21.9.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE IV


Calou-se e ficou pensativo. Como se falar do caso lhe trouxesse à memória, toda a angústia vivida. Clara escutara-o em silêncio. Procurou com o olhar o Santos contramestre do navio.
-É um grande homem, - disse Pedro que seguira a direção do seu olhar. - Não fora ele e possivelmente não estaríamos aqui hoje e toda essa gente teria alguém por quem chorar.
- E depois Pedro, como chegaram á Terra Nova? - Perguntou Clara, enquanto puxava a irmã, para junto de si.
- Depois que o temporal passou, embora com alguma dificuldade, conseguimos chegar a St. John's, onde reparámos a avaria, e abastecemos. Lembro-me bem, porque foi aí que eu recebi a notícia da morte dela.
Calou-se e por momentos, o seu olhar perdeu-se na distância. Clara olhava-o em silêncio, respeitando a dor do jovem. Ele retomou a conversa:
- Deus como sofri. Procurei a morte a todo o instante. Mas Deus, sempre me protegeu. E eu... eu, que nunca tive medo de nada, tive medo disto. Chegar aqui, e ver toda esta alegria e felicidade à minha volta... Ah! Rapariga, que se tu soubesses quão negros são os meus pensamentos, por certo fugirias de mim. A Graça era uma bela mulher. E uma boa esposa. Amava-me e eu adorava-a. E morreu. Morreu num desastre estúpido. Queria morrer também. Sem ela, a minha casa vazia, os meus sonhos mortos, que me importa viver?
Clara, não teve uma palavra de consolo para ele. Que podia ela dizer para lhe mitigar tão intenso sofrimento? Que a mulher a quem ele adorava, tinha morrido quando fugia com outro? E podia ela dizer-lhe isso? Seria como matá-lo duas vezes e não se pode ser tão cruel. Mas alguém lho diria. Nas terras pequenas tudo se sabe, e as pessoas parecem tirar prazer do sofrimento dos outros.                                                
                                                        
Continua


Bom fim de semana para todos os que passarem por este cantinho.

12 comentários:

Kim disse...

A Elvira é mesmo uma mulher virada para o suspense.
Fico sempre à espera do seguinte, mesmo quando parece que não estou.
Abraço amiga

esteban lob disse...

Hola Elvira:

En las ciudades más grandes, también hay quienes se aledgran de las desgracias ajenas.
Así es el mundo.

Cariños.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Tinha pensado escrever, exactamente, aquilo que o comentador anterior exprimiu.

O pior é que, além de acrescentarem dor a quem sofre, tais pessoas ainda se sentem corajosas e benfazejas.

Bom fim-de-semana

edumanes disse...

Infelizmente é verdade, a tristeza duns é muita das vezes a alegria de outros. Embora a Graça, tivesse quando morreu a fugir com outro homem, o Pedro amava-a tanta que não era fácil viver sem ela! A vida para ele nunca mais será como era dantes!

Boa noite e bom fim de semana
e um abraço para você amiga Elvira.
Eduardo.

Andre Mansim disse...

Oi Elvirinha!
O conto está indo bem, com bom ritimo e história! Espero a continuação, porque os seus finais são sempre bons!

Alexandra disse...

Um bom fim-de-semana :)

Beijo!

Nilson Barcelli disse...

St. John's e Terra Nova, eram 2 lugares que ninguém conhecia a não ser os embarcados. E por lá ficaram muitos dos que morreram na faina das pescas do bacalhau.
Mas também havia dramas em terra...
Continuas a contar muito bem uma história que nos prende.
Elvira, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!!

Pedro que pensa ter vivido uma desgraça (sem trocadilhos), ainda não sabe o que lhe espera!
Todos comentando do seu suspense... ora, ora... rs.

Boa semana!!
Beijus,

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Vidas... é sempre do que tratam os teus belos textos, Elvira. Vidas amarguradas pela desgraça, outras vezes vidas a quem a felicidade nunca faltou. É assim a vida de todos. Cá estou para seguir este belo conto. Um beijinho e obrigada por este momento.
Emília

Socorro Melo disse...

Olá, Elvira!

Atualizei a leitura do Conto, e estou curiosa pra ver o que acontece depois.. É muito boa a expectativa. Você nos prende com histórias tão bonitas.

Beijos
Socorro Melo

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

E a história cá vai ganhando forma,muito bem construída,e as peças encaixando-se nos seus lugares.
E como já estou atrasado... mais logo irei ler o que aconteceu depois desta chegada dos bancos da Terra Nova.

Um abraço
Vitor

LUZ disse...

Olá, Elvira!

Diálogo interessante entre Pedro e Clara, embora, o tema fosse a falecida, que, não soube merecer o amor do marido.

Beijos para todos.