14.8.15

CARLOTA - PARTE VII








O problema é que António queria casar, e Carlota não o podia fazer, pois já era casada, e em Portugal não havia divorcio. Porém quando um homem e uma mulher se amam de verdade, não há obstáculo, intransponível.
Depois de algumas saídas, em que ambos falaram das suas vidas, das más experiências, da dor porque cada um passou, e dos sonhos que ainda queriam viver, Carlota, pensou, que devia aproveitar a oportunidade que a vida lhe dava, e ser feliz. E decidiu ir viver com António. Foi um escândalo, pois naquela época dizia-se que viver amancebado, não era para cristãos. Além das discussões com a irmã e o cunhado, choveram cartas do resto da família, dizendo a Carlota para ter juízo, era um escândalo, e um pecado. Afinal ela era casada, e tinha jurado fidelidade ao marido. Ela não se importou. Tinha-lhe sido fiel, durante anos, sem nem sequer saber por onde ele andava, e apesar de todo o sofrimento que ele lhe infligira, durante o pouco tempo de vida em comum. Pela primeira vez na vida estava apaixonada. Sentia que todo o seu corpo vibrava, quando António a beijava, sentia desejos das suas carícias, queria sentir-se amada. Embora aparentasse pouco mais de trinta, ela ia fazer em breve 40 anos. Sabia o que sentia, e o que queria. E o que ela queria era ser feliz. Preocupava-se com a opinião do filho, e por isso apressara-se a mandar-lhe uma carta, dando conhecimento das suas intenções e pedindo a sua aprovação. Na volta, recebera uma carta, em que lhe dizia que seguisse o seu coração. E foi o que fez. Arrendaram uma casa nos Olivais e juntaram os trapinhos no início de Abril de 74.
Apesar dos seus sentimentos, e do desejo que a invadia, cada vez que António a beijava, Carlota temia a primeira noite, pois a vida amorosa com o marido, fora sempre uma penosa obrigação.  Sabendo o que ela sofrera anteriormente, e homem experiente, António, pôs em prática todo o seu conhecimento do que deve ser uma noite de amor, fazendo com que Carlota, fosse relaxando, substituindo o medo, pelo desejo, até acordar a mulher adormecida que havia dentro dela, e fazer com que se entregasse por completo.
Nunca, nem nos seus sonhos mais loucos, ela pensara que se podia sentir e viver assim.
Dias depois,o calendário assinalava o 25 de Abril, o país acordava com a revolução,  que mudaria o destino do povo português.
E com ela, não foi só o medo que se perdeu, nem a guerra que acabou. Com a revolução vieram novas ideias, as mentalidades como que se abriram. O povo começou a achar normal, situações, que até aí foram censuradas. A mulher ganhou uma nova dignidade, deixou de ser considerada como propriedade do marido.
Carlota era agora uma mulher feliz. Deixara de trabalhar, António, gostava que ela se dedicasse apenas à casa, ele tinha um pé-de-meia, amealhado nos anos de emigração, alugara uma oficina e trabalhava por conta própria. Era um bom mecânico, não lhe faltava trabalho.
Entretanto soubera que havia campanhas de alfabetização, e resolveu aprender a ler. O filho voltou da Guiné, conheceu o companheiro da mãe, que o tratou com cordialidade, e lhe disse que haveria sempre  naquela casa,  um quarto e um lugar na mesa para ele. Mais, se quisesse aprender o ofício, haveria lugar para ele na oficina. João agradeceu, dizendo que tencionava seguir a carreira militar, e despediu-se pensando que a mãe tivera muita sorte em encontrar um homem assim.
Depois, novos políticos, novas leis, o divórcio chegou a Portugal, e Carlota pode enfim pôr um ponto final no casamento, e casar com António, embora só no registo. Mas no íntimo ela estava em paz, Acreditava que se Deus pusera o marido no seu caminho, queria que ela fosse feliz. E ela era-o. O resto não interessava.



Fim




Maria Elvira Carvalho

24 comentários:

Luis Eme disse...

Abril é o começo de tudo...

abraço Elvira

✿ chica disse...

Que bom que ela conta com um marido legal que dela gosta e a apoia e é finamente feliz! bjs, chica

Edumanes disse...

Ora aí está! Até o 25 de Abril, colaborou para por fim um casamento que só já existia perante a lei e não perante o amor. E não impediu mais a Carlota, de seguir a vontade do seu coração e ser feliz!

Tenha um bom dia de quarta-feira, amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Que bom que deu tudo certo no final!
Você é uma boa contista, eu gosto de escrever contos em três séries e nem sempre tem um final feliz
Adorei
Beijos
Dorli

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que belo final feliz.
Gostei muito.
Abraços, e um dia abençoado,
Mariangela

esteban lob disse...

Antes en Chile tampoco había ley de divorcio, estimada Elvira. Hace pocos años se aprobó para bien o para mal. Creo que para bien.

Abrazo.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Gostei de ler e gostei do final feliz.
Um abraço e boa semana.

Rosemildo Sales Furtado disse...

A felicidade está no zelo, no carinho, na atenção, na confiança, na compreensão, na solidariedade, na reciprocidade do amor, etc. Nao num contrato firmado num pedaço de papel.

É como afirmei no comentário anterior, pelo histórico negativo dos dois, a felicidade teria que surgir. Belo conto Elvira! Parabéns!

Obrigado pela visita e amável comentário deixado no nosso Literatura & Companhia Ilimitada. Volte sempre. Rsrs.

Abraços,

Furtado.

ONG ALERTA disse...

Um final feliz .... Bj Lisette.

Silvana Maria disse...

Um final ótimo final feliz!.


www.studiocriativoarteemeva.blogspot.com

Rogerio G. V. Pereira disse...

"E a mulher ganhou uma nova dignidade"

As novas gerações deviam ler esta verdade

Janita disse...

Tudo está bem quando acaba bem!

Gosto de finais em que as pessoas alcançam o direito a ser felizes.

Parabéns, Elvira. É uma contista de mão cheia!

Um abraço!

Janita

Pedro Coimbra disse...

Um conto muito bonito e muito realista.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma parte da vida mais agradável.
Uma leitura agradável.
Penso que não podemos fazer pontes nem comparações,mas esta foi durante muitos anos a vida social portuguesa.

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Passando para lhe desejar um lindo dia e esperando um outro conto.
Adorei
Beijos
Dorli

animals of my faveourats disse...

Sim Abril foi o começo de tudo. Muita coisa mudou e a mulher
ganhou uma outra liberdade! Ninguém é propriedade de ninguém!!!
Infelizmente, presentemente as mulheres estão a ser mortos a
números alucinantes porque os ex-maridos ou ainda maridos,
não aceitam o fim da relação. Então estamos a regredir?!!!
Como sempre muito bem escrito o seu texto, a narração da
história.
Bj.
Irene Alves

Donetzka Cercck L. Alvarez disse...

Que história linda de amor e superação,querida amiga Elvira.

Quantas Carlotas nesse mundo devem passar por tantos obstáculos e desafios para viverem o verdadeiro amor!!!

Final feliz e adorei ler!

Obrigada pela visita e inteligente comentário.

Linda sexta-feira e final de semana

Beijos sabor carinho


Donetzka

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira, Parabéns pelo belo conto
Beijos no coração

José Lopes disse...

Todos temos direito de ser felizes, e o passado deve ficar lá onde está, no passado.
Cumps

Majo disse...

~~~
~ Uma estupenda contista que quando fala de amor,
sabe do que fala.

~ Parabéns, Elvira, pela fecunda criatividade e
por mais este brilhante conto.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

~~~ Abraço amigo. ~~~
~ ~ ~ ~ ~

António Querido disse...

A Carlota chamou o António, (não o da Figueira), e decidiu viver com ele, mas toda a vida do ser humano tem altos e baixos e temos que aprender a viver com eles!
Um bom fim de semana amiga Elvira.

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
CHEGUEI A TEMPO DE LER O ÚLTIMO CAPÍTULO, O QUE ME PERMITIU IMAGINAR O QUANTO DEVE TER SIDO BOM O CONTO TODO.
ESPERO PODER ESTAR AQUI DURANTE TEU PRÓXIMO TRABALHO.
ABRÇS E BOM FINAL DE SEMANA.
-http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Andre Mansim disse...

Acabou até bem né?
Gosto da simplicidade com que você conta ótimas histórias Elvirinha.
Muito bom!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Todos tem direito à outra chance para ser feliz!Belo final!