2.1.13

A HERANÇA - PARTE VIII



 
Naquele dia Mara acordou tarde. Tinha dormido mal. Custara a adormecer. Depois sonhara com um rapazinho de olhos verdes que a olhava com um misto de desprezo e desilusão. E depois via-se a chorar sentada nos degraus da escola, e o rapazinho perguntava:
- Porque choras?
Levantou-se. E enquanto deixava que a água lhe acariciasse o corpo no duche, ela pensou se não seriam aqueles olhos verdes a causa de ter decidido voltar para a sua pequena terra, em vez de se ter estabelecido, no Porto, onde decerto teria um melhor futuro.
Escolheu umas calças pretas e um camisolão vermelho, que acentuava a sua cor morena. Sem saltos e os longos cabelos apanhados num rabo-de-cavalo, parecia uma miúda.
- Bom dia Arminda, – saudou ao entrar na cozinha
- Bom dia menina. Deixou-se dormir?
- Um pouco. A avó foi à missa?
- Oh! Sim menina. A senhora não perdia a sua missa por nada deste mundo. O meu homem levou-a.
- Está bem Arminda. Hoje só quero uma torrada. E um sumo de laranja.
- Faço num instante.
Ela sentou-se à mesa. Estava a acabar o pequeno-almoço quando a avó chegou. Esperou que ela guardasse o missal e trocasse o casaco pelo xaile. Era como um ritual que a avó executava todos os dias ao voltar da Missa. Depois...
- Avó por favor preciso sair de tarde. Podes contar-me agora o resto da história da Piedade?
- Outra vez filha? Parece doença, – protestou a avó. - O que tu precisas é de arranjar um namorado. E casares, teres filhos. Fazeres a tua própria história.
- Está bem avó. Prometo que vou pensar nisso. Logo que saiba o resto da história.
- Se é assim... Bom então dizia eu que o rapaz foi estudar para o seminário. Mas pouco tempo depois o Padre Miguel disse que ele não tinha querido estudar lá. Arranjou trabalho num restaurante, e foi estudar de noite. Durante anos só aí vinha 3 ou 4 vezes por ano, para ver a mãe. Foi à tropa, e depois arranjou um bom emprego no Porto. Dizem que tirou um curso de contabilidade, mas não sei se é verdade. Há quatro anos, a Piedade caiu mal, e fracturou a bacia. Foi para o hospital de Viseu, e o rapaz ficou aí uns dias a cuidar da casa e do lameiro. Foi nessa altura que a polícia o veio buscar. Parece que fez um grande desfalque na empresa onde trabalhava. Coitada da Piedade. Tinha acabado de ser operada, e pediu alta. Por não se ter tratado como devia ficou com uma perna um pouco mais curta.
- Aí está a explicação para o andar dela, – murmurou a jovem
- Talvez.
- E ele avó?
- Ele jurou que era inocente. Mas não é o que dizem todos? O certo é que foi julgado e condenado. E aí tens porque a Piedade vai três dias por semana a S. Pedro. Vai visitar o filho à cadeia. Pobre mulher. O filho herdou o sangue ruim do pai.
- Obrigada avó. Vou sair.
- Vens almoçar?
- Não sei. Depois telefono.
Saiu, meteu-se no carro e dirigiu-se a S. Pedro. Aí chegada, estacionou junto ao cemitério, dirigiu-se à Biblioteca, e procurou um computador vago. Tinha em casa o seu, mas ainda não instalara a Net. Já tinha pensado tratar disso, mas adiou para quando pedisse a linha para o escritório. Porém agora precisava da Net para fazer umas pesquisas. E durante mais de uma hora ocupou-se disso mesmo. Quando saiu sabia tudo sobre o desfalque, e o julgamento.
Mas havia qualquer coisa que não encaixava. Se o Jaime fizera aquele avultado desfalque, se ele herdara o sangue ruim do pai como dissera a sua avó, então porque não fugira para qualquer lado com o dinheiro em vez de se ir meter em casa da mãe, a trabalhar o campo? Seria por amor da mãe que estava no hospital? Viu-se de novo menina, na sala de aulas, a professora querendo revistar a sacola do Jaime, e ele fugindo da escola, depois de afirmar que não roubara nada nem ninguém. E falava verdade, como se provou mais tarde. Lembrou-se do olhar de desprezo com que a brindou, quando naquela tarde a procurara, e ela duvidara da sua inocência. Estremeceu e prometeu a si mesma que ia investigar aquele caso.
Telefonou à avó informando que não ia almoçar. Depois fez outro telefonema.
- Artur?
- Sim. Quem fala?
- Mara. Mara Nobre que trabalhava com o Dr. Morais...
- Ah! Sim. Disseram-me que foi trabalhar por conta própria, para a sua terra.
- É verdade. Preciso dos seus serviços. Posso ir ao seu escritório?
- Hoje? Mas eu estou em Aveiro. Vim entregar um relatório a um cliente.
- E amanhã?
- Amanhã pode ser. Mas é antevéspera de Natal.
- Se não se importar, por mim está bem. Tenho pressa.
- Muito bem. Mas não podia adiantar-me alguma coisa?
- Lembra-se daquele caso de desfalque da Marfix há quatro anos?
- Sim. Mas apanharam o culpado, eu lembro-me do julgamento...
- Eu sei. Dizem que foi o contabilista.
- Dizem? E não foi?
- Isso é o que eu quero que me ajude a descobrir. Então amanhã às dez?
- Está bem. Até amanhã.

Continua


 REGISTO  6390/2011
 

ANO  NOVO DEVIA SER UMA HISTÓRIA NOVA, MAS "A HERANÇA " ESTÁ LONGE DO FIM. 
AGRADEÇO OS AMIGOS QUE ME DEIXARAM MENSAGENS DE BOAS FESTAS BEM COMO OS QUE ME TÊM INCENTIVADO COM ESTA HISTÓRIA.
MUITO OBRIGADA A TODOS.

19 comentários:

Luis Eme disse...

e continua a despertar o interesse, Elvira. :)

abraço

edumanes disse...

Gostaria amiga Elvira
Que você tivesse razão
Por terem destruído a economia
Tarte ou nunca virá e recuperação!

A minha imaginação
Quem me dera estivesse errada
Ninguém no mundo ficaria sem pão
Se a justiça fosse a todos aplicada!

Quase sem nada vamos ficar
Aos anos 40 e 50 de regresso
Quando mal governava Salazar
Dos políticos ser este o progresso!

Continua de bom ano novo,
obrigado pela sua visita,
um abraço
Eduardo.

edumanes disse...

Corrijo a terceira linha:
TARDE OU NUNCA VIRÁ A RECUPERAÇÃO!

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Elvira

Há sempre culpados fáceis...

Um grande abraço

António Querido disse...

Que 2013 nos traga mais sorte política, melhoria financeira, criação de empregos e democracia social, virão por acréscimo!
O meu abraço de 2013

FireHead disse...

Segue-se agora um caso policial. Muito bom, amiga. CSI. :)

Beijinhos.

Chousa da Alcandra disse...

Veño, dende o outro lado do río, deixar o meu saúdo garimoso neste cantiño amigo. E tamén lembrarche que, por malo que pinten o cadro deste ano impar, nós tamén temos un pincel na man; así que algo poderemos pintar nel!

Apertas abrazadas!

Andre Mansim disse...

Eu incentivo a vc postar essa histórias e qualquér outra que quiser escrever, pois vc tem o dom!

Um abração, amiga Elvira!

BlueShell disse...

Muito bom, Elvira, como sempre.
Estou a ler desde baixo para me contextualizar.

Um beijo imenso
BS

Duarte disse...

A narração deve seguir o seu ritmo e não encontrar-se um fim improvisado.
O Ano novo não passa duma sucessão de dias para contabilizar a vida, e para um bem para os comércios.
Sigo atento esta historia que me tem enganchado.
Um grande abraço

Teté disse...

Como perdi um ou dois capítulos anteriores, só vou ler este depois de os ler, mais logo!

Mas para já ficam os desejos de um Feliz Ano Novo, para ti e todos os teus! :)

Beijocas!

Kim disse...

Bom Ano Elvira!
Às vezes, o que parece, não é! Aguardemos!
Parabéns pelo novo look.

Olinda Melo disse...

Olá, Elvira

Vejo a história vai adiantada. Voltarei para continuar a ler no ponto em que a deixei.

Um bom dia de Reis, amanhã.

Bj

Olinda

Leninha disse...

Amiga Elvira,

Mais um suspense deixas no ar e nos capturas com tuas palavras...não demore a escrever mais, estou aflita para saber o desfecho.És uma novelista de primeira e na TV haverias de fazer sucesso.

Parabéns!!! Um 2013 muito feliz, repleto de sonhos realizados.
Bjssssss,
Leninha

. intemporal . disse...

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. amiga elvira,,, .

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. em primeiro lugar está muito bem no seu novo avatar . olhe que eu nem a conhecia . :) . assim tão fulgente . :) .

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. o conto . estou a acompanhar e deixo o meu comentário lá mais para a frente . :) .

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. um beijo meu .

.

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LUZ disse...

Olá, Elvira!

Bem, a história continua, de vento em popa.
A Mara é muito curiosa, mas isto tem "água no bico".

Beijinhos para todos.

lucia bezerra de paiva disse...

À cada capítulo, mais interessante o desenrolar da História. Volto para o próximo...

Um abraço,
da Lúcia

rosa-branca disse...

Olá amiga Elvira, não me quer enviar o livro pelo correio? É que eu estou em pulgas, para saber a continuação da história e a amiga tem o dom de nos prender(prender não, amarrar) à leitura. Bom Ano e beijos com muito carinho

Olinda Melo disse...


Oh! que pena! Estou a torcer para que a Mara consiga demonstrar a inocência do Jaime. Já sinto uma grande simpatia por ele. Tomara que não seja nada...Mas coitado, a pagar por uma coisa que não fez!

Bem, o que tenho a fazer é ir ver o que se seguiu.

Bj

Olinda