11.5.13

VIDAS CRUZADAS - PARTE XI







Depois daquela tarde era frequente encontrar os dois jovens juntos. Primeiro como dois amigos, depois como namorados, passeavam-se pela beira do rio, olhos nos olhos, dedos entrelaçados, sempre na companhia do pequeno Pedro.
Naquela tarde recebeu um telegrama da mãe, dizendo que como a sua irmã tivera de regressar a casa, ela resolvera ir também, e estava agora na casa da tia Rosa em Santarém.
  Pedro sentia-se perfeitamente. Nunca mais se sentira cansado, tinha perdido a palidez com que chegara, dormia bem e até engordara um pouco. Recordando a sua doença, e o que o médico lhe dissera, ele não se atrevia a fazer promessas a Rita. Às vezes lembrava-se de ter ouvido a mãe falar nas "melhoras da morte". Melhoras que muitos doentes terminais experimentam pouco antes da morte. E perguntava-se se era isso que lhe estava a acontecer. Os dias sucediam-se, e nada de novo acontecia. Uma tarde Rita disse-lhe:
- Estamos a acabar as férias. A mãe acabou a segunda série de tratamentos. Só pode fazer mais para o ano.
Naquele momento decidiu regressar. Precisava ir ao médico. Tinham-se passado quase três meses, e a verdade é que se sentia melhor que nunca, mas não se atrevia a contar a Rita o que se passava, nem se permitia fazer projectos para o futuro. Ela estranhou o seu silêncio. E quando nessa tarde compareceu no jardim não encontrou a jovem. Apenas a D. Célia e o pequeno. A senhora olhou-o com reprovação, quando a cumprimentou, e o pequeno soltou a língua.
- Zangaste-te com a minha irmã?
 – Não. Porquê?
 – Porque ela não quis almoçar e foi para o quarto chorar...
Sentiu-se um canalha, por ter feito chorar a jovem. Mas consolava-o o facto de que se ela soubesse a verdade ia sofrer muito mais. Despediu-se da senhora, fez uma festa na cabeça do pequeno e regressou a casa da tia. Aí chegado, foi directo ao quarto, abriu o guarda-fatos e colocando a mala em cima da cama, começou a meter nela as roupas de qualquer maneira.
Logo de seguida batiam à porta do quarto.
- Entre.
A figura da tia perfilou-se no umbral, seguida da fiel empregada.
- Vais-te embora filho? Aconteceu alguma coisa grave com a tua mãe?
 – Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho baixa nem atestado médico.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca saiu ninguém sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de encontrar Rita, não queria que ela o visse partir.



BOM FIM DE SEMANA. E PARA AS AMIGAS DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO UM FELIZ DIA DAS MÃES.