24.3.13

VIDAS CRUZADAS - PARTE VI

Na manhã seguinte, assim que o patrão chegou, Pedro pediu para falar com ele. Este olhou-o com estranheza, mas mandou-o entrar para o seu gabinete. O mais sereno possível, o jovem pediu a demissão e contou-lhe o que se passava. Mais do que patrão, ele sempre fora ao longo dos dez anos que levava no escritório um amigo. Um amigo com quem não se tem uma grande intimidade é verdade, mas ao fim e ao cabo um amigo. O patrão olhou-o incrédulo. Custava a acreditar que um jovem como Pedro, que nunca em dez anos tinha tido um dia de baixa médica, viesse agora dizer-lhe aquilo que estava a ouvir. Parecia-lhe um absurdo.
- E é por isso que eu quero a demissão, e também pedir ao Sr. Costa que não conte a ninguém no escritório o que acabo de lhe dizer. Como deve compreender, não quero manifestações de pesar, que só me constrangem. Também não quero que a minha mãe possa vir a saber do que se passa.
- Claro. Se esperar um pouco eu mesmo faço as suas contas e passo já o cheque.
- Muito obrigado, Sr. Costa. Eu aguardo no meu lugar, enquanto ponho tudo em ordem.
Menos de uma hora volvida, Pedro saía do escritório sem se despedir de ninguém, com o cheque no bolso. Na verdade bem mais do que pensava receber, já que o Sr. Costa generosamente acrescentara uma  indemnização, coisa que não era habitual,nem de lei. Depositou o cheque no banco e saiu descansado. A conta sempre fora conjunta
com a sua mãe, e embora ela nunca fosse ao banco, sabia-o. E como sabia ler e escrever, não teria problemas em movimentá-la.
Voltou para casa e começou os preparativos para a viagem. Estranhou a mãe não estar em casa, mas ela chegou logo depois.
- Fui aos correios mandar um telegrama à Palmira dizendo que chegavas hoje.
- Mas porquê mãe? Não era mais fácil telefonar?
- Fico mais descansada assim. A tua tia é um pouco dura de ouvido e podia entender mal o telefonema.
- E a tia Rosa? Já falou com ela?
- Já. Ontem à noite. Deve estar por aí a aparecer. Disse que vinha de táxi, mal rompesse a manhã.
Ele suspirou aliviado. Não queria ir-se sem que a tia Rosa chegasse. Assim podia continuar os preparativos. Depois de fechar a mala da roupa, escolheu criteriosamente alguns livros, entre os últimos que recebera de prenda de aniversário e meteu-os num saco. Guardou também uma caneta e um bloco de notas. Quem sabe se lhe apeteceria escrever alguma coisa? Fechou o saco e juntou-o à mala de viagem que repousava em cima da cama. Saiu do quarto e encontrou a mãe atarefada na cozinha.
- Mãe vou com o carro à oficina do Sr. Duarte. Há mais de três meses que não ando com ele, preciso saber se está tudo em ordem. Não tinha graça ficar empanado no caminho, e tenho que encher o depósito.
- Vai filho. É melhor que ele veja o carro, sim. A tua avó sempre dizia que quem vai para o mar avia-se em terra.
- Até logo, mãe.
- Vai com Deus, filho.




A TODOS QUE POR AQUI PASSAM DESEJO QUE A "SEMANA MAIOR" QUE SE APRESENTA, SEJA PARA VÓS, UMA ÓTIMA SEMANA.

21.3.13

DIA 21 DE MARÇO - DIA DA POESIA


foto da net


DIA 21 DE MARÇO - DIA DA POESIA


foto da net


POEMA PARA UM EMIGRANTE


Eu queria chamar-me Manuel
e viver tranquilo na minha terra
ir á tardinha com os amigos ao café
e falar do tempo sem pensar que a seca
trará a flor da fome às searas queimadas.


Eu queria chamar-me Manuel
e ter uma casa, água e luz,
poder fazer um filho livremente
sem pensar na subalimentação
física nem mental.


Eu queria chamar-me Manuel
ter emprego e não pensar
que os salários estão atrasados
e talvez o desemprego esteja á espreita
e a fome seja o jantar do próximo mês.


Eu queria chamar-me Manuel
e continuar a pensar Abril,
como a esperança da minha terra.
Eu queria chamar-me Manuel…
e sou apenas o emigrante.


Elvira Carvalho


PARA TODOS OS QUE POR AQUI PASSEM UM EXCELENTE DIA

19.3.13

19 DE MARÇO. DIA DO PAI



Se llamava Manuel, nació en España,
su casa era de barro, de barro e caña.
Las tierras del señor humedecían
su sudor y su llanto dia tras dia.

Introduzi a 1ª quadra dum belíssimo poema de Serrat para falar de um certo Manuel, que não nasceu em Espanha, mas cuja vida foi igualmente sofrida. Chamava-se Manuel, nasceu no interior norte deste país, que para alguns – cada vez menos - é um jardim á beira-mar. Quarto filho de uma pobre mulher que nunca conheceu marido, não conheceu escola. Começou a trabalhar ainda menino. Os filhos do patrão, ensinaram-lhe a ler e a escrever. A meninice e a juventude ficou para trás nessa pequena aldeia, no dia em que imigrou para o sul procurando melhor vida. Na margem sul do Tejo, começou a trabalhar numa seca de bacalhau. Aí conheceu a mulher com quem casou e que viria a ser a companheira de toda a vida. Sua casa não era de barro, mas era um barracão de madeira, assente em pilares de cimento á beira-rio. Era um barracão sem água nem luz, mas que o patrão lhe tinha cedido e do qual não pagava renda. Aí lhe nasceram três filhos em menos de três anos. Com autorização do patrão, rompeu ao mato um bocado de terreno para semear alguma coisa que lhe ajudasse a criar os filhos. Com as próprias mãos, abriu um poço, para regar o terreno e para ter água em casa. Trabalhava dia e noite disfarçando as lágrimas e a revolta em piadas brejeiras, e em brincadeiras carnavalescas. Adorava futebol. Lembro-me que não tínhamos rádio e que ele construiu uma engenhoca a que chamava galena, e que lhe permitia com uns auscultadores ouvir os relatos de futebol. Pegou a vida pelos cornos, apesar da sua figura franzina. Foi o claro exemplo de que os homens não se medem aos palmos. Anos mais tarde, as filhas casadas, a idade da reforma chegou com mais uma provação. A mulher, companheira de sempre, sofreu um AVC e ficou paralisada. E Manuel começou uma nova luta. Tratar da mulher e levar para a frente a casa. Teve a ajuda dos filhos, mas apesar de toda a boa vontade, eles tinham as suas vidas, as suas casas e famílias e o que faziam era só isso. Uma ajuda. Mas ele continuava alegre, sempre de sorriso nos lábios que se estendia ao seu olhar vivo e iluminava toda a sua face enrugada. Com a paixão pelo futebol, e pela vida, costumava dizer com uma certa graça que sabia que havia de partir um dia, mas que ia á força, porque de vontade a morte nunca o apanharia. No fim da vida teve ainda uma provação maior. A sua má circulação levou-o à amputação de uma perna, depois de intenso sofrimento, e por fim sentiu a mágoa de não cuidar até ao fim da companheira, paralisada e apanhada nas malhas do Alzheimer Chamava-se Manuel, nasceu em Portugal, partiu em 2009 com 92 anos, e eu tenho um enorme orgulho em ter tido a sorte de ser sua filha. E uma saudade sem fim.

NESTE DIA QUE SE CONVENCIONOU SER O DIA DO PAI, COMO SE O HOMEM QUE RECEBE A GRAÇA DE SER PAI NÃO O SEJA ATÉ AO SEU ÚLTIMO SUSPIRO, DESEJO A TODOS OS MEUS AMIGOS QUE O SÃO QUE TENHAM UM DIA MUITO FELIZ.

16.3.13

VIDAS CRUZADAS - PARTE V




Pedro saiu do consultório como se fosse perseguido por mil demónios. Quatro meses. Quatro meses eram tudo o que lhe restava. E a mãe? Tinha que pensar na mãe. Entrou num café e pediu uma água. Precisava acalmar-se. A mãe não podia vê-lo assim. De uma coisa tinha a certeza. A mãe não ia saber o que se passava. Ele não ia fazer a mãe passar por esse sofrimento. Uma boa ideia seria uma viagem. Queria que a mãe o recordasse assim como era hoje e não que o visse no sofrimento final. Morrer jovem já era mau suficiente para não querer ver o sofrimento da sua velha e amada mãe.

Finalmente, mais calmo, pagou a água e dirigiu-se a casa.

- Olá mãe, que tal o seu dia? - Perguntou com estudada naturalidade, enquanto se inclinava para a beijar.

- Que disse o médico das análises filho? Foste lá, não foste? - Perguntou ela ansiosa.

- Claro que fui, mãe. E não te preocupes está tudo normal. Disse que ando nervoso, preciso de me distrair, talvez mudar de ares durante uns tempos. Nada que já não me tivesse dito antes.

Sentia remorsos da maneira como estava a enganar a mãe, mas consolava-o o pensamento de que assim ela não sofreria tanto.

- Estive a pensar que vou tirar umas férias e vou para qualquer lado, descansar.

- Acho bem, filho. Claro que me custa estar longe de ti, mas se é pela tua saúde, acho bem.

- Mas a mãe não fica longe. Vai comigo - disse antevendo a resposta da mãe.

- Isso não, filho. Eu só seria um estorvo para ti. Nunca estarias descansado, e acabarias por levar a mesma vida que aqui. Vou escrever à minha irmã Rosa, para que venha passar um tempo comigo. E tu poderias ir para a casa da Palmira, a irmã do teu pai. A casa é grande e ela está sempre a convidar-nos. E aqueles ares de lá são muito bons para a saúde.

De repente Pedro pensou que nunca tinha ouvido a mãe dizer a palavra falecido, quando se referia a seu pai. Dizia sempre o teu pai, ou o meu homem, como se nunca tivesse aceitado a sua morte e continuasse à espera que ele chegasse a qualquer momento. Lembrou da tia Palmira, da sua simpatia e pensou que talvez fosse boa ideia ir para lá. Depois se não se desse bem poderia sempre recorrer a um hotel.

- Seja minha mãe. Amanhã falo com o patrão e peço férias.



Continua

BOM FIM DE SEMANA