28.3.15

MANUEL




Se llamava Manuel, nació en España,
su casa era de barro, de barro e caña.
Las tierras del señor humedecían
su sudor y su llanto dia tras dia.

Introduzi a primeira quadra dum belíssimo poema de Serrat para falar de um certo Manuel, que não nasceu em Espanha, mas cuja vida foi igualmente sofrida. Chamava-se Manuel, nasceu no interior norte deste país, que para alguns - muito poucos - é um jardim à beira-mar. Quarto filho de uma pobre mulher que nunca conheceu marido, nasceu em Abril, precisamente onze dias depois, do desastre português na batalha de La Lys. Nunca frequentou a escola. Começou a trabalhar ainda menino. Os filhos do patrão, ensinaram-lhe a ler e a escrever. A meninice e a juventude ficou para trás nessa pequena aldeia, no dia em que migrou para o sul procurando melhor vida. Na margem sul do Tejo, começou a trabalhar numa seca de bacalhau. Aí conheceu a mulher com quem casou e que viria a ser a companheira de toda a vida. Sua casa não era de barro, mas era um barracão de madeira, assente em pilares de cimento à beira-rio. Era um barracão sem água nem luz, mas que o patrão lhe tinha cedido e do qual não pagava renda. Aí lhe nasceram três filhos em menos de três anos. Como se não fosse suficiente o sacrifício, trouxe para a sua casa e ajudou a criar os dois cunhados mais novos, pouco mais velhos que a sua primeira filha, quando a sogra adoeceu. Com autorização do patrão, rompeu ao mato um bocado de terreno para semear alguma coisa que lhe ajudasse a criar os filhos. Com as próprias mãos, abriu um poço, para regar o terreno e para ter água em casa. Trabalhava dia e noite disfarçando as lágrimas e a revolta em piadas brejeiras, e em brincadeiras carnavalescas. Dizia que a vida levada a sério, endoidecia qualquer um. Adorava futebol. Não havia rádio, nem dinheiro para o comprar. Com um dínamo, uma bobine fio de cobre e pouco mais, ele construiu uma engenhoca a que chamava galena, e que lhe permitia com uns auscultadores ouvir os relatos de futebol. Pegou a vida pelos cornos, apesar da sua figura franzina. Foi o exemplo de que os homens não se medem aos palmos. Anos mais tarde, as filhas casadas, a idade da reforma chegou com mais uma provação. A mulher, companheira de sempre, sofreu um AVC e ficou paralisada do lado esquerdo. Era nove anos mais nova do que ele, mas nunca mais conseguiu bastar-se a si própria, muito menos fazer alguma coisa em casa. E Manuel começou uma nova luta. Tratar da mulher e levar para a frente a casa.Com alguma ajuda dos filhos, que apesar de toda a boa vontade, tinham  a sua vida, seus empregos e as suas casas. Uma das filhas inclusive, vivia longe, noutra cidade. Mas ele continuou alegre e brincalhão. De sorriso fácil, e sempre com um chiste pronto, a qualquer hora e situação. Com a paixão pelo futebol, e pela vida, costumava dizer com uma certa graça, que sabia que havia de partir um dia, mas que iria forçado, pois de vontade, a morte nunca o apanharia. Chamava-se Manuel, nasceu em Portugal, em Abril de 1918, partiu a 28 de Março de 2009.
E eu tenho um enorme orgulho em ter sido sua filha, e uma saudade cada dia maior


Maria Elvira Carvalho

14 comentários:

✿ chica disse...

Que lindo carinho e bela homenagem ao Manoel, teu pai que deixou saudades em ti! bjs, tudo de bom,chica

lua singular disse...

Oi Maria Elvira
Que linda estória de vida, mas quanta provação!
Ainda bem que você teve seu pai presente, diferente do meu que doou quase todos os filhos menores, num total de 13, eu fui a única que tive sorte, mas sofri bastante, mas consegui, a duras penas, me desgarrar e alçar minha liberdade.
Adorei.
Beijos

Jorge P. Guedes disse...

Bonita homenagem!
Um abraço.

© Piedade Araújo Sol disse...

ao começar a leitura, pensei ser mais um dos seus contos.
acho que qualquer pessoa sentiria orgulho em ter um pai como o Sr. Manuel daqui do seu conto que afinal é uma realidade.
uma bonita homenagem,e uma grande comoção em mim, até às lágrimas.
que descanse em paz e que o tempo atenue a saudade em si...

Edumanes disse...

Merecida homenagem, fica-lhe muito bem amiga Elvira dizer que tem muito orgulho do seu falecido pai. Homem de barba rija, que soube entrentar os tempos dificeis e vencer na vida. Trabalhou para o desenvolvimento e progresso deste país, que dizem ser um jardim à beira mar plantado. Contudo, valeu a pena amiga Elvira. Morre o homem fica a fama!

Tenha um bom fim de semana, um abraço,
Eduardo.

Laura Santos disse...

Que linda homenagem que faz ao seu falecido pai, Elvira! Muito comovente. Um homem de aspecto frágil, mas forte nas suas atitudes perante a vida difícil, escudando-se no bom humor.
Gostei muito de ler.
xx

Silenciosamente ouvindo... disse...

Muito labutou o seu pai amiga,
para sobreviver com a família e
os filhos de uma forma honrada.
Só tem que ter muito orgulho
e lembrã-lo com todo o carinho.
É bom não se renegar os nossos
pais.
Desejo-lhe um bom fim de semana.
Bj.
Irene Alves

Ana S. disse...

São homens assim que dão o exemplo do que é ser um homem decente.
Bonita homenagem.
Beijos

Luis Eme disse...

é mesmo um orgulho ter um PAI assim, Elvira.

abraço

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Elvira!
Que linda homenagem ao seu querido pai, acompanhei a sua história, que lembrou muito o meu saudoso pai.
É de pessoas como eles que o mundo precisa.
Um grande abraço e uma boa tarde!
Mariangela

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Elvira!
Que linda homenagem ao seu querido pai, acompanhei a sua história, que lembrou muito o meu saudoso pai.
É de pessoas como eles que o mundo precisa.
Um grande abraço e uma boa tarde!
Mariangela

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Elvira!
Que linda homenagem ao seu querido pai, acompanhei a sua história, que lembrou muito o meu saudoso pai.
É de pessoas como eles que o mundo precisa.
Um grande abraço e uma boa tarde!
Mariangela

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Seu pai foi um grande homem, exemplo para os filhos. Mesmo diante das dificuldades da vida estava sorrindo pois a amava.
Parabéns ao seu papai!!
Beijus,

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
HOMENAGEM SINGELA E EMOCIONANTE.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/