11.1.13

A HERANÇA - PARTE XI



 Mara saiu dali e dirigiu-se ao escritório do Dr. Morais. Este porém não estava. Apenas o jovem estagiário que a substituíra, e que lhe disse que o Dr. Morais só ia chegar lá para a tardinha.
Pediu uma folha e escreveu aquilo que pretendia, e pediu para que lhe fosse entregue logo que ele chegasse. Feito isto preparou-se para seguir para S. Pedro. Lá esperava-a a parte pior.
Visitar o Jaime e conseguir que ele a autorizasse a representá-lo, para que pudesse pedir a revisão do processo se estivessem certos. Pelo caminho ia pensando como é que ele estaria, e como a receberia. Mara lembrou-se daquela tarde em que vinha da universidade com uma amiga e como que sentiu que alguém a observava. Olhou à volta e vi-o. Tinha-se tornado um belo homem. Alto, moreno, de cabelos escuros, e os inconfundíveis olhos verdes. Vestia calças de ganga, e uma t-shirt verde tropa. Ela reconheceu-o imediatamente. Reconheceria aqueles olhos em qualquer parte do mundo. Puxando a colega pela mão dirigiu-se a ele.
- Olá Jaime, – dissera.
Ele arqueou as sobrancelhas e disse:
- Boas tardes meninas.
E voltou costas, começando a descer a rua.
Ela ficara estupefacta com a atitude dele. E quando a amiga perguntara interessada quem era, ela simplesmente encolheu os ombros e disse entre dentes:
- Ninguém
Pensou que ele era orgulhoso. Porque não queria falar com ela? Depois pensou que teria sido por causa daquela vez que a procurara e ela duvidara dele.
E agora tinha que falar com ele. Como é que ele iria reagir?
Embrenhada nos seus pensamentos, chegou a S. Pedro. Estacionou junto ao cemitério, e só então se lembrou de que não tinha almoçado. Olhou o relógio. Quinze e dez. Muito tarde para tentar almoçar em qualquer restaurante da zona. Então entrou na pastelaria e pediu uma sandes mista e um galão. Continuava preocupada. Abanou a cabeça. Tinha-se metido na história, agora havia que continuá-la. Sempre dera muita importância às recordações. Boas e más. E toda a vida se tinha empenhado em lutar contra as injustiças. Ainda não tinha a certeza de que a prisão do Jaime era uma injustiça, mas, e se fosse? Se como suspeitava Artur, fosse o colega, quem tinha feito o desfalque, e vivia agora uma vida excelente em liberdade? Tinha que continuar. Até para tirar da memória a imagem do Jaime. Que sem ela saber porquê aí se instalara, numa noite de récita de Natal, há muitos, muitos anos atrás. Acabou de comer, pagou e saiu. Com passos curtos mas decididos, subiu o largo que fica fronteiro à câmara, e ao tribunal, passou pelo seu carro, passou pela porta do cemitério, e parou junto ao edifício da prisão. Tirou da mala o seu BI, e a carteira profissional de advogada e dirigiu-se ao guarda que estava ao portão.
- Boa tarde. Sou advogada. Preciso de uma informação de um recluso, sobre um processo.
- Boa tarde. Hoje não é dia de visitas. Mas se é por causa de um processo,vou perguntar ao nosso oficial se pode fazer a visita. Como se chama o detido?
- Jaime. Jaime Bento.
O guarda afastou-se do portão e dirigiu-se ao telefone na casa da guarda. Voltou pouco depois e disse:
- Vai poder entrar por apenas dez minutos. Vem aí um colega que a vai acompanhar. Terá que me mostrar a sua mala, e deixar comigo o BI.
Quando o outro guarda chegou ao portão, o primeiro abriu-o então para ela entrar. Mara abriu a sua mala e entregou-a ao guarda que a revistou e depois lha devolveu. Depois pediu-lhe o BI que ela entregou.
- Venha comigo, – disse o outro guarda.
Ela seguiu-o pelo extenso pátio, completamente deserto e entraram no edifício. Foi conduzida a uma pequena sala, onde havia apenas uma mesa e duas cadeiras, uma de cada lado da mesa.
O guarda indicou-lhe uma cadeira e ficou junto à porta. Um pouco depois entrou outro guarda com o detido. Era um homem alto, moreno. Mara sabia que ele ainda não tinha 30 anos, e no entanto parecia mais velho. Os cabelos negros ostentavam já inúmeros fios brancos. Os olhos, bem os olhos verdes, continuavam impressionantes. Ela nunca tinha encontrado uns olhos assim. Eram quase iridescentes.
O guarda empurrou-o para o outro lado da mesa e ficou nas suas costas. O homem olhou-a, surpreso primeiro, zangado depois. Deixou-se cair na cadeira, e perguntou:
- Que faz aqui? Que raio de brincadeira é esta?
Ela inclinou-se para a frente. Não queria que os guardas a escutassem.
- Não é brincadeira. Eu sou advogada. E creio que posso ajudá-lo.
- Ajudar-me? Como? Eu já fui julgado e condenado.
- Eu sei. Mas acredito que foi um erro.
- Acredita? Acredita mesmo? Olha que novidade, – disse com ironia, não isenta de amargura.
- Nunca me perdoou, pois não? - Sentia-se intimidada, não se atrevia a tuteá-lo
Ele ficou calado. Mara continuou.
- Não temos muito tempo. Andei fazendo umas investigações, e acredito que poderei provar a sua inocência. Mas para isso preciso da sua ajuda. Preciso que me nomeie sua advogada, para que possa representá-lo perante o tribunal, e possa pedir a reabertura do processo. Sabe que para que o juiz autorize a reabertura do processo é preciso haver factos novos. E é isso que eu penso conseguir em breve.
Os olhos verdes mergulharam nos dela.
- Pensa conseguir o quê? Não tem nada. E vem aqui para me encher de ilusões? Nunca pensei que fosse tão cruel.
Levantou-se dando a conversa por terminada. O guarda pôs-lhe a mão no ombro e empurrou-o para fora. Mara levantou-se lentamente. Sentia-se frustrada. Encaminhou-se para a porta que o guarda se apressou a abrir e saiu para o pátio. Sempre acompanhada pelo guarda chegou ao portão, recebeu o BI e saiu. 
                
 Continua


  REGISTO  6390/2011  


BOM FIM DE SEMANA                                                   

10 comentários:

Andre Mansim disse...

ELVIRINHA, MINHA AMIGA!
Sabe que o conto aqui no seu blog, ficou muito bacana... Ficou chique!!!!

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia
Depois de ler fiquei com sede de mais. Durante uns meses fui visitante semanal da Cadeia e sem querer deixamo-nos embeber pelas vidas ali fechadas. Gente nova e saudável. Gente que se deixou ir
pelo prazer ou pela maldade...

Um prazer ler as suas histórias.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Fia bem este interlúdio de suspense que, ao mesmo tempo, serve de aprofundamento da caracterização psicológica do Jaime.

Beijos

FireHead disse...

Eles já não se conheciam? Porque é que ficaram formais um com o outro, tratando-se mutuamente por você? ;)

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

O suspense é bem doseado e a história muito bem contada - e quem a lê só pode desejar que tudo acabe em bem.

Bom fim de semana.
abraço amigo
Vitor

Maria Rodrigues disse...

Elvira passei para por em dia a leitura e continuar a acompanhar a sua história.
Beijinhos
Maria

Luis Eme disse...

o interesse mantém-se...

abraço Elvira

LUZ disse...

Olá, Elvira!

A Mara quer apurar a verdade, porque sempre foi contra a injustiça, mas perante uns olhos daqueles, mais se justifica a sua firme atitude.

Beijinho.

Nilson Barcelli disse...

Quem está detido e é inocente, deve deixar de acreditar nos outros. E não deve ser nada fácil mudar...
Elvira, minha querida amiga, tem uma boa semana.
Beijo.

Olinda Melo disse...


Huuummm...isto não prenuncia nada de bom. O Jaime está zangado, com ela e com o mundo, talvez. Vejamos se a Mara não se sentirá desencorajada com esta recepção tão pouco amistosa...

Bjs

Olinda