20.9.14

HELENA



                                                 Foto DAQUI



A mulher que caminha apressada pelo parque da cidade, já não é jovem, mas é ainda muito bonita. Morena, de estatura média, como a maioria das mulheres portuguesas, tem uns grandes e belos olhos negros, um rosto oval perfeito, emoldurado por uma farta cabeleira negra.
Helena foi na sua juventude uma mulher muito bonita, mas nem por isso teve uma vida fácil.
Quando ela nasceu ia o século XX a meio, era a segunda filha de um casal pobre que iria ter mais sete filhos depois dela. Os primeiros anos, foram vividos com mais sonhos que comida, coisa comum naquela época entre grande parte da população. Por companheiros de brinquedos, tinha não só os irmãos, como as outras crianças do pátio, e até os primos que viviam perto. Tudo crianças que não sabiam o que era uma boneca, ou uma bicicleta.  Às vezes quando o Bernardino, caseiro da quinta matava o porco, tratava a bexiga do mesmo, e a enchia de ar para dar aos miúdos do pátio. Era uma alegria para os rapazitos. Para as meninas não havia brinquedos. Elas eram instruídas logo de pequeninas para lavarem a loiça, fazer as camas, varrer a casa e cuidar dos irmãos mais novos. As mães trabalhavam ali perto na Seca do Bacalhau. Um trabalho duro que as fazia andar sempre cansadas para tudo, até para pegar num filho ao colo, ou dar-lhes um beijo.
Quando Helena fez a 4ª classe, foi "servir" para a casa do senhor doutor que ia uma vez por semana examinar o pessoal à Seca. Ele já tinha uma cozinheira, e uma criada para a casa, mas precisava de alguém que a ajudasse já que tinha 3 filhos e a criada levava o tempo a queixar-se que não conseguia sozinha tratar da casa e das crianças. E a esposa não tinha paciência para as crianças. Tinha as suas amigas, as visitas à igreja e os chás com as amigas. Aí levou até aos 18 anos como "criada de servir" interna. Dormia e comia em casa dos patrões, e o que ganhava ia quase por inteiro para ajudar a criar os irmãos mais novos.
Num domingo de folga encontrou uma antiga amiga, vizinha do mesmo pátio, onde ambas nasceram. Um pouco mais velha, ela tinha casado e o marido encontrava-se numa comissão no Ultramar. No meio da conversa a amiga disse-lhe que um colega do marido queria uma madrinha de guerra, e a convidou para isso. Helena aceitou e em breve se correspondia com o rapaz que até já lhe mandara a foto e era um belo moço.
Uns meses mais tarde, o rapaz pediu-lhe namoro, prometendo-lhe que se casariam logo que ele regressasse.
Helena estava farta da vida que levava. Alguém que lhe prometia uma vida diferente era tudo o que ela pedira a Deus.  Aceitou o namoro, e mentalmente preparou-se para o casamento e para a vida que ela sonhava.
Quando o rapaz chegou, foi falar com os pais dela, obteve autorização para o casamento e começaram a tratar dos papéis. Arranjaram uma casinha, um anexo num prédio perto da casa dos pais.
Não era o que ela tinha sonhado, mas ele estava na tropa, ela deixara a casa do senhor doutor e ficava a promessa de mudarem para uma casa melhor logo que fosse possível.
O rapaz não tinha família fora criado com uma tia que também não podia ajudar.
Pouco antes do casamento, Helena recebeu a visita da antiga vizinha, que acompanhada do marido lhe fez algumas advertências, dizendo-lhe que o jovem com quem ela ia casar não era bem aquilo que ela pensava, e que deveria conhecê-lo melhor, não fosse sofrer algum desgosto.  Ela porém estava demasiado iludida com a “lábia” do rapaz e não acreditou em nenhum dos avisos.
Casaram-se em Setembro de 69.


Continua


18 comentários:

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

"Madrinha de guerra", expressão que hoje dificilmente será entendida. Mas que na altura fazia sentido e ajudava a passar o mau bocado de alguns que que estavam lá longe.E que por vezes acabava em casório, depois dum "namoro" vivido à distância...

E vamos lá ver como este acaba...

Abraço
Vitor

✿ chica disse...

Hmmmmmmmmmmmm...Já estou cheirando confusões por aqui,rs Vamos acompanhar e esperar! bjs, chica

Edumanes disse...

Essa história faz-me lembrar de quando era moço. Também fui criado com uns tios. Fui para a tropa, destacado para Moçambique, a diferença é que não casei com minha madrinha de guerra quando regressei à Metrópole, como se dizia nessa época. Continua, quando e como será o fim, só espero que seja feliz!

Tenha uma boa noite amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

M D Roque disse...

Comecei bem a minha curta ronda hoje. Adorei ler, Elvira. Madrinha de Guerra ... há quanto tempo??
Outros tempos, outras agruras.
Virei para os próximos capítulos, sem dúvida que virei.
Beijo.D

http://acontarvindodoceu.blogspot.pt

Bell disse...

Curiosa pra saber mais.
É assustador qdo alguém chega e te fala que a pessoa que vc se relaciona não é o que vc pensa....


bjokas =)

Dorli disse...

Oi,Elvira

Coitada! Vai sofrer como um cão, se você não mudar a estória.
Conhecendo já temos divergências, sem conhecer pode sair até morte.
Beijos no coração
Lua Singular

vendedor de ilusão disse...

Elvira, creio que cheguei na hora certa, pois quero acompanhar pare-passo este teu belíssimo Conto; és uma inspirada, creia-me!
Tenhas um feliz fim de semana.

Mari disse...

Oi,querida
Já vi que vou acompanhar a história de Marina com muita avidez!Adorooo!
Obrigada pela visita e um belo fim de semana!!!
Beijocas

Existe Sempre Um Lugar disse...

Bom dia, vai ficar interessante, certamente que a Helena mais tarde vai lembrar dos avisos, mas também vai ter força para dar volta aos inesperados acontecimentos.
AG

http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

Rita Sperchi disse...

Bom dia bom final de semana
com muita chuva por aqui.

Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e toca o seu coração

. (Gabriel García Márquez)

Bjuss de sempre

└──●► *Rita!!

Zé Povinho disse...

Quem me avisa meu amigo é!
Abraço do Zé

Maria Teresa Fheliz Benedito disse...

Vamos acompanhar e ver o que irá acontecer, um abraço e feliz final de semana.

lis disse...

Uniões rapidinhas assim nem sempre dão bom resultado, tomara sejam felizes.. até que dure rs
Não quero perder seu pensamento sobre a Helena_ eu volto .
um abraço e bom fim de semana

Andre Mansim disse...

Ixi... Sei não, mas acho que ela se deu mal com esse novo marido....

Belo começo de conto!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Ontem estive aqui, li o texto,digitei o comentário e não consegui publicá-lo. Vejamos agora: gostei da história e vou já me inteirar da parte final!
Bom domingo, Elvira, meu abraço!

MARILENE disse...

Sonhos podem levar a grandes equívocos e me parece que Helena não vai se dar bem. Bjs.

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Os sonhos por vezes se transformam em pesadelos.
Beijo*

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
RESOLVI LER MAIS UM POUCO E TE DIGO QUE "PROMETE", VAI SER MUITO BOM ESTOU CERTA.
BOA NOITE AMIGA
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/