia ver nada. Mas também não tinha vontade de ir para a cama. Engraçado, começava a achar a cama grande demais. E vazia, como tudo o resto naquela casa. Olhou à volta. O silêncio ensurdecia-o. Lentamente levantou-se e foi até à janela. A noite estava fria, mas o céu estava estrelado. Mergulhou os olhos na escuridão. Nada. Não se via nada nem ninguém. Pudera com o frio que fazia, quem iria para a rua. Voltou para o sofá inquieto.
Voltou para o sofá inquieto.

Acendeu um cigarro, e apagou-o de seguida. Recostou-se no sofá, fechou os olhos e, a pouco e pouco, foi relaxando até acabar por adormecer...




A saúde continua periclitante. Já estou bem dos olhos, da otite, da sinusite, da faringite. Mas a tosse alérgica não me larga. Estive quase 3 dias sem tossir, mas a partir de quarta voltei a piorar.  Mudei o anti alérgico. Vamos a ver se resulta.

17.1.15

NOTÍCIAS

Peço me desculpem a ausência, mas continuo doente.Adoeci no dia 3 depois de uma crise de refluxo, que me provocou tosse alérgica. Depois de uma primeira ida às urgências, não ter resolvido o problema fui na segunda feira a uma consulta. Fui bem atendida a médica era a minha médica de família que me mandou continuar com alguns dos medicamentos receitados antes e me acrescentou o Codipront, pois depois de demorada auscultação não detectou nada a nível de pulmões ou brônquios. A tosse seca alérgica é uma velha "amiga" que raramente deixa passar um ano sem me visitar. Só que é tão brutal, que sempre desencadeia outras coisas pois não me deixa comer nem dormir e ao fim de poucos dias estou de rastos. Desta vez despoletou-me uma crise de sinusite, deixou-me completamente sem voz durante 3 dias e por fim quando já estava francamente melhor, e já tinha recuperado a voz, provocou-me uma inflamação na articulação do maxilar e como não chegasse uma conjuntivite, pelo que tive de voltar ontem à médica que me receitou isto, e me disse para evitar estar em contacto com outras pessoas e principalmente crianças porque a conjuntivite é altamente contagiante.



 "E se não estiver melhor na Segunda feira telefona-me que eu marco-lhe uma consulta para voltar a observá-la".
E enquanto eu tento pôr-me boa, desejo-vos um bom fim de semana, e deixo-vos com um pequeno poema, que não é novo, mas acredito a maioria de vós não conheça


                                 O MAIS DIFÍCIL



O mais difícil
hoje
não é sonhar
ainda que
o sonho
seja pérola negra
aprisionada
na ostra
do quotidiano.

O mais difícil
hoje
é inventar a Vida
no espaço agónico
da sobrevivência.


elvira carvalho

12.1.15

BRUNO


                     Reprodução de parte de um afresco de Pisanello




Três horas da madrugada. No quarto às escuras um homem, está sentado na cama, com a cabeça entre as mãos. De vez em quando um ronco surdo quebra o silêncio em que a casa está mergulhada. Bruno sabe que é o pai no quarto ao lado. Desde menino habituou-se a ouvir aquele ronco. É-lhe tão familiar que há muito deixou de o ouvir. Ou pelo menos, não chega para lhe perturbar os pensamentos. Que diga-se em abono da verdade, são bem perturbadores. Bruno é um homem jovem. Completou à pouco vinte e sete anos. Baixo, faltam-lhe alguns centímetros para o metro e sessenta, e isso, sempre foi um pesadelo para ele. Porque apesar do rosto perfeito, ele sempre estivera abaixo da média em altura. Desde a escola, onde os outros meninos, lhe chamavam, anão, ou meia-leca. Ou mesmo quando rejeitavam a sua presença nos jogos do recreio. As crianças podem ser extremamente cruéis sem se darem conta, nem deixarem cair o sorriso.
Bruno foi crescendo sentindo-se rejeitado por uma sociedade que avalia os homens em centímetros e não pelo carácter. Aos 16 anos apaixonou-se por uma colega de escola. Levou todo um período a ensaiar as palavras para se declarar. E ela riu-se dele. Desde esse dia a revolta instalou-se-lhe no peito, e como erva daninha foi devorando tudo de bom que havia nele.
Aos 19 anos abandonou os estudos. Era bom aluno mas perdera todo o interesse pelos estudos. Foi considerado inapto para a tropa.
Por essa altura o irmão mais velho casou-se e foi viver para os arredores. Pouco depois o pai emigrou para a França. Era um bom carpinteiro, arranjara um contrato muito atractivo, e seria a hipótese de conseguir ganhar um bom dinheiro e construir a casinha com que sonhava, já que o terreno lhe deixara um tio em testamento.
Sem o pai e o irmão mais velho, Bruno sentiu-se amputado de parte de si mesmo. Como se precisasse de bengalas para caminhar, e de repente lhas roubassem.
Ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa.. Não falava com ninguém, a não ser no trabalho nos assuntos que precisava tratar com os colegas. Não gostava de ler. Os livros retratavam personagens completamente opostos ao que ele era. Os filmes a mesma coisa. Odiava futebol, porque lhe recordava a exclusão que sofrera por parte dos colegas em criança.
Dia após dia, Bruno caía no poço sem fundo da depressão.
A mãe, era boa pessoa, mas não entendia o que se passava com ele. Às vezes dizia-lhe para sair, se divertir, que parecia um velho. Bruno encolhia os ombros e não respondia.
Uns meses atrás o pai terminara o contrato de trabalho em França e regressara cheio de planos para a tal casinha.
Estranhara ver o filho tão macambúzio, mas pensara. ”É muito jovem, tem a vida pela frente, aquilo passa-lhe.” Ainda assim disse-lhe:
-Ó rapaz vê lá se arranjas uma namorada. Olha que na tua idade eu já era vosso pai.
Um mês depois o irmão fora pai, e os pais, viviam “babados” nas gracinhas do neto.
Bruno sente um enorme apelo para a suicídio.Há meses que pensa nisso. A ideia de suicídio, chegou de mansinho,e  quase sem ele dar por isso foi-se insinuando a toda a hora. Pensa que seria o remédio certo para todos os seus medos, as suas angústias.Um ponto final, numa vida sem história. Como se fosse um sinal, no quintal o galo canta. Bruno põe-se de pé e de mansinho, abre a porta da cozinha e sai. No céu estrelado uma redonda e esplendorosa lua derrama para o quintal, uma luz intensa.  Ao fundo a casa das ferramentas. No meio do quintal um pilar de ferro, donde parte um arame que passa pelo terraço por cima da casa de ferramentas. O estendal da roupa. Como um autómato, vai à casa das ferramentas e sai com uma corda e um pequeno banco. Faz um laço numa das pontas, passa-a pelo pescoço, sobe para o banco, amarra bem a outra ponta no pilar de ferro, e depois de tudo pronto, sem hesitação, derruba o banco.
Nesse momento uma nuvem encobre a lua, e a escuridão cai sobre a madrugada. 



Elvira Carvalho


Continuo doente. Amanhã vou de novo ao médico. 

9.1.15

VENHO CONTAR-TE ESTRANGEIRO


Venho contar-te estrangeiro


Venho contar-te estrangeiro
do meu país
Portugal
Aos teus olhos de estranho vou mostrar
as aldeias esquecidas de Trás-os-Montes
onde os campos raquíticos não dão pão
Terras, só terras, sem água, sem luz
sem escolas
sem homens
que já se cansaram da fome
herdada
desde longínquas gerações.

Venho contar-te estrangeiro
do meu país
Portugal.
Aos teus olhos velados pela cegueira
das campanhas turísticas.
Aos teus olhos que erram pelas praias
banhadas de sol.
Venho contar-te estrangeiro
As horas de incerteza e de angústia
vividas pelo meu povo
que pela fome, o mar tornou seu escravo.
E...venho contar-te mais
desta terra onde nasci...
Onde os homens nascem
vivem
e morrem
sem consciência de terem vivido.
Terra de homens-escravos
do tempo
das máquinas
do dinheiro.
Sacos de pancada
da própria vida.


Venho contar-te estrangeiro
do meu país
Portugal.
Deste país que já não é só de poetas
porque um dia
um punhado de homens acordou
quebrou as amarras do medo e lutou.
Era Primavera e os cravos floriram.
Na terra dos homens-escravos,
A Revolução nasceu.


 Mas, hoje...
quando o desalento mata a esperança
quando o desemprego cria raízes no meu país
e o meu povo envelhece desiludido
olhando as pétalas secas dos cravos.
Hoje...
Quando os homens se esquecem dos sonhos
e voltam a ser escravos.
Hoje, estrangeiro
como eu queria acordar este país
com a revolta que me rasga o peito
e gritar
EU AINDA QUERO 
UM PORTUGAL DIFERENTE





Iniciei mal o ano de 2015 a nível de saúde.  Ontem recorri a uma consulta de urgência fui medicada e embora esteja longe de estar boa, estou um pouco melhor.