24.9.14

PIEDADE



                                                           foto da net

Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra que durava já há três anos, e uma revolução russa. Nessa altura os Alemães tinham-se apossado de Riga, e a Itália fazia frente ao império austro-húngaro perto de Piave, onde se refugiaram no mês seguinte, e de onde conseguiram por fim rechaçar as tropas inimigas. O reino Unido lutava comandado por esse extraordinário coronel que foi T. E. Lawrence, na Palestina, e com o auxílio dos Árabes, aproximava-se de Jerusalém. Os Americanos tinham entrado na guerra e o Brasil preparava-se para declarar guerra à Alemanha e entrar no conflito ao lado dos Aliados. O C.E.P, Corpo Expedicionário Português, combatia na Flandres ao lado dos Aliados e os jovens portugueses embarcavam para as colonias portuguesas tentando defendê-las de algum ataque do inimigo. A Rússia saía do conflito devido à grande revolução, em que se via envolvida, internamente, e em Portugal, acontecia a 5ª aparição em Fátima, envolta pelo controvérsia, entre os que acreditavam nos videntes e se deslocavam religiosamente à Cova de Iria, e aqueles que juravam que as aparições, mais não era do que uma manobra do governo, para desviar a atenção dos Portugueses, que mal preparados para a guerra sofriam pesadas baixas, e dos constantes embarques de jovens para as colonias portuguesas, duas situações que sangravam a Pátria da sua juventude masculina. Piedade, uma ignorante mulher duma aldeia do interior, nem sabia o que se passava por esse mundo de Cristo. O companheiro partira para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era vivo ou morto. Com ela ficaram os dois filhos, uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezadinho, a quem ninguém profetizava uma vida longa. Sem emprego, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, solteiro, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os dois filhos em troca de “certos favores”. Piedade não sabia nada de métodos anticoncepcionais. A falar verdade ela se juntara com o pai dos filhos com apenas dezasseis anos quando a mãe morrera. O pai nunca o conhecera. Era filha de pai incógnito. A mãe nunca lhe falara sobre as coisas da vida. Quando Piedade se juntou com o Joaquim, não foi por amor. Foi uma espécie de troca. Ele ajudou-a a pagar o funeral da mãe, e ela pagou-lhe com a sua virgindade. Depois, foi ficando por lá, punha comida na mesa, pagava a renda da casa, e ela satisfazia-lhe os apetites sexuais. Que a falar verdade, duravam o tempo necessário para ele se satisfazer. Piedade “embuchou” uma vez e as despesas cresceram. Quando “embuchou” a segunda vez, Joaquim disse que o primo que estava no Brasil lhe mandara uma carta de chamada, que ia embarcar e quando pudesse a mandava buscar e aos filhos. Joaquim terá ido mesmo para o Brasil? Quem sabe, se partiu ou se apenas se quis livrar de responsabilidades e despesas. A verdade é que estivesse onde estivesse, nunca mais deu notícias.
 Com duas crianças pequenas Piedade arregaçou as mangas e foi à luta. Mas a vida era muito difícil, o trabalho no campo bem duro, e mal pago. Ninguém da atual geração, terá uma noção exata do que era a vida em Portugal na primeira metade do séc. passado.  Quantas vezes, ficou sem comer, para dar de comer aos filhos. Por isso aceitou a ajuda do lavrador, para quem trabalhava. Era  viúvo. Esse facto dava mais coragem a Piedade. Ela não seria capaz de estragar o casamento de ninguém, E Alberto parecia sincero e bom homem. “As aparências iludem” diz o povo e com razão. Quando o homem soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os dois filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada. Em Abril de 1918, poucos dias depois do desaire português, na Batalha de La Lys, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino, a lembrar o irmão João, porém ao contrário deste era um menino saudável.  Para criar os filhos, Piedade, chorou tudo o que tinha para chorar, deitou com a fome, levantou com a miséria. Trabalhou no campo, até deixar de sentir as costas de tanta dor, lavou roupa no rio, até as mãos sagrarem. Mas homem na sua vida nunca mais entrou.

Fim

 Maria Elvira Carvalho




19 comentários:

✿ chica disse...

Teus contos sempre com belos e fortes enredos. Gostei de mais esse tema! Belo final e imagino que nunca mais tenha querido outro homem. bjs, chica

Ruthia disse...

Elvira, esta podia ser a história de tantas mulheres portuguesas, brasileiras, africanas... Valha à Humanidade as mulheres valentes e persistentes que criam os filhos sem ajuda.
Agradeço a sua visita ao meu cantinho e, agora que vim retribuir a sua gentileza, constato que temos algumas amigas em comum.
Muitos beijinhos
Ruthia d'O Berço do Mundo

lourdes disse...

Porque será que eu tenho a sensação que conheço esta Piedade?
Mas houve muitas "Piedades" antigamente.
Bjs

MARILENE disse...

A falta de experiência e de condições para uma vida digna levaram muitas mulheres a procurar "abrigo" em promessas masculinas. E o preço sempre foi alto porque a relação não tinha a base necessária. Mas nunca perderam a força e a coragem para criar, sozinhas, os filhos. São muito bons seus contos. Bjs.

Donetzka Cercck L. Alvarez disse...

Belo demais e emocionou-me ,pois estou passando por uma fase difícil com meu marido doente,mas tenho fé que tudo vai sair bem,como aconteceu com você e seu esposo.

Que bom que me segue,querida amiga Elvira.

Amei seu espaço!

Sigo você também.

Vou colocar seu blog na minha lista de blogs favoritos para visitar sempre.

Seja Bem Vinda!

Obrigada pela visita,volte sempre!

Adorei ter você como minha nova amiga.

Obrigada pela visita!

Beijos e uma semana de alegrias

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Edumanes disse...

Para com a Piedade,
entre trocas a balrocas
não havia mesmo piedade
Terão sido as mentes portas
que lhe roubaram a felicidade.

É preciso mesmo ter tanto azar,
o primeiro com dois filhos a deixou
o segundo só dela se quis aproveitar
mas, na vida dela mais nenhum penetrou.

Tenha um bom dia amiga Elvira, um abraço.
Eduardo

Renata Maria disse...

Belo conto, com belo final.
Muita força para vc, Elvira.
Beijo*
Renata

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, hoje ainda existe e sempre existirá mulheres como a piedade, mulheres que são vitimas da mentalidade do homem e do meio em que foram educadas.
Gostei de ler o considero uma realidade de vida.
AG

http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

Flavio Ribeiro disse...

Olá Elvira,
Belíssimo o seu conto! Descrevendo a realidade de inúmeras mulheres que tiveram que trabalhar muito para poderem criar suas crianças absolutamente sozinhas.

Engraçado, é mais ou menos o tipo de mulher que me referi em minha última postagem no meu blog.

Parabéns pelo jeito como escreve!
Estarei sempre por aqui agora!

Abraços.
Flavio Ribeiro

portaodoinfinito.blogspot.com.br

Lu Nogfer disse...

Triste quando a necessidade fala mais alto . Mas no final ela se mostrou uma mulher de fibra e dignidade o que está faltando em muitas mulhereres por aí.

Parabens Elvira . Gostei muito do enredo e de como se concluiu.

Beijos

lis disse...

Um conto com uma carga grande de sentimentos, Elvira.
Uma mulher que não sabe nada da vida, nao procura aprender. principalmente se tratando do próprio corpo , nao se preveniu e acabou sozinha com filhos perdendo a esperança de ser feliz,mesmo que precisasse tentar inúmeras vezes.
Infelizmente , é mais comum do que imaginamos.Pobre das mulheres que dependem dos homens...
É revoltante .Fiquei com dó da Piedade.
Sua alma feminina anda a mil Elvira, estou admirando a veia poética que transita por muitos caminhos.
parabéns e meu abraço carinhoso

António Querido disse...

Olá amiga!
Pode subir à Figueira, tem lá a resposta do arbusto! Boa viagem com o meu abraço.

Miguel disse...

Eu é que agradeço a sua presença e gentis comentários às fotos publicadas.
De facto a Grécia tem belezas indescritíveis, nas suas inúmeras ilhas.

Cheguei no fim da história, mas deu para perceber que a sua escrita é muito atraente.
Dentro das minhas limitações de tempo... voltarei sempre que possível.

Um abraço
Miguel

Anne Lieri disse...

Elvira, um conto muito triste mas a pura realidade da vida! Eu adorei! bjs,

Duarte disse...

O titulo condiz com a fotografia e com a narração. Uma cara assim inspira piedade e medo.
Bem situado, historicamente, o drama desta mulher.
Uma mãe é tudo e faz tudo para que os seus sejam felizes. Aqui temos um bom exemplo.
Um grande abraço, querida amiga

Laura Santos disse...

Uma Piedade de uma determinada época, mas quantas "Piedades" não existiram e continuam a existir.
Um relato extraordinário , muito bem escrito e que nos faz sentir uma certa amargura. Gostei do final, triste mas tão verdadeiro; tanto se luta às vezes contra o destino, até que chega uma altura que o melhor é desistir e "homens nunca mais".
Gostei muito, Elvira.
xx

Beatrice Mar disse...

COMOVENTE!

:(

© Piedade Araújo Sol disse...

histórias dramáticas, que por vezes não são ficção.

a historia da Piedade é comovente e causa até um certo desconforto quando se lê, mas nesse tempo devia ter acontecido muitos casos como este.

:(

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Ainda que a liberdade absoluta seja uma miragem, muito triste será quando se depende da "bondade" de alguém para sobreviver...

E com o passar do tempo todos nós aprendemos, sobretudo com os desapontamentos - ainda que nem sempre tal possa ser posto em prática...

Muito bem relatado mais um capítulo daquilo que foi a vida de muita mulher nesse Portugal triste.

Um abraço
Vitor