23.9.15

JOÃO O LOUCO


Encontrava-me sentada na soleira da minha porta. Tinha por hábito sentar-me ali todos os dias à tardinha. Gostava de ver o sol esconder-se, atrás do rio, que se via lá longe, e que vinha espraiando-se até quase à minha porta. Gostava de ver os bandos de passarinhos que regressavam, sabe-se lá de onde, enquanto os grilos iniciavam os seus cantos, e as luzes começavam a aparecer do outro lado do rio. O sol desaparecera há pouco. Lá longe apenas aquele clarão avermelhado, sobrepondo-se ao azul do céu.
Ouvia-se o bater de remos na água. Chap...chap...chap...
Logo depois vozes fortes sobressaindo por entre o bater dos remos. Nestes rios de águas salgadas, afluentes de outros rios, abundam pequenos peixes, como a tainha, a boga, os chocos e xarrocos. Ao cair da noite, se a maré está cheia, os pescadores vão pôr "o cerco" Umas redes colocadas em círculo, presas por estacas. Quando a maré começa a vazar, todo o peixe que estava naquele perímetro tenta fugir e fica preso nas redes. Mais tarde, com a maré já vazante,, mas ainda com água suficiente para a navegabilidade dos botes, os pescadores recolhem as redes onde o peixe ficou preso. Às vezes meu pai deixava-me ir no bote para ajudar.
Nos finais de Outubro os dias são já bem curtos, pelo que a noite caiu rapidamente. Aos meus ouvidos chegou a voz de um grupo de homens que eu ainda não via mas que se aproximavam e eu sabia bem quem eram. Os trabalhadores da quinta regressavam às suas casas falando alto como de costume. Falavam das dificuldades da vida, dos seus ordenados por demais pequenos para cobrir as necessidades, duma esposa ou filha doentes. E falavam do tempo e do futebol. Sim o futebol era tema constante das suas conversas.
-Vamos ter chuva - dizia o ti 'António Moço que por ironia do destino era o mais velho dos trabalhadores
-Parece que sim, - retorquiu outro, e acrescentou. - Está mau este ano para a Seca. Com este tempo de chuva que tem feito, nem o pessoal ganha nada de jeito, nem o patrão que o bacalhau que se estraga só dá prejuízo.
- Pois sim Bernardino, mas nós ficamos sempre pior. Com os dias de chuva do mês passado, levámos mais de 15 dias sem trabalhar, e sem ganhar. E o pior é que comemos todos os dias.
-É verdade. Nem me quero lembrar disso. O dinheiro não chegou para pagar ao merceeiro. Isto de um homem levar um dia inteiro, de enxada na mão, exposto às condições do tempo e depois não ganhar para comer...
Passavam agora à minha porta. E foi nesse momento, que o Bernardino, mais inconsciente, talvez por ser o mais jovem, mudou o rumo à conversa.
Ó! Ti’António e que me diz à vitória do campeão no Domingo?
As vozes foram ficando cada vez mais longe e já não consegui ouvir a resposta.
- Olá pequena!
Olhei sobressaltada
-Olá ti'João, então só agora?
-É verdade. Estive ali sentado na muralha a ver os pescadores. Ah! Quem me dera ir com eles pôr o cerco. Mas isto é a vida. Enquanto um homem é novo, farta-se de trabalhar, chega a velho e pronto; não pode com as pernas, as mãos tornam-se inúteis e adeus, era uma vez um velho.
-Ora não diga isso ti'João, ainda não é tão velho assim...
-Não filha - interrompeu-me ele, - ainda não estou a morrer, mas olha que já faltou mais. Ah! Se o meu filho fosse vivo, outro galo cantava.
- Morreu em África não foi? -
- Morreu. E olhe que era um rapagão. Alto forte, moreno dos ares do campo e do mar. Não era por ser meu filho, mas levava a palma a qualquer rapaz cá da terra. Foi para a tropa, e em menos de um ano fiquei sem ele.
- Coitado - murmurei, e levantando a voz perguntei:
- Morreu na guerra?
-Sim. Oh! Malditas sejam as guerras que levam o sangue novo da humanidade. Veja lá a menina, se vale de alguma coisa a vida de um homem, na flor da idade e cheio de saúde, na frente duma metralhadora. Nunca foi doente, nunca sofreu de nada, sonhava casar-se, ter filhos…
Calou-se por momentos. E continuou em voz sumida como se falasse apenas para ele mesmo.
-Dizem que o meu filho foi um herói e deram-me uma medalha. Medalha! Bah! Que me importa a mim a medalha? Ela não me acarinha, não conversa comigo, quando à noite me vejo em casa sozinho, nem me dá o neto que me tornasse mais doce a velhice, -terminou num soluço rouco.
Passou-me pela memória o facto de lhe chamarem João, o Louco. É possível que estivesse doido sim, mas de sofrimento, de dor.
-Vamos lá ti'João, acalme-se. Não remedeia nada com isso, e o seu filho não havia de gostar de vê-lo assim.
-Tem razão menina, mas que quer, às vezes parece que tenho umas garras no peito que me rasgam de alto a baixo. E penso, que para as guerras, só deveriam ir os velhos. E morrer lá todos. E connosco, os ódios e rancores para tirar toda a peçonha da terra. Talvez assim o mundo ficasse mais justo.
- Filha! Anda para dentro que já é muito tarde, -chamou minha mãe.
-Vou já, mãezinha, vou já.
- Vá sim menina, vá. Se calhar ainda não jantou, e já vão sendo horas. Eu também vou indo. Até amanhã.
- Até amanhã, - e fiquei-me a vê-lo afastar-se até que a escuridão da noite o tragou
- Com quem falavas tu há tanto tempo? - Perguntou minha mãe
-Com o ti'João do Moinho.
-Ora valha-te Deus filha, se dás conversa a doidos.
Doido?
 


Ontem passei junto ao rio, no lugar onde há muitos anos esteve a minha casa. E que saudades senti, da minha soleira, do cantar dos grilos, do pôr-do-sol, do bater dos remos na água, das conversas, dos homens do campo, e do pessoal da Seca. Saudades de uma juventude que se perdeu algures numa longínqua estação do tempo. E de repente pareceu-me ouvir a voz do ti'João. Não pude deixar de pensar que em algum lugar terá enfim reencontrado o filho e quem sabe hoje será feliz... 

32 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo e delicioso texto, e como é bom reviver e lembrar tempos passados.
Um abraço e continuação de um bom dia.

✿ chica disse...

Que lindo te ler e tuas recordações tão pertinentes e marcantes.Saudades expressas! bjs, chica

Existe Sempre Um Lugar disse...

Bom dia, texto perfeito que revela a pureza da vida, Tio João tem razão quando diz. "as guerras levam o sangue novo da humanidade" faltou dizer que através do sangue novo da humanidade, os provocadores da guerra ficaram mais ricos e impunes ás suas responsabilidades.
AG

Dorli Ramos disse...

É Elvira,
A vida é ingrata, quando não levam nossos filhos, levam nossas esperanças, pois as drogas estão soltas e temos que cuidar e observara
Deixei um recadinho pra você lá no meu blog
Beijos
minicontista.

Edumanes disse...

Histórias passadas, bem contadas por amiga Elvira, falando com o ti'João, à noitinha ao por do sol. Ouviu os homens falarem das dificuldades da vida e de futebol. O Ti'João, falou da morte do filho na guerra em África. Dizendo que lhe deram uma medalha. Também eu digo, para que é que serve a medalha? Se não restitui a vida do seu filho morto numa guerra, estúpida, imposta pelo regime deposto na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, pelo revolução dos cravos! Viva a liberdade sempre! Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

Majo disse...

~~~
Vim ler o fim do seu interessante conto autobiográfico.

~~~
Há pessoas que nos marcam positivamente para a vida...

~ Já tinha um espírito curioso e grande sensibilidade.

~~~ Abraço amigo.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Elvira!
É muito triste perder filho!Tio João tem muita razão!
Mas recordar é sempre muito bom.
Lindo texto Elvira!
Abraços, e uma boa tarde!
Mariangela

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Texto comovedor, do começo até à nota final.

Beijos

Isa Sá disse...

Bonito texto.

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma leitura agradável. Muitas noites isso aconteceu por aqui onde não há rio nem pescadores,mas gente do campo de rosto "tisnado" pelo tempo.

Gente que ia e que vinha acordada pelo relógio da torre que marcava o início do dia.Gente sofrida de fome e de maus tratos dos donos das terras que pouco lhes pagavam e muito lhes exigiam.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Teu conto deixa-me o sabor
saudoso de um neo-realismo
há muito perdido

Precisamos do regresso às palavras simples


Pedro Coimbra disse...

Quantos João perderam os filhos, os sonhos, o juízo, por causa de guerras estúpidas, Elvira Carvalho!!
E continuam a perder.
Chamem-se João ou outra coisa qualquer.
Um abraço

Maria Teresa de Brum Fheliz Benedito disse...

É muito gostoso ler você querida Elvira.
Ouvir o Ti'João e amenina foi bom demais,m me deu saudade de vovô e de sua histórias.
Grande beijo em seu coração e felizes dias.

Vera Lúcia disse...


Olá Elvira,

Em primeiro lugar, obrigada por sua amável visita. Terei prazer em recebê-la sempre que puder passar pelo meu recanto.

Você escreve muito bem.
O texto/crônica é envolvente e emociona no final.
Guerras ceivam vidas inocentes e destroem a juventude de uma nação, gerando dor, mágoa e sofrimento. Não deveriam existir, já que Deus deu o dom da palavra a todos nós e diálogos deveriam ser suficientes para eliminar eventuais desavenças entre os povos. Contudo, a vaidade e o orgulho dos Chefes de Estado se sobrepõem ao bem estar de seu povo.
Saudades de tempos outros sempre nos acometerão quando passarmos por lugares em que vivemos belas experiências e histórias.
Adorei ler esta bela prosa.

Beijo.

Ana S. disse...

Perder um filho é motivo mais que suficiente para enlouquecer. Ainda por cima quando as vidas são ceifadas por guerras inúteis, sem sentido.
Gostei do texto!
Abraço

José Lopes disse...

Doces memórias que ficam para sempre na memória...
Cumps

ONG ALERTA disse...

Perder ninguém quer e d pois se vive de recordações bjbjbj Lisette.

LopesCa Blog disse...

Belo.
Deixo um sorriso e desejos de bom fim de semana

cesar farias disse...

Escreves para pessoas simples, num tom fluente,sem frescuras adverbiais. Eis-me aqui. Hoje é sexta-feira.

Abraço

Isa Sá disse...

Para quando um livro?

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

António Querido disse...

Bonita e triste história, dos tempos que passaram a correr, para nunca mais regressarem e com eles levarem pessoas que ainda hoje são recordados e para sempre ficarão na nossa memória, de seguida seremos nós a embarcar nesse barco sem regresso, mas a vida continuará!
Bom fim de semana amiga.

AC disse...

Oxalá muitos tivessem a "loucura" do Ti João, o mundo seria bem melhor, mais humanizado.
Muito bem narrado, Elvira!

Um beijinho :)

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
UM BELO TEXTO, FALANDO DE AMOR, GUERRAS E SAUDADES.
ABRÇS
-http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Berço do Mundo disse...

Cara Elvira, deixei-me embalar pelas suas recordações. Mas a estória das botas? Não tem continuação? Espero que não nos deixe assim, nesta ânsia, sem saber o que se passou a seguir...
Com certeza, o sr. João está muito mais feliz agora.
Beijinho, um lindo domingo
Ruthia d'O Berço do Mundo

esteban lob disse...

Lejana y bella historia, Elvira.

Abrazo intercontinental.

Ane disse...

Oi Elvira!Gostei demais do seu texto,das recordações...
Os mais velhos sempre têm muito pra nos ensinar,muitas lembranças,sabedoria e mágoas também.Aprendemos muito com eles.Aqueles que alguns chamam de doidos,na verdade,são ótimas pessoas e têm muita razão no que dizem.Um abraço!

Janita disse...

A solidão já foi 'denominada' a doença do século XXI.
Ao ler esta pungente narrativa, senti e compreendi a tristeza do senhor João!
Quantos 'loucos' estão internados em lares ou vegetam sozinhos, em suas casas, sem o conforto de um carinho ou de uma palavra amiga, alguns até com filhos vivos?
Quando a dor fala poucos a compreendem, por isso lhe chamam loucura, Elvira!
Excelente narrativa de uma realidade triste. E que bem a Elvira nos sabe envolver nos seu relatos, fazendo-nos sentir a dor de quem sofre!

Um beijinho amigo e uma boa semana.

Janita

Kalinka disse...

HISTÓRIAS ...
umas verdadeiras outras de ficção.

Parabéns Elvira, escreve muito bem.
O texto envolve e emociona no final.
...
Adorei ler!

...
Nos meus blogues vou também contando HISTÓRIAS bem reais.
Num deles falo de MIM
momentos não muito bons da minha Vida
Num outro conto passeios com os meus netos
e, no "Momentos Perfeitos"
falo de um filme que fui ver e adorei:
Fui ver o filme porque achei o argumento muito interessante e original.
Também foi recomendado pelo meu "Afilhado"!
Gostei do filme, embora se trate de um filme simples,
é um filme bem realizado, com boas interpretações, que nos transmite
uma mensagem de amor filial e que ainda nos dá algumas partes cómicas.
Vejo pouco cinema francês!
"Família Bélier" é um filme de deixar as pessoas na sala sentadas
quando o filme acaba, ainda no escuro, para que ninguém veja
as lágrimas que rolaram naturalmente, porque comove.
É um filme onde se canta sem ser um musical...

Enfim, é aproveitar antes que saia de exibição.
Abraço meu Elvira

TULIPA / kalinka

Lilá(s) disse...

Que delicia de texto!
Depois de uma pausa forçada, estou tentando voltar aos blogs amigos.
Bjs

Laura Santos disse...

Que maravilha de conto, Elvira!
Recordações comoventes de uma infância e adolescência que passou, mas cujos episódios marcantes ficam para sempre guardados.
Ti João, "o louco" que apenas tinha dentro de si uma dor imensa!
Gostei muito, Elvira!
Tenha uma boa semana.
xx

paideleo disse...

Se doido é dicir grandes verdades o tio Joaô estaba ben doido.

Socorro Melo disse...

Oi, Elvira!

Nossa, que história emocionante! E a humanidade ainda não aprendeu que a guerra não serve pra nada, a não ser para destruir. Quantas vezes se rotula as pessoas sem o conhecimento da sua realidade, do seu sofrimento. Quantos como o ti' João, amargam sua solidão sem ter quem lhes escute ou console? Fica a lição, para todos nós.

Grande abraço
Socorro Melo