18.9.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE III




foto da net



Os últimos homens galgavam as escadas a correr. Mais gritos, mais risos, mais lágrimas. Os olhos de Clara ficaram presos num belo moço que subia lentamente as escadas, como se não tivesse pressa de chegar. Antigo colega de escola, companheiro de brincadeiras, o jovem parecia carregar nas costas um peso invisível.
 Aproximou-se dele, e saudou:
- Olá Pedro, como estás?
-Olá rapariga, - respondeu no seu vozeirão forte. - Como queres que esteja , um homem como eu? Não vês tu? Toda a gente está feliz, contente, e olha para mim? Que diferença entre este dia e o outro no ano passado. Também eu nessa altura galguei estas escadas sem as ver. Também eu tinha aqui a minha mulher, à minha espera. E hoje... hoje...
As últimas palavras morreram numa espécie de soluço rouco.
- Olha Pedro, é verdade que estiveram quase a afundar-se durante um temporal? - Clara tentava assim afastar maus pensamentos da mente do jovem.
- É verdade sim. Foi quando saímos dos bancos da ilha de Baffin, a caminho da Gronelândia. Fomos apanhados por um violento temporal. Partiu-se um guincho, que provocou um pequeno rombo no casco do navio e começámos a meter água. O motor parou. Todos estávamos assustados. Chegámos a pensar que não saíamos dali com vida. O vento forte, e as vagas altas, atiravam o barco de um lado para o outro, como de dançasse uma música infernal. Uns rezavam em voz alta, outros apertavam ao peito as fotografias da família. E entretanto afundávamo-nos irremediavelmente. Foi então que o Santos, o contramestre gritou:
- "Que fazeis aí parados, homens de Deus? Deixai-vos de choros idiotas, ou ides servir de jantar aos peixes. Venham aqui ajudar, rápido. Mulheres que fossem, não estavam tão assustadas." Não sei o que cada um sentiu. Mas lutando contra o vento, presos a cordas por causa das ondas que varriam o convés, descemos ao porão e tentámos tapar o buraco. Eu fui para a bomba tirar a água, o Santos, o Ti'Amadeu, e mais seis homens lá conseguiram depois de muito esforço tapar o buraco. Incrível como um rombo tão pequeno metia tanta água, e fazia tanta pressão. O Jorge da Rita agarrou uns desperdícios, e de escopro e martelo foi calafetando á volta da tábua nova que os homens tinham pregado sobre a de estava a deixar passar a água. Tivemos ainda que lutar com o temporal durante um bom par de horas, mas a questão da água fora resolvida.

Continua 

Esperando que estejam a gostar da história, desejo-vos um resto de boa semana

8 comentários:

lis disse...

Está envolvente essa história Elvira -o mar é cheio de surpresas e viagens longas podem causar pequenos problemas que se transformam em grandes aflições!
estou seguindo e gostando,
meu abraço

edumanes disse...

Assim a gente conseguisse tapar o buracão que fizeram para cairmos dentro dele. Mesmo fora de água continua a meter água que se farta.
Quanto mais a gente o tenta tapar, mais ele largo está a ficar.

Foi de tal forma o rombo
De aumentar não mais parou
Tantas foram as falhas do comando
Teimosamente, de porto segurou o desviou!

Gostei da história, e da maneira como ela terminou!

Boa tarde e um abraço para você,
amiga Elvira.

edumanes disse...

Boa tarde amiga Elvira, venho aqui esclarecer as suas duvidas, expressas no Medonha Labareda, aquando da sua visita. Penso que as suas duvidas estão centradas em nevar em Agosto e trinta e cinco graus positivos em Janeiro. Pois amiga Elvira. Esses dois fenómenos só irão acontecer quando Passos Coelho repor os cortes já efectuados e os que se prepara para fazer nas pensões dos reformados e pensionistas!
Um abraço
Eduardo.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Com tão pormenorizada e fiel descrição, caso o não soubesse até diria que A Elvira teria andado na pesca do bacalhau...
Vida difícil, aquela!

E cá fico à espera de saber mais.
Um abraço, boa semana.
Vitor

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Gosto muito das suas descrições. Parece que estamos assistindo às cenas.

Ora, desenha-se uma paixão entre Pedro e Clara. Muito bem, e tal com eu previra. Contos sem amores, não têm tanto interesse.

Bom fim se semana e boa sexta feira, também.

Beijinhos para todos.

Andre Mansim disse...

Oi Elvirinha!
Menina, histórias envolvendo mar são meu fraco!
E você sabe contar um conto bem contado viu!
Estou no aguardo das próximas cenas!

Um beijão, e tenha um lindo final de semana.

Alexandra disse...

Esta história fez-me pensar!


beijinhos!

Luma Rosa disse...

Oi, Elvira!
Não demore a publicar, pois que estou muito ansiosa para ler a continuação!!
:)
Beijus,