15.9.13

ENTRE DUAS DATAS - PARTE II



- Mana, mana, já viste, esta senhora tem tantas saias! -disse de repente a pequenita.

Ela olhou, a bonita nazarena, que estava junto à irmã. Sorriu, e a mulher devolveu-lhe um sorriso rápido, que tinha muito de nervoso. Logo os seus olhos voltaram-se de novo para o barco que estava já bem perto do sítio onde iria fundear. Era o Gazela, um belo veleiro de três mastros, que arrogante e belo passeava majestosamente pelo rio, com as suas velas brancas tremelicando, como se foram lenços gigantes acenando. Era o navio mais antigo da frota, mas era também o mais belo. Nele, ela via, toda a primitiva beleza das naus, com que os portugueses saíram em busca de novos horizontes.
 Nesse ano estivera prestes a afundar-se durante um temporal, e, talvez por isso houvesse ainda em cada olhar, um misto de receio a toldar a alegria da chegada.
 A ela, apaixonava-a, ver como aqueles homens de aspeto duro e rude, que lá longe travavam uma luta diária, contra o mar, que tem tanto de belo, como de traiçoeiro, quando pisam terra se transformam nos mais delicados, para abraçar quase sem jeito, as suas mulheres, os seus filhos, e as suas famílias.
 O barco estava agora fundeado. Os pescadores saltam rapidamente para as lanchas, que os irão levar até à pequena ponte de madeira, onde a família os espera com ansiedade.
 - Anda cá querida, não te debruces que podes cair à água - chamou ela a irmã que se afastara um pouco.
                                                     Nesse preciso momento chegaram à pequena ponte as primeiras lanchas, cheias de pescadores.
- Manel, meu rico Manel - gritou uma velhota mesmo ao pé dela.
-Paizinho, paizinho, chamou um garoto mais distante.
E há abraços e beijos, risos e lágrimas, naqueles rostos queimados pela vida rude do mar. E chega outra lancha, e outra, e mais outra ainda. E há enlevo e amor nos olhos de toda a gente. Naquele momento, tudo foi esquecido, apenas se vive o momento presente. Lá no rio, as velas do barco, ondulando ao vento parecem acenar gritando:
- Adeus até para o ano!




Continua

UM SANTO DOMINGO PARA TODOS.

12 comentários:

Andre Mansim disse...

Que delicia de conto hein Elvirinha!
Puxa... Como são lindas as idéias de um contista. Como o mundo aparece com milhões de alternativas e aventuras... Aventuras simples, ou complicadas.

Parabens minha amiga. Estou esperando a continuação!

Evanir disse...

Como passageiros no trem da vida,
tantas coisas marcam a nossa existência,
comovem o nosso ser,
elevam nossa alegria .
A vida é feita pra viver, se arrepender,
pedir perdão, rir, chorar, brincar,
cair, levantar, ser feliz.
Comece você a iluminar, a modificar,
a permitir que a paz flua através de você.
Deixe que a fonte divina jorre sobre tudo,
que nosso coração seja uma fonte de amor
abençoando vidas através da nossa fé em
Deus.
Obrigada pelo carinho na minha ausência
obrigada pelo carinho pela passagem
do meu aniversário.
Que, Deus permita estar por mais alguns anos
recebendo esse carinho , que me deixa feliz.
Um abençoado Domingo beijos
no coração afagos na sua alma , Evanir.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Eu também me senti viver essa chegada do bacalhoeiro e ouvir os gritos de alegria num reencontro com as famílias e s amigos.

Mariazita Azevedo disse...

É muito bom ler estas descrições de momentos que se viveram, na realidade, e que só os mais afortunados ainda guardam na lembrança.
Os mais novos precisavam conhecer melhor o passado... mas anda tudo virado para o futuro...

Uma semana óptima, e um abraço
Link para o meu blog principal
Mariazita

Silenciosamente ouvindo... disse...

Minha amiga muito obrigada pelos
seus parabéns. Com atraso também lhe dou os parabéns com um desejo
muito grande de que daqui a um ano
estejamos em contacto.
A vida dos pescadores é realmente
terrível. E da família que fica em
terra também. E ganham mal...
Eu não tenho contador de comentários, nem sei como isso se
faz, mas ainda bem que a amiga sabe
e pôde saber a bonita soma de comentários que conseguiu.Os meus
parabéns.
Beijinhos
Irene Alves

Nilson Barcelli disse...

A chegada dos embarcados era sempre emocionante.
E tu conseguiste transmitir essas emoções.
Elvira, tem uma boa semana.
Beijo.

Nilson Barcelli disse...

A chegada dos embarcados era sempre emocionante.
E tu conseguiste transmitir essas emoções.
Elvira, tem uma boa semana.
Beijo.

Mariangela disse...

Oi Elvira, vim te agradecer a visita que me deixou muito alegre e te falar que é sempre gostoso vir aqui, ler esses contos lindos.
O regresso é sempre muito bom Elvira...ainda mais depois de tanto sofrimento, para quem foi e quem ficou.
Um grande abraço e uma abençoada semana!
Mariangela

LUZ disse...

Olá, Elvira!

A descrição que faz do ambiente, do mar, das pessoas, dos seus gestos e sentires, fazem-nos ver as entranhas do seu conto.

Aguardemos a continuação e alguma paixão, que possa surgir, entre a irmã mias velha e algum moço pescador, ou filho de pescador.

Boa semana.

Beijos, com amizade.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Bonita narrativa do que foi uma vida dura para quem nela participava, e que ainda conheci de perto, já que na Figueira também existiu uma pequena frota. À altura, o melhor mesmo era o comer o saboroso bacalhau - mas em terra...
E fico à espera do resto...

Um abraço amigo
Vitor

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

E mais um belo conto que aqui nos trazes, Elvira e este fazendo-nos recordar a vida dura do Manuel na seca do bacalhau. Perdi o primeiro capítulo, mas, claro que já o li. Fico à espera da continuação, amiga. Um beijinho e fica bem. Parabéns pela bela escrita que nos faz entrar no conto como se a ele pertencessemos.
Emília

Duarte disse...

Que qualidades narrativas!
Essa foi a primeira impressão que obtive ao chegar a essa terra tão formosa. Hoje quase que não se vêem, mas foi algo que me impressionou, como os bois a arrastar os barcos, tão imensos. Tudo tão diferente ao que via em Angeiras!
Imagens e acções que me marcaram, que me são familiares. Gostei muito.
Abraços de vida