30.7.15

CARLOTA



Carlota nasceu num belo dia do final de maio, pouco antes do início da segunda grande guerra.
Décima terceira filha de um casal pobre, de uma aldeia esquecida, neste país, governado na época, pela mão de ferro de Salazar, Carlota viveu os primeiros anos da sua vida, sempre com a sensação de que precisava comer. Pequena, franzina, sempre com um sorriso gaiato no rosto, aparentando ter sempre menos idade do que realmente tinha. Tal como os seus irmãos, não foi à escola, que isso era coisa de ricos, e depois para que precisava uma mulher de estudar?
Uma mulher precisava saber cuidar da casa, do marido, cerzir a roupa dos filhos, enfim ser a fada do lar.
Nunca teve uma boneca, até ao dia que resolveu cortar o vestido de uma das irmãs mais velhas para costurar uma boneca de trapo, conhecida na altura por matrafona, o que lhe valeu uma valente tareia da mãe.
Como era pequena e franzina, na aldeia, ninguém lhe dava trabalho, pois achavam que não teria forças para o executar, pelo que foi ficando em casa até quase aos dez anos, altura em que o senhor João, um dos homens ricos da aldeia, lhe deu trabalho a apascentar o seu rebanho no monte.
Os primeiros dias, foi com muito medo, dizia-se que de vez em quando um lobo esfaimado atacava o rebanho. Com o tempo foi perdendo o medo. Um dia porém deixou fugir as ovelhas, para uma propriedade vizinha, e o dono deu-lhe uma tareia que a atirou para uma cama de hospital. Foi a primeira sova, das muitas que a vida, lhe reservava.
Quando saiu do hospital, já havia outra criança da aldeia a apascentar o rebanho do senhor João, pelo que Carlota regressou à casa paterna. Pouco depois, uma das irmãs mais velhas, já casada e com filhos, pediu aos pais se a deixavam ir lá para casa, era uma ajuda para cuidar das crianças. Para os pais era uma boca a menos, para repartir a comida que raramente chegava, pelo que acederam prontamente. Foi assim que Carlota chegou à Seca do Bacalhau, na Azinheira, uma pequena localidade, na margem do rio Coina, perto do Barreiro.
Na casa da irmã, não haviam luxos, mas tinha uma cama só para si , e na mesa, sempre um prato de sopa, e um pedaço de pão.
Aí esteve três anos, cuidando dos sobrinhos, até que completou catorze anos, idade com que podia legalmente trabalhar na Seca. Podia ter o seu dinheirinho, coisa que até aí não soubera o que era.  
A irmã e o cunhado, mal ganhavam para o sustento da casa, roupas e calçado, só quando a filha do capitão, ou a mulher do empregado de escritório lhes dava, as roupas que deixaram de servir aos filhos, ou de que elas próprias deixaram de gostar. Aí era uma festa, para ela e para as crianças. Com muito jeito para a costura, ela acertava-as ao corpo, e até pareciam novas.




18 comentários:

✿ chica disse...

Gostei da introdução e pelo visto teremos muitos belos momentos de leitura, com tuas tramas,por aqui! bjs praianos,chica

Bell disse...

Tadinha vida sofrida, e toda criança tem o direito de brincar e sonhar..

bjokas =)

Edumanes disse...

Levou uma grande sova,
não foi para sacudir o pó
porque um mal nunca vem só
Pobre, coitada da Carlota!

Décima terceira filha,
de uma família pobre
no tempo Salazar, havia
muita gente a passar fome!

A história é bela,
por amiga Elvira, contada
naquele tempo a guerra
causava mais desgraça!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

Jaime Portela disse...

Eram tempos de fome.
Gostei da história, que presumo vá continuar.
Elvira, tenha um bom resto de semana.
Beijinhos.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Esta é uma vida normal entre os mais pobres, de dinheiro, porque na verdade,
apesar de todos os sofrimentos, Deus os favorecem muito em boa vontade!
Ótimo início!
Abraços, e uma ótima tarde!
Mariangela

Ana S. disse...

É a vida de muitas crianças pobres. Hoje em dia isso ainda acontece!

lis disse...

OI Elvira
Que bom ler outro conto seu !
Já andava saudosa _ o tempo não me deixa ler mais livros porque quando sobra algum estou em frente dessa tela , aí aproveito para procurar boas leituras e o seu blog é uma dessas escolhas.
Vi as fotos do passeio e achei lindíssimas _ mar e rochas formando encantadoras paisagens.
obrigada por partilhar.
grande abraço

Zé Povinho disse...

Mais uma saga para seguir com a atenção devida, como é costume, porque gosto muito do modo como as conta.
Abraço do Zé

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Com o tempo vai-se perdendo o medo"

A frase vale o texto... embora, hoje, os lobos sejam outros...

António Querido disse...

Nessa época, haviam muitas Carlotas espalhadas pelo nosso pequeno retângulo, até começarem a preparar o salto para outras paragens, só com uma grande/pequena diferença do momento atual, agora piram-se os mais qualificados.
O meu abraço

António Jesus Batalha disse...

Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho.Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns, decerto que virei aqui mais vezes.
Sou António Batalha.
Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.
http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

Janita disse...

Gostaria muito que esta história tivesse continuação, Elvira!
Que vida triste e sofrida a da pequena Carlota...gostava tanto que a Vida a compensasse daquela tareia que a mandou para uma cama de hospital!

Antigamente até eram atribuídos prémios às famílias mais numerosas, num incentivo a procriar, mas sem condições nenhumas de sobrevivência.
Senti uma grande ternura e um desejo imenso de proteger esta menina!

Enfim, tolice minha. Mas sinto-me tão triste...:(

Um abraço, Elvira.

aluap Al disse...

Conheço algumas Carlotas que fizeram a sua boneca de trapos e que um dia partiram para a capital na procura de melhor qualidade de vida e ainda hoje se mantêm na grande cidade com as suas famílias.
Era no litoral que se encontravam melhores propostas de emprego, em maior diversidade e número. Sei que por norma as famílias contactavam um familiar ou um amigo que estivesse em Lisboa e pediam o favor de arranjarem um emprego para o filha/dos seus doze ou treze anos.
Serviam em casas abastadas, outras tomavam conta de crianças mais pequenas e eles o que se podia arranjar: marçano, empregado numa taberna, etc...e assim iam vingando na vida e desbravando caminho para os que viessem a seguir.
Espero que a sua Carlota, pelo que passou, tenha conseguido um futuro melhor para ela e quiçá para os filhos e netos.
Beijo amigo.

Duarte disse...

A seca, excelente fonte de inspiração para uma boa criadora de personagens, com extraordinarios argumentos, que tão bem diriges. Desde a inocência da infância, e as fantasias da adolescência, até à madurez da vida. Gosto desta forma de expressão tua.
Como sempre, querida amiga, é um tema que merece desenvolver, dá para romance.
Abraços de vida

Andre Mansim disse...

ôpa! Aí vem mais um conto. E pelo começo... Vai ser bom!
Espero que desta vez, esse seu amigo desnaturado que vos escreve, tenha vergonha e siga-o inteiro.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Vida sofridas. Por vezes para fugir de uma desgraça arranjam-se outras ainda piores.
Tempos muito duros. As lutas por viver sem medos.
Espero por mais.

Dorli Ramos disse...

Oi Elvira,
Chegou a toda.
A vida me deu voltas.
Mais um conto lindo, amanhã volto para ler o outro capítulo
Beijos
Dorli Ramos

Rosemildo Sales Furtado disse...

A História/estória promete! comecei a gostar e vou partir para a parte dois.

Abraços,

Furtado.