14.9.14

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das 3 da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar com aquele casamento. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Mas João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa, não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já. Acabei o curso agora. Nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças. E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável.
-Mas Luísa, nós somos tão novos. Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso nem quero fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomava a pilula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro caracter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois de tão grande desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruiu o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite decorrera na maior normalidade e Luísa acabou deixando o trabalho às 8 da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto abriu-se num sorriso radioso.



Maria Elvira Carvalho

17 comentários:

Andre Mansim disse...

Puxa minha amiga! Você é demais. Consegue fazer as historias cotidianas mais belas e bem contadas que eu conheço!
Você e a Chica são as mestras desses contos.

Parabéns!

Edumanes disse...

Saborosa açorda na caçoila!
temperado com azeite do pote
revolução debaixo de saiote
criança não é uma qualquer coisa
para nascer é preciso ter sorte.

Gostei muito sim senhor,
coisas que acontecem na vida
quando não é verdadeiro o amor
pode causar profunda ferida!

Bom fim de semana para você amiga Elvira, um abraço
Eduardo.

✿ chica disse...

Que doce final!Que bom que João deu-se conta de tudo que iria perder! LINDO! bjs, chics

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Tudo está bem quando acaba bem, e o fim não podia ter sido melhor.Nesta
história curtinha e bem contada - que nem sempre acabam assim...

Abraço e bom fim de semana.
Vitor

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Deu-lhe um final feliz.
Sabemos que nem todos os casos de gravidez acabam desta maneira...

Mariangela disse...

Gostei do final Elvira, ainda bem que o João caiu em sí!
Beijo e uma boa noite!
Mariangela

José Lopes disse...

A vida prega-nos partidas e nem todos estão preparados para enfrentar as surpresas...
Cumps

Mari disse...

Adorei,Elvira!Gosto de contos do cotidiano.Ainda bem que teve um final feliz!
Obrigada pela visita e carinho.
Beijos

Anne Lieri disse...

Elvira,eu adoro finais felizes e sua história ficou muito linda,parabéns! bjs,

Dorli disse...

Oi Elvira,
Lindo conto que me prendeu do começo ao fim , jamais pensei nesse final.
Você é genial
Beijos
Lua Singular

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Quando há criança à vista, é sempre importante um final final feliz!
Bom final de domingo, Elvira!

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Ainda bem que, às vezes, a vida só nos prega sustos, em vez de nos derrubar. No caso do retrato de Luísa, que tão bem traçou, isso significaria a decepção absoluta com João.

Beijos

António Querido disse...

Por vezes a vida prega-nos partidas inesperadas, mas temos que ter a serenidade e capacidade de resolver os problemas sem sacrifício de quem não pediu para nascer, este João quando reconheceu que estava errado poderia ter sido tarde de mais e desfazer-se em fumo um sonho de uma vida.

Convido-a a dar uma espreitadela lá pela Figueira, tem a resposta ao seu comentário!
Com o meu abraço.

Dorli disse...

Boa tarde Elvira,
Passando para agradecer o carinho
Um beijo no coração
Lua Singular

Nilson Barcelli disse...

O arrependimento faz milagres...
O conto é magnífico.
Tem uma boa semana, querida amiga Elvira.
Beijo.

lis disse...

O amor perdoa tudo e afinal pensando bem ,foi apenas uma inconsequência que durou uma noite e quem não se inquietaria quando sem esperar entre eles venha alguém para roubar-lhes o sossego?
Refeito do susto pôde entender a grandiosidade daquele bebê que ia chegar e arrependeu-se.
Bonito Elvira
Estou amando esse seu lado feminino tão aflorado ... rs
meu abraço e parabéns

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

O arrependimento opera milagres.
Elvira, vc escreve muito bem.
Beijos,
Renata