29.1.15

QUEM SABE FAZ A HORA... PARTE III


Cecília era uma bela mulher. Alta, morena, corpo curvilíneo, e um rosto onde se destacavam dois belos e expressivos olhos verdes. Boca pequena e carnuda, ladeada por duas pequenas covinhas sempre que sorria. Tinha acabado de fazer 36 anos, e estava em toda a plenitude da sua beleza.
Há muitos anos atrás era quase uma menina, tinha namorado o João. Na verdade ele fora o primeiro e único amor da sua vida, muito embora outros homens tivessem entrado nela.
- Então amiga, arrependida? - perguntou Sandra.
- Bem sabes que não. Mas estou apreensiva. E se depois de me ver, ele não sentir nada? Tenho medo: - disse baixinho. Tão baixinho que Sandra mais adivinhou que ouviu. E perdeu-se de novo nas suas recordações.
No final dos anos 80 muitas empresas abriram falência, muita gente perdeu o emprego. O pai de Cecília fora um dos que se viram de um momento para o outro sem emprego. O irmão, que emigrara há anos para o Brasil, insistia para que ele fosse para lá. Artur resistia, (apesar das saudades que tinha do irmão, e dos pais que já tinham ido), por causa da esposa e da filha que não mostravam vontade em sair de Lisboa. Perdido o emprego, e sem grandes esperanças de conseguir outro que lhe permitisse o mesmo nível de vida, não lhe restou outra coisa que convencer a mulher e a filha a fazer as malas.
No Brasil, Cecília levou muitas noites sem dormir. Chorando de saudades. De Lisboa, dos amigos e principalmente do João. Escreveu longas e inflamadas cartas de amor, que nunca enviou. Com o passar do tempo, as lágrimas foram secando. Um dia quase sem dar por isso viu-se noiva do primo. Influenciada pelos pais, pelos tios, e também pelo devotado amor que Alberto lhe dedicara desde o dia em que a conheceu. Para Cecília, tanto fazia. O seu coração tinha ficado lá longe. Só a avó se preocupava. Que ela não parecia uma noiva feliz. Que ela não demonstrava a alegria de uma noiva. Mas ainda assim Cecília casou num dia de Santo António. Um casamento que durou três anos. Três anos dum enlace, onde havia respeito, amizade, e carinho, mas onde nunca houve pelo menos da sua parte, desejo, ou paixão, muito menos amor. E não fora aquele fatídico acidente, que vitimara Alberto, talvez Cecília se tivesse resignado àquela vida. Ou talvez não, quem sabe.

14 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Ainda não o momento do reencontro. Quando acontecer, já se leva um pouco da história de Cecília: vem de um casamento no Brasil.
Que venha logo a parte IV, estou curiosa!
Um abraço, Elvira!

Edumanes disse...

Cecília mulher alta e morena,
por amor, triste, chora
quando valha a pena
o não deixar ir embora
cabelos longos, sobre os ombros
muitos mais do que uma centena
perde-se-lhe a canta, porque são tantos
quem sabe? O que irá acontecer
aguarde para o próximo capítulo ler
porque vale mesmo a pena.
Belo texto, bem escrito,
para comentar em rim ou em prosa
de Cecília, o amor primeiro não esquecido
creio que vão acontecer sonhos cor de rosa!

Desejo-lhe uma bela noite amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Vejo nisto uma moral que deve ser sublinhada
Toda a carta de amor, depois de escrita, deve ser enviada.

Pedro Coimbra disse...

Quando não há química, chispa, nada feito.
BFDS

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Histórias de vida...

✿ chica disse...

Muito lindo e deixa o questionamento ao final...Gostei! bjs, chgica

Marina Fligueira disse...

Hola de nuevo, también escrito está esta historia... o cuento,que parece una realidad.
Pobre Cecilia, eh. Una no debe casarse sin amor verdadero, pues luego uno no es feliz
Gracias por este magnifico cuento.
Ye de jo mi cálido abrazo y toda mi estima.
Se muy muy feliz.

António Querido disse...

Então o reencontro! Não me diga que o João perdeu o TGV e meteu-se a pé!
Mas gostei desta voltinha à questão, ficá-mos a saber mais! Força nessa caneta não deixe o seu cérebro inativo!

O meu abraço.

Bell disse...

Nas estradas da vida grandes amores se perdem tanto origem a outras paixões...

bjokas =)

Majo disse...

~
~ ~ Embora não tenha havido um agradecimento geral, desejo-lhe ótima convalescença num bom fim de semana. ~ ~

Laura Santos disse...

Tive de ler as outras duas partes que ainda não tinha lido, para perceber esta história.
Estou curiosa para ver se haverá ou não reencontro.
Muito bem escrito, Elvira!
Desejo-lhe as melhoras, mas este tempo se calhar não ajuda muito...:-(
Bom fim de semana!
xx

Olinda Melo disse...


Esperemos para ver a continuação desta história que promete...

Bom fim de semana, Elvira.

Bj

Olinda

Nilson Barcelli disse...

Mais uma história de vidas. E muito bem contada, como sempre.
Tem um bom fim de semana, querida amiga Elvira.
Beijo.

Parapeito disse...

e cá continuo atenta e a gostar.
abraço*