22.1.13

A HERANÇA - PARTE XV



Agora aquele ramo dizia-lhe que Jaime já era um homem livre. Pousou o cartão, e procurou uma jarra para colocar as flores.
 Enquanto o fazia, continuou a lembrar o que tinham sido aqueles quatro meses. Mara não fora uma única vez à prisão, mas foi várias vezes a casa da Piedade. Através das suas palavras, ela conhecia cada vez melhor o carácter de Jaime. Descobriu, a solidão do menino, e percebeu que a sua própria solidão, a ligara a ele. Entendeu a dor do rapaz, quando soube quem era o seu pai, e a revolta que ele sentira quando percebera que ela não acreditara nele. Descobriu que se isso lhe tinha amargurado a vida, se tornara para ela também um sentimento de culpa. Conheceu e admirou a força de vontade do jovem, para tirar um curso, e entrar na Universidade. Conheceu os seus sonhos, e sentiu a amargura e a revolta do homem quando a injustiça, se atravessou no seu caminho derrubando e destruindo todos os seus sonhos.
Quando pela Páscoa, Piedade lhe pedira para ela a acompanhar na visita ao filho, e lhe contar ela mesma as notícias que acabaram de chegar de França, ela negara-se. Ainda lhe parecia ver a cara de espanto da mulher, quando ela dissera:
- O seu filho não ia gostar de me ver.
Dias depois quando voltou a dar-lhe notícias, e lhe perguntou como ele estava, Piedade, dissera-lhe que lhe contara a conversa que tinham tido.
- E o que é que ele disse? – Perguntou a jovem
- Nada. Fechou os olhos e ficou calado.
Ela sabia que ele tinha entendido. Do mesmo modo que ela entendera o seu recado anteriormente. Entretanto o seu escritório ficara pronto, e tinha até já um caso entre mãos. Nada de muito importante, uma disputa de terras, mas ela sabia que os casos iam começar a aparecer. O caso da Marfix, ia sair na imprensa do dia seguinte, tinha já recebido um telefonema de uma televisão para uma entrevista. Tencionava entrar com um pedido de indemnização em nome de Jaime Bento. O futuro a nível profissional estava muito bem encaminhado. Mas e o coração? O que é que ia acontecer agora? O que  se passaria no coração "dele"? Porque é que ele não aparecia? E se aparecesse, iria sentir alguma coisa que não fosse gratidão?
Desistiu de deixar as rosas na jarra. Vestiu o casaco pegou nas flores fechou a porta e dirigiu-se para o carro.
Quando chegou a casa, a avó conversava animadamente com a empregada e o marido desta. A avó abraçou-a dizendo:
- Parabéns filha, parabéns. Já sabemos a novidade. Foi tudo para a estação para receber a Piedade e o filho.
- Não entendo avó. Ninguém o defendeu quando o acusaram.
- Que queres filha. Ontem ele era um tratante, suspeito dum desfalque. todos se lembravam do pai e sabes como é. Hoje é um herói que esteve três anos preso injustamente. O povo é assim. E as flores?
- Do Jaime, – e acrescentou. Por favor Arminda ponha-as numa jarra e leve-as para o meu quarto. Vou tomar um duche e descansar um bocado.   
                                                                     

                                                               Epílogo


Acordou já passava das sete. Tinha-se estendido em cima da cama e o corpo cedera ao cansaço. Vestiu umas calças de seda, verde e um top creme. Escovou o cabelo e deixou-o solto. Não se pintou. Não ia sair. Ia apenas jantar e ficar um pouco com a avó no alpendre. O dia estivera lindo, a temperatura estava muito agradável. Passou um pouco de perfume. Era uma coisa que nunca dispensava. E saiu do quarto. A avó já estava a jantar.
- A Arminda foi ao teu quarto, viu que dormias e teve pena de te acordar. Então resolvi não esperar.
- Não faz mal avó.
- A Piedade veio cá a casa.
Mara sentiu um arrepio. Mas não perguntou nada. Começou a comer e esperou que a avó continuasse.
- Está-te muito agradecida. Para ela é Deus no Céu e tu na terra. Mas confesso que fiquei um pouco desiludida. Esperava ver o rapaz. Há tanto tempo que não o vejo.
"Então ele não veio" – pensou enquanto levava o copo à boca. A avó continuou.
- Ela não disse nada acerca dele. Falaste com ele?
Ela acenou que não com a cabeça.
- Caramba filha nem parece que estás contente!
- É que me dói um pouco a cabeça, desculpou-se empurrando o prato e levantando-se da mesa.
Dirigiu-se ao alpendre, e então viu-o. Encostado ao portão como naquele dia longínquo. Vestia umas calças de ganga e uma camiseta de algodão branca, sem mangas. Ela pensou se ele estaria ali há muito tempo. Sentindo as pernas a tremer, desceu as escadas e dirigiu-se ao portão. Ele estendeu a mão e segurou a dela.
- Não me interessa o que dizem. Não fui eu. Acredita...
Ela pôs-lhe os dedos nos lábios. E sussurrou:
- Eu sei. Sempre o soube.
Ele segurou-lhe o queixo e aqueles incríveis olhos verdes mergulharam ansiosos nos olhos escuros da jovem. E ficaram assim longos momentos, cada um lendo nos olhos do outro o que lhe ia na alma. Depois o homem abriu os braços e a mulher aninhou-se neles.
No alpendre a avó suspirou e deixou-se cair no cadeirão.





FIM

  REGISTO  Nº 6390/2011



24 comentários:

Severa Cabral(escritora) disse...

Estou aqui hoje por um motivo mais que especial.
Tenho que dizer que não foi fácil conseguir você para ser meu seguidor,
foi muita motivação impulsionando com postagens e visitas...que atingi 300 seguidores
Agradeço te convidando a visitar a florada do IPÊ junto comigo no FOLHAS DE OUTONO !
Deixo o meu abraço recheado de carinho !!!!!

Mariangela disse...

Que lindo Elvira! O coração...quem pode com ele?
Beijos e um dia abençoado!
Mariangela

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Nem que fosse só pelo modo como encerrou o conto, já valia a pena tê-lo lido: "o homem abriu os braços e a mulher aninhou-se neles".

Um grande beijo

Socorro Melo disse...

Olá, Elvira!

Amei a sua história. Não tinha acompanhado desde dezembro e hoje li as partes restantes. Um bela história de amor, muito criativa e instigante. Parabéns!

Um abraço
Socorro Melo

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

E esta história de grande fôlego, bem tecida e bem contada, terminou no apogeu que merecia - e com o bonito e romântico final com que se contava...

Os meus parabéns! Não só pelo poder de criatividade,mas também pela maneira segura com que foi desenrolando o fio desta longa meada...

Abraço amigo
Vitor

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia
Gostei deste final. Parece-me que não criou grandes pinturas nem artificialismos desnecessários. Foi quase tão natural que nos deixamos seguir ao sabor da sua escrita.
Parabéns

Celina disse...

Oi querida amiga vim primeiro agradecer as mensagens recebidas quando estive ausente,E agora dizer da beleza do teu conto gostei muito, maravilhoso, perfeito. Um abraço carinhoso. Celina

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Que bom, Elvira! Finalmente fez-se justiça! Acontece muitas vezes...pelos defeitos dos familiares fica-se com marcas para a vida toda. Mas...esta acabou bem e agora não haverá nada que derrube o Jaime. Ninguém mais o comparará com o pai. Parabéns amiga pela maneira como nos contaste esta história linda. Pena mesmo não publicares o teu tão sonhado livro. Quem sabe um dia? Há que ter esperança! Beijinhos e até sempre
Emília

Luma Rosa disse...

Ahhhhhhdoro finais felizes!! :)
A torcida era grande e não haveria de ser de outro modo!!
Obrigada por me proporcionar momentos tão agradáveis! Fico também na torcida para que publique seu livro muito em breve :=)) Beijus,

FATifer disse...

Gostei do final e de toda a história no global. Volto agradecer o prazer que tive na leitura e já agora a visita que fez ao meu espaço.

Cumprimentos,
FATifer

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

QUE FINAL FELIZ, NUM LONGO BEIJO!

O menino dos olhos verdes, sempre me inspirou. Eu sabia, que tal como Mara, que ele era inocente.

E foram felizes para sempre...
E foram felizes, enquanto ambos o desejaram.

Beijinhos para todos.

Maria Rodrigues disse...

Elvira um final perfeito, um conto de vida que nos prendeu e encantou.
Quantas vezes se julgam as pessoas pelos erros dos seus familiares.
Bom fim de semana
beijinhos
Maria

Nilson Barcelli disse...

Adorei toda a história.
O final é lindo, muito romântico.
Elvira, tem um bom resto de domingo e boa semana.
Beijo.

rosa-branca disse...

Olá amiga, lindo, belo, maravilhoso e deslumbrante final que amei demais. Se adivinhara que o menino dos olhos verdes tinha/tinham um final feliz. Parabéns amiga pela história linda e romântica. Ás vezes ainda me esquece, que podem haver finais felizes. Beijos com carinho

AC disse...

A vida tem temperos muitos próprios, e a Elvira, na sua escrita, mostra bem isso.
Nota-se que a autora acredita que todos, para chegar a bom termo, têm que cultivar determinados valores, pois só assim a vida tem sentido. E, apesar da pressa de muitos em chegar ao destino, a Elvira sabe bem que as coisas não funcionam assim.
Parabéns!

Beijo :)

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Recuperei o penúltimo capítulo, para me inteirar do último. A narração nos empolga, quando se trata de "caso policial", com pitadas de romance.
Final feliz, com flores e beijos.
Parabéns!

Um abraço!

Silenciosamente ouvindo... disse...

Olá Elvira venho agradecer o seu
maravilhoso comentário no meu
sinfoniaesol.
Vim encontrar aqui nos comentários
alguns dos meus amigos da Net.
Virei cá com mais tempo para
ler todo o seu conto.
Um grande beijinho e que a imaginação
seja contínua em si, para continuar
a criar.
Irene Alves

Olinda Melo disse...


Lindo, lindo, Elvira!

Adorei o conto e este final foi perfeito. Fez-se justiça e vê-se que os dois sempre gostaram um do outro.

Obrigada por estes momentos de leitura tão agradáveis.

Beijinhos

Olinda

Luis Eme disse...

acabou muito bem.

o povo é tão maleável, Elvira...

abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Venho só desejar-lhe que esteja melhor.

Beijos

Jorge P.G disse...

ELVIRA

Vejo que continua com os seus contos. Faz bem.
Cheguei no final deste.

As melhoras dos seus olhos, um abraço e bom fim de semana.

Kim disse...

Bonita "estória" de amor Elvira!
E quando acaba assim, melhor ainda!
Parabéns

Fa menor disse...

Gostei muito de pular até aqui e ler este final. Emocionante.

Tenho que ler muitos episódios para trás...

Beijinhos, amiga!

Fa

FireHead disse...

A história acabou bem. O que terá sentido a avó da Mara depois de ter caído no cadeirão? :)