9.1.13

A HERANÇA - PARTE X



 Imagem da net

Os três dias seguintes foram de grande azáfama, como é habitual no Natal. A terra estava em festa, pois as famílias estavam todas reunidas. Toda a gente tinha alguém de fora. Era um marido que chegara da França, um irmão que vinha do Canadá, uns sobrinhos da Alemanha. Nunca, nem em Agosto havia tanta gente na terra. Até na Casa Grande, – era assim que a gente da terra baptizara a casa da sua avó – havia gente nova. Mara pensou com tristeza que gostaria de que essa gente fosse a sua mãe, mas não. A mãe ficara na sua casa com o marido a preparar a viagem a Paris que o marido lhe oferecera de prenda de anos, dois dias atrás. Quem chegou à Casa Grande foi o Carlos e a mulher que vinham mostrar o seu rebento aos avós. O Carlos era o filho da Arminda e do António, que estava emigrado em França e que há dois anos não vinha à terra. A avó tinha o hábito, de fazer a Ceia de Natal com os empregados, como se todos formassem uma só família. Tinha sido um hábito instituído pelo seu falecido marido, há mais de 50 anos. E quando ele morreu a viúva manteve a tradição. Mara adorava a avó, e achava muito interessante a maneira como ela vivia o Natal. Uma das coisas que para a avó era sagrada, era deixar a mesa posta, com as rabanadas, o arroz-doce, as broas, o bolo-rei, enfim todos os doces tradicionais do Natal. Dizia a avó, que na noite de Natal, os espíritos tinham autorização para visitarem os seus familiares que ainda estavam na terra. Por isso a mesa ficava posta para os receber.
 Depois da ceia foram todos à Missa do Galo. Mara nunca tinha visto a pequena igreja tão cheia. A um canto os meninos do Padre Miguel, todos vestidos de branco, entoavam lindos cânticos. No adro ardia uma fogueira junto da qual estavam vários homens a conversar. Para eles a Missa tinha sido um pretexto para conviverem.
Depois no dia de Natal, passado em família, ouvindo as histórias do Carlos, e da emigração na França. E depois a tristeza da Arminda e do marido, quando os filhos e a netinha se foram.
Naquela manhã, a 28 de Dezembro, Mara tinha acabado de tomar o pequeno-almoço, quando o seu telemóvel tocou.
- Estou.
- Mara? Fala Artur...
- Sim, diga.
- Preciso falar consigo. Pode vir ao meu escritório?
- Hoje?
- Sim. Se preferir posso ir aí.
- Não. Eu vou. Dentro de duas horas estou aí.
- Até logo então.
Foi ao seu quarto, vestiu um blusão de cabedal, pegou nas luvas e nas chaves do carro e dirigiu-se à cozinha.
- Arminda vou sair e não venho almoçar. Quando a minha avó chegar da Igreja, por favor avise-a.
- Está bem menina. Vá com cuidado que há gelo na estrada.
- Terei cuidado.
Quando duas horas depois se sentou frente ao investigador, estava curiosa, mas não muito esperançada em que ele tivesse descoberto alguma coisa. Tinha passado tão pouco tempo.
-E então? - Perguntou depois dos cumprimentos habituais.
- Falei com um amigo, cuja mulher trabalha nos escritórios da Marfix. Disse-lhe que estava a escrever um livro sobre um grande desfalque, mas estava um pouco atrapalhado pois não sabia bem como continuar. Precisava saber como aconteciam essas coisas na realidade. Ele apresentou-me a mulher, e depois de lhe garantir que nem o nome dela, nem o da Marfix apareceriam no livro, ela contou tudo. A maioria do que ela me contou é público e consta do processo. Parece que o contabilista era muito introvertido. Não conseguiu fazer nenhum amigo nos dois anos que esteve na firma. Consta que cumpria rigorosamente o horário de entrada, que era educado, mas pouco dado a conversas. Ninguém sabia nada da vida dele até a polícia o ir prender e os jornais começarem a esmiuçar.
Fez uma pausa e perguntou:
- Sabia que o pai dele era um meliante, com largo cadastro, que morreu num tiroteio com a polícia?
 Ela assentiu com um movimento da sua linda cabeça.
- E continua a acreditar na sua inocência?
Ela voltou a fazer o mesmo gesto.
- Talvez tenha razão.
Ela olhou-o com ar interrogativo, o corpo repentinamente tenso. Ele pareceu não reparar, e continuou:
- O pessoal dos escritórios é ainda o mesmo da época do desfalque. Excepto o contabilista, e um outro empregado que se despediu cinco meses depois. Esse empregado, era um tal de Américo Costa, um rapaz simpático de quem toda a gente gostava. Despediu-se um dia, dizendo que ia para a França fazer fortuna. O interessante é que esteve um ano na França e voltou rico. Comprou uma casa e abriu um restaurante. Ora convenhamos que um ano não é tempo para ninguém ganhar tanto dinheiro, a não ser que lhe saia a lotaria. De acordo?
- Realmente...
- Imaginemos então que o homem consegue a confiança do contabilista. Que consegue sem este se aperceber ver o código em qualquer altura que ele tenha aberto o cofre. De posse do segredo espera o dia em que sabe que os ordenados ficam no cofre para o retirar. A chave do escritório era fácil tirar uma cópia. Afinal ele trabalhava lá. Retira o dinheiro, esconde-o em lugar seguro, e aguarda calmamente que o outro seja incriminado. Depois que este está preso, e condenado, engendra uma emigração para França. Fala aos colegas no sonho de ficar rico. Ninguém desconfia, afinal é o sonho de todos os emigrantes. Vai para França e um ano depois, volta. Já ninguém se lembra do desfalque, até porque o gatuno está preso. Então vai buscar o dinheiro ao seu esconderijo e diz a quem quer ouvir, que a sorte lhe sorriu em França.
Fez uma pausa e continuou.
- É claro que isto não passa de uma suposição. Mas uma suposição muito credível. Você é capaz de ter razão, e o seu cliente ser mesmo inocente.
- E como é que vamos saber se é verdade?
- Bom, foi por isso que a chamei.
- Para continuar a investigação, é preciso que você consiga autorização do homem para o representar. Depois, o Dr. Morais talvez nos consiga, uma ordem do Juiz, para podermos aceder à conta bancária do tal Américo. É difícil, por causa do segredo bancário, mas pode conseguir--se. Precisamos saber como o dinheiro foi para o banco. Se enquanto estava na França ou se depois que chegou. Se em vários depósitos ou num só. Por outro lado, eu tenho um amigo na embaixada em Paris, e talvez ele me consiga saber onde ele esteve a trabalhar. Entendeu?
- Entendi. Hoje mesmo eu vou tratar do que me pede. Entretanto pode contactar o seu amigo lá na embaixada. Eu telefono-lhe amanhã.
Levantou-se e estendeu-lhe a mão. O homem correspondeu com um caloroso aperto.


Continua


  REGISTO  Nº 6390/2011

14 comentários:

Severa Cabral(escritora) disse...

Amiga amada !!!!
Novo ano e com histórias a ser contadas e continuada da qual nos deixa com o desejo da continuação...
bjsssssssssssssss

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Lindo capítulo, este: As tradições de Natal, aqui muito bem descritas, associadas à investigação duma advogada simpática, e que promete dar frutos - com todos os condimentos duma história policial cheia de suspense e bem contada;Sinceros parabéns!


E recuando à matança do porco, obrigado pelo comentário longo e gostoso que lá deixou, tal como na altura o eram aqueles torresmos enterrados na banha.De vez em quando, sabe, no Jumbo ainda compro uma caixinha deles - bem caros, por sinal- só para matar saudades, vindos aí no Montijo, ou do Alentejo. Também os gostos perduram na memória;sobretudo os adquiridos quando se era jovem...

Abraço amigo
Vitor

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

A trama começa a abeirar-se do fim e, parece, a condoer-se dos inocentes. Assim é que devia ser sempre, na vida.

Beijos

edumanes disse...

Que rica herança
Ficou rico num ano
A trabalhar em França
A penas por engano!

Bela história dos tempos idos, que como hoje, as injustiças continuam, infelizmente. Os não culpados são muitas das fezes as vítimas, das aldrabices dos outros!

Obrigado pela sua visita,
desejo uma boa noite para você,
amiga Elvira.
Um abraço
Eduardo.

isa disse...

Leio sempre com muito interesse e
estou a acompanhar o desenrolar da história,aliás mt bem escrita.
Beijo.
isa.

FireHead disse...

Dizia a avó, que na noite de Natal, os espíritos tinham autorização para visitarem os seus familiares que ainda estavam na terra.

Não me diga que essa superstição com tiques de paganismo era realmente uma crendice da época?

O tal de Américo bem que podia ter feito as coisas como deve ser... isso de fugir para a França e voltar de lá rico um ano depois realmente não convence ninguém, a não ser que tenha como provar que realmente ficou rico durante esse período de tempo. É, como se diz, à cara podre. :)

Beijinhos.

ana costa disse...

O retrato de um país aonde eu nasci...
Gosto muito da tua escrita amiga...já tinha dito, não já??!!!!!
beijo amiga

Mariazita disse...

Olá, Elvira
Estas últimas três semanas foram um bocado complicadas para mim, de modo que estive um pouco afastada.
Mas estive agora a ler os episódios que me faltavam (três, salvo erro)e devo dizer que estou a gostar muito.
É uma narrativa que prende a atenção, com grandes pormenores informativos... muito bom!

Muito obrigada pela sua presença no «LÍRIOS» e a simpatia das suas palavras.

Bom fim-de-semana.
Um abraço

Lilá(s) disse...

E agora fico bem ansiosa pela continuação...até breve
Bjs

paideleo disse...

Tamén en Arbo deixamos a mesa da cea da Noiteboa sen recoller para que coman as Almiñas, os defuntos da familia que esa noite baixan ao nos mundo.
Bo ano 2013. Merecémolo !.

FireHead disse...

Realmente essa prática é pagã - fui investigar -, trata-se dum costume sobretudo nortenho (eu logo vi que por algum motivo nunca tinha ouvido falar disso) e que é alusivo à evocação dos defuntos. Na Galiza o costume foi cristianizado: no lugar de acreditar que vêm as almas dos defuntos, é o próprio Menino Jesus que desce para cear. Também se tornou uma tradição deixar comida em cima da mesa uma vez que a época do Natal é também uma altura em que estamos especialmente solidários e, como naqueles tempos acontecia, podia sempre aparecer alguém com fome e não se lhe podia negar uma refeição.

Olinda Melo disse...


Olá, Elvira

Este capítulo diz-nos respeito a todos pelas tradições natalícias que bem descreve.

Quanto ao Jaime, já se está a ver alguma luz no caso que o envolveu. O facto de ser introvertido e não ter jeito para amizades poderá ter tido o seu peso quando foi acusado, ficando completamente isolado.

Talvez não tenha sido suficientemente cauteloso em resguardar o segredo do cofre, como já foi aventado.

Vejamos como é que a situação vai desenvolver-se, com a continuação da investigação, se o Jaime o permitir, claro.

Bjs

Olinda

São disse...

Continuamos então à espera.

Adorei a foto, rrss

Bom serão, amiga

LUZ disse...

Olá, Elvira!

Mara continua a conversa com Artur, tentando encontrar pistas, que a conduzam a uma possível estrada.

Beijinho.