25.9.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE V






- Não digas isso meu filho. És jovem, e algum dia esquecerás, embora hoje isso te pareça impossível. E eu? Será que não pensas em mim, filho da minha alma?  
Havia lágrimas na voz e nos olhos da idosa. Estivera bastante doente, e ainda andava com dificuldade, razão porque chegara tarde.

- Eu também fiquei sem o meu homem, e Deus sabe como lhe queria. Mas que seria de ti, se eu me deixasse levar pelo desespero? Por ti tive de viver. Sofri muito meu filho. Santo Deus como sofri. E hoje, queres acabar comigo, acabando contigo.

Tinha-o apertado nos braços, e choravam. Mãe e filho abraçados comungavam da mesma dor. Clara ficou a olhá-los enternecida. Na verdade sempre tivera um fraquinho por Pedro, mas ele escolhera outra na hora de formar família.

- Mana, olha toda a gente já foi embora - disse a irmãzita, puxando-lhe a saia.

Era verdade. Mas Clara nem se apercebera.

- Mãe, mãe, perdoa-me. Mas sofro tanto. A frase saíu entrecortada, como se quisesse engolir o soluço que lhe apertava a garganta. 
- Mas olhe minha mãe não se preocupe. Eu julgava que tinha perdido tudo e não é verdade. A mãe precisa de mim e eu vou viver para si. Que Deus me perdoe a minha insensatez.

- Vamos Pedro. Já todos se foram embora. A tua mãe esteve doente, e ainda não pode abusar das forças. Vamos andando.

- Vamos sim filha. E tu, meu filho, dá-me o teu braço e ampara este velho corpo cansado.

Deram-lhe o braço, e cada qual do seu lado, ajudaram-na. Na frente dos três a irmãzita de Clara, tentava apanhar uma borboleta, cantarolando com a inocente alegria das crianças.

continua


Resto de boa semana para todos.

21.9.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE IV


Calou-se e ficou pensativo. Como se falar do caso lhe trouxesse à memória, toda a angústia vivida. Clara escutara-o em silêncio. Procurou com o olhar o Santos contramestre do navio.
-É um grande homem, - disse Pedro que seguira a direção do seu olhar. - Não fora ele e possivelmente não estaríamos aqui hoje e toda essa gente teria alguém por quem chorar.
- E depois Pedro, como chegaram á Terra Nova? - Perguntou Clara, enquanto puxava a irmã, para junto de si.
- Depois que o temporal passou, embora com alguma dificuldade, conseguimos chegar a St. John's, onde reparámos a avaria, e abastecemos. Lembro-me bem, porque foi aí que eu recebi a notícia da morte dela.
Calou-se e por momentos, o seu olhar perdeu-se na distância. Clara olhava-o em silêncio, respeitando a dor do jovem. Ele retomou a conversa:
- Deus como sofri. Procurei a morte a todo o instante. Mas Deus, sempre me protegeu. E eu... eu, que nunca tive medo de nada, tive medo disto. Chegar aqui, e ver toda esta alegria e felicidade à minha volta... Ah! Rapariga, que se tu soubesses quão negros são os meus pensamentos, por certo fugirias de mim. A Graça era uma bela mulher. E uma boa esposa. Amava-me e eu adorava-a. E morreu. Morreu num desastre estúpido. Queria morrer também. Sem ela, a minha casa vazia, os meus sonhos mortos, que me importa viver?
Clara, não teve uma palavra de consolo para ele. Que podia ela dizer para lhe mitigar tão intenso sofrimento? Que a mulher a quem ele adorava, tinha morrido quando fugia com outro? E podia ela dizer-lhe isso? Seria como matá-lo duas vezes e não se pode ser tão cruel. Mas alguém lho diria. Nas terras pequenas tudo se sabe, e as pessoas parecem tirar prazer do sofrimento dos outros.                                                
                                                        
Continua


Bom fim de semana para todos os que passarem por este cantinho.

18.9.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE III




foto da net



Os últimos homens galgavam as escadas a correr. Mais gritos, mais risos, mais lágrimas. Os olhos de Clara ficaram presos num belo moço que subia lentamente as escadas, como se não tivesse pressa de chegar. Antigo colega de escola, companheiro de brincadeiras, o jovem parecia carregar nas costas um peso invisível.
 Aproximou-se dele, e saudou:
- Olá Pedro, como estás?
-Olá rapariga, - respondeu no seu vozeirão forte. - Como queres que esteja , um homem como eu? Não vês tu? Toda a gente está feliz, contente, e olha para mim? Que diferença entre este dia e o outro no ano passado. Também eu nessa altura galguei estas escadas sem as ver. Também eu tinha aqui a minha mulher, à minha espera. E hoje... hoje...
As últimas palavras morreram numa espécie de soluço rouco.
- Olha Pedro, é verdade que estiveram quase a afundar-se durante um temporal? - Clara tentava assim afastar maus pensamentos da mente do jovem.
- É verdade sim. Foi quando saímos dos bancos da ilha de Baffin, a caminho da Gronelândia. Fomos apanhados por um violento temporal. Partiu-se um guincho, que provocou um pequeno rombo no casco do navio e começámos a meter água. O motor parou. Todos estávamos assustados. Chegámos a pensar que não saíamos dali com vida. O vento forte, e as vagas altas, atiravam o barco de um lado para o outro, como de dançasse uma música infernal. Uns rezavam em voz alta, outros apertavam ao peito as fotografias da família. E entretanto afundávamo-nos irremediavelmente. Foi então que o Santos, o contramestre gritou:
- "Que fazeis aí parados, homens de Deus? Deixai-vos de choros idiotas, ou ides servir de jantar aos peixes. Venham aqui ajudar, rápido. Mulheres que fossem, não estavam tão assustadas." Não sei o que cada um sentiu. Mas lutando contra o vento, presos a cordas por causa das ondas que varriam o convés, descemos ao porão e tentámos tapar o buraco. Eu fui para a bomba tirar a água, o Santos, o Ti'Amadeu, e mais seis homens lá conseguiram depois de muito esforço tapar o buraco. Incrível como um rombo tão pequeno metia tanta água, e fazia tanta pressão. O Jorge da Rita agarrou uns desperdícios, e de escopro e martelo foi calafetando á volta da tábua nova que os homens tinham pregado sobre a de estava a deixar passar a água. Tivemos ainda que lutar com o temporal durante um bom par de horas, mas a questão da água fora resolvida.

Continua 

Esperando que estejam a gostar da história, desejo-vos um resto de boa semana

15.9.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE II



- Mana, mana, já viste, esta senhora tem tantas saias! -disse de repente a pequenita.

Ela olhou, a bonita nazarena, que estava junto à irmã. Sorriu, e a mulher devolveu-lhe um sorriso rápido, que tinha muito de nervoso. Logo os seus olhos voltaram-se de novo para o barco que estava já bem perto do sítio onde iria fundear. Era o Gazela, um belo veleiro de três mastros, que arrogante e belo passeava majestosamente pelo rio, com as suas velas brancas tremelicando, como se foram lenços gigantes acenando. Era o navio mais antigo da frota, mas era também o mais belo. Nele, ela via, toda a primitiva beleza das naus, com que os portugueses saíram em busca de novos horizontes.
 Nesse ano estivera prestes a afundar-se durante um temporal, e, talvez por isso houvesse ainda em cada olhar, um misto de receio a toldar a alegria da chegada.
 A ela, apaixonava-a, ver como aqueles homens de aspeto duro e rude, que lá longe travavam uma luta diária, contra o mar, que tem tanto de belo, como de traiçoeiro, quando pisam terra se transformam nos mais delicados, para abraçar quase sem jeito, as suas mulheres, os seus filhos, e as suas famílias.
 O barco estava agora fundeado. Os pescadores saltam rapidamente para as lanchas, que os irão levar até à pequena ponte de madeira, onde a família os espera com ansiedade.
 - Anda cá querida, não te debruces que podes cair à água - chamou ela a irmã que se afastara um pouco.
                                                     Nesse preciso momento chegaram à pequena ponte as primeiras lanchas, cheias de pescadores.
- Manel, meu rico Manel - gritou uma velhota mesmo ao pé dela.
-Paizinho, paizinho, chamou um garoto mais distante.
E há abraços e beijos, risos e lágrimas, naqueles rostos queimados pela vida rude do mar. E chega outra lancha, e outra, e mais outra ainda. E há enlevo e amor nos olhos de toda a gente. Naquele momento, tudo foi esquecido, apenas se vive o momento presente. Lá no rio, as velas do barco, ondulando ao vento parecem acenar gritando:
- Adeus até para o ano!




Continua

UM SANTO DOMINGO PARA TODOS.

14.9.13

Comentário nº 12 000


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                                                                          Vitor Chuva   


Com o post abaixo o Sexta atingiu o comentário nº 12 000 como podem ver na lateral. O que eu acho que é muito bom para quem não tem um grande grupo de seguidores e não apresenta no blogue textos de autores famosos que possam ser procurados. Daí que chegue à conclusão que os meus seguidores, são os melhores da blogoesfera. 
Ora bem para comemorar o número eu decidi oferecer a quem fez o comentário, um dos meus contos. Que vou enviar de seguida para o nosso amigo Vitor Chuva.
Um enorme obrigada a todos os que me leem e deixam a sua opinião pois é com ela que me posso aperfeiçoar.
Bom fim de semana


Amanhã continua o "Entre duas datas"

8.9.13

ENTRE DUAS DATAS



foto da net
                                                                                 I

O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo. Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:

- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!

Ela sorriu. Sorriu para o sol, sorriu para o passarinho, que naquele momento passou a cantar esvoaçando pela janela do seu quarto. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se reflectia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, o pequeno-almoço, e deixou-a a brincar à porta, enquanto arrumava os quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:

- Mana, já se vê o barco, já lá vem...

Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe era um lugre da pesca bacalhoeira, que pertencia à Seca da Azinheira. Andando devagar, com a irmã pela mão chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido esperá-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, tinham andado com ela na escola, foram companheiros de brincadeiras. Depois ou por gosto, ou por falta de opção juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo lá à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras à muito se tinham radicado à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...


Continua

O problema do feed por agora foi resolvido. Já repararam que me faltam 15 comentários para os 12.000? Pois é.  Vamos ver quem fica com o número redondinho...


Bom fim de semana.

5.9.13

CELESTE



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Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau às batatas e o sal , quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem à beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água ás batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pêra e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.
Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa , com que teve que encobrir, perante a família, a vergonha e a dor que sentia tanto ou mais do que os hematomas. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurra-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam à água. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema.
Anda Luísa,
Luísa sobe...
sobe que sobe,
sobe a calçada...
Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...


Este conto já foi postado em Janeiro de 2010. Mas como ultimamente a violência doméstica não para de aumentar, ainda ontem li que um homem de 80 anos matou a mulher,  que já vinha sofrendo de violência doméstica desde o inicio do casamento há 44 anos. Por outro lado são poucos os que me acompanham dessa época, e os resistêntes  se quiserem podem relê-lo.
Uma boa semana para todos