16.8.14

BRANCA E RADIANTE VAI A NOIVA


16 de Agosto. Corriam os anos 60. A década de Paz e Amor. Curiosamente tal como hoje era um sábado. Manhãzinha chuviscou. Eu estava nervosa. Minha tia sentenciou. Boda molhada, boda abençoada. Depois o sol apareceu. Radioso. Quem não aparecia era a madrinha do noivo, que contrariamente ao combinado foi direta para o local da cerimonia. Não sei se alguém já sonhava com telemóveis, mas vinha longe a data da sua invenção. E eu cada vez mais nervosa.Minha tia voltou a sentenciar. "Ó mulher não te preocupes. Na certa foi ter com o irmão. E se lá não estiver, não deixa de haver casamento por isso. Eu mesmo faço de madrinha"
E ela tinha razão. Afinal correu tudo bem

14.8.14

ISABEL PARTE XXVIII






No dia seguinte Isabel aproveitou uma pausa para convidar Amélia a beber um café. Estava ansiosa por contar à amiga o encontro do dia anterior e não queria fazê-lo na frente de Luísa.
Quando acabou Amélia disse:
-Mas que progresso Isabel. Nem dá para acreditar. Mas como sabia ele o teu nome? Donde é que te conhecia?
- Ah! Desculpa, esqueci de te contar. Pouco antes de ir à Alemanha encontrei-o aqui mesmo no quarteirão. Melhor dizendo esbarrámos um no outro e apresentamo-nos. Com o convite do Hans e a viagem não cheguei a contar-te. O que é que achas?
- O que eu acho é que estás perdidinha por ele e deves lutar por esse amor. Já é tempo de enterrares o passado e seres feliz. Fico tão contente por ti.
- E se ele não se interessa por mim?
- Ó mulher não sejas tonta. Então se não estivesse interessado tinha forçado o jantar de ontem?
- Sim, mas eu não quero ser uma aventura na vida de ninguém.
- Isso, Isabel, só depende de ti. Até pode ser que seja essa a intenção dele. Cabe-te a ti fazê-lo mudar de ideias. Não percebo a tua insegurança. És uma mulher muito bonita, inteligente, culta, com uma excelente carreira profissional. O que é que um homem pode querer mais?
Esta conversa animou Isabel, e no resto do dia o trabalho progrediu e não se falou mais no assunto.
Nessa mesma noite às nove e meia Miguel telefonou. Perguntou onde estava, como estava, como tinha sido o seu dia, enfim nada de especial. Telefonema de amigo.
No dia seguinte à mesma hora voltou a ligar, mas desta vez disse-lhe que tinha saudades dela. Na quinta-feira convidou-a para almoçar com ele no próximo Domingo. Os telefonemas eram cada dia mais íntimos. Nunca falaram de amor. No entanto os dois sabiam que ele estava presente em cada frase, em cada sussurro. Mal anoitecia, Isabel aguardava com ansiedade o telefonema.
Miguel por sua vez procurou os pais, e desabafou com eles. Falou-lhes de Isabel, de como se tinham conhecido, da inquietação que ela lhe causava, e das vezes que se surpreendia a pensar nela.
Quando acabou o pai disse:
- Se fosse no meu tempo dir-se-ia que encontraste a tua meia laranja.
E a mãe acrescentou:
-Até que enfim, filho. Deve ser uma santa para fazer o milagre de te reconciliar com o amor. Gostaríamos muito de conhecê-la.
 Prometeu que iriam lá almoçar no Domingo.  
Na Sexta-feira teve uma enorme surpresa. Ao sair do metro viu Isabel entrar no prédio onde ele morava. Ficou perplexo. O que é que ela ia fazer ali? De repente lembrou do encontro ali mesmo ao voltar a esquina. Será que estavam a morar no mesmo prédio? Não podia ser. Era absurdo demais.
Entrou no edifício e tocou a campainha da porteira.
- Boa noite D. Rosa. Preciso da sua ajuda. Disseram-me hoje, que uma amiga minha morava neste mesmo prédio. Uma senhora de nome Isabel Mendes. Será verdade?
- Boa noite Sr. Nuno. Mora uma menina no 2º D com esse nome sim. Quer que  lhe dê algum recado?
- Não, por favor. Um dia destes faço-lhe uma surpresa. Muito obrigado
Entrou no elevador. Sentiu vontade de sair no segundo e bater-lhe à porta. Mas conteve-se e seguiu para o seu andar.
Que coisa. Como é que ele tinha ido morar precisamente para aquele prédio? Ele que era escritor, nunca se lembraria de escrever uma história tão absurda.  Não podia ser coincidência. Alguém lá em cima os queria juntos. Devia ser por isso, que ele se apaixonara por ela naquela manhã de nevoeiro. Nunca acreditara em histórias de amor à primeira vista. Sempre pensara que isso era fruto da imaginação delirante de certos romancistas. Mas então que sentimento era aquele que o envolveu quando a segurou tremente em seus braços? Que destruiu todas as suas convicções e defesas em relação às mulheres? E que cada dia se tornava mais forte ao ponto de desejar passar o resto da vida a seu lado? Estava decidido. No dia seguinte seria o lançamento do seu livro e no Domingo levá-la-ia a casa dos pais. E depois… bem depois, iriam viver uma grande história de amor. Não era isso que o destino queria?
Pensar que ela estava ali tão perto desconcentrava-o. Nessa noite não conseguiu acrescentar uma só linha à novela, mas o telefonema foi mais íntimo que nunca.

continua

12.8.14

ISABEL PARTE XXVII

Perturbada levou alguns segundos para reagir. Algo dentro dela lhe dizia que não podia nem devia fugir.
- Boa tarde Miguel. Não esperava encontrá-lo aqui.
“Caramba não te ocorre nada mais original?”- pensou sem saber se devia ou não estender-lhe a mão.
Ele sorriu. Um sorriso que iluminava o seu rosto dando-lhe um ar mais jovial.
- Com os encontros que a vida nos tem proporcionado, eu já não me admiro se a encontrar à mesa do pequeno-almoço.
A alusão era inconveniente pensou Isabel corando.
- Desculpe Miguel, vou comprar umas coisas para o jantar. Outro dia falamos, -disse tentando sair dali o mais depressa possível.
- Não precisa, - disse rápido. Vai jantar comigo. E não me diga que não, será um jantar de amigos, aqui mesmo num destes restaurantes.
- Não pode ser. Mal nos conhecemos…
- Então? Mais uma razão. Vamos conhecer-nos agora.
 Baixou a cabeça e murmurou quase ao seu ouvido.
- Não tenha medo. Não sou nenhum papão. E depois estamos num lugar público, cheio de gente.
Hesitou. No fundo Isabel desejava aceitar. Mas por outro lado aquele homem mexia demasiado com ela, e isso dava-lhe medo.
Miguel era demasiado vivido para não perceber a hesitação de Isabel. Suavemente pousou a sua mão no ombro dela.
- Venha. Prometo que a deixo seguir em paz mal termine o jantar.
Sentir o calor da mão masculina na sua pele quase fazia Isabel perder o controlo. Afastou-se rapidamente.
- Sendo assim vamos lá jantar.
Ele colocou-se a seu lado mas não voltou a tocar-lhe. Percebera perfeitamente a reação dela e de novo se mostrava perplexo.
Porque é que aquela mulher era tão diferente de todas as que conhecera até ali? Lembrou-se de uma conversa que tivera com a mãe há muito tempo. A mãe dizia-lhe, que ele não podia tratar todas as mulheres da mesma maneira. Havia milhares de mulheres abnegadas e amorosas, incapazes de qualquer espécie de traição. Claro que ele soltara uma gargalhada de incredulidade.  
O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura, nos pratos. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro. Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Olha o meu número do telemóvel. Dás-me o teu?
Ela abriu a mala e tirou um cartão
- Toma.
Ao pegar no cartão, puxou-a para si e abraçou-a. Sentiu-a tão tremente que a soltou sem se atrever a beijá-la.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois iniciou o caminho de regresso à sua nova casa pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe e me deixa trémulo como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que tinha falado imenso de si, da sua vida pessoal e profissional, enquanto Miguel se limitara a ouvir e pouco falara.
De uma coisa tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. A vida é como brisa de verão em fim de tarde. Passa rápida e poucos dão por ela. Um dia destes acordava velha. Estava decidida. Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Miguel, ela lutaria por ele.

Continua

5.8.14

ISABEL PARTE XXIV


 Dias depois, Isabel tentava esquecer os seus desconcertos embrenhando-se no trabalho. Ainda não ganhara coragem de contar à amiga, o que se tinha passado naquela Sexta-Feira. Por sorte, nessa manhã, Hans telefonou-lhe da Alemanha. Tinha um novo trabalho para ela, desta vez uma coisa diferente e muito especial. Ele e Anne iam casar e queriam a sua presença como madrinha. Hans era um grande amigo. Fora ele que a recebera quando ela ganhara quase em início de carreira o concurso para novos talentos e fora ele quem já lhe arranjara alguns contratos vantajosos para a Alemanha. Vivia com Anne há alguns anos, mas agora queriam oficializar a relação.

-Não queremos que o Peter nasça antes do casamento.

Isabel ficou maravilhada. Então eles iam ser pais. Apesar de Hans ter feito o convite quase em cima da hora, faltavam cinco dias para o casamento, aceitou sem hesitar.
 Desligou.
- O Hans vai casar e convidou-me para madrinha, disse com a alegria duma criança a quem prometem um brinquedo novo.
Amélia, já tinha ouvido falar muito deste alemão. Levantou-se e foi até à secretária de Isabel.
-Quer dizer que te vais ausentar de novo? E para quando é o casório?
- Sábado.
- Este sábado?- Espantou-se Amélia. Como é possível? Desculpa mas o teu amigo é doido.
Isabel riu.
- Luísa, liga para o aeroporto e vê se consegues marcar voo para amanhã à tarde ou para Quinta. Amélia, preciso de ti, esta tarde para me ajudares na compra da “fatiota”
- Retiro o que disse. O teu amigo não é doido. Vocês são doidos.
Isabel não respondeu. Afinal aquele convite era como uma bênção divina. Seria maravilhoso rever os amigos e sobretudo sair à rua sem recear encontrar Miguel.
Não sabia ao certo se temia o homem ou os sentimentos que ele lhe despertava. Mas sabia que temia encontrá-lo de novo.
Nessa mesma tarde depois de despachar as coisas mais urgentes saiu com Amélia para escolherem a toalete para a cerimónia. Escolheu um vestido longo em crepe cor de vinho com decote em V que punha em destaque a beleza do seu colo, sapatos de salto alto em cetim bordado e uma pequena bolsa a condizer. A empregada da loja disse-lhe que não era necessário ser tudo a condizer, a moda actual permitia jogar com as cores, mas Isabel não estava muito convencida disso, e sentia-se mais confortável assim. Como o clima na Alemanha era diferente, comprou também um bolero em veludo, cor de marfim para o caso de precisar.
- Se o homem dos olhos cinzentos te visse assim, nunca mais te largava. E se ele for o padrinho?
Estremeceu
- Não sejas tonta Amélia.
- Eu? Já pensaste nas voltas que a vida dá e nas coisas estranhas que nos acontecem?
Não tinha pensado noutra coisa nos últimos tempos.
 Quando dois dias depois se despediam no aeroporto Amélia disse-lhe.
 - Um casamento é sempre uma ótima ocasião para se arranjar namorado. Oxalá o padrinho seja interessante.
 Não pode deixar de rir. E retorquiu:
 - Não estou à procura de namorado, muito menos vou lá com essa intenção. Vou porque adoro aqueles dois e estou muito feliz por eles.
 - Era bem melhor que estivesses feliz por ti,- resmungou Amélia.


continua

Obrigada a todos os amigos que se mostraram solidários com o maridão. Graças a Deus, ele está bem e feliz com o novo olhar.

3.8.14

ISABEL PARTE XXIII


                                   Foto DAQUI           


Seis meses depois, teve a sorte de ser destacado para a Sagres que ia partir em viagem, à volta do mundo, por um ano. Um facto que mudou completamente o seu modo de encarar a vida. Aprendeu o que é viver dias e dias sem avistar terra, ao sabor do humor da natureza, ora num suave embalo, ora numa dança louca que lhe revolvia as entranhas e lhe punha o estômago às voltas, dia após dia a olhar para as mesmas caras, escutando as mesmas ordens, executando as mesmas tarefas. Mas também aprendeu o fascínio que aquela farda tem sobre as mulheres, mesmo que sejam de outros continentes, com outros costumes. Viu gentes e culturas que em nada se pareciam com as suas, mas que despertaram nele o seu espírito aventureiro e a certeza de um regresso.
E foi assim que após o serviço militar cumprido partiu à descoberta do mundo. Para se sustentar fez de tudo um pouco. Foi servente de pedreiro, empregado de mesa em cafés e restaurantes, entregador de flores, e até empregado de funerária. Em Paris, teve a sorte de ver uma das suas crónicas publicadas, no Le Monde. Depois, conseguiu um lugar de estagiário na redação desse mesmo jornal. Aproveitou o estágio para se inscrever num curso intensivo de jornalismo. Conheceu Sara, uma conterrânea a estudar arte contemporânea. Foi uma relação conturbada, que durou mais ou menos um ano. Conturbada, porque Sara pretendia muito mais do que aquilo que ele queria, ou podia dar. Um dia despediu-se, comprou um auto caravana e rumou para África. A partir daí passou a trabalhar sempre como independente. Mas as suas crónicas e reportagens publicavam-se em vários jornais, um pouco por todo o mundo. Especialmente as que fizera no Iraque, Timor e Myanmar. Vira e vivera situações, que até o diabo temia.
Aventuras amorosas, teve muitas. Que duravam horas ou dias e que não faziam qualquer mossa nos seus sentimentos nem convicções. Sara fora uma excepção, pelo tempo que durou.
Tinha 45 anos de uma vida intensa. Ultimamente porém começava a pesar-lhe a solidão. Como agora. Não é que estivesse a pensar em casamento ou constituição de família. Nada disso. Mas gostava de ter dois ou três amigos com quem sair, beber um copo, trocar ideias. Ele não tinha nada disso. Era muito jovem quando partira de Portugal, e depois disso, sempre que vinha era de passagem, apenas para ver e abraçar os pais. Dos amigos da faculdade, que não via há mais de 20 anos, nem sabia se estavam cá, se tinham emigrado, ou mesmo se ainda se lembravam dele.
Deu uma volta pela Praça do Comércio totalmente diferente da última vez que ali estivera, foi até ao cais das colunas, admirou o manto de águas serenas, que a lua cheia beijava descarada, a ponte 25 de Abril, o Cristo Rei e murmurou:
- Tanta beleza só é possível com a Tua bênção.
Mergulhou de novo nas suas memórias ao mesmo tempo que iniciava o regresso ao hotel.
 No ano anterior lançara o seu primeiro romance. Um sucesso que ia  na sétima edição. E tinha já agendado a data de lançamento do segundo. Pelo meio ficava o projecto de reunir em livro algumas das suas reportagens como documento histórico. E uma telenovela já encomendada por um canal de TV.
Esses projectos e a idade dos pais, tinham-no levado à compra de casa em Lisboa, e a pensar que desta vez talvez ficasse mais tempo do que habitualmente.

continua

Graças a Deus o maridão está quase bom. O primeiro olho a ser operado, sofreu hemorragia pelo que levou quase 8 dias muito vermelho mas já voltou ao normal. O segundo operado na Segunda, não ficou vermelho, ainda arde um pouco mas está quase bem e ganhou qualidade de vida. E pensar que antes de ser operado ele pediu ao médico que lhe receitasse uns óculos para me poder ver...