21.9.14

HELENA - FINAL



Depois do casamento, Inácio não se mostrou o homem romântico e apaixonado que as cartas mostravam. Antes pelo contrário parecia que não tinha desejo por ela. As poucas vezes que faziam amor, era como se ele estivesse a cumprir uma obrigação. No entanto quando saíam ele mostrava-se carinhoso, e toda a gente pensava, que eles eram um casal feliz.
Um dia ele chegou a casa com a novidade. Fora destacado para Moçambique, ia partir em breve.
Foi um choque para Helena. Ela soubera nesse dia que estava grávida e esperava a sua chegada com ansiedade para lhe dar a notícia. Esperava que ele ficasse feliz, mas em vez disso ele mostrou uma completa indiferença, mostrando-se muito mais entusiasmado com a comissão.
Nos dois anos seguintes, os "bate-estradas" chegavam regularmente e Inácio parecia um homem feliz. Muito mais feliz com os colegas, do que com a mulher.
Quando voltou, as esperanças que Helena pudesse ter sobre a conduta do marido dissiparam-se. Ele estava cada dia mais seco, e não lhes ligava nenhuma a ela nem à filha.
Helena que na altura já estava empregada, começou a pensar que aquilo não era vida, e pediu-lhe a separação, já que naquela altura ainda não havia divórcio em Portugal. Inácio, teve uma atitude estranha. Pediu-lhe mais uma oportunidade, prometeu que ia ser diferente, disse que ia arranjar uma casa melhor. E arranjou. Um rés-do-chão num prédio ali perto. Mas a sua indiferença não mudou. Nem sequer quando Lena se desculpou com os medos da filha e colocou uma cama no quarto dela. Os anos foram passando, e Helena vivia apenas para o trabalho e para a filha a quem amava como a mais extremosa das mães. O marido era como um hóspede. Dava dinheiro para a casa e em contrapartida, tinha cama, comida e roupa lavada. Quando a filha terminou a 4ª classe, Helena, aproveitando que nessa altura já era legal, pediu o divórcio ao marido. Este negou-lho dizendo que se ela insistisse, a punha na rua, já que a casa estava em nome dele, e mais, não daria dinheiro algum para a filha. Pior ainda ameaçou bater-lhe.
Helena pensou que o seu ordenado não dava para educar a filha, pagar a renda de uma casa, e comerem. Por amor à filha, desistiu.
Entretanto o marido começou a ausentar-se, vinha de vez em quando, mas quando vinha, por qualquer coisa oferecia pancada à mulher e à filha, chegando às vezes a vias de facto.
Anos e anos de sofrimento. No dia em que a filha se formou, Helena pode enfim requerer o divórcio.  
Hoje ela confirmou algo de que sempre suspeitou. O marido usou-a, por cobardia, porque não tinha coragem de assumir a sua homossexualidade. E descarregava nela e na filha a sua frustração e infelicidade.



FIM

Elvira Carvalho


Bom Domingo

20 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Sinceramente, não esperava esse final. Pobre mulher, esperar que a filha se formasse para se livrar de um homem que nem sequer a respeitava. Esse é o destino de muitas mulheres que vão aguentando o sofrimento por falta de condições para a independência...
Um abraço, Elvira, bom domingo!

✿ chica disse...

Que triste! Por uma falta de coragem de assumir o que realmente se passava com ele, estragou 3 vidas! Pena! Lindo conto , muito bem escrito! bjs, chica

lidacoelho disse...

Pois...Alguma coisa parecia não se coordenar com a vida deste casal.
E tudo podia ser tão diferente...

MARILENE disse...

Muitas mulheres se sujeitam ao sofrimento por não serem independentes. Imaginei que Helena fosse sofrer, ao ler sua postagem anterior, mas não imaginei o fim de seu conto. É muito triste ter que suportar uma vida assim. Bjs.

António Querido disse...

Infelizmente os cobardes não acabam, esse tipo de homens não têm nada na cabeça nem na vida, são infelizes e descarregam nos mais fracos, são psicologicamente doentes.
Com o meu abraço

Nilson Barcelli disse...

Um final inesperado.
Mas este tipo de casamento de soldados no ultramar era bastante frequente, alguns até o faziam por procuração.
Gostei do teu conto, em apenas 2 capítulos. A tua narrativa está cada vez mais fluída, melhor.
Tem um bom domingo, querida amiga Elvira.
Beijo.

Edumanes disse...

São coisas que acontecem,
na vida de algumas pessoas
que não são que parecem
à tão fazem sofrer outras!

Resto de bom domingo,
um abraço para você amiga Elvira.

Eduardo.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Estive a ler os relatos de resistência e coragem que publicou nos últimos tempos, mantendo a matriz da mulher protagonista. É bom que assim vá fazendo porque é a partir destes exemplos de vida que se vai traçando o retrato colectivo da mulher portuguesa - tantas vezes submetida a violência dentro de casa onde se invoca sempre um qualquer pretexto para atenuar o comportamento do agressor. Neste caso foi a homossexualidade, noutros é o álcool, noutros as agruras da vida ou a infância atribulada. Não tenho paciência nenhuma para atenuantes: tais indivíduos são cobardes e malfeitores! O seu bonito texto, parece-me, corrobora a minha opinião.

Beijos

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Final inusitado e não só por isso muito bom. Gostei muito.
Beijo*

esteban lob disse...

Hola Elvira:

Final inesperado, aunque triste.
Pero más vale tarde que nunca, dicen.

Un abrazo austral.

Anne Lieri disse...

Que coisa,não? Pura covardia desse marido! Tanto sofrimento poderia ser evitado! Linda e interessante história! bjs e ótima semana,

Graça Sampaio disse...

Ainda pensei que tivesse outra família... mas de facto, enfim, falta de nível da parte dele!

Outros tempos!

lourdes disse...

Há muitas vidas assim.
A mulher não consegue divorciar-se a vida inteira por não ter dinheiro suficiente para criar os filhos, ou por chantagem psicológica que o marido faz, ou....ou..... e assim se passa uma vida inteira sem ser feliz!

Olinda Melo disse...


Vidas difíceis. Mulheres que sofrem a vida toda. Felizmente a Helena libertou-se podendo ainda refazer a sua vida. Nunca é tarde.
A meu ver o conto teve um final feliz.

Parabéns, Elvira, por mais este conto cheio de humanidade e tão verdadeiro.

Boa semana.

Bj

Olinda

Ruthia disse...

Caramba, não esperava por este desfecho. Pensando bem, muitos homens terão passado por isto (sobretudo em gerações passadas), presos ao medo de se assumirem. Até entendo, porque vivemos numa sociedade muito preconceituosa. Pena que arrastem outros para o seu inferno pessoal.
Querida Elvira, já me registei como seguidora (obercodomundo, sem foto). Virei visitá-la mais vezes.
Beijinhos
Ruthia d'O Berço do Mundo

lis disse...

Oi Elvira
Um final triste quando o casal não permanece unido,
Esperava algo parecido já que ela havia recebido informações antes de casar.
As paixões costumam mesmo ser frágeis e
nem sem se transformam em amor.
um abraço para ti

Duarte disse...

O trabalho o refugio de muitos dissabores.
Um excelente trabalho uma vez mais.
Aquele abraço amigo

© Piedade Araújo Sol disse...

dramas da vida real.

um final inesperado.

bem contado.

:)

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Não esperava tal desfecho, nem que fosse esta a razão para que as coisas corressem mal.E olhando à época em que tal ocorreu, não será assim tão difícil compreendê-lo...

Abraço
Vitor

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
VISTE, FUI FICANDO, ME PRENDENDO COM A LEITURA E NÃO ME ARREPENDO POIS, FIQUEI MUITO SURPRESA COM O FINAL.
MUITO BOM MESMO.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/