3.8.15

CARLOTA - PARTE II



foto de um dos armazéns da Seca da Azinheira.

No final do primeiro ano de safra, Carlota juntou os seus trapinhos, e o dinheirito amealhado, e foi à aldeia. Quatro anos que não via os pais, nem os irmãos, alguns tinham casado entretanto, tinha família, que ainda não conhecia.
Tinha 15 anos mas não aparentava nem 13, pois continuava miúda e franzina, embora cheia de genica. Depois de abraçar os pais e irmãos, conhecer os cunhados e até um sobrinhito, nascido entretanto, começou a procurar trabalho nas quintas da aldeia. Afinal iria permanecer lá até ao final de Agosto, altura em que pensava voltar ao sul, para a safra do bacalhau. E nessa vida o tempo foi passando, os anos foram fazendo o seu trabalho e aos 18 anos, Carlota, era uma bela jovem, apesar do seu escasso metro e cinquenta. Tinha uma farta cabeleira que usava sempre entrançada, uns grandes e expressivos olhos castanhos, que iluminavam um rosto bonito, de nariz fino e boca pequena. Bem proporcionada de corpo, não lhe faltavam pretendentes, mas a jovem achava que era muito nova para se prender, desejava algo diferente do que encher-se de filhos como a sua mãe e irmãs, e então pensava que quanto mais tarde isso acontecesse melhor.
Mas a vida, ou o destino, ou lá o que fosse, fez com que nesse ano, o patrão se enrabichasse por ela. Na verdade já no ano anterior ela notara que ele a olhava de maneira estranha. Mas como a jovem sempre ia e vinha acompanhada de outras trabalhadoras, a coisa não passou disso mesmo.
Porém naquela noite de Julho, quando ela regressava a casa, foi surpreendida pelo homem que a tomou à força. Consumado o ato vil ainda a ameaçou, dizendo que se ela contasse a alguém, o seu pai ia aparecer morto num daqueles caminhos, sem ninguém saber como.
Ferida no corpo e na alma, a jovem engoliu o choro, disfarçou o melhor que pode a dor e a raiva que sentia, e no dia seguinte, despediu-se dos pais dizendo que estava farta do trabalho no campo, e que ia para casa da irmã na Seca. De resto estava-se nos finais de Julho, faltava um mês para a safra começar, podia ser que a aceitassem para a limpeza dos armazéns, que faziam sempre antes dos navios chegarem.
Cedo, a irmã e o cunhado notaram que Carlota estava diferente. Antes parecia um rouxinol, sempre cantando, agora estava triste calada. O sorriso fácil e bonito de antes, parecia agora um esgar. Até a paciência para as brincadeiras com os sobrinhos perdera.


11 comentários:

✿ chica disse...

E claro, o comportamento dela só podia estar diferente, com aquela dor e raiva dentro dela, com medo de trazer à público! Está ótima a trama! Gostei mais uma vez! bjs, chica

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

O início da história de Carlota, já é empolgante...imagino o desenrolar!Bom final de semana, Elvira, meu abraço!
P.S. Li a parte II mas não consegui comentar - a janela não abriu!

Pedro Coimbra disse...

Ainda venho a tempo de seguir a história da Carlota.
Boa semana

Luis Eme disse...

Que bom ter enssa vontade de contar.

Abraço Elvira

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que tristeza de vida para esta menina...
Engolir tudo isto sozinha, sem poder desabafar com alguém!
Este homem, e tantos como ele, não escaparão diante de Deus.
Linda história Elvira.
Abraços, e boa semana!
Mariangela

Edumanes disse...

O abutre picou nela...
contra a sua vontade
satisfez-se no corpo dela
feriu as pétalas da flor
roubou-lhe a felicidade
acto consumada sem amor!

Boa tarde e boa segunda-feira, amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá Elvira! Passando para agradecer a tua visita e amável comentário deixado no nosso Arte & Emoções, assim como apreciar este teu conto, que, pelo que li na primeira parte, será muito interessante.

Depois do lamentável acontecimento, considero normal o comportamento da Carlota, mas pela sua forma de pensar com relação à sua mãe e irmãos, nota-se que ela é inteligente e dará a volta por cima.

Abraços,

Furtado.

Emília Pinto disse...

Mais uma história que promete, Elvira e que irei acompanhando sempre que puder. Digo isto, porque agora estou mais ausente. Nem sempre tenho net, pois passo o mês de Agosto na praia e só poderei visitar os blogs amigos quando vier a minha casa. A vida era dura demais naqueles tempos, mas espero que a Carlota consiga vencer este drama e a sua vida mude. Beijinhos Elvira e até sempre.
Emília

Andre Mansim disse...

Coitada, deve ser uma situação muito difícil de suportar!
O conto está indo muito bem!!!!!!

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Uma situação difícil para ela, vamos ver no que dá.
Beijos
Dorli Ramos

Janita disse...

A Elvira tem uma capacidade única de retratar os sentimentos mais profundos do ser humano, que me colocam no lugar da personagem Carlota, que nasceu predestinada a uma vida de sofrimento.

Vou ler a parte III, tenho esperança que o 'destino' lhe reserve um futuro mais risonho!

Um abraço, Elvira.