3.10.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE VI


Passaram cinco anos. E também hoje é um belo dia de Setembro. Clara acordou com os primeiros raios de sol beijando a janela. Olhou à volta. Ao lado da cama, num berço de vime, o seu filho dormia o sono dos anjos. Saltou da cama, tomou banho e tratou de se embelezar um pouco. Nada de especial, que mulher de pescador, anda de cara lavada. Para ela hoje é um dia especial. Chega hoje o Gazela, um velho barco da pesca bacalhoeira, e nele, vem o seu marido. Enquanto espera que o bebé acorde, Clara vai recordando como conseguiu namorar com o Pedro e casar com ele. Não fora nada fácil. Gato escaldado de água fria tem medo, diz o povo e com razão.
Quando ele descobriu a traição, levou dois dias sem aparecer na rua, nem no trabalho. Ao terceiro dia quando voltou ao trabalho não comentou nada com ninguém, e não falou mais da falecida. Mas também se tornou mais duro mais fechado. Clara, que desde os bancos da escola, sonhava o seu futuro com ele, propôs-se consegui-lo. Durante os meses que o navio levou até partir  de novo para os bancos de bacalhau, quantas vezes ela se sentou a seu lado e ali ficou em silêncio como se fora a sua sombra? E depois que ele partiu, quantas cartas escreveu, sem receber resposta? Quando ele voltou, Clara estava no cais, com a velha mãe de Pedro. E foi grande a desilusão quando ele agiu como se não a visse. Mas não desistiu. E a sua perseverança deu frutos, dois anos mais tarde.
O bebé chorou e ela sacudiu a cabeça, com se quisesse afastar as recordações e dirigiu-se ao berço. Mudou-lhe a fralda, e deu-lhe o peito. Acariciou a cabeça do filho, e enquanto ele se alimentava, deixou-se envolver pelas recordações. Um dia Pedro olhou para ela, e pareceu vê-la de outra maneira. Ficou a fitá-la pensativo. O coração apaixonado de Clara ficou em sobressalto.
Uns dias depois pediu-lhe namoro. Não foi uma declaração apaixonada. Muito longe disso. Foi assim como se o homem, não visse nela a mulher, mas uma amiga, uma companheira. Alguém a quem se habituara.
Clara aceitou. E teve que lutar contra os preconceitos dos próprios pais, que não viam com bons olhos, aquele namoro. Diziam eles, que um homem viúvo carrega recordações, sempre vai fazer comparações. Mas Clara manteve-se firme, contra tudo e contra todos. Confiou no seu amor, para lhe fazer esquecer más recordações. E ganhou a batalha. Agora - ela acreditava nisso - ele amava-a tanto quanto ela o amava. O filho acabou de mamar. Clara levantou-se, e com o filho ao colo foi até à janela.
O barco já passou a ponte férrea que liga o Barreiro ao Seixal, e dirige-se para o local onde vai fundear. Clara aperta o filho ao peito, e corre para a velha ponte de madeira, que serve de cais, onde os pescadores vão desembarcar. Pelo caminho, Clara recordou aquele outro dia, cinco anos atrás. Mas que diferença entre um e outro. Hoje, ele, o Pedro, é dos primeiros a saltar para a lancha que o trará para terra. E como ela está ansiosa por o abraçar, e lhe mostrar o filhito, que ele ainda não conhece. E ei-lo que galga as escadas, e chega perto dela. Abraça-a fortemente, de tal modo que o menino que ela tem no colo começa a chorar. Pedro pega o filho com ar desajeitado, e a criança chora ainda mais assustada. Clara acalma o filho, e o marido emocionado murmura como numa prece:

-Rapariga...Rapariga...

Amorosamente o olhar de Clara envolve o marido, e murmura com emoção.

- Pedro! Meu Pedro!

Fim


Elvira Carvalho


Mais um conto chegou ao fim. Para os que o acompanharam desde o início, eu agradeço a paciência , e peço-vos um favor. Seria possível que cada um no seu comentario me dissesse o que mais lhe agradou no conto e o que menos gostou?  É com os vossos comentários que eu posso melhorar,  e procuro tê-los em conta cada vez que inicio uma nova história. Muito obrigada a todos.

37 comentários:

Luis Eme disse...

acabou bem.

fiquei com a curiosidade de perguntar se a Elvira lê bastante.

abraço

Bell disse...

A traição sempre deixa marcas duras.

bjokas =)

LUZ disse...

Olá, Elvira!

Pedro e Clara, acabaram por casar, e já têm um filho.

Parecem-me, ambos, muito felizes.

De qualquer forma, gostaria de referir, que esta última parte foi muito repentina, no desenrolar da ação. Passou-se, quase, de um extremo ao outro, isto é, "não encheu chouriços", para o leitor, AQUELE QUE LÊ, se entreter e esperar o final da história.

Bom fim semana.

Beijos da luz.

São disse...

Como sabe , eu sempre achei que escreve muito bem quer prosa quer poesia.

Uma coisa me agrada muito : as suas estórias , agora, têm finais felizes...é nem por isso deixam de retratar a realidade!

Abraços para si e sua linda neta, minha amiga

Duarte disse...

Com dizer que gosto tenho tudo dito. Já está bem de finais drásticos, fica bonito ver um casal unido por um ser fruto desse amor que os une.
O conto está bem argumentado, com pinceladas de um bom domínio da cena, que mais se pode pedir. Talvez prolongar o final um pouco mais, que não seja chegar de alta mar e ponto final. O relato dalguma cena vinculada a à vida no mar. O desejo de regressar, A ansiedade da chegada. Mais "love" no encontro.
Mas, como disse ao principio, conseguiste um trabalho sobressalente. Parabéns.
Para condizer, abraços de vida

Duarte disse...

Estive a meditar e considero que seria interessante fazer um livrito com esta estória, ficaria bonito! Que te parece? Melhor dito, com as restantes incluídas: um livro de contos curtos.
Pensa nisso.
Beijinhos

MARILENE DOMINGUES disse...

Olá Elvira! Cá estou pela primeira vez para conhecer você e suas escritas. Não li o desenrolar da história, mas pelo final aqui descrito, entendi que foi um amor de espera com final feliz e isso é o que vale.Volto para ler outras desde o inicio...Parabéns!
Beijos com carinho e desejo um lindo final de semana
Marilene
>Marilene folhas flores e sutilezas</



Kim disse...

Nem sempre as coisas acabam mal.
Tudo está bem quando acaba bem.
Abraço Elvira

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

A minha amiga publica por "fascículos", o que me agrada muito porque me faz lembrar do tempo em que, ansiosamente, esperava pela edição de domingo do jornal para poder continuar a ler a história.

Os contos exigem sempre grande economia de escrita e, por isso, não é qualquer um que os sabe escrever. A Elvira sabe, e muito bem. Salta-se no tempo e no lugar, salta-se na acção, mas sempre dando as indicações necessárias para que o leitor possa reconstituir o fio da história.

Um conto não é uma sucessão de folhetins, diria, mesmo, que é o seu contrário. Gosto pouco de folhetins mas gosto muito de contos. Por isso insisto em ler aquilo que a Elvira escreve.

Beijos

Rita disse...

É a fé e o amor juntos que faz tudo dar certo, gostei desse final elogios pra vc

Abraços de bom final de semana!!

└──●► ¸.·*Rita!!

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Eu sempre digo o que penso daquilo que leio; quer quanto ao conteúdo da história, quer quanto à forma como ela é construída.E longe de mim pensar em dar-lhe sugestões, já que a Elvira domina lindamente este tipo de contos.

Parabéns, e bom fim de semana.
Vitor

Severa Cabral(escritora) disse...

BOA TARDE MINHA FLOR DE PRIMAVERA !
QUE PENA NÃO TER ACOMPANHADO SEU CONTO ,POIS SABES QUE ESTIVE AUSENTE,MAIS DEIXO DITO.PELO QUE LI COMO FINALMENTE ME DIZ SER UM CONTO DE ROMANCISTA E EU ADORO ESSE TIPO DE LEITURA...BJS

lis disse...

Oi Elvira
Os contos seus quase sempre me instigam a volta para o proximo capítulo porque são bem reais ,até parece ter já vivido aquela situação junto com os protagonistas.E como sou fã de biografias gosto dos relatos bem aproximados com o que vivenciamos .
Notei nesse conto algo mais leve acho que tem a ver com a vida dos pescadores _ mar lhes empresta um ar mais brando que os canaviais.
De verdade perco muitas partes Elvira e tenho que voltar aos capítulos quando dá _o que lamento muito rsrs
Gostaria de ve-los todos reunidos num livro _já é bem merecido que aconteça logo não é?
Parabéns por mais um conto de excelência,
um bom domingo com abraços

Andre Mansim disse...

Um final feliz!
Sempre é bom de ler algo assim né? As vezes os caminhos parecem levar para outro lado, mas quando as pessoas contornam e voltam para a felicidade... É bom!

Minha amiga, parabens mais uma vez!

Silenciosamente ouvindo... disse...

A amiga neste momento tão complexo
escreveu um conto com final feliz.
É preciso dar esperança à vida.
Eu gostei.
Bj. e tenha um bom domingo.
Irene Alves

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Volto aqui, porque não sei se ficou clara a minha ideia: também eu publico por "fascículos" porque neste meio, que é o dos blogues, um texto maior do que meia dúzia de parágrafos se torna difícil de ler. E não é porque as pessoas não gostem de ler, é porque não podem marcar a página em que interromperam a leitura. A publicação por partes é, pois, a melhor solução, e foi essa que a minha amiga adoptou, com vantagens para todos.

Beijos

Sinval Santos da Silveira disse...

Amiga ,querida!
Consegues através de seu contos me encantar, e já torcendo para o próximo Post seu.
Parabéns ...
Abraços
Sinval

. intemporal . disse...

.

.

. não acompanhei as publicações deste conto . os dias andam pouco ágeis para lograr o tempo .

.

. lê.lo.ei então . na íntegra .

.

. até porque . a Sua preocupação em "melhorar" a Sua escrita . só por si . assim o merece .

.

. um beijo meu .

.

.

LUZ disse...

Olá, Elvira!

Como está?

Estive a ver a sua lista de blogues, a propósito de não receber as atualizações, e o meu "Afetos e Cumplicidades", segundo nos indica, aqui, já publicou há seis meses. Ora, isso não corresponde à verdade. Ontem, à noite, publiquei nele, um poema.

Os comentários no "Luzes e Luares" estão fechados, por não conseguir manter, dois blogues, EM SIMULTÂNEO, devido à escola.

Bom resto de domingo.

Beijos para todos.

Nilson Barcelli disse...

Mais um conto do qual gostei.
Porque tem coisas da vida real e é muito bem narrado.
Elvira, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
Beijo.

edumanes disse...

Depois de tantos contra-tempos, com certeza,cilocaram um ponto final, em tudo aquilo que para trás ficou. Os três mãe, pai e filho, continuaram felizes para sempre!

Ainda bem que vivemos em liberdade, para podermos, livremente, expressar as nossas ideias. Isso acontece porque vivemos em democracia, graças à escolho livre dos cidadãos poderem escolherem os seus representantes através do voto. Não votar é votar contra a continuidade da democracia e da liberdade. Não será por acaso que alguém disse, se lixem as eleições. É caso para pensar. Só quem seja contra a democracia o poderá dizer. Eu acredito que o primeiro-ministro gostaria mais de governo o país, em ditadura do que em democracia. Enquanto for vivo nunca deixarei de votar, a não ser que seja impedido de o poder fazer, por doença que não possa mesmo de maneira alguma deslocar-me ao locar da votação, ou por regime ditador. Sou da opinião que, todo aquele que já tem o direito de votar, que nunca o deixe de fazer. Se é que não deseja retroceder ao tempo da ditadura.
Não tenha saudades da ditadura! Esta é a minha opinião acerca do seu comentário escrito por você amiga Elvira no meu blog. Acho que não tem qualquer fundamento citar a chuva como desculpa para não se ir votar. Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.Um abraço. Eduardo.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Gostei. O seu modo de nos conduzir até ao cais e ao final da história é muito agradável.
O bebé que se acolhe nos braços do pai leva-nos a um mundo desconhecido mas que com o tempo acaba por amadurecer e ser agradável.
Histórias com muita vida que não cedem frente às contrariedades.

Zé Povinho disse...

Gostei, como sempre, especialmente da fluidez da escrita e da força que dá aos protagonistas.
Abraço do Zé

Silenciosamente ouvindo... disse...

Amiga estive aqui de novo e deixo-lhe
um beijinho e desejo que esteja bem.
Obrigada sempre pelas suas
visitas.
Bj.
Irene Alves

aflores disse...

Pois cá estou eu ;) :)

A amiga Elvira pede para dizer o que mais agradou e o que menos gostou...impossível! Para mim isso é impossível de fazer, pois gosto de passar por este cantinho e ler seus contos. Para além disso, não sou nem faço a mínima questão de ser, um crítico daquilo que os outros escrevem.

Gosto, não gosto... cada qual vê e sente a escrita como bem entender, e como eu costumo dizer, escrever/ler é algo que todos deviam fazer, optando pelo estilo que mais lhe agrada.

Nada de criticar (na minha modesta opinião). Ás vezes, os críticos raramente fazem críticas construtivas, mas sim gostam da "matriz" realizada por eles e assim, apoiam ou não, aquilo que está dentro dessa mesma matriz.

Escrever o que nos vai na alma ou na imaginação, é como realizar um encontro de amigos... a data escolhida nunca agrada a todos.

Complicado? Não. Simplesmente já está na hora do almoço e estou com a barriga a "dar horas".

Continuação de bons contos e o agradecimento eterno pela partilha.
Prometo continuar a passar por aqui.

Tudo de bom.

:)
;)

Mariangela disse...

Bom dia Elvira!
Linda partilha... e muito real.
Com fé e amor tudo fica melhor em nossa vida!
Beijos e muitas bençãos para você!
Mariangela

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
O que não gostei? Difícil, heim? Mas sei o que mais gosto em suas histórias: Sabe construir muito bem um personagem e nós faz envolvidos em seu emocional. Como adoro finais felizes, adorei o que escolheu para Clara e Pedro!
Beijus,

Severa Cabral(escritora) disse...

Boa noite minha querida !
O encantamento do texto vira uma preciosidade e me deixa sempre fascinada ao te ler...bjs
Deixo um convite bem especial para participar de um momento mais que especial !
Só visitando o link saberás do que falo...
http://severaescritora.blogspot.com.br/2013/10/canteiros-da-vida-encontro-da-chica-com.html#links

✿ chica disse...

Acabando de chegar, vim agradecer os carinhos todos! beijos,tudo de bom e retomo ao normal novamente! chica

Lu Nogfer disse...

Querida,

Ainda nao o li inteiro ja que esta é só a parte final, mas com tempo, lerei para dar a opinião que pediu. De antemão digo o que voce ja sabe. Você é ótima contadora!

Beijos e um lindo final de semana!

Evanir disse...

Com meu carinho de sempre
e amor incondicional .
Estou marcando minha presença
para desejar um abençoado final de semana.
Desejo de coração que veja minha postagem .
Quanto a comentar ficarei feliz mais faça aquilo
que mandar seu doce coração.
Beijos que seu final de semana seja na benção e na paz de Deus.
Evanir.
Um dos mais belos contos que li nesses ultimos tempos.

Nilson Barcelli disse...

Não o referi no comentário anterior, mas eu tenho dificuldade em apontar os aspetos positivos e negativos do teu conto. Pela simples razão de que é equilibrado na narrativa, nos episódios, etc., etc. Claro que poderias fazer melhor, porque isso é sempre possível. Mas eu não sei como...
Elvira, minha querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Lilá(s) disse...

Mais um qual de que gostei muito, preciso de contos com finais felizes...gostei da maneira como está estruturado mas lamechas como sou talvez acha-se mais interessante se o final não fosse tão rápido e encurtado.
Beijinhos

José Lopes disse...

Gostei como sempre tem acontecido, cara Elvira.
Cumps

AC disse...

Elvira,
Entendo o seu repto, mas entendo que não seria correcto, da minha parte, dizer-lhe o mais e o menos do meu gosto. E isto por uma razão muito simples: tenho para mim que cada autor deve seguir a sua sensibilidade, a sua intuição, pois unanimidades é coisa que não existe. O meu conselho, portanto, é que escreva o que lhe dá prazer, que siga a razão do coração.

Beijo :)

esteban lob disse...

Gran poema, como siempre, Elvira...y muy tierna foto.

Tintinaine disse...

Não tenho a certeza se vai ler este comentário, mas vou escrevê-lo de qualquer modo.
Há mil e uma maneira de cozinhar bacalhau e a Elvira é capaz de escrever um conto para acompanhar cada uma dessas receitas.
É o que dá ter nascido na Azinheira!