14.1.13

A HERANÇA - PARTE XII




Preparava-se para jantar, quando o seu telemóvel tocou. Era o Dr. Morais. Tinha chegado tarde, o assistente já tinha saído, mas em cima da sua secretária estava o pedido dela. Precisava saber ao certo o que é que ela queria e o porquê. Mara contou o mais resumidamente que pôde, a história do Jaime, o seu emprego de contabilista e homem de confiança da Marfix, o desfalque, a sua convicção de que tinham condenado a pessoa errada, o que o investigador tinha descoberto, as suspeitas de que estavam na pista certa e o que precisavam para continuar a investigação. Do outro lado o Dr. Morais fez um silêncio e depois disse:
- Tens consciência de que um caso destes é uma faca de dois gumes? Vais iniciar uma carreira de advogada. Se estiveres certa e triunfares, não terás mais problemas com o futuro. Mas se estiveres errada, o teu nome vai ficar ligado a esse fracasso, e em início de carreira pode tornar-te a vida muito difícil.
- Eu sei Dr. Mas eu tenho a certeza de que estou certa. Não tenho como prová-lo ainda. O Artur diz que o senhor pode ajudar.
- Está bem. Vou telefonar ao Artur, e pedir-lhe que passe amanhã pelo escritório. Depois disso telefono-te e digo-te o que penso.
- Obrigada Dr., sabia que podia contar consigo. Muito obrigada.
- Até amanhã então.
Mara desligou e dirigiu-se à mesa. A avó olhou-a com um ar interrogativo. Mara disse simplesmente.
- Vamos comer. Depois conto-te.
 Acabado o jantar, sentaram-se num confortável sofá, perto da lareira. Mara contou à avó tudo o que já tinha dito ao Dr. Morais. Falou da sua visita à prisão e de como se sentia frustrada por não ter conseguido convencer o Jaime.
- Foi sempre assim. O orgulho cega-o… – terminou num murmúrio.
 A avó olhou-a profundamente. Como se quisesse ir além das palavras da neta. Como se quisesse entrar na sua alma.
- Bem me parecia que não era só curiosidade, o que te fazia andar sempre a perguntar a história da Piedade. E agora filha? O que vais fazer?
- Agora, amanhã de manhã vou a casa da Piedade. É dia de visita, ela vai ver o filho. Ela tem que o convencer. Sem que ele me nomeie sua advogada, não posso fazer nada.
- E se ele é culpado, filha?
- Não é avó. "Ele" não é culpado.
Fez a afirmação com tanta certeza que ela mesma se surpreendeu. Baixou a cara para esconder os olhos da avó. E naquele momento, deu-se conta de uma coisa. Não era por capricho que se tinha metido na história. "Ele" tinha direito a justiça. Tinha direito a um nome limpo.
- Desde quando Mara? - Interrogou a velha senhora.
- Desde quando o quê avó?
- Isso. Desde quando o filho da Piedade, deixou de ser para ti o Jaime, para ser "ele"?
Ela estremeceu com a perspicácia da avó. Depois disse baixinho.
- Sinceramente não sei. Quem sabe desde sempre...
A avó estendeu a mão e afagou-lhe a cabeça pensativa.

Quando na manhã seguinte Mara desceu, encontrou a avó à sua espera.
- Vamos filha despacha-te com o pequeno-almoço está quase na hora da Missa. E eu hoje quero que me acompanhes.
Mara pegou no copo de sumo de laranja, e bebeu-o
- Não me apetece comer. Podemos ir.
Ajudou a avó a entrar para o carro, fechou a porta, deu a volta e sentou-se ao volante. Estava muito bonita. Vestia umas calças de fazenda bege, uma camisola castanha e um casaco de cabedal. Pôs o carro em marcha, e então a avó disse:
- Depois da Missa, acompanho-te a casa da Piedade. Quem sabe eu a convenço. Oxalá não te enganes. Ela acredita piamente na inocência do filho. Se vais mexer na história e se prova que estás enganada, ela não vai resistir. E tu vais sofrer o teu desgosto, e o remorso do que acontecer. Que Deus esteja contigo filha. Eu tenho muito medo.
Tinham chegado à igreja e Mara deu graças a Deus, porque não teria que responder. Durante toda a cerimónia rezou com fervor. Pediu a Deus que lhe ajudasse a provar que o seu coração não estava enganado, e pediu que a iluminasse, em relação aos sentimentos que tinha descoberto recentemente. Quando a cerimónia acabou, saiu mais fortalecida e mais convencida do que devia fazer. A casa da Piedade ficava mesmo por trás da igreja. Talvez que àquela hora ela estivesse no lameiro, Mas o melhor era confirmarem. Tiveram sorte. Piedade estava junto ao poço a encher de água o tanque. Mara chamou-a.
- Dona Piedade!
A mulher voltou-se para o portão, um ar de espanto no rosto. Depois prendeu a corda da roldana, limpou as mãos ao avental e aproximou-se do portão, coxeando. Aí, olhou a jovem e depois a avó.
- Dona Elisa! Que se passa para a senhora vir a minha casa?
E voltou a olhar a jovem. Ela sabia quem ela era. Conhecera-a em menina. Depois fora estudar para fora. Quando a voltara a ver, nem a reconhecera, mas um dia ouvira no talho, a informação de que a menina da casa grande tinha voltado. E que era advogada. Por isso agora pela sua cabeça, passavam mil perguntas e não descortinava o motivo de tão estranha visita.
- Ainda bem que te lembras de mim Piedade. O meu falecido marido foi grande amigo dos teus pais. Esta é a minha neta. É advogada e quer falar contigo. Deixas-nos entrar ou vamos ficar aqui?
- Cla...claro, – gaguejou ela abrindo o portão. É que...é casa de pobre.
- Deixa-te disso mulher. Aos olhos divinos somos todos irmãos.
 Entraram na casa. Era uma pequena sala. Um sofá, dois cadeirões, uma mesa baixa com um naperom de renda, e uma moldura, com o retrato dum bebé. Uma pequena estante com alguns livros completava o mobiliário. A mulher fez um gesto com a mão como quem diz, "sentem-se".
Mara e a avó sentaram-se. Mas Piedade ficou de pé retorcendo as pontas do avental com evidente nervosismo. D. Elisa tomou a palavra.
- Senta-te mulher. O que temos a dizer é importante. A minha neta pensa que o teu rapaz é inocente. Ela pensa que sabe quem fez o desfalque, e que é capaz de o provar. Precisamos da tua ajuda.
A mulher deixou-se cair pesadamente num dos cadeirões. O seu rosto estava pálido. Pela sua cabeça, passou rapidamente a figura do filho afirmando-lhe que um dia ia provar a sua inocência.
"Um dia mãe vou provar a todos que um homem não é obrigado a receber uma herança que não quer. Um dia todos saberão que eu não sou igual a ele." Seria possível?
- Bom D. Piedade vou contar-lhe tudo o que sei.
E Mara contou tudo o que sabia, o que o investigador tinha conseguido, o que se propunha provar, e por fim a sua visita ao Jaime na véspera.
- E o que é que eu posso fazer, Menina. Eu sou uma pobre mulher que não entende nada dessas coisas. E depois se o meu Jaime não quis fazer o que a menina pede, como é que eu vou fazer Isso?
- Piedade – D. Elisa falou muito devagar. O que é que tu farias para provar a inocência do teu rapaz?
- Tudo. Eu venderia a minha casa e o lameiro, daria até o meu sangue por isso.
- Então mulher. Ninguém te pede nada a não ser que tu nomeies a minha neta advogada do teu filho, ou que o convenças a ele a fazê-lo. Tudo sabes, os jovens são orgulhosos obstinados e às vezes, fazem grandes asneiras. E seria uma asneira sem tamanho, não aceitar a mão que a minha neta lhe estende.
- Está bem menina. Eu vou falar com ele. E se ele não quiser, tem a minha palavra de que eu quero que seja a sua advogada, e lhe dou permissão para o que precisa. Mas por favor menina, se não conseguir as tais provas, esqueça o que eu acabei de dizer, e não nos faça sofrer mais.
- Combinado.
Mara levantou-se e ajudou a avó. Ao sair a avó pousou a mão no ombro da Piedade em jeito de despedida, e disse:
- Voltaremos a ver-nos.

Continua


  REGISTO  6390/2011





Estou com problemas nos olhos, em tratamento, e por isso como estou proibida de passar muito tempo no pc, por vezes visito, leio, mas não comento. Para poder visitar mais amigos e ler mais artigos. 


14 comentários:

Mariangela disse...

Que bom a piedade poder contar com alguém e voltar a ter esperanças de ver seu filho liberto dessa injustiça!
Muito bom!
Abraços e uma boa semana!
Mariangela

isa disse...

Continuo a segui-la e a ler com mt interesse o que escreve.
Desejo-lhe as melhoras e poupe-se para poder encantar-nos com a sua ecrita.
Beijo.
isa.

FireHead disse...

Este foi o meu o comentário na posta "Adolescente foge dos pais adoptivos de Mercedes":

Você é que é a verdadeira mãe dele, pois mãe é quem cria e não apenas quem dá a luz. Se a outra abandonou-o, que direito tem de ser chamada mãe? Mãe que é mãe jamais abandona um filho.

Beijinhos.



Em relação à Mara, estou a ver que está decidida em defender o Jaime, mas parece que se não fosse a sua avó, ela não conseguiria encontrar aquela força para seguir em frente. E a avó, por sua vez, tem muita fé, algo que parece também estar a contagiar a jovem advogada. :)

BlueShell disse...

Gosto, como sempre, da tua escrita. Prende, cativa!
Obrigada por mias este momento de agradável leitura.
As melhoras, sim? Um beijo terno
BS

esteban lob disse...

Qué te recuperes rápido. Es lo más importante.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

No final eu queria saber o resto da história. Hoje não olhei a construção das frases nem o seguimento da história. Apenas saber o fim de todo o emaranhado.

Beijinho e uma boa semana.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

À mediada que avança, a história ganha cada vez mais interesse, de tão interessante e bem contada que está:ainda mais agora, que o amor está metido nela, um ingrediente a juntar aos muitos que já tinha - numa herança nada tem a ver com dinheiro...

Também eu me queixo da vista, por não resistir à tentação de aqui me sentar...o que é muito pouco sensato ... já que a saúde está primeiro, e o mal que se lhe faz nem sempre é recuperável.Mas enfim...

Abraço amigo; as melhoras!

Vitor

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Continua a agradar a a saber prender o leitor.

Descanse e melhore, isso é o que importa.

Beijos

Andre Mansim disse...

É estranho reler assim fragmentado... Mas gostei muito da imagens que colocaste! Veio bem a calhar!

Parabens minha amiga!

Mariazita disse...

Li o episódio anterior e o actual, e, à medida que a história avança, cresce o interesse.
O jaime vai acabar por deixar-se convencer, parece-me... de contrário provaria ser um grande casmurro.
E a persistência da Mara vai produzir os seus frutos.

Amiga, cuide da sua saúde como deve ser. Tratando-se dos olhos, então, não deve facilitar.
Se cumprir à risca as ordens do médico, provavelmente melhorará mais depressa.

As melhoras e um abraço.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

As tuas histórias são pedaços de tantas vidas e prendem até ao fim.
Voltarei para ler a continuação.

E desejo as melhoras.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Elvira, apesar de não estar com problemas nos olhos, já não vinha aqui há algum tempo e peço que me desculpes por isso, mas depois de ter lido com atenção os capítulos que me faltavam, fiquei ainda mais curiosa com o desenrolar da história. Está emocionante e muito bem contada. Parabéns, amiga, e vou tentar não demorar tanto com as minhas visitas. O frio, Elvira e a falta de sol me fazem mal e nem sempre estou disposta para as visitas. Mas...tenho que tentar imaginar o sol, já que ele de teimosia há dias não aparece. Sinto muita falta do calorzinho e dos dias ensolarados. Um beijinho, amiga e cá estarei para ver o fim que, imagino, será feliz. Fica bem, com os meus sinceros desejos que melhores, sim? Até breve
Enília

Olinda Melo disse...


Será que a mãe vai conseguir convencer o Jaime? Esperemos que sim. Jaime não deve perder esta oportunidade que se apresenta, para demonstrar que ele não tem que ser igual ao pai. Se realmente ele for inocente, como a Mara acredita piamente...

Beijinhos

Olinda

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

A história está com muito interesse.
A avó já percebeu que, para além de Mara gostar que se faça justiça, há também, algo mais.
Foi interessante a conversa entre as três.

Beijinhos a todos.