5.8.15

CARLOTA - PARTE III

Foto da rua onde Carlota trabalhava. Edição de António Passaporte.

A irmã bem tentou saber o que se passava, mas Carlota não se abria. Morria de vergonha que alguém descobrisse o que acontecera, como se ela fosse a culpada. Infelizmente para ela, não pôde ficar calada por muito tempo, pois “as regras” não vieram e o corpo começou a apresentar sinais evidentes de que estava em transformação. Com a experiência que lhe davam os anos de casada e os quatro filhos que já tivera, a irmã, cedo se apercebeu do que se passava, e Carlota viu-se obrigada a contar o que se passava.
Revoltado e irritado, o cunhado praguejou, e pensou ir à aldeia tirar satisfações, mas foi demovido pelas duas mulheres. Afinal, naqueles tempos, aquela situação, era mais corrente do que aquilo que se desejava, e aos senhores nunca acontecia nada. Eles tinham dinheiro para comprar o que queriam, até a justiça, que ainda culpava a mulher, e a considerava destruidora de lares. Depois, quem sabe, o malandro não cumpria a ameaça e se vingava no pai da jovem, ou noutro membro da família.
Assim, resolveram até não contar nada aos pais da jovem, pelo menos por enquanto, que quando o pessoal da aldeia, viesse para a safra, iria ver a jovem prenhe, e no regresso à aldeia, toda a gente iria saber que a jovem “se perdera” e esperava um filho sem pai. Mas até lá, muita água havia de correr debaixo da ponte, quem sabe a gravidez não ia adiante?
Infelizmente para ela, isso não aconteceu e em Março, a parteira chamada às pressas pelo cunhado, trouxe ao mundo um belo rapazinho. o cunhado escreveu aos sogros, contando que a jovem, tinha acreditado na conversa de um malandro, que a abandonara quando soubera que estava esperando uma criança. Ele nada pudera fazer, já que o malandro em questão, tinha desaparecido sem deixar rasto. Não podia contar a verdade. Tinha medo do que podia acontecer.
De volta recebeu uma carta da sogra, dizendo que o marido estava furioso, dizia que a filha “era a vergonha da sua cara, que nunca mais queria vê-la, que para ele ela tinha morrido.”
Apesar de saber de antemão, que essa seria a reacção do pai, Carlota sentiu-se destroçada.
Felizmente para ela, a irmã e o cunhado, a tratavam com muito amor, e lhe davam muito apoio, até a cuidar do filho, pois ele era tão pequenino, que ela até tinha medo de lhe pegar.
“Mal de quem morre, os vivos, pontapé daqui, pontapé dali, tudo se cria”, - dizia o povo na época, e até que era verdade. O menino foi crescendo saudável, sempre rodeado dos primos, mais velhos, e a mãe empregou-se como criada de servir na casa de um senhor doutor. Tinha comida e dormida, o que recebia, entregava à irmã, para o sustento do filho. Os anos foram passando, Carlota estava cada dia mais bonita, não lhe faltavam pretendentes, mas ela não queria saber de namoricos. Naquela época, havia o culto da virgindade, dizia-se que esse era o verdadeiro tesouro das raparigas, e aquela que fosse “desonrada” já não servia para esposa.  Apenas servia para diversão, uns minutos de prazer, com que os homens temperavam o corpo e a vida. Carlota sabia disso, via o que acontecia com outras colegas, também criadas de servir. E o que não via, ouvia em comentários, quando se encontravam na praça, ou nas folgas.



13 comentários:

✿ chica disse...

Ainda bem que Carlota teve a compreensão da família onde estava agora e lhe davam o carinho até ao bebê e apoio! Está lindo! vamos seguindo! bjs, chica

Bell disse...

Carlota passou por tanta coisa, todos queremos ser aceitos. O preconceito fere!!

bjokas =)

Rogerio G. V. Pereira disse...

Hoje, como ontem, não há país anónimos.
O que há, são comportamentos não assumidos...
È bom colocar a família como um último reduto.
(embora não seja um valor absoluto)

Dorli Ramos disse...

Ah! Elvira.
Eu dava um jeito de manipular que gostasse de um rapaz forte e foi dar uma surra no pai da criança até desfalecer e diria:você vai passar todos os meses dinheiro para aquela coitada que a força a fez prenha e não brinque comigo.
Beijos
Dorli Ramos

Zé Povinho disse...

Outros tempos, outras mentalidades...
Abraço do Zé

Edumanes disse...

Naquele tempo, os senhores compravam a justiça e hoje a comprá-la continuam. Quem tem dinheiro nem que seja roubado, pela caução paga milhões de euros. Quem tostões não tem,
vai passar férias no calabouço! Se calhar até era o que acontecia a Carlota, se ela tivesse denunciado o dito, porque ele tinha muito dinheiro podia de criminoso passar a queixoso?

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Janita disse...

Se há coisas boas que vieram com a democracia, foi a abolição de haver crianças rotuladas como filhas de pais incógnitos! Só porque, ou os meliantes não queriam assumir ou, como em tantos casos, a criança nascia de uma relação extraconjugal e mesmo que o pai a quisesse perfilhar, tinha de ter a aquiescência do outro cônjuge.
Hoje, felizmente, tudo mudou. Se uma criança vem ao mundo é filha de alguém, se for preciso o M.P. trata de esclarecer e legalizar o legítimo direito da criança.
Esses tempos de abusos sexuais e a impunidade dos predadores eram muito frequentes nos meios rurais.
Fico a aguardar a continuação com grande expectativa.

Um abraço. Uma boa noite, Elvira.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Se a Carlota tem o apoio da irmã e do cunhado, com certeza criará o seu filho sozinha sem a mínima ajuda do canalha do pai. Vamos aguardar os acontecimentos.

Obrigado pela visita e amável comentário no nosso Literatura & Companhia Ilimitada. Volte sempre! Rsrs.

Abraços,

Furtado.

Pedro Coimbra disse...

Faleceu muito recentemente uma prima minha que passou por provações semelhantes a esta.
Engravidou, perdeu o emprego (o estupor ficou a trabalhar lá na empresa na mesma), teve que lutar e criar a filha sozinha.
Custa a acreditar que estas coisas aconteciam.

lis disse...

Tempos maus aqueles em que nada se podia fazer a nao ser calar-se.
Hoje as mães usam do direito de dar o nome(do pai), aos filhos ,embora isso nem sempre faça alguma diferença. O filho cresce sem pai,mesmo.
Estupro lamentavelmente , continua sendo algo muito complicado,nem sempre se faz justiça.
Carlota quem sabe encontra alguém digno para compartilhar a paternidade...
grande abraço Elvira

esteban lob disse...

Me puse al día con la historia de Carlota, estimada Elvira.
Puedes sentirte muy contenta con tus dotes literarios.

Envío un abrazo austral, en medio del temporal que azota a gran parte de Chile.

aluap Al disse...

Estou apaixonada pela sua forma de escrever e de contar história da Carlota. Gostei de voltar a ouvir essa expressão: "de as regras não vieram"! O mais provável é que se perguntar o que era isso a gente mais jovem, ninguém sabe o que é!
E como agora vou de férias, só quando retornar vou ler os próximos 'post's' e espero que continuemos a conversa sempre agradável que fazemos através dos nossos blogues.
Um abraço, Paula.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Sem a aceitação pelos pais, de seu "mal passo", encontrou no lar da irmã o apoio: ainda bem!...vou lá em cima, tomar conhecimento do desenrolar da história de Carlota, após o nascimento...