11.8.15

CARLOTA - PARTE VI

Foto de um aerograma, rebaptizado pelos militares de "bate-estradas"

Descansada com o filho, de novo em casa da irmã, Carlota dirigiu-se a casa dos antigos patrões, e contou à senhora o que lhe tinha acontecido. A senhora, ficou com pena dela, afinal estivera lá em casa quase dez anos, e deu-lhe uma carta de recomendação para uma amiga, que ela sabia andar à procura de uma pessoa competente e de confiança. Só que era em Cascais. 
A jovem não se importou. Ela queria e precisava trabalhar. Claro que a dona da casa ao ler a carta da amiga lhe deu trabalho na hora.
Carlota, regressou à vida de cuidar da casa e dos filhos dos outros, tentando esquecer a triste experiência, porque tinha passado, e cada dia mais descrente na humanidade.
A casa era grande e farta. Além de Carlota, havia uma cozinheira e uma babá para os meninos, que a ajudava nas tarefas da casa, quando os meninos estavam no colégio.
Dois anos depois, o patrão, diplomata, foi colocado em Paris. Carlota bem como as restantes empregadas, foram convidadas a acompanharem os patrões.
Em Portugal, não havia divórcio pelo que Carlota continuava casada, e embora nem sequer soubesse onde o marido parava, não podia viajar sem autorização dele. Parece ridículo, hoje, mas antes da revolução de Abril, era assim em Portugal.
Por isso, Carlota não pode aceitar. A patroa, passara-lhe então uma carta de recomendação, para uma amiga em Lisboa e assim não ficou sem trabalho. Os anos foram passando, o filho tinha completado 18 anos, alistara-se no exército como voluntário, e o seu coração de mãe, vivia o pavor de saber que mais dia, menos dia, ele seria destacado para a guerra nas colónias. E o que tanto temia, aconteceu em Janeiro de 74, quando o jovem foi para a Guiné, integrado numa companhia da PM.
Como Carlota não sabia ler nem escrever, quando começaram a chegar os aerogramas do filho, pedia a uma colega, a trabalhar na casa vizinha, para lhe ler as notícias e escrever as cartas de resposta. Tornaram-se amigas e surgiram as confidências.
Por essa altura, Dorinda, recebeu a visita de António, um irmão que regressara de França onde estivera emigrado por 12 anos. António, ficara viúvo aos 37 anos, quando a mulher morrera em consequência dum parto complicado, de uma menina que já nascera sem vida. Destroçado, António só queria partir para um local bem longe da tragédia. Foi por isso que emigrou. Primeiro para Espanha, onde trabalhou dois anos, e depois para França onde estivera mais dez. Quase a completar cinquenta anos, a mágoa atenuada pela passagem do tempo, António sentira que era chegado o momento de voltar, e de arranjar uma companheira para o resto da vida. Fora à terra ver a família, pais, irmãs, cunhados e sobrinhos. Aí lhe deram a morada de Dorinda, a irmã mais nova que vivia em Lisboa, na casa dos patrões para quem trabalhava.
Foi visitá-la, e ao conhecer Carlota, logo se interessou por ela. Contrariamente ao que seria de supor, Carlota, não ficou indiferente ao interesse de António. Bem pelo contrário, corava como uma menina, e sentia as pernas a tremer, quando ele a olhava com intensidade. Pela primeira vez na vida, Carlota estava apaixonada.



Uma excelente semana, para todos os que por aqui passarem.

11 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Depois de tomar uma atitude sensata, separando-se do marido violento, o "destino" a impede de ir viver em Paris, com os patrões, e ela, providencialmente, descobre o amor para, espera-se vir a ser feliz...Vamos seguir, acompanhando essa interessante história de vida da Carlota!

Edumanes disse...

Carlota apaixonada, o destino assim o quis,
dos olhos dela não tenha caído mais nenhuma lágrima
que toda a sua vida tenha sido muito feliz.

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

✿ chica disse...

Que lindo e que bom, finalmente Carlota vai poder ser feliz>Espero! bjs, chica

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Estou torcendo para essa paixão dar certo para não ferir seu triste coração.
O amor chega devagarzinho na vida de Carlota.
Beijos
Dorli Ramos

Pedro Coimbra disse...

Grande diferença com a minha prima - a minha prima tinha pouca instrução mas insistia em ser ela escrever as cartas que enviava.
Que tinham assim outro valor para quem as recebia.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que bom! Tomara que a Carlota finalmente seja feliz!
Abraços de um bom dia Elvira!
Mariangela

Janita disse...

Parece que as coisas se estão a compor para os lados da Carlota!

O diabo não há-de estar sempre atrás da porta...

...VIva o Amor!!

Um abraço

Janita

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um dia haverá de ser feliz. Quem sabe?

Existe Sempre Um Lugar disse...

Bom dia, acontece a todos o inesperado iluminado que oferece a felicidade, que seja assim com a Carlota.
AG

Rosemildo Sales Furtado disse...

Se ambos têm um passado de sofrimento, e se a paixão da Carlota for correspondida, acredito numa união feliz e promissora.

Abraços,

Furtado.

Andre Mansim disse...

É.... O amor chegando aí!
Mas sem divórcio... Hehehehehehehehe.