16.1.13

A HERANÇA - PARTE XIII



Nessa tarde o telemóvel de Mara não parou. Primeiro foi o decorador que não tinha encontrado o tecido que ela queria para os estofos, e queria que ela fosse escolher entre as amostras que ele trouxera para substituir. Tinha que o fazer em breve, para dar seguimento à encomenda dos estofos. Depois foi o Dr. Morais. Disse ter falado com o investigador e estar disposto a ajudar. Disse que ia tratar de conseguir a autorização para se investigar os depósitos do suspeito. E que assim que a tivesse a entregaria ao Artur. Mais tarde foi o próprio Artur. Tinha já entrado em contacto com o seu amigo em Paris. Ele estava já à procura do registo de entrada do Américo. Disse que se ele ficou em Paris em menos de uma semana, temos a informação, mas se foi para outra cidade pode ser difícil. Por último quando se preparava para sair, a mãe telefonou de Paris.
Encantada, deslumbrada, despejou sobre a filha um relato de encanto, uma meia dúzia de gargalhadas, e desligou sem se lembrar de perguntar se ela estava bem. Mara encolheu os ombros. Cada vez tinha mais dificuldade em se identificar com a maneira de ser da mãe.
Às cinco saiu de casa e dirigiu-se a casa da Piedade. Sabia que ela vinha no comboio que saía de S. Pedro, às cinco. Não quis ir esperá-la à estação. Ia esperá-la à porta de casa.
Era noite fechada, quando Piedade chegou. Andava com dificuldade devido ao problema que a deixara coxa.
- Boa noite menina. Já esperava há muito?
- Cheguei agorinha Piedade. E então?
- É melhor entrar, menina. Se não se importar claro. Sabe, está frio, e os meus ossos não gostam do frio, – disse abrindo o portão e dando passagem a Mara.
Depois abriu a porta e Mara viu-se na mesma sala onde estivera de manhã. Estava ansiosa por saber a resposta, mas não queria voltar a perguntar. Piedade tirou o xaile, e o lenço, deixando à mostra um cabelo completamente grisalho, apanhado num carrapito.
- Bom, menina o meu rapaz está de acordo. Foi difícil convencê-lo. Disse-me que não podia confiar em quem não confiou nele. Sabe o que é que ele queria dizer?
A jovem fez um gesto negativo com a cabeça, enquanto a imagem dum rapazito dizendo "Não fui eu, acredita" passou veloz pela sua memória.
- Pois, eu também não entendi. Mas contei-lhe tudo o que a menina e a senhora sua avó disseram esta manhã. E depois de muito pensar ele disse " Pode ser que eu esteja enganado. Diga-lhe que a partir de agora ela é a minha advogada, e que pode mandar alguém com os documentos que precisem de assinatura"
- Era isto que queria menina? - Perguntou ao ver que a jovem parecia perdida nos seus pensamentos.
- Era isso sim. Já está o processo de investigação em andamento.
Hesitou um pouco e depois pediu.
- Fale-me dele, Piedade. Fale-me do seu filho.
- Do meu rapaz? O que é que eu posso dizer? Foi sempre bom filho, mas muito reservado. A princípio eu tinha medo que ele saísse ao malandro do pai. A menina sabe que o meu marido era um tratante, não sabe? Claro que sabe, toda a gente na terra sabe a minha história. Mas o meu Jaime não saiu ao pai graças a Deus. Tive que o pôr no seminário, por causa de um problema na escola, mas ele não tinha feito nada. Pediram-me desculpa e tudo. Mas ele é tinhoso não quis ir mais à escola. O Padre Miguel conseguiu-lhe entrada no seminário. Mas o rapaz, não tinha vocação. Mas era muito inteligente e os padres arranjaram-lhe um emprego e foi estudar de noite. Contabilidade. Ele dizia que com o curso podia arranjar um bom emprego e tirar então o curso que desejava. Engenheiro electrónico. Eu dizia-lhe para ele não sonhar tão alto, mas ele respondia sempre que eu podia escrever, que esse seria o futuro dele. Quando tirou o Curso de Contabilidade, arranjou emprego na Marfix, e escreveu-se à noite na Universidade. Estava no segundo ano, quando eu tive aquele acidente que me atirou para o hospital. Foi a minha desgraça e a dele. Tenho para mim, que se ele não viesse para aí para me ajudar, não teria deixado que ninguém levasse o dinheiro, nem seria acusado disso.
Mara estava espantada. Não lhe passava pela cabeça que Jaime estivesse na Universidade, nem que passasse o tempo a estudar para ser engenheiro. Ela conhecera o rapaz, mas não sabia nada do homem. Levantou-se ao ver que a mulher se tinha calado.
- Obrigada Piedade. Vou tratar de tudo. Assim que tiver notícias eu digo-lhe.
- Mas menina vai precisar dinheiro. Os advogados...
- Não se preocupe Piedade. Isto é uma troca. Eu provo que o seu filho foi vítima de um erro de justiça, ele ganha a liberdade, e eu a fama de uma excelente advogada. E isso é muito importante, para um advogado em início de carreira. Logo é uma troca justa.
Estendeu-lhe a mão. Ela apertou-lha dizendo:
-Deus lhe pague menina. Deus lhe pague.
Mara saiu. Pelo caminho de volta a casa, recordou o que a Piedade lhe dissera."Pode mandar alguém com os documentos que precisem de assinatura" Ou seja, ele não queria vê-la.
Mara compreendeu. Ele não queria que ela o visse preso. Orgulhoso como era, devia doer-lhe que ela o tivesse visto naquela situação. "Está bem" – pensou. "Não me queres ver, não me verás" Entrou em casa e encontrou a avó à espera para o jantar.
- E então? - Perguntou
Mara respondeu com outra pergunta:
- Tu sabias que o Jaime estava no segundo ano de Engenharia Electrónica?


Continua
 REGISTO  Nº 6390/2011




 Estou com problemas nos olhos, em tratamento, e por isso como estou proibida de passar muito tempo no pc, por vezes visito, leio, mas não comento. Para poder visitar mais amigos e ler mais artigos.

12 comentários:

isa disse...

É sempre com gosto e espectativa que a sigo e leio.
Boas melhoras.
Beijo.
isa.

Mariangela disse...

Muito bem escrito, aguardo o próximo Elvira!
Estimo melhoras.
Abraços!
Mariangela

Severa Cabral(escritora) disse...

Saúde minha querida amiga !!!!!
passei para ler teus escritos que traz sempre um poder de grandeza...
bjssssssssssssssssss

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Continua a apaixonar-me por esta deliciosa história.
A vida prega-nos muitas partidas mas nós devemos lutar para vencer e provar que a vitória está do nosso lado, da justiça e da verdade.

FireHead disse...

Vá lá, assim já se afastou a hipótese de o Jaime ter-se tornado padre. :)

Inscreveu-se em que universidade?

A história não acabará quando Jaime sair da prisão, pois não? ;)

Como dizia o outro do Dragon Ball (desenhos animados): não percas o próximo episódio porque nós... também não! :)

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Hoje falou-nos do percurso do Jaime: conhecíamos-lhe o carácter mas só parte da vida. Soube bem.

Espero que esteja melhor.

Beijos

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Quando a narração é em capítulos, tenho sempre que recuperar os não lidos, para pegar o "fio da meada".
Andei me ausentando e hoje consegui por em dia, esta tão interessante história. Ela prende mais a atenção, à medida que avança...Gosto muito da sua forma detalhista, torna a tudo muito "real"...Qualidade de grande escritora.

Um beijo, elvira,
da Lúcia

Olinda Melo disse...


Bem, a autorização foi dada mas vê-la, à Mara, é outra história.

O certo é que tanto ela como nós ficámos a conhecer um pouco mais do Jaime e, segundo parece, um homem com muito bons propósitos.

Enfim, a vida não tem sido muito boa para ele. Como se desenrolará o processo a partir daqui?

Bom fim de semana

Beijos

Olinda

ana costa disse...

Continuo fielmente seguindo a tua escrita minha amiga que acho maravilhosa!!!
Quanto à tua saúde é preciso ter cuidado porque como eu em pequena ouvia a minha avó dizer "com os olhos não se brinca minha filha"!!!!
Sábios ditados...
bj

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Nesta altura da história e depois dos vários comentários já feitos, difícil é aqui dizer algo que já não tenha dito: que o enredo vai sendo lindamente contado, muito bem tecido,cheio de interesse - e que é um prazer segui-lo.E assim cá fico à espera do próximo capítulo.

As melhoras!

abraço amigo.
Vitor

edumanes disse...

Nessa tarde não parou
O telemóvel de Marta de tocar
Primeiro o decorador não encontrou
O decido para estofes que ela desejar!

Continuou Marta a investigar
Depois de obter autorização
Para o culpado desmascarar
O autentico e verdadeiro burlão!

Coisas reais, do passado e do presente, que continuarão, infelizmente, no futuro!

Bom fim de semana para você
amiga Elvira,
um abraço
Eduardo.

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

A "coisa" promete.
Então o Jaime acabou por aceitar que Mara fosse advogada dele. Excelente.

Não se preocupe em fazer comentários àquilo que eu escrevo, porque eu já sei que "ressuscita um morto".

Beijinhos e as melhoras.