8.8.15

CARLOTA - PARTE V


O comportamento de Francisco começou a mudar seis meses depois. Primeiro foram as saídas à noite. Depois o dinheiro que lhe dava para a casa que foi encurtando até deixar por completo de lhe entregar dinheiro. Carlota fazia limpezas em duas lojas, mas o ordenado não chegava para as despesas da casa. Começou a questionar o marido, e ele tornou-se agressivo. 
A poucos dias de comemorarem um ano de casados, levou a primeira sova. 
Ficou com um olho negro, e várias equimoses espalhadas pelo corpo. Tudo porque ela queria dinheiro para pagar, a conta no talho e na mercearia.  
Por vergonha escondeu de todos o que se passava.  Até mesmo quando questionada pela irmã, ela disse que tinha caído na rua. Dias depois, o marido chegou a casa com um ramo de flores, pediu-lhe desculpa, jurou que nunca mais lhe fazia mal, deu-lhe dinheiro, e durante algum tempo tratou-a com carinho, parecia o homem dos primeiros tempos de casado.
Infelizmente para ela, essas alterações tornaram-se rotina. Ora lhe batia, ora lhe suplicava perdão e jurava mudar de comportamento. Ora lhe dava dinheiro, ora lho tirava e a deixava sem um tostão em casa. Carlota contou à irmã o que se passava, e disse-lhe que se queria separar do marido. A irmã disse-lhe que era uma vergonha, nunca ninguém na família se separara, o povo ia dizer que ela era uma perdida, e depois ela sabia que “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”. Carlota chorou, mas resignou-se, especialmente depois que descobriu que estava grávida.
Infelizmente não teve tempo para contar ao marido o que se passava. Naquela noite, o marido disse que ia sair e pediu-lhe o dinheiro, que dias antes, entregara para a casa. Ela negou, e depois de duas violentas bofetadas, o marido dirigiu-se à gaveta onde ela guardava o dinheiro.
Com as notas na mão tentou dirigir-se à porta. Carlota tentou impedi-lo e ele deu-lhe um encontrão que a derrubou na sua frente. Como se não chegasse ainda lhe deu um pontapé, que a apanhou em cheio na barriga.
Depois abriu a porta e saiu. A jovem ficou no chão contorcendo-se com dores. O filho, aflito, sem forças para a levantar, chamou uma vizinha.
A mulher ajudou-a a erguer-se e ao fazê-lo, Carlota deu-se conta que estava com uma hemorragia. A vizinha ofereceu-se para ir ao café chamar uma ambulância, (naquele tempo poucas pessoas tinham telefone em casa).
No hospital Carlota soube que acabara de perder o filho que esperava.  Ficou internada, pois surgiram complicações, foi operada e informada de que não mais podia engravidar.
O marido ia vê-la todos os dias. Chorava, pedia perdão, fazia promessas. Ela já não acreditava nele. Pensava que ele tinha uma amante. E se assim era, pois que fosse para junto dela. Soube depois que não havia tal amante. O marido era viciado no jogo. Contou-lhe a vizinha quando a visitou no hospital. Fora um sobrinho que lhe contara, “está empregado num desses sítios onde se joga,  e diz que já o viu perder muito dinheiro” dissera ela.
De qualquer modo ela estava decidida. Não voltaria para casa. Só precisava falar com, a irmã, e  pedir se lhe cuidava do filho. Ela não tinha dinheiro para alugar uma casa e viver com o filho. Agora dava graças a Deus, por Francisco nunca ter cumprido a promessa de perfilhar o garoto.
Assim, não podia exercer qualquer chantagem por causa dos direitos sobre o filho.
Depois, ela havia de se arranjar. Trabalho nunca lhe metera medo.




Um Feliz Domingo a quem por aqui passar.


14 comentários:

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira, Olha o conselho que minha mãe me deu antes de me casar. Se o seu marido tentar lhe bater, pegue uma cadeira e senta na cabeça dele. Não foi preciso, o que morreu, me adorava e o atual me da até os remedinhos.
Ela dizia que não há tempo para se defender.Se Carlota tivesse arrebentado a cadeira na cabeça dele, pode ser que não parasse de jogar, mas ficaria com medo.
Estou gostando....
Beijos
Dorli Ramos

Janita disse...

Dizem que o vício do jogo ainda é pior do que ser mulherengo!

Aguardo as decisões da 'Carlota', sem mais 'palpites'!!

Um bom domingo.

Um abraço

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Senti as lágrimas correrem. Revivi os meus tempos de menino.
Vi tantas caras marcadas pela violência doméstica.
Tempos tão difíceis em que a somar à fome ainda existiam estes brutamontes que não tinham respeito e se julgavam o sexo forte, os donos de tudo e com poderes para tudo...

✿ chica disse...

Jogo e violência, não podem dar certo num casamento! Tá lindo te ler! bjs, chica

António Querido disse...

Amiga Elvira, sigo com entusiasmo, não só a Carlota, como todos os episódios das suas histórias, gosto da maneira como as começa e como termina!
Quanto à história de Óbidos, é credível, pois lá em cima, nesse mesmo sítio dá para assustar, eu tenho medo das alturas desde que as pernas começaram a pesar, mas como os meus acompanhantes sabiam que tinha sido fuzileiro não quis dar parte de fraco e lá fui eu até ao cume, mas aí lembrei-me dos nossos antepassados "Generais sem medo", que tanto arriscaram pela Pátria e agora são o que nós sabemos...
Bom domingo.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

É terrível num casamento o jogo e a violência.
Gostei de ler este texto.
Um abraço e bom Domingo.

Magia da Inês disse...


Até tomar a decisão, ela sofreu muito!...

♪♬ه° ·.
Bom domingo!!!
Muita paz e tudo de bom!!!
✿˚° ·.

ONG ALERTA disse...

Ninguém precisa viver assim .... Bj Lisette.

Donetzka Cercck L. Alvarez disse...

BOM DIA,QUERIDA AMIGA ELVIRA.

ESSE TEXTO PARECE MUITO REAL E TRISTE,PORQUE CONHECEMOS PESSOAS QUE PASSAM POR ESSE DRAMA.A DECISÃO DE MUDAR DEVE SER TOMADA RAPIDAMENTE.


OBRIGADA PELA VISITA,QUERIDA.

FELIZ DIA DOS PAIS!

BEIJOS SABOR CARINHO

DONETZKA

Edumanes disse...

Tudo são rosas, em princípio!
a seguir vem os espinhos
enteado não é o mesmo que filho
do padrasto não recebe carinhos!

Tenha amiga Elvira, resto de bom domingo, um abraço,
Eduardo.

Pedro Coimbra disse...

E lembrei-me outra vez da minha prima - trabalho não lhe metia medo.
Foi de uma enorme coragem até ao último suspiro.
Boa semana

Existe Sempre Um Lugar disse...

Bom dia, texto a relatar o infelizmente acontece na vida actual, não sou jogador, nem sei como se joga, mas sei de vidas totalmente destruídas causado pelo vicio do jogo, infelizmente a força física consegue-se impor à da inteligência.
AG

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Um casamento, praticamente no início, já tão violento, não vale à pena continuar...Que a Carlota se decida pela separação. Um abraço, Elvira, proveitosa semana!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Que eu saiba, casamento por conveniência nunca deu certo. Principalmente, com viciados no jogo e na bebida.

Abraços,

Furtado.