26.9.14

AMÉLIA


                                          foto da net

Amélia, engoliu as lágrimas, afivelou a máscara de mulher feliz, e saiu para a rua. O dia estava lindo, o sol aquecia o corpo e era como um balsamo para o seu coração.
Era ainda uma mulher muito bonita apesar de já não ser muito jovem.  Tinha uma farta cabeleira negra, uns doces olhos castanhos, e uma boca bem desenhada. Alta, magra mas bem proporcionada. E era sobretudo uma excelente atriz, embora nunca tivesse subido num palco. Porque ninguém diria, ao vê-la caminhar pela rua, pisando com segurança, saudando com um sorriso um ou outro conhecido, ou brincando com as colegas no emprego que não era uma mulher feliz.
Oriunda de uma família pobre, Amélia estudara até ao final do secundário com grande sacrifício dos pais. Impensável entrar para a Universidade, naquela época, a vida era muito difícil e embora ela tivesse sonhado com mais, viu-se obrigada a procurar emprego. Pouco tempo depois, conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus filhos.
Alexandre, parecia ser um bom rapaz, era alegre, e a sua boa disposição encantou-a. Namoraram e casaram num domingo de Maio.
Ainda nem bem terminara a lua-de-mel, e Amélia já se dava conta de que o marido não era aquilo que ela imaginara. Saía após o jantar, com um “até já vou ali ao café “, mas raramente voltava antes da meia-noite, uma hora. Amélia arrumava a cozinha, preparava os almoços para o dia seguinte, as roupas e finalmente caía cansada na cama, já que no dia seguinte tinha que se levantar cedo. Quando o marido chegava, raramente vinha “sozinho”. A acompanhá-lo vinha um insuportável hálito a álcool. Amélia fingia que dormia, para não iniciar uma discussão altas horas da noite. Na manhã seguinte, quando lhe chamava a atenção, ele era agressivo, dizia que ela era maluca, que estava a insinuar que ele era bêbado e que bêbado tinha ela o juízo. Por essa altura Amélia soube que estava grávida. 
Quando contou ao marido ele ficou muito feliz e durante três ou quatro dias não saiu de casa à noite. Renovaram-se as esperanças de Amélia. Porém, como sol de Inverno, durou pouco, nem deu para que as esperanças da mulher ganhassem raízes.
Quando Amélia desabafou com a mãe, esta que fora criada no conceito de obediência ao marido, disse-lhe:
- Tem paciência filha. Ele é bom marido, isso é o álcool. E depois a tua avó sempre dizia: “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”.
Foi nessa altura que Amélia, afivelou a máscara de mulher feliz e enveredou pela carreira de atriz no palco da vida.
O filho nasceu, foi uma enorme alegria para ela, mas nem o nascimento do filho trouxe um novo comportamento ao marido. Cada dia bebia mais, cada dia estava mais agressivo. Não que lhe batesse, diga-se em honra da verdade que isso nunca fez. Mas os gritos, os nomes que lhe chamava, e até as coisas que partia, era tão mau ou pior do que as agressões físicas.
Quando o filho tinha três anos, depois de uma violenta briga, Amélia tomou a decisão de se separar do marido. Nessa altura o divórcio ainda não tinha chegado a Portugal.
O marido caiu de joelhos, implorou perdão, disse que daí para a frente ia ser diferente, que nunca mais iam brigar, prometeu o mundo e a lua como se costuma dizer.
Pensando no filho, ela decidiu dar mais uma oportunidade ao casamento.
 Alexandre levou uns dois meses sem sair depois do jantar. Estava muito mais calmo, parecia um homem diferente, muito embora algumas vezes parecia que já tinha bebido um pouco, quando chegava do trabalho, mas enfim não seria grande coisa, já que ele se mostrava controlado. Por essa época Amélia engravidou de novo.
Uma malfadada infeção na garganta, uns medicamentos que tomou, que possivelmente anularam o efeito da pílula. Porque ela jurava que a tomara sem falha. Pouco depois o marido voltou a sair à noite e a chegar a casa, não bêbado, mas como se dizia antigamente “atravessado” Quando vinha bêbado, caía na cama, às vezes até vestido e dormia. Quando vinha “atravessado” implicava com tudo, dava pontapés nas coisas, dizia palavrões. O tempo corria, o segundo filho de Amélia, nasceu era uma menina linda que fez o encanto do irmãozinho.
No dia em que a menina fez um ano, o marido fez um escarcéu com ela numa loja de roupas infantis, que a deixou indignada e envergonhada. Era a primeira vez que o fazia em público, e Amélia saiu da loja sem compras e a chorar.
Em casa, pensou seriamente na vida e chegou à conclusão de que para se separar do marido só se fosse para casa dos pais, pois o seu ordenado, não chegava para pagar uma casa, e por comida na mesa para ela e os filhos. Sem falar que havia que pagar à ama dos filhos, ou não poderia trabalhar.
Pensando nisso pegou nos filhos, disse ao marido que ia visitar os pais, e foi sondá-los. Porém não encontrou apoio da parte deles. A mãe voltou com a tal máxima de “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”, o pai disse que não lhe arranjara marido, fora escolha dela, por isso era ela que tinha que resolver o problema, “ que entre marido e mulher ele não metia colher”
Voltou para casa, e no dia seguinte antes do marido ir para o trabalho, pôs os pontos nos Is.
 Ela estava farta daquela vida. Ou ele deixava a bebida ou ela deixava de ser sua mulher. A escolha era dele. E como sempre que ela ameaçava separar-se, o marido implorou, fez promessas, teve o desplante de dizer que bebia para perder o medo de a perder, pois não saberia viver sem ela. Amélia, percebeu que ele era doente, e teve pena dele, dela e dos filhos. Dele, porque não reconhecia que era doente e precisava de ajuda, dela porque era jovem e tinha pela frente um futuro de sofrimento, e dos filhos que amavam o pai e não tinham culpa de nada. Mas quando o marido voltou a beber, Amélia comprou um divã e instalou-se no quarto da filha. E nunca mais foi mulher de Alexandre embora vivam na mesma casa. Quando os filhos casaram, Amélia podia enfim pedir o divórcio. Mas nessa altura Alexandre estava muito doente, e nem ela teria coragem de o abandonar, nem os filhos, iam compreender que o fizesse nessa altura, depois de uma vida inteira de sofrimento.
Passaram-se quatro anos. Alexandre conseguiu superar a doença, já não bebe, mas está mentalmente muito envelhecido, quem sabe se efeito do álcool bebido sem regra, durante tantos anos. Ela sofre, porque nada é mais triste do que ver, dia a dia, a degradação mental de uma pessoa.
Hoje, Amélia põe toda a sua felicidade e enlevo nos dois netinhos que os filhos já lhe deram. 
E no emprego que apesar da crise, mantém. O futuro… quem poderá saber o futuro? Há muito que ela vive um dia de cada vez.
Fim

Maria Elvira Carvalho

18 comentários:

Laura Santos disse...

Uma dramática realidade que tantas vezes acaba , inclusive, de forma trágica.
Uma escrita muito realista.
xx

✿ chica disse...

Puxa, coitada da Amélia que passou uma vida sem viver por medo de enfrentar a mãe e os falatórios da época.Pena! A vida foi-se e ela nada aproveitou! bjs, chica e lindo mais esse conto!

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma história muito triste e mais triste ainda por serem frequentes estas situações na nossa sociedade.
Quer da parte deles mas também do outro lado estas situações são autênticos dramas familiares.

Pérola disse...

Vidas que se assemelham a tantas outras.

É bom descobrir que não estamos sozinhas.

Beijinhos

© Piedade Araújo Sol disse...

bem descrito.
e muitas Amélias existem por aí, que nós nem imaginamos.
:(

António Querido disse...

Esta era mais uma Amélia dos olhos doces, mas de coração destroçado, mostrando a sua arte de atriz no exterior do seu lar e há tantas Amélias e tantos Alexandres em todo o mundo infelizmente!
Da Figueira segue aquele abraço.

Olinda Melo disse...


Uma vida adiada...comum a tantas e tantas mulheres.

Um conto, um alerta.

Bj

Olinda

Edumanes disse...

Quem se obriga a amar,
obriga-e a padecer
não se pode nem se deve obrigar
seja quem for com quem não quer viver!

Noutros tempos era assim que muitas pessoas pensavam que deveria ser. Os tempos mudaram, mas não muitas mentalidades, cujos sofrimentos causados por "brutamontes" e cujas vítimas em geral são mulheres, continuam, infelizmente, vivos!

Tenha um bom dia amiga Elvira, um abraço.
Eduardo.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, existe um ditado popular que é certíssimos, "nem tudo o que parece, o é." admiro a sua criatividade, quando leio o que escreve, não tenho duvidas que, infelizmente é o que se passa em muitas famílias.
AG
http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

Berço do Mundo disse...

Sigo o seu blog há pouco tempo, mas já deu para perceber que a Elvira "canta" a mulher neste seu espaço, presta-lhe homenagem de uma forma muito digna.
A vida é, de facto, um palco.
Beijinhos
Ruthia d'O Berço do Mundo

Bell disse...

Amélia que era mulher de verdade.
Triste você estar com uma pessoa e depois que vc deu um passo importante, ela se revela.
Triste é a mulher casada, que tem o marido em vícios.
Acha que um dia a pessoa vai melhorar e o tempo passa e nada.
Ai vem os filhos, acha que o casamento vai melhorar e nada...
Tanta gente vivendo assim...


bjokas =)

Emília Pinto disse...

Tantas Amélias há por aí, amiga! Muitas mais do que aquelas que conhecemos, porque as telhas do telhado cobrem muita coisa. Ainda há pouco tempo um casal meu conhecido se separou para espanto meu, pois achava-o impecável. Mais surpresa fiquei quando ela me disse que há mais de um ano viviam na mesma casa, comunicando-se um com o outro através de e-mail. Neste ambiente vivam os filhos. Triste! Beijinhos, Elvira e muito obrigada por mais este momento agradável, apesar de triste.
Emília

Anne Lieri disse...

Elvira,que belo e comovente conto! Uma história que poderia ser verdade e acontece com muitas pessoas! bjs e bom fim de semana,

lis disse...

Oi Elvira
A Amélia é apenas mais uma ! quantas máscaras andam por aí bem afiveladas para não cair .
O fato do homem ser também mais forte fisicamente faz com que o medo as controle e a felicidade fica aprisionada, pra sempre.
Ainda bem que novos tempos chegaram e é bem mais raro aceitar esse' amar e padecer'...
um abraço grande Elvira e boa semana

lourdes disse...

Uma vida que me fez lembrar a de alguem que ambas conhecemos.
Será que te inspiraste nela?
Bjs

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Mas que frase! "Quem se obriga a amar,
obriga-e a padecer". É como se todo amor não valesse a pena... Mas de certa forma é a realidade, pois se devemos amar na alegria e na tristeza, que venha! Mas faltou a Amélia a tentativa de levar o médico para uma clínica de dependentes químicos. O álcool é a droga que causa maior dependência - maior que a nicotina e a cocaína - Me lembro sempre do ator Robin Williams que se manteve "limpo" por 20 anos e diante da morte do seu melhor amigo, teve uma recaída que lhe valeu a vida.
São vidas desperdiçadas por escolhas erradas. Mas quem iria advinhar que a escolha seria errada? Às vezes penso que Deus quer mesmo que passemos por algumas situações...
Beijus,

Nilson Barcelli disse...

Uma história que infelizmente não é muito rara.
E tu contaste-a de uma forma que me encantou. Nota-se que a tua narrativa continua a evoluir. E estás a ficar com fôlego para escrever um romance...
Tem um bom fim de semana, querida amiga
Elvira.
Beijo.

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Exprimir a realidade através da escrita é para poucos.
Muito bom.
Beijo*