1.12.13

JOANA



De súbito o silêncio no quarto foi quebrado por um entrecortado gemido. Logo de seguida, Joana acordou. Às escuras sentou-se na cama, tentando não acordar o homem que dormia a seu lado.

Passou a mão pela testa, onde gotas de suor atestavam a aflição do pesadelo que acabara de ter. Suspirou. A luz da lua entrava pela porta semi-aberta da varanda. Estendeu o braço, apanhou o roupão de cetim, e vestiu-o. Enfiou os chinelos e dirigiu-se á varanda. Sentia-se sufocar. Ficava sempre assim quando tinha aquele pesadelo. Na varanda olhou para baixo. A rua estava deserta.

Joana olhou o céu e pensou vagamente, se o céu da sua terra seria assim. Ela ouvia falar muito da beleza das noites de África. Mas ela não se lembrava. Também pudera, tinha dois anos quando se dera a revolução dos cravos, e logo depois o pai que era militar, regressou. Por isso Joana não se lembrava da sua terra. E a bem da verdade só muito raramente se lembrava que não era de Lisboa. Lançou um breve olhar para o quarto. Lá dentro o marido dormia tranquilamente. Joana suspirou e pensou que era melhor assim. Ela já tinha a noite estragada, não remediava nada se ele acordasse. Na verdade, seria até pior; pois a solicitude do marido só ia fazê-la sentir-se mais inútil, mais culpada.

Joana era uma bonita mulher. Quase beirando os quarenta, tinha uma aparência de menina que a fazia parecer mais nova. Corpo bem modelado, pele morena. Os cabelos castanhos-claros tinham reflexos dourados que contrastavam com os olhos escuros. Era uma bonita mulher, mas tinha um problema. Joana era estéril. O seu ventre, era terra árida, que não dava fruto. Esse era o problema que lhe roubava o sono.

Joana, - recordou como conheceu o marido. Tinha acabado o curso de Administração. Durante os estudos nunca conheceu ninguém que verdadeiramente lhe interessasse. Acabado o curso, e quando procurava uma empresa á qual se candidatara, cruzou-se com um garboso polícia, que lhe chamou a atenção. Ainda hoje não sabe se foi o seu jeito, se o fascínio da farda que lhe despertou a atenção. Uma semana depois, tinha-o á sua espera. Sem a farda quase nem o reconheceu. Mas falaram-se e apaixonaram-se. Foi tudo muito rápido. Menos de um ano e casavam-se, numa bonita cerimónia numa aldeia lá para os lados da serra da Estrela, donde os seus pais eram naturais.

Tinham combinado que durante um ano não teriam filhos. Era um tempo de conhecimento e namoro que se concediam. E foi um ano de sonho. Ricardo era um homem apaixonado, bem-humorado, e amigo de a ajudar nas tarefas caseiras.

Aquele ano passou a correr e logo, logo estavam a fazer planos para o nascimento do primeiro filho. Mas o tempo foi correndo e o filho não vinha.

Continua

18 comentários:

✿ chica disse...

Pelo início, um lindo conto virá!! beijos,chica

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Senti o gostinho da "entrada" e percebo que vamos ter um interessante desenrolar de uma vida a dois, à espera de um filho...
Volto, para a segunda parte, um abraço.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Os seus textos de apresentação são sempre um excelente chamariz para que continuemos à espera.

Beijos

Ives disse...

Olá! Desculpe a intromissão, mas não pude deixar de ler o inicio de uma história romantica, portanto gostaria de pedir a Srta para me deixar segui-la! abraços

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Mais uma história que promete. Não admira estar tão desanimada por não conseguir ter um filhos. Há muito poucas mulheres cujo principal sonho não seja o da maternidade. Continuarei com toda a certeza a seguir, Elvira! Uma excelente semana, Elvira, apesar do frio. Beijinhos e até sempre.
Emília

Maria Teresa Fheliz Benedito disse...

Já sei que vou goistar, quero ler o desenrolar dessa bela história...bjs no coração.

aflores disse...

Já "cheira" a Natal neste cantinho agradável, onde mais um conto promete.

Tudo de bom.

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!!
Já começo a alimentar a minha imaginação e ansiosa esperando os próximos capítulos!!
Boa semana!!
Beijus,

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Pela amostra, este novo conto promete, dominando a Elvira tão bem o género.
E eu cá vou ficar à espera de saber mais sobre a vida da Joana...

Um abraço e boa semana.
Vitor

Lilá(s) disse...

Adivinha-se mais um belo conto Elvira, admiro-lhe esta capacidade de cativar pela leitura...
Bjs

Mar Arável disse...

Um rio a correr para o mar

AC disse...

Elvira,
Já vi que tem jeito e gosto para este tipo de "estórias". Não quer tentar ir mais longe (publicando)?

Beijo :)

Duarte disse...

Excelente qualidade narrativa, aliás ao que me tens habituado e que tanto me encanta.
Um grande abraço

Joaninha Musical disse...

Lindíssima história querida Elvira!! Super interessante de se ler!! Desejo-te um fantástico mês de dezembro!! Muitos beijinhos,fica com deus e tudo de bom para ti!!

Joaninha Musical disse...

Volto em breve para ver um novo capitulo desta tua historia da Joana!!

Nilson Barcelli disse...

A julgar por este primeiro capítulo, será um belíssimo conto.
A tua boa narrativa, está ainda mais apurada.
Elvira, tem um bom fim de semana.
Beijinhos.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Aguardo por mais. Gostei muito.
Desejo que esteja bem.
Bj.
Irene Alves

Duarte disse...

O Natal já la vai…
Gosto do ambiente que criaste no cabeçalho.
Continuação de Boas Festas e um Bom 2014.
Um grande abraço