17.9.14

GRAÇA


                                    Foto DAQUI
Passou por mim. Ia a chorar e nem me viu. Estranhei. Conhecemo-nos desde sempre e sempre nos falamos com a cordialidade duma amizade cimentada nos anos. Interpelei-a:
- O que aconteceu Graça?
-Foi o meu filho, -respondeu num soluço.
Peguei-lhe no braço e perguntei:
- Queres falar?
Ela não respondeu. Mas eu percebi que sim.
-Vem comigo. Vamos tomar um café.
Enquanto nos dirigíamos ao café, recordei desde quando conhecia Maria da Graça. Desde que me lembrava, sempre a conhecera. Somos mais ou menos da mesma idade. Nos anos cinquenta os pais dela vinham todos os Invernos trabalhar para a Seca do Bacalhau. Era um trabalho sazonal, mas vinha muita gente do norte do país, para trabalhar na safra. Chegavam nos últimos dias de Setembro, quando os barcos bacalhoeiros regressavam da Terra Nova e da Gronelândia, e partiam em fins de Março, quando os navios voltavam para a pesca. Maria da Graça vinha com os pais. E brincava comigo e com as outras crianças cujos pais trabalhavam na Seca. Todos os anos era a mesma coisa até que fez os 14 anos. Depois já vinha para trabalhar.
A Graça -eu sempre a chamei assim -nunca foi uma moça muito bonita. Mas era uma jovem vistosa. Alta, forte, bem proporcionada, mas com um rosto um tanto rude e uma voz demasiado forte, o que lhe dava um ar um tanto ou quanto masculino. Boa moça, boa amiga, não tinha muita sorte com os namorados. Talvez que eles se assustassem com ela. Os homens gostam de mulheres de aspecto frágil, porque isso os faz sentir mais fortes, e lhes dá a oportunidade de se armarem em protetores. Com a Graça, isso era impossível. Com 1,75m de altura e 72Kg de peso, assustava a maioria dos rapazes casadoiros.
Tinha dezanove anos quando conheceu Armindo. Armindo era um bom rapaz, trabalhador, e ainda mais rude que ela. Tinha começado ainda menino no monte a guardar gado e não sabia uma letra do tamanho dum comboio como costumava dizer. Mas encantou-se com ela e daí ao casório, lá na igreja da aldeia, foi só o tempo de correrem os "papéis". Até porque ele já tinha ido às "sortes" e estava prestes a começar o serviço militar.
Pouco mais de um ano de casado, morria numa emboscada em Cabinda, enquanto a mulher segurava uma gravidez de sete meses, apesar do desgosto.
Quando o filho nasceu, Graça voltou à vida anterior. A vir fazer a safra do Bacalhau, até porque agora precisava criar o filho, e  se a vida era muito difícil naquela época, por cá, lá na aldeia ainda era pior. Pouco tempo depois da morte do marido, Graça perdeu a mãe, e dois anos mais tarde o pai também se foi. Nessa altura ela decidiu que não ia mais lá para a aldeia. Quando o Bacalhau acabasse havia de arranjar uma casa ou duas para trabalhar a dias. Queria que o filho fosse à escola e estudasse. E se bem o pensou, logo o pôs em prática no fim da safra.
Começou por ajudar no trabalho do campo, numa das quintas da Seca, e assim conseguiu ficar a morar com os caseiros, e não pagar renda. Trabalhava na Seca do Bacalhau desde que os navios chegavam até que voltavam a abalar, e depois na quinta, até que voltavam a chegar. Assim foi ficando  por aqui, e criando o filho que mandou para a escola logo que fez sete anos.
Tinha o filho dez anos, quando se juntou com aquele que ela diz ter sido o homem da sua vida. Fernando era um vizinho que conhecia há muito. Casado, pai de dois filhos, bom marido, bom pai. Graça admirava-o pelas qualidades que todos lhe reconheciam. Um dia porém, a mulher de Fernando enrabichou-se, por um mariola, com pinta de artista e lábia de bom malandro. E de tal forma se apaixonou que desapareceu com ele deixando para trás o marido e os dois filhos. Com pena do vizinho, Graça, começou a tratar-lhe da casa e dos filhos. Mas a pena e a admiração que sentia depressa se transformaram num sentimento muito mais forte. Como Fernando era casado e naquela altura não havia divórcio, juntaram os trapinhos como se costuma dizer. E formaram uma nova família, mas Graça não conseguiu ter mais filhos. Anos mais tarde, depois da revolução de Abril, a mulher de Fernando apareceu a pedir o divórcio, e os filhos.
então ela pôde realizar o sonho de voltar a casar, embora apenas no registo. Mas nessa altura já Maria da Graça tinha um novo e mais grave problema na sua vida. O filho com 18 anos tinha-se ligado a uns amigos esquisitos, abandonara os estudos, não trabalhava, cada vez que saía, voltava estranho, agressivo e depois levava a dormir um dia ou dois seguidos. Droga, começaram a murmurar as vizinhas. O rapaz metia-se na droga. E a mãe levava os dias a chorar, e à noite mostrava um sorriso forçado ao marido, para não o apoquentar. Uma noite, estava ela na cozinha a "fazer horas" a ver se o filho chegava, quando o marido gritou por ela do quarto. O grito da morte, pois quando ela chegou ao quarto estava caído, meio atravessado na cama, como se tivesse tentado levantar-se e não conseguisse. E morto. Maria da Graça, nem queria acreditar. Nem deu pela chegada do delegado de saúde, nem pela ambulância que lhe levou o marido para autópsia. Era como se o espírito se tivesse ausentado do corpo.
Mais tarde soube que tinha sido um ataque cardíaco fulminante. Maria da Graça nunca mais foi a mesma mulher. Mudou de casa, perdeu a alegria, tornou-se uma mulher seca, amarga. Pouca gente sabe que se chama Maria da Graça. Toda a gente a conhece por Maria.
Chegamos ao café e sentando-nos numa mesa mais afastada. Perguntei-lhe então o que se passava.
- Tu sabes -respondeu-me, - que o meu filho é um drogado. Ninguém sabe o que eu tenho sofrido com ele. Por causa da droga roubava-me todo o dinheiro, batia-me, levou-me as coisas de valor de casa e vendeu tudo. Para sobreviver fiz de tudo, até cheguei a ir aos contentores do lixo em busca de comida. Depois arranjei cartões de jogo para vender. Ele ficava-me com a pensão e com o dinheiro que eu ganhava a lavar escadas. E eu ia-me governando com o dinheiro dos cartões. Até ao dia que ele descobriu. E levou-me o dinheiro que eu tinha com a ameaça de que me ia denunciar à polícia por vender jogo clandestino. Desisti. Por medo dele, um dia, mudei a fechadura da porta.  Quando chegou fez um escarcéu para entrar e eu fingi que não estava em casa. A ver se ele se ia embora. E sabes o que ele fez? Deitou-se no chão e ali ficou caladinho.
Quando passado largo tempo abri a porta para ir ao pão, ele agarrou-me as pernas e com um puxão forte fez-me cair. E depois bateu-me. Eu gritei, gritei e os vizinhos chamaram a polícia. Ele foi preso e da esquadra, meteram-no numa casa de recuperação. Esteve lá um ano. Chegou anteontem. Pousou as coisas em casa, saiu e chegou tarde da noite, drogado. Está a dormir há quase dois dias e eu tremo de pensar que ele vai acordar a qualquer momento.
Que Deus me perdoe, mas penso que era uma sorte se ele morresse.
Olhou para mim e disse:
- Ficaste escandalizada? Achas que sou um monstro?
Sem palavras que servissem de consolo, apertei-lhe o braço e abanei negativamente a cabeça.




Maria Elvira Carvalho


25 comentários:

✿ chica disse...

Pobre Graça. Que tristeza para uma mãe! bjs, tudo de bom,chica

lis disse...

Oi Elvira
Um conto que li num fôlego só! acho que já previa que a vida não lhe correria bem! rs e foi o que realmente aconteceu.
Não acredito em destino mas parece-me que a sua Graça estava fadada a administrar as perdas pela vida afora.
E o desespero maior finaliza com o filho a ponto de ter por ele sentimentos pouco nobres.
Penso que a Fé poderia salvá-la e lhe daria mais opções de esperanças na recuperação do seu menino.E muita reza com joelhos no chão ... rs
Boa semana Elvira e já aguardo mais inspirações, vez que a alma feminina esbanja poesia e encantos.
um abraço

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Esta Maria falou da sua desdita,mas existem tantas Marias com filhos drogados.
Vivem silenciosas e percorrem as ruas da amargura que ninguém consegue pintar nem reconhecer pelos horrores...

Dorli disse...

Oi Elvira,
Madre de Dio.
Aqui na minha pequenina cidade, as drogas correm a soltas, mães e pais que sofrem: internam e voltam piores.
Um dia eles acham a morte não precisamente nas suas casas.
Jesus!Beijos
Lua Singular

Edumanes disse...

A graça, só tem graça,
quando não causa desgraça a ninguém
nesse caso tanta desgraça
pois, graça nenhuma tem!

Nesse tempo era assim,
assim continuará a ser
quem para fazer mal nasceu ruim
outra coisa na vida não sabe fazer?

Tudo na vida tem fim,
para que serve a ruindade
podia-mos viver no jardim
da mais bela felicidade...

Um abraço para você amiga Elvira.
Eduardo.

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Não acho ela um monstro. Criar um filho drogado deve ser horrível.
Beijo, Elvira,
Renata

Silenciosamente ouvindo... disse...

Obviamente que não é um monstro,
é apenas uma mulher muito aofrida.
Sei bem o que é viver com um
filho drogado(tenho na família)e
é um autêntico inferno.
Bj.Irene Alves

Bell disse...

Tantas vivem esse drama =/


bjokas =)

Graça Sampaio disse...

Triste de mais, Elvira!! E ainda por cima com o meu nome.... (se bem que eu seja Graça Maria)

Também eu em nada lhe levaria a mal por "desejar" a morte desse filho...

Emília Pinto disse...

Antes de mais, Elvira, quero pedir-te desculpas pela ausência. Claro que não é por esquecimento dos amigos, mas sim por ter andado a " curtir " o nosso Verão que está prestes a terminar, infelizmente. Já coloquei em dia as minhas leituras aqui e adorei o " retrato " que fizeste destas mulheres, Graça, Inês, Luisa e Carolina; todas diferentes, mas todas muito fortes e corajosas. São assim as mulheres!!! A vida não foi muito simpática com nenhuma delas, mas, graças à sua força, tudo se resolveu e acabaram por ser felizes. Claro que a Graça não conseguiu a felicidade, porque o que ela tinha de mais sagrado, o filho, não se recuperou e essa dor ficará com ela para sempre. Parabéns, amiga pelos belos contos que partilhas connosco e cá fico à espera de mais. Um beijinho e até breve!
Emília

lourdes disse...

A droga é um dos piores flagelos da humanidade e não escolhe estratos sociais.
Uma vida sofrida a desta mulher.

António Querido disse...

Coisas da vida que ninguém deseja!
Há por aí muitas Graças e também muitas desgraças!
Da Figueira para o Barreiro vai o meu abraço.

Maria disse...

Gostei tanto Elvira...!!!! Já estou outra vez atrasada na leitura tenho de vir cá com mais tempo!
Bjs
Maria

Maria disse...

Gostei tanto Elvira...!!!! Já estou outra vez atrasada na leitura tenho de vir cá com mais tempo!
Bjs
Maria

Maria disse...

Gostei tanto Elvira...!!!! Já estou outra vez atrasada na leitura tenho de vir cá com mais tempo!
Bjs
Maria

Maria disse...

Gostei tanto Elvira...!!!! Já estou outra vez atrasada na leitura tenho de vir cá com mais tempo!
Bjs
Maria

Vanuza Pantaleão disse...

Esse é um drama de muitas famílias pelo mundo afora.
Valeu o alerta, Elvira!Bjs

Nilson Barcelli disse...

Mais um belo conto.
A droga destrói o próprio e a família.
Bom resto de semana, querida amiga Elvira.
Beijo.

paideleo disse...

A droga é coma un cancro que desfai unha persoa e atormenta unha familia.
Non me sorprendo se Graça quere amorte do fillo: é o millor para el e para ela.

Dorli disse...

Oi Elvira,
Passando para lhe desejar uma ótima noite.
Obrigada pelo carinho
Beijos no coração
Lua Singular

Anne Lieri disse...

Elvira,que história mais real! Há muitas Graças neste mundo! Adorei o seu conto! bjs,

aflores disse...

Retalhos de uma vida, bem ao nosso lado, e muitas das vezes sem... graça.

Tudo de bom.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Uma triste história de vida, que bate à porta de gente que não a espera, e a torna num calvário.E do qual ninguém está a salvo...

Muito bem contado, como sempre.
Um abraço.
Vitor

Luma Rosa disse...

Oi,Elvira!
Maria da Graça é um retrato do que sente uma mãe que vê o seu filho definhar nas drogas. A morte parece lhe cair bem...
Mas quantas perdas mais ela sofrerá? Que triste vida!
Beijus,

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
ESTOU AQUI TE LENDO E TE ADMIRANDO PELA QUALIDADE DE TEUS ESCRITOS.
ESTE TEXTO É RICO EM DETALHES E EMOÇÃO, ALÉM DE SER UMA REALIDADE, POIS QUANTAS MÃES PASSAM POR ISSO, É TRISTE MAS, REAL.
AMIGA, ESTOU AQUI, MAS DEVIDO AO AVANÇADO DA HORA E AO MEU SONO, VOLTAREI AMANHÃ E VOU LENDO, ATÉ ME ATUALIZAR.
ABRÇS AMIGA
http://zilanicelia.blogspot.com.br/