8.8.15

CARLOTA - PARTE IV


Duas vezes por mês Carlota tinha o dia de folga. Eram os dias para passar com o filho que continuava a ser criado pela irmã. À medida que os anos iam passando, e o garoto crescendo, tornava-se cada dia mais parecido com o pai. Essa semelhança, já fora notada pelo pessoal da aldeia que vinha fazer a safra para a Seca. Tanto Carlota, quanto a irmã, Fernanda, tinham a certeza que já toda a gente sabia de quem o garoto era filho. Esta semelhança, era um espinho cravado no peito de Carlota que não conseguia olhar o filho sem reviver a violência de que fora alvo, e se culpava por não conseguir demonstrar ao filho, o amor que sentia por ele.
Quantas vezes, levantava a mão, para fazer uma carícia ao filho e ao olhá-lo, se lembrava do pai , e a deixava cair inerte. João foi crescendo assim, sentindo mais amor pela tia, do que pela mãe, que via esporadicamente e que não lhe demonstrava grande carinho.  Ele não podia saber, o amor que a mãe sentia por ele, nem os sacrifícios que fazia para que não lhe faltasse o necessário, já que a irmã e o cunhado, tinham um ordenado de miséria e quatro filhos para criar. Prestes a fazer 29 anos, Carlota conheceu Francisco que se apaixonou por ela e lhe propôs casamento.
 Francisco era um homem alto, bem-parecido, que dizia ter um futuro estável, pois era funcionário público. 
Sentindo-se tentada a mudar de vida, especialmente por causa do filho, a quem podia dar uma melhor vida se casasse, Carlota contou-lhe que tinha um filho de dez anos, e que só aceitaria casar se ele aceitasse esse facto e a autorizasse a trazer o filho para a sua companhia. Francisco aceitou, e combinado o futuro casamento, Carlota fez-se acompanhar por ele, quando na folga seguinte foi visitar o filho a casa da irmã.
Contrariamente ao que esperava, nem a irmã nem o marido se mostraram entusiasmados com o  casamento.  Mas ela era maior de idade, sabia o que fazer, e eles só desejavam que fosse feliz.
Quatro meses passados, Carlota e Francisco, uniam o seu destino na Igreja de Santa Cruz no Barreiro, numa cerimónia simples mas bonita.
Depois do casamento ficaram a viver no Barreiro. Carlota deixou o seu trabalho de “criada interna” em Lisboa e começou a procurar um trabalho de limpezas perto de casa. Não sabia ler nem escrever, mas sabia como ninguém tratar de uma casa, lavar, cozinhar ou engomar.
A casa não era grande, apenas dois quartos e uma pequena sala, mas Carlota estava feliz por ter o filho consigo. Depois,Francisco tinha prometido, que havia de perfilhar o garoto e dar-lhe o seu nome. Mas nem tudo eram rosas na sua vida.
Primeiro porque o filho queria voltar para casa da tia, sentia a falta das brincadeiras com os primos e sentia que a mãe e o “tio” lhe eram pessoas estranhas.  Segundo, Carlota, não amava o marido. Estava-lhe grata, respeitava-o, mas não se entregava. Não se fazia rogada, não inventava desculpas, para evitar as relações sexuais, mas o fazia como se cumpre uma obrigação que não nos agrada, mas que temos de fazer.




Boas férias, para quem está de férias,  bom fim de semana, para quem está trabalhando.

16 comentários:

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Situação muito triste. Na minha opinião ela deixaria o menino ir morar com a tia que tinha o amor dos dois do que viver nessa friagem de amor entre os três.
Erramos todos, nada que não podemos remediar.
Beijos
Dorli Ramos

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Situações muito duras quer para a mãe quer para o filho.
casamento teria sido bom para todos mas ela não conseguiu organizar-se interiormente.
Aceitar as consequências dos seus actos e sermais mulher, mais esposa e mais mãe. Parece que a situação não será a melhor num futuro próximo.

Pedro Coimbra disse...

A minha prima de quem falei no post anterior nunca casou, nunca mais teve ligação com outro homem.
Bfds

Pérola disse...

A vida sempre nos pedindo decisões.

beijinhos

✿ chica disse...

Uma família assim não pode dar certo.Apenas gratidão, nada vale com relação ao marido! E o filho,coitadinho!!! Tá lindo de ler! bjs, chica

António Querido disse...

Lindas as suas histórias! Boa continuação! O meu abraço.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Carlota apenas "arrumou" a vida. Mas, uma vida assim não vale à pena, não traz felicidade para ninguém!...Aguardemos, o que vai acontecer...
Um abraço, Elvira, bom final de semana!

Mariangela do Lago Vieira disse...

Uma vida assim é muito triste!
Querer melhorar de vida, mas ser infeliz...
De que adianta?
E abrir mão do filho, é mais triste ainda!
A decisão precisa muito se pensada.
Ótimo desfecho, aguardo o próximo!
Abraços, e um bom final de semana, Elvira!
Mariangela

Donetzka Cercck L. Alvarez disse...

Texto triste,mas muito verdadeiro,querida amiga Elvira.

Deixar um filho de lado deve ser terrível e espero que no próximo episódio tenhamos mais felicidades.

Lindos posts no seu espaço sempre,amiga.Parabéns!

Obrigada pela visita,um fim de semana de alegrias.

Beijos sabor carinho

Donetzka

Silenciosamente ouvindo... disse...

Amiga estou de férias e com 3 crianças o tempo é todo (ou quase)
para elas até porque vivem no estrangeiro. Tenho que aproveitar
todos os minutos. Por isso venho ao computador de fugida.
Quando tudo estiver mais calmo na m/vida virei ler com tempo
esta sua última história.
Desejo que se encontre o melhor possível de saúde.
Bj.
Irene Alves

rosa-branca disse...

Amiga Elvira, obrigada pelo seu carinho lá no meu canto. O seu comentário ficou sim. Mais uma história fantástica muito triste e tão verdadeira. Não há dúvida que a amiga escreve e descreve maravilhosamente bem todas essas situações. Ando um quanto afastada...desanimada mas a vida é assim... Beijos com carinho

cesar farias disse...

Eis-me aqui novamente, como em tantas outras sextas-feiras...Narrativa envolvente, como de costume. Um ótimo final de semana, amiga.

Janita disse...

Com o tempo a Carlota irá afeiçoar-se ao homem bom, que lhe deu estabilidade e condições para alcançar o que tanto sonhou; desfrutar da companhia do filho. Digo eu!
Respeito e cumplicidade podem ser um forte alicerce de qualquer união!

Obrigada e bom fim de semana, Elvira.

Um abraço

Edumanes disse...

Da violência nasceu um menino,
gerado contra a vontade
como todos merece amor e carinho
na vida saúde, paz e felicidade!

Resto de bom domingo, um abraço,
Eduardo.

lis disse...

Oi Elvira
O casamento pode ter sido uma forma da Carlota aumentar sua auto-estima, mas pode ter vida curta. E o filho lógico vai sentir a separação da antiga casa provocando alguns conflitos.
Vamos aguardar o que a escritora tem pra esse casal principalmente pra nossa Carlota.
grande abraço e boa semana ,amiga.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Acho que o filho, mesmo sendo o produto resultante de um ato vil, canalha, por parte do pai, não tem a mínima culpa e merece o total amor da mãe.

Abraços,

Furtado.