23.11.13

VOCÊ VAI SABER PORQUÊ - ANDRÉ MANSIM

Recebi há dias numa gentileza do autor,  um exemplar do primeiro livro de André Mansim. "Você vai saber porquê" é um policial empolgante. Daqueles que o leitor começa a ler e fica tão embrenhado na leitura que só deseja lê-lo de seguida. Dois investigadores são chamados a resolver um crime, que à partida parece ser muito simples. Parece. Porque neste livro, nada é o que parece e de cada vez que se pensa que se encontrou o ponta da meada, verifica-se que existem várias pontas e voltamos ao ponto de partida. Há muito tempo que não lia um livro que me entusiasmasse tanto.
Parabéns André.

                                                           Por favor ampliem as fotos


A todos os que gostam de ler, aqui deixo a explicação da contra-capa para aguçar a vossa curiosidade e vontade de o lerem. Podem contactar o autor em  http://amansim.blogspot.pt/  no Facebook
https://www.facebook.com/andre.mansim?fref=ts.



Aproveito este espaço para agradecer  publicamente a outros amigos que me têm oferecido livros e a quem já agradeci por escrito.
Luís Filipe Maçarico    
Luis Milheiro
Jorge Esteves
Maria José Areal

A todos um enorme obrigada pelo carinho e amizade.

12.11.13

AGUARELA


Um barco apita ao longe...
Um galo canta...
Amanhece...
Ouvem-se os primeiros sons,
alguém que se levanta.
O dia começa...
Apressados os mais velhos seguem
preocupados para o trabalho.
Ás creches chegam os risos das crianças...
Trocam carícias os namorados...
um autocarro passa rápido...
Num banco de jardim, um velho, engole a solidão..
Ergue-se altiva a papoila,
humilde a roxa violeta...
Sai e entra gente nos mercados...
Apressada a dona de casa, descasca as batatas.
Chora o bebé na camita...
Brinca o menino na areia,
perante o olhar atento, do velho avô...
Desliza um barquito de à vela,
a lembrar aqueles de papel,
que fazíamos em criança.
Duma chaminé sai fumo...
Um cão ladra...
Um barco apita ao longe...

Elvira Carvalho

10.11.13

Centenário do nascimento de Álvaro Cunhal


Álvaro Cunhal nasceu há 100 anos.  Nasceu em Coimbra, mas foi em Seia que viveu a sua infância e decerto retirou da dureza daquelas terras a força com que defendeu os seus ideais. Para mim o que mais me fascina nele, é a convivência dessa força, de antes quebrar que torcer com a sua alma de artista.
Cunhal foi um homem a quem ninguém podia ficar indiferente, comungue-se ou não os seus ideais, e a história portuguesa do  século XX não seria a mesma sem a sua existência.
Gostaria de ter engenho e arte para fazer um belo texto a assinalar esta data. Como não tenho limito-me a assinalar a data.

4.11.13

ELISA II



Elisa viu-se nessa altura obrigada a contar a verdade aos pais. Tinha que deixar o filho com alguém para ganhar-lhe o sustento. E quem melhor que os pais? O pai só lhe disse que devia ter contado antes. E que tomaria conta do neto, como se fora um filho. Elisa deixou o filho lá na aldeia e veio para Lisboa ser criada de servir. Não pensava em namorados. Tudo o que juntava mandava para os pais, para o sustento do filho. Mas um dia conheceu o António. António era moço de Lisboa, com muito mais experiência de vida, e não foi difícil dar a volta à cabeça da jovem. Prometeu-lhe casamento, criar-lhe o filho, dar-lhe até o seu nome. Elisa ia viver com ele, e logo que acabasse a tropa, tratavam do casório. E mandavam vir o filho. Elisa acreditou. E um tempo depois deu-se conta que estava outra vez grávida. Quando António soube da gravidez, os seus modos alteraram-se. Começou a chegar cada dia mais tarde, com a desculpa de que tinha serviço no quartel. E um dia deixou de aparecer. Elisa foi lá ao quartel. Queria saber o que se passava. Mas lá disseram-lhe que ele tinha pedido para ser transferido. E começou novo calvário para Elisa. Quando o adiantado estado de gravidez não a deixava já trabalhar, recorreu à instituição de Santa Zita, que a ajudou até que a menina nasceu, bem como nos primeiros tempos, até que ela conseguiu com a ajuda da instituição arranjar trabalho.
A vida de Elisa foi uma vida de escravidão ao trabalho para criar os filhos. Porque depois da morte da mãe, teve que ir buscar o filho mais velho, para junto de si. Foi pai e mãe dos filhos.
Nunca mais quis ouvir falar de homens na sua vida.
Quando os filhos cresceram, Portugal tornou-se pequeno para os seus sonhos. Só pensavam em emigrar para o Brasil. O sonho duma vida melhor fez com que juntassem todos os tostões para a viagem. E lá foram deixando a promessa de mandarem ir a mãe tão logo tivessem casa e trabalho.
A principio as cartas do Brasil chegavam todas as semanas. Eram cartas cheias de novidades e promessas. Depois passaram a ser de mês a mês. A vida corria bem, a filha tinha até casado, e só estavam esperando mudar de casa para mandar a passagem. É que a casa era pequena. Mais tarde nascera a neta, a despesa era maior. Depois o filho casou, tinha mais despesas. Aos poucos Elisa apercebeu-se que tinha perdido os filhos quando se despediu deles em Alcântara.
Por fim as cartas deixaram de chegar. O olhar perdeu-se no horizonte, o corpo foi-se vergando ao desgosto e ao peso dos anos.
Elisa foi hoje a sepultar...
Nunca vi um funeral tão triste. Meia dúzia de vizinhos, ninguém de família. E enquanto a terra caía sobre a urna, eu pensava se os filhos iriam pensar algum dia no abandono a que votaram a mãe.
Elisa foi hoje a sepultar... e enquanto jogo uma flor sobre a sepultura murmuro uma prece:
Senhor, se é verdade que existe o paraíso, tem piedade desta tua serva, que já teve o seu inferno...

Maria Elvira Carvalho