22.1.13

A HERANÇA - PARTE XV



Agora aquele ramo dizia-lhe que Jaime já era um homem livre. Pousou o cartão, e procurou uma jarra para colocar as flores.
 Enquanto o fazia, continuou a lembrar o que tinham sido aqueles quatro meses. Mara não fora uma única vez à prisão, mas foi várias vezes a casa da Piedade. Através das suas palavras, ela conhecia cada vez melhor o carácter de Jaime. Descobriu, a solidão do menino, e percebeu que a sua própria solidão, a ligara a ele. Entendeu a dor do rapaz, quando soube quem era o seu pai, e a revolta que ele sentira quando percebera que ela não acreditara nele. Descobriu que se isso lhe tinha amargurado a vida, se tornara para ela também um sentimento de culpa. Conheceu e admirou a força de vontade do jovem, para tirar um curso, e entrar na Universidade. Conheceu os seus sonhos, e sentiu a amargura e a revolta do homem quando a injustiça, se atravessou no seu caminho derrubando e destruindo todos os seus sonhos.
Quando pela Páscoa, Piedade lhe pedira para ela a acompanhar na visita ao filho, e lhe contar ela mesma as notícias que acabaram de chegar de França, ela negara-se. Ainda lhe parecia ver a cara de espanto da mulher, quando ela dissera:
- O seu filho não ia gostar de me ver.
Dias depois quando voltou a dar-lhe notícias, e lhe perguntou como ele estava, Piedade, dissera-lhe que lhe contara a conversa que tinham tido.
- E o que é que ele disse? – Perguntou a jovem
- Nada. Fechou os olhos e ficou calado.
Ela sabia que ele tinha entendido. Do mesmo modo que ela entendera o seu recado anteriormente. Entretanto o seu escritório ficara pronto, e tinha até já um caso entre mãos. Nada de muito importante, uma disputa de terras, mas ela sabia que os casos iam começar a aparecer. O caso da Marfix, ia sair na imprensa do dia seguinte, tinha já recebido um telefonema de uma televisão para uma entrevista. Tencionava entrar com um pedido de indemnização em nome de Jaime Bento. O futuro a nível profissional estava muito bem encaminhado. Mas e o coração? O que é que ia acontecer agora? O que  se passaria no coração "dele"? Porque é que ele não aparecia? E se aparecesse, iria sentir alguma coisa que não fosse gratidão?
Desistiu de deixar as rosas na jarra. Vestiu o casaco pegou nas flores fechou a porta e dirigiu-se para o carro.
Quando chegou a casa, a avó conversava animadamente com a empregada e o marido desta. A avó abraçou-a dizendo:
- Parabéns filha, parabéns. Já sabemos a novidade. Foi tudo para a estação para receber a Piedade e o filho.
- Não entendo avó. Ninguém o defendeu quando o acusaram.
- Que queres filha. Ontem ele era um tratante, suspeito dum desfalque. todos se lembravam do pai e sabes como é. Hoje é um herói que esteve três anos preso injustamente. O povo é assim. E as flores?
- Do Jaime, – e acrescentou. Por favor Arminda ponha-as numa jarra e leve-as para o meu quarto. Vou tomar um duche e descansar um bocado.   
                                                                     

                                                               Epílogo


Acordou já passava das sete. Tinha-se estendido em cima da cama e o corpo cedera ao cansaço. Vestiu umas calças de seda, verde e um top creme. Escovou o cabelo e deixou-o solto. Não se pintou. Não ia sair. Ia apenas jantar e ficar um pouco com a avó no alpendre. O dia estivera lindo, a temperatura estava muito agradável. Passou um pouco de perfume. Era uma coisa que nunca dispensava. E saiu do quarto. A avó já estava a jantar.
- A Arminda foi ao teu quarto, viu que dormias e teve pena de te acordar. Então resolvi não esperar.
- Não faz mal avó.
- A Piedade veio cá a casa.
Mara sentiu um arrepio. Mas não perguntou nada. Começou a comer e esperou que a avó continuasse.
- Está-te muito agradecida. Para ela é Deus no Céu e tu na terra. Mas confesso que fiquei um pouco desiludida. Esperava ver o rapaz. Há tanto tempo que não o vejo.
"Então ele não veio" – pensou enquanto levava o copo à boca. A avó continuou.
- Ela não disse nada acerca dele. Falaste com ele?
Ela acenou que não com a cabeça.
- Caramba filha nem parece que estás contente!
- É que me dói um pouco a cabeça, desculpou-se empurrando o prato e levantando-se da mesa.
Dirigiu-se ao alpendre, e então viu-o. Encostado ao portão como naquele dia longínquo. Vestia umas calças de ganga e uma camiseta de algodão branca, sem mangas. Ela pensou se ele estaria ali há muito tempo. Sentindo as pernas a tremer, desceu as escadas e dirigiu-se ao portão. Ele estendeu a mão e segurou a dela.
- Não me interessa o que dizem. Não fui eu. Acredita...
Ela pôs-lhe os dedos nos lábios. E sussurrou:
- Eu sei. Sempre o soube.
Ele segurou-lhe o queixo e aqueles incríveis olhos verdes mergulharam ansiosos nos olhos escuros da jovem. E ficaram assim longos momentos, cada um lendo nos olhos do outro o que lhe ia na alma. Depois o homem abriu os braços e a mulher aninhou-se neles.
No alpendre a avó suspirou e deixou-se cair no cadeirão.





FIM

  REGISTO  Nº 6390/2011



19.1.13

A HERANÇA - PARTE XIV



Estava um lindo dia de Primavera. No seu escritório de advocacia, Mara pegou com mãos trementes um lindo bouquet de flores que a florista lhe estendia. Eram rosas vermelhas. As suas flores preferidas. Agradeceu, esperou que a senhora saísse e procurou alguma coisa entre as flores. Encontrou um pequeno envelope, do qual retirou um cartão.
"Para agradecer o dia mais feliz da minha vida. Jaime"
Ela ficou com o cartão nas mãos, enquanto as recordações se atropelavam na sua memória. Desde aquele dia em que a Piedade lhe contara um pouco da vida do filho, tinham passado quatro meses. Quatro meses em que ela, o Dr. Morais e o investigador Artur, uniram esforços, para descobrir a verdade sobre o desfalque da Marfix. E a verdade era mais ou menos como o investigador suspeitara. Américo Costa, o colega de Jaime, tinha elaborado o seu plano ao longo de meses. Sabia que a empresa pagava sempre em dinheiro o salário dos 420 empregados que tinha na altura. E também sabia que o dinheiro vinha no dia trinta. Mas que a empresa pagava sempre no último dia do mês. O gerente dizia que se pagassem a trinta, meia empresa faltava a trinta e um. Manias. Ora nos meses de 31 dias, o dinheiro ficava nos cofres da empresa até ao outro dia. Normalmente quem efectuava o pagamento era o gerente. Começava pela manhã e acabava ao fim do dia. Nesse espaço de tempo o pessoal ia passando pelo escritório, assinava o nome num livro e recebia o envelope com o dinheiro. Américo foi amadurecendo o seu plano.
Todos os anos a Marfix fechava em Agosto para férias. Era um mês em que quase não havia encomendas, e em que a maior parte dos fornecedores, também estavam de férias. Então toda a gente ia de férias nessa altura e não tinha problemas com o assegurar do ritmo da empresa o resto do ano, por causa de férias. No final de Julho ia haver pois um volume muito maior de dinheiro no cofre, por causa do subsídio de férias. E o mês era de 31 dias. A altura perfeita para o golpe pensou o Américo. A sua persistência tinha como resultado ter conseguido descobrir o segredo do cofre, o que até nem era difícil, pois era o nome do patrão, e que era do conhecimento do contabilista, que muita vez lá guardava os cheques e algumas quantias em dinheiro, dos diversos clientes que compravam directamente na fábrica. A chave do escritório, fora mais fácil ainda, o próprio contabilista lhe dera a chave, para ele abrir a porta, num dia em que precisava faltar. E claro, ele aproveitara para fazer uma cópia.
Quase no final de Julho, Piedade tivera o acidente e fora internada no hospital de Viseu para ser operada.
O Jaime pediu ao gerente para ficar em casa os dois dias que faltavam para as férias, e o gerente que gostava dele, deu-lhe um cheque com o valor do ordenado, dizendo-lhe que como ainda não era fim do mês, ele receberia em Setembro, o subsídio de férias. Preocupado com a mãe, Jaime saiu esquecendo-se de entregar a chave do escritório.
No dia seguinte chegou o dinheiro e o Américo executou na perfeição o plano. Escondido o dinheiro, apresentou-se na manhã seguinte no trabalho, esperando que o gerente chegasse para abrir a porta do escritório. Assistiu ao abrir do cofre e ao espanto do gerente. Assistiu à vinda da polícia, foi interrogado tal como os restantes empregados e agiu com tanta naturalidade que ninguém suspeitou dele. Como o Jaime tinha a chave do escritório, sabia o segredo do cofre, e não havia impressões digitais desconhecidas no cofre, a conclusão lógica fora que tinha sido o contabilista. Depois os jornais descobriram de quem ele era filho e aí acharam que não podia ter sido outra pessoa. "Filho de peixe... " escreveram alguns jornais mais sensacionalistas. Jaime foi julgado, e condenado. Em Setembro, Américo começou a dizer aos colegas, que estava farto daquela vida, que estava a pensar emigrar, que na França se ganhava muito dinheiro. E foi desfiando a mesma cantilena até Dezembro. Nessa altura começou a dizer que um primo lhe arranjara emprego em Paris, e que ia logo que passasse o Natal.
Ninguém desconfiou de nada. Esteve em França desde Janeiro até Dezembro. Depois veio passar o Natal com a família e disse que tinha tido sorte, que ganhara bem em França, comprou uma casa e montou um restaurante. Era impossível alguém ganhar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Fora isso que o investigador pensara, e fora isso que levara o Juiz a assinar o pedido de averiguação da sua conta bancária. Claro que o Dr. Morais tivera um pouco de influência, porque era amigo do Juiz, e este acreditava que o Dr. Morais, não lhe iria fazer tal pedido, se não tivesse certeza do que dizia. Descobriu-se então que o Américo tinha feito o primeiro depósito, aproximadamente um décimo do desfalque, no dia 28 de Dezembro, portanto antes mesmo de partir para a França. Depois não fez mais depósitos até 23 de Dezembro do ano seguinte. Ora ele chegara, no dia 22 de França. E depositou o dinheiro no dia 23. Ninguém viaja com uma importância daquelas em dinheiro. Depois foi seguir-lhe o rasto em França, e descobrir que trabalhou na construção civil e que o que ganhava era o suficiente para viver, nunca para fazer economias daquela envergadura..
 De posse das provas, o Dr. Morais, apresentou-se na polícia, e fez a participação, enquanto ela entrara com o pedido de reabertura de processo no tribunal. A polícia efectuou a sua própria investigação que foi rápida, pois o investigador Artur tinha anotado todos os passos do Américo, tanto em Portugal como em Paris. Interrogado este, começou com várias mentiras que a polícia fora desmantelando. Na verdade, ele planeara em pormenor o desfalque, mas nunca planeara uma defesa credível, caso fosse descoberto. Julgava-se tão esperto, que nunca pensou que fosse descoberto. E muito menos agora, que já se tinham passado mais de três anos. Ficou tão surpreendido que rapidamente se descontrolou e acabou por confessar.
Nessa manhã, Mara estivera no tribunal com o inspector da polícia, e o juiz ao tomar conhecimento do caso ordenara a libertação imediata do Jaime. O inspector levou a ordem para a prisão e ela seguira para o seu escritório.


Continua


 REGISTO  Nº 6390/2011



 Informo que embora continuando em tratamento me encontro melhor e agradeço o vosso carinho.
BOM FIM DE SEMANA  

16.1.13

A HERANÇA - PARTE XIII



Nessa tarde o telemóvel de Mara não parou. Primeiro foi o decorador que não tinha encontrado o tecido que ela queria para os estofos, e queria que ela fosse escolher entre as amostras que ele trouxera para substituir. Tinha que o fazer em breve, para dar seguimento à encomenda dos estofos. Depois foi o Dr. Morais. Disse ter falado com o investigador e estar disposto a ajudar. Disse que ia tratar de conseguir a autorização para se investigar os depósitos do suspeito. E que assim que a tivesse a entregaria ao Artur. Mais tarde foi o próprio Artur. Tinha já entrado em contacto com o seu amigo em Paris. Ele estava já à procura do registo de entrada do Américo. Disse que se ele ficou em Paris em menos de uma semana, temos a informação, mas se foi para outra cidade pode ser difícil. Por último quando se preparava para sair, a mãe telefonou de Paris.
Encantada, deslumbrada, despejou sobre a filha um relato de encanto, uma meia dúzia de gargalhadas, e desligou sem se lembrar de perguntar se ela estava bem. Mara encolheu os ombros. Cada vez tinha mais dificuldade em se identificar com a maneira de ser da mãe.
Às cinco saiu de casa e dirigiu-se a casa da Piedade. Sabia que ela vinha no comboio que saía de S. Pedro, às cinco. Não quis ir esperá-la à estação. Ia esperá-la à porta de casa.
Era noite fechada, quando Piedade chegou. Andava com dificuldade devido ao problema que a deixara coxa.
- Boa noite menina. Já esperava há muito?
- Cheguei agorinha Piedade. E então?
- É melhor entrar, menina. Se não se importar claro. Sabe, está frio, e os meus ossos não gostam do frio, – disse abrindo o portão e dando passagem a Mara.
Depois abriu a porta e Mara viu-se na mesma sala onde estivera de manhã. Estava ansiosa por saber a resposta, mas não queria voltar a perguntar. Piedade tirou o xaile, e o lenço, deixando à mostra um cabelo completamente grisalho, apanhado num carrapito.
- Bom, menina o meu rapaz está de acordo. Foi difícil convencê-lo. Disse-me que não podia confiar em quem não confiou nele. Sabe o que é que ele queria dizer?
A jovem fez um gesto negativo com a cabeça, enquanto a imagem dum rapazito dizendo "Não fui eu, acredita" passou veloz pela sua memória.
- Pois, eu também não entendi. Mas contei-lhe tudo o que a menina e a senhora sua avó disseram esta manhã. E depois de muito pensar ele disse " Pode ser que eu esteja enganado. Diga-lhe que a partir de agora ela é a minha advogada, e que pode mandar alguém com os documentos que precisem de assinatura"
- Era isto que queria menina? - Perguntou ao ver que a jovem parecia perdida nos seus pensamentos.
- Era isso sim. Já está o processo de investigação em andamento.
Hesitou um pouco e depois pediu.
- Fale-me dele, Piedade. Fale-me do seu filho.
- Do meu rapaz? O que é que eu posso dizer? Foi sempre bom filho, mas muito reservado. A princípio eu tinha medo que ele saísse ao malandro do pai. A menina sabe que o meu marido era um tratante, não sabe? Claro que sabe, toda a gente na terra sabe a minha história. Mas o meu Jaime não saiu ao pai graças a Deus. Tive que o pôr no seminário, por causa de um problema na escola, mas ele não tinha feito nada. Pediram-me desculpa e tudo. Mas ele é tinhoso não quis ir mais à escola. O Padre Miguel conseguiu-lhe entrada no seminário. Mas o rapaz, não tinha vocação. Mas era muito inteligente e os padres arranjaram-lhe um emprego e foi estudar de noite. Contabilidade. Ele dizia que com o curso podia arranjar um bom emprego e tirar então o curso que desejava. Engenheiro electrónico. Eu dizia-lhe para ele não sonhar tão alto, mas ele respondia sempre que eu podia escrever, que esse seria o futuro dele. Quando tirou o Curso de Contabilidade, arranjou emprego na Marfix, e escreveu-se à noite na Universidade. Estava no segundo ano, quando eu tive aquele acidente que me atirou para o hospital. Foi a minha desgraça e a dele. Tenho para mim, que se ele não viesse para aí para me ajudar, não teria deixado que ninguém levasse o dinheiro, nem seria acusado disso.
Mara estava espantada. Não lhe passava pela cabeça que Jaime estivesse na Universidade, nem que passasse o tempo a estudar para ser engenheiro. Ela conhecera o rapaz, mas não sabia nada do homem. Levantou-se ao ver que a mulher se tinha calado.
- Obrigada Piedade. Vou tratar de tudo. Assim que tiver notícias eu digo-lhe.
- Mas menina vai precisar dinheiro. Os advogados...
- Não se preocupe Piedade. Isto é uma troca. Eu provo que o seu filho foi vítima de um erro de justiça, ele ganha a liberdade, e eu a fama de uma excelente advogada. E isso é muito importante, para um advogado em início de carreira. Logo é uma troca justa.
Estendeu-lhe a mão. Ela apertou-lha dizendo:
-Deus lhe pague menina. Deus lhe pague.
Mara saiu. Pelo caminho de volta a casa, recordou o que a Piedade lhe dissera."Pode mandar alguém com os documentos que precisem de assinatura" Ou seja, ele não queria vê-la.
Mara compreendeu. Ele não queria que ela o visse preso. Orgulhoso como era, devia doer-lhe que ela o tivesse visto naquela situação. "Está bem" – pensou. "Não me queres ver, não me verás" Entrou em casa e encontrou a avó à espera para o jantar.
- E então? - Perguntou
Mara respondeu com outra pergunta:
- Tu sabias que o Jaime estava no segundo ano de Engenharia Electrónica?


Continua
 REGISTO  Nº 6390/2011




 Estou com problemas nos olhos, em tratamento, e por isso como estou proibida de passar muito tempo no pc, por vezes visito, leio, mas não comento. Para poder visitar mais amigos e ler mais artigos.

14.1.13

A HERANÇA - PARTE XII




Preparava-se para jantar, quando o seu telemóvel tocou. Era o Dr. Morais. Tinha chegado tarde, o assistente já tinha saído, mas em cima da sua secretária estava o pedido dela. Precisava saber ao certo o que é que ela queria e o porquê. Mara contou o mais resumidamente que pôde, a história do Jaime, o seu emprego de contabilista e homem de confiança da Marfix, o desfalque, a sua convicção de que tinham condenado a pessoa errada, o que o investigador tinha descoberto, as suspeitas de que estavam na pista certa e o que precisavam para continuar a investigação. Do outro lado o Dr. Morais fez um silêncio e depois disse:
- Tens consciência de que um caso destes é uma faca de dois gumes? Vais iniciar uma carreira de advogada. Se estiveres certa e triunfares, não terás mais problemas com o futuro. Mas se estiveres errada, o teu nome vai ficar ligado a esse fracasso, e em início de carreira pode tornar-te a vida muito difícil.
- Eu sei Dr. Mas eu tenho a certeza de que estou certa. Não tenho como prová-lo ainda. O Artur diz que o senhor pode ajudar.
- Está bem. Vou telefonar ao Artur, e pedir-lhe que passe amanhã pelo escritório. Depois disso telefono-te e digo-te o que penso.
- Obrigada Dr., sabia que podia contar consigo. Muito obrigada.
- Até amanhã então.
Mara desligou e dirigiu-se à mesa. A avó olhou-a com um ar interrogativo. Mara disse simplesmente.
- Vamos comer. Depois conto-te.
 Acabado o jantar, sentaram-se num confortável sofá, perto da lareira. Mara contou à avó tudo o que já tinha dito ao Dr. Morais. Falou da sua visita à prisão e de como se sentia frustrada por não ter conseguido convencer o Jaime.
- Foi sempre assim. O orgulho cega-o… – terminou num murmúrio.
 A avó olhou-a profundamente. Como se quisesse ir além das palavras da neta. Como se quisesse entrar na sua alma.
- Bem me parecia que não era só curiosidade, o que te fazia andar sempre a perguntar a história da Piedade. E agora filha? O que vais fazer?
- Agora, amanhã de manhã vou a casa da Piedade. É dia de visita, ela vai ver o filho. Ela tem que o convencer. Sem que ele me nomeie sua advogada, não posso fazer nada.
- E se ele é culpado, filha?
- Não é avó. "Ele" não é culpado.
Fez a afirmação com tanta certeza que ela mesma se surpreendeu. Baixou a cara para esconder os olhos da avó. E naquele momento, deu-se conta de uma coisa. Não era por capricho que se tinha metido na história. "Ele" tinha direito a justiça. Tinha direito a um nome limpo.
- Desde quando Mara? - Interrogou a velha senhora.
- Desde quando o quê avó?
- Isso. Desde quando o filho da Piedade, deixou de ser para ti o Jaime, para ser "ele"?
Ela estremeceu com a perspicácia da avó. Depois disse baixinho.
- Sinceramente não sei. Quem sabe desde sempre...
A avó estendeu a mão e afagou-lhe a cabeça pensativa.

Quando na manhã seguinte Mara desceu, encontrou a avó à sua espera.
- Vamos filha despacha-te com o pequeno-almoço está quase na hora da Missa. E eu hoje quero que me acompanhes.
Mara pegou no copo de sumo de laranja, e bebeu-o
- Não me apetece comer. Podemos ir.
Ajudou a avó a entrar para o carro, fechou a porta, deu a volta e sentou-se ao volante. Estava muito bonita. Vestia umas calças de fazenda bege, uma camisola castanha e um casaco de cabedal. Pôs o carro em marcha, e então a avó disse:
- Depois da Missa, acompanho-te a casa da Piedade. Quem sabe eu a convenço. Oxalá não te enganes. Ela acredita piamente na inocência do filho. Se vais mexer na história e se prova que estás enganada, ela não vai resistir. E tu vais sofrer o teu desgosto, e o remorso do que acontecer. Que Deus esteja contigo filha. Eu tenho muito medo.
Tinham chegado à igreja e Mara deu graças a Deus, porque não teria que responder. Durante toda a cerimónia rezou com fervor. Pediu a Deus que lhe ajudasse a provar que o seu coração não estava enganado, e pediu que a iluminasse, em relação aos sentimentos que tinha descoberto recentemente. Quando a cerimónia acabou, saiu mais fortalecida e mais convencida do que devia fazer. A casa da Piedade ficava mesmo por trás da igreja. Talvez que àquela hora ela estivesse no lameiro, Mas o melhor era confirmarem. Tiveram sorte. Piedade estava junto ao poço a encher de água o tanque. Mara chamou-a.
- Dona Piedade!
A mulher voltou-se para o portão, um ar de espanto no rosto. Depois prendeu a corda da roldana, limpou as mãos ao avental e aproximou-se do portão, coxeando. Aí, olhou a jovem e depois a avó.
- Dona Elisa! Que se passa para a senhora vir a minha casa?
E voltou a olhar a jovem. Ela sabia quem ela era. Conhecera-a em menina. Depois fora estudar para fora. Quando a voltara a ver, nem a reconhecera, mas um dia ouvira no talho, a informação de que a menina da casa grande tinha voltado. E que era advogada. Por isso agora pela sua cabeça, passavam mil perguntas e não descortinava o motivo de tão estranha visita.
- Ainda bem que te lembras de mim Piedade. O meu falecido marido foi grande amigo dos teus pais. Esta é a minha neta. É advogada e quer falar contigo. Deixas-nos entrar ou vamos ficar aqui?
- Cla...claro, – gaguejou ela abrindo o portão. É que...é casa de pobre.
- Deixa-te disso mulher. Aos olhos divinos somos todos irmãos.
 Entraram na casa. Era uma pequena sala. Um sofá, dois cadeirões, uma mesa baixa com um naperom de renda, e uma moldura, com o retrato dum bebé. Uma pequena estante com alguns livros completava o mobiliário. A mulher fez um gesto com a mão como quem diz, "sentem-se".
Mara e a avó sentaram-se. Mas Piedade ficou de pé retorcendo as pontas do avental com evidente nervosismo. D. Elisa tomou a palavra.
- Senta-te mulher. O que temos a dizer é importante. A minha neta pensa que o teu rapaz é inocente. Ela pensa que sabe quem fez o desfalque, e que é capaz de o provar. Precisamos da tua ajuda.
A mulher deixou-se cair pesadamente num dos cadeirões. O seu rosto estava pálido. Pela sua cabeça, passou rapidamente a figura do filho afirmando-lhe que um dia ia provar a sua inocência.
"Um dia mãe vou provar a todos que um homem não é obrigado a receber uma herança que não quer. Um dia todos saberão que eu não sou igual a ele." Seria possível?
- Bom D. Piedade vou contar-lhe tudo o que sei.
E Mara contou tudo o que sabia, o que o investigador tinha conseguido, o que se propunha provar, e por fim a sua visita ao Jaime na véspera.
- E o que é que eu posso fazer, Menina. Eu sou uma pobre mulher que não entende nada dessas coisas. E depois se o meu Jaime não quis fazer o que a menina pede, como é que eu vou fazer Isso?
- Piedade – D. Elisa falou muito devagar. O que é que tu farias para provar a inocência do teu rapaz?
- Tudo. Eu venderia a minha casa e o lameiro, daria até o meu sangue por isso.
- Então mulher. Ninguém te pede nada a não ser que tu nomeies a minha neta advogada do teu filho, ou que o convenças a ele a fazê-lo. Tudo sabes, os jovens são orgulhosos obstinados e às vezes, fazem grandes asneiras. E seria uma asneira sem tamanho, não aceitar a mão que a minha neta lhe estende.
- Está bem menina. Eu vou falar com ele. E se ele não quiser, tem a minha palavra de que eu quero que seja a sua advogada, e lhe dou permissão para o que precisa. Mas por favor menina, se não conseguir as tais provas, esqueça o que eu acabei de dizer, e não nos faça sofrer mais.
- Combinado.
Mara levantou-se e ajudou a avó. Ao sair a avó pousou a mão no ombro da Piedade em jeito de despedida, e disse:
- Voltaremos a ver-nos.

Continua


  REGISTO  6390/2011





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