19.1.13

A HERANÇA - PARTE XIV



Estava um lindo dia de Primavera. No seu escritório de advocacia, Mara pegou com mãos trementes um lindo bouquet de flores que a florista lhe estendia. Eram rosas vermelhas. As suas flores preferidas. Agradeceu, esperou que a senhora saísse e procurou alguma coisa entre as flores. Encontrou um pequeno envelope, do qual retirou um cartão.
"Para agradecer o dia mais feliz da minha vida. Jaime"
Ela ficou com o cartão nas mãos, enquanto as recordações se atropelavam na sua memória. Desde aquele dia em que a Piedade lhe contara um pouco da vida do filho, tinham passado quatro meses. Quatro meses em que ela, o Dr. Morais e o investigador Artur, uniram esforços, para descobrir a verdade sobre o desfalque da Marfix. E a verdade era mais ou menos como o investigador suspeitara. Américo Costa, o colega de Jaime, tinha elaborado o seu plano ao longo de meses. Sabia que a empresa pagava sempre em dinheiro o salário dos 420 empregados que tinha na altura. E também sabia que o dinheiro vinha no dia trinta. Mas que a empresa pagava sempre no último dia do mês. O gerente dizia que se pagassem a trinta, meia empresa faltava a trinta e um. Manias. Ora nos meses de 31 dias, o dinheiro ficava nos cofres da empresa até ao outro dia. Normalmente quem efectuava o pagamento era o gerente. Começava pela manhã e acabava ao fim do dia. Nesse espaço de tempo o pessoal ia passando pelo escritório, assinava o nome num livro e recebia o envelope com o dinheiro. Américo foi amadurecendo o seu plano.
Todos os anos a Marfix fechava em Agosto para férias. Era um mês em que quase não havia encomendas, e em que a maior parte dos fornecedores, também estavam de férias. Então toda a gente ia de férias nessa altura e não tinha problemas com o assegurar do ritmo da empresa o resto do ano, por causa de férias. No final de Julho ia haver pois um volume muito maior de dinheiro no cofre, por causa do subsídio de férias. E o mês era de 31 dias. A altura perfeita para o golpe pensou o Américo. A sua persistência tinha como resultado ter conseguido descobrir o segredo do cofre, o que até nem era difícil, pois era o nome do patrão, e que era do conhecimento do contabilista, que muita vez lá guardava os cheques e algumas quantias em dinheiro, dos diversos clientes que compravam directamente na fábrica. A chave do escritório, fora mais fácil ainda, o próprio contabilista lhe dera a chave, para ele abrir a porta, num dia em que precisava faltar. E claro, ele aproveitara para fazer uma cópia.
Quase no final de Julho, Piedade tivera o acidente e fora internada no hospital de Viseu para ser operada.
O Jaime pediu ao gerente para ficar em casa os dois dias que faltavam para as férias, e o gerente que gostava dele, deu-lhe um cheque com o valor do ordenado, dizendo-lhe que como ainda não era fim do mês, ele receberia em Setembro, o subsídio de férias. Preocupado com a mãe, Jaime saiu esquecendo-se de entregar a chave do escritório.
No dia seguinte chegou o dinheiro e o Américo executou na perfeição o plano. Escondido o dinheiro, apresentou-se na manhã seguinte no trabalho, esperando que o gerente chegasse para abrir a porta do escritório. Assistiu ao abrir do cofre e ao espanto do gerente. Assistiu à vinda da polícia, foi interrogado tal como os restantes empregados e agiu com tanta naturalidade que ninguém suspeitou dele. Como o Jaime tinha a chave do escritório, sabia o segredo do cofre, e não havia impressões digitais desconhecidas no cofre, a conclusão lógica fora que tinha sido o contabilista. Depois os jornais descobriram de quem ele era filho e aí acharam que não podia ter sido outra pessoa. "Filho de peixe... " escreveram alguns jornais mais sensacionalistas. Jaime foi julgado, e condenado. Em Setembro, Américo começou a dizer aos colegas, que estava farto daquela vida, que estava a pensar emigrar, que na França se ganhava muito dinheiro. E foi desfiando a mesma cantilena até Dezembro. Nessa altura começou a dizer que um primo lhe arranjara emprego em Paris, e que ia logo que passasse o Natal.
Ninguém desconfiou de nada. Esteve em França desde Janeiro até Dezembro. Depois veio passar o Natal com a família e disse que tinha tido sorte, que ganhara bem em França, comprou uma casa e montou um restaurante. Era impossível alguém ganhar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Fora isso que o investigador pensara, e fora isso que levara o Juiz a assinar o pedido de averiguação da sua conta bancária. Claro que o Dr. Morais tivera um pouco de influência, porque era amigo do Juiz, e este acreditava que o Dr. Morais, não lhe iria fazer tal pedido, se não tivesse certeza do que dizia. Descobriu-se então que o Américo tinha feito o primeiro depósito, aproximadamente um décimo do desfalque, no dia 28 de Dezembro, portanto antes mesmo de partir para a França. Depois não fez mais depósitos até 23 de Dezembro do ano seguinte. Ora ele chegara, no dia 22 de França. E depositou o dinheiro no dia 23. Ninguém viaja com uma importância daquelas em dinheiro. Depois foi seguir-lhe o rasto em França, e descobrir que trabalhou na construção civil e que o que ganhava era o suficiente para viver, nunca para fazer economias daquela envergadura..
 De posse das provas, o Dr. Morais, apresentou-se na polícia, e fez a participação, enquanto ela entrara com o pedido de reabertura de processo no tribunal. A polícia efectuou a sua própria investigação que foi rápida, pois o investigador Artur tinha anotado todos os passos do Américo, tanto em Portugal como em Paris. Interrogado este, começou com várias mentiras que a polícia fora desmantelando. Na verdade, ele planeara em pormenor o desfalque, mas nunca planeara uma defesa credível, caso fosse descoberto. Julgava-se tão esperto, que nunca pensou que fosse descoberto. E muito menos agora, que já se tinham passado mais de três anos. Ficou tão surpreendido que rapidamente se descontrolou e acabou por confessar.
Nessa manhã, Mara estivera no tribunal com o inspector da polícia, e o juiz ao tomar conhecimento do caso ordenara a libertação imediata do Jaime. O inspector levou a ordem para a prisão e ela seguira para o seu escritório.


Continua


 REGISTO  Nº 6390/2011



 Informo que embora continuando em tratamento me encontro melhor e agradeço o vosso carinho.
BOM FIM DE SEMANA  

12 comentários:

Kim disse...

Pois ... não há crimes perfeitos e um dia a casa vem abaixo.
As melhoras, Elvira

. intemporal . disse...

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. um dia . as não.verdades farão com as in.verdades . se aquietem .

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. e,,, espero . pela continuação .

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. um beijo meu .

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rosa-branca disse...

Ai amiga Elvira, a amiga mata-me de suspense...estou a adorar. Simplesmente maravilhoso. Beijos com carinho

FATifer disse...

Acabei de ler tudo até aqui e agradeço o prazer de leitura que me proporcionou.

Aguardo com alguma ansiedade a continuação.

Cumprimentos,
FATifer

Luma Rosa disse...

Elvira, torcendo pela sua melhora e que esteja cem por cento bem em breve!!
Uma história bastante realista. As empresas padecem desses fanfarões que querem dinheiro fácil. São prostitutos, pois sim? :)
Bom fim de semana!! Beijus,

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Aqui nos deixa uma história em que a vida, começando por sê-lo, deixou de ser madrasta. Ainda virá mais luz à vida do Jaime, certamente.

Beijos

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!


Tudo se vai descobrindo nesta trama bem urdida, enquanto tudo começa a encaixar-se lindamente nesta história bem contada.

Bom Domingo
Abraço amigo.
Vitor

Andre Mansim disse...

Olá Elvira!
Esse seu conro é muito bem escrito!

Eu comecei a ler o Maria, e notei umas diferenças quanto a forma de escrever. O Maria parece que está um pouco mais descontraído. Quando acabar te falo!

FireHead disse...

E é agora que o Jaime exige uma indemnização, quanto mais não seja pelos danos morais causados. :)

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Adorei as rosas e o bilhete do Jaime.
A justiça far-se-á.

Beijinhos.

PS: já sei que está melhor. Fico contente.

Nilson Barcelli disse...

A mentira tem perna curta.
Mas agora há para aí tanto rico que não tem como justificar o dinheiro e a justiça nada faz...
Elevira, querida amiga, espero que melhores rapidamente. Tem uma boa semana.
Beijo.

Olinda Melo disse...


Graças à Mara, o Jaime recuperou a sua vida. Aquele Américo era mesmo espertalhão, pensou em tudo e quase que cometia o crime perfeito.

Bj

Olinda