6.1.13

A HERANÇA - PARTE IX



Quando naquela manhã a avó chegou à sala, Mara já estava a tomar o pequeno-almoço. Ela franziu o sobrolho, mas não fez perguntas. Por muito curiosa que estivesse, sabia que se a neta quisesse falar, o faria. Se não quisesse, não adiantaria perguntar.
- Ontem já estavam vários emigrantes na Igreja, – disse sentando-se à mesa.
- Claro. Depois de amanhã é Natal, – respondeu a neta
- Vieste carregada de presentes ontem. São para a tua mãe? Ela vem?
- Não avó. Os embrulhos que têm papel igual e não têm cartão, são para o Padre Miguel distribuir pelos seus meninos, logo depois da récita. Vou pedir ao António que os leve para o teu carro. Os outros três são para o Dr. Morais, a esposa e a filha.
Os meninos do Padre Miguel, eram as crianças que viviam numa espécie de lar, que o velho Padre fundara há mais de 20 anos. Eram crianças abandonadas, ou que os pais não tinham como criá-las. Ali tinham uma casa e comida, e ali aprendiam uma arte que lhes ia abrir uma porta na vida, quando chegassem aos dezoito anos e tivessem que abandonar o lar.
- Então não vais à missa?
- Não avó. Vou ao Porto. Mas venho jantar, e à noite acompanho-te à récita.
Acabara de comer. Levantou-se, chamou o empregado e ajudou-lhe a levar os embrulhos para o carro, da avó. Depois pegou nos três embrulhos com cartão e colocou-os no banco traseiro do seu automóvel. Beijou a avó, atirou um até logo à Arminda e ao marido e entrando no carro arrancou. A velha senhora ficou a olhá-la até o carro sair o portão da propriedade. Depois entrou no seu carro e disse simplesmente:
- Vamos.

Mara chegou ao Porto, passavam quarenta minutos das nove. Tinha combinado com Artur às dez. Artur era um detective a que o Dr. Morais costumava recorrer, para algumas investigações que depois o iam ajudar na defesa dos seus clientes. Era segundo as palavras do seu ex-chefe um dos melhores. Por isso ela se encontrava agora a caminho do seu escritório. Conseguiu finalmente um lugar onde estacionar, não muito longe do escritório e dirigiu-se para lá.
- Bom-dia – saudou
- Bom-dia Mara. Ou devo chamar-lhe Dr.ª.
- De modo nenhum Artur. Sou a mesma de sempre.
Sentou-se. O homem ajeitou os óculos e disse:
- Não sei ao certo o que quer de mim. Mas para adiantar estive ontem à noite a ver tudo o que pude sobre o desfalque da Marfix. E também fiz umas perguntas discretas a uns amigos. O que consta é que o contabilista conhecia o segredo do cofre. E dele desapareceu todo o dinheiro que era para pagar o salário dos empregados. O dinheiro veio do banco no dia trinta de julho, a firma pagava sempre no último dia. Logo o dinheiro ficou no cofre, de trinta para trinta e um. Mas nesse dia o dinheiro não estava lá. E o contabilista também não. A polícia não encontrou sinais de arrombamento, nem do escritório, nem do cofre. E as impressões colhidas no local eram dos próprios empregados. Logo a conclusão era lógica. O contabilista foi preso, julgado e condenado.
- Muito bem Artur. Agora suponha que você era o contabilista e que efectivamente fazia esse desfalque. O que é que você fazia?
- Bom tentava atravessar a fronteira de noite antes que dessem pela falta do dinheiro.
- Pois é. E sabe como ele foi preso? Arrancando batatas no lameiro que a mãe cultivava, enquanto esta estava no hospital por causa de uma cirurgia.
- Arrancando batatas? Mas isso é esquisito. Suponho que ele é o seu primeiro cliente. E que lhe diz ele?
- Ainda não é meu cliente. Só poderá sê-lo se eu encontrar alguma prova que me permita reabrir o processo. Segundo o processo ele afirmou sempre que era inocente. E tenho razões para acreditar nisso. Por isso vim pedir os seus serviços.
- Muito bem. Mas agora só passado o Natal. Como sabe amanhã, ninguém trabalha, e eu preciso dar uma volta lá pela Marfix.
- Eu sei. Fico aguardando notícias suas. Deixo-lhe um cheque para as primeiras despesas. Se precisar de mais telefone-me. Mas por favor tenho muita urgência.
- Não se preocupe. Já percebi que é urgente. Telefono logo que tenha alguma coisa.
- Bom Natal, Artur – disse levantando-se e estendendo-lhe a mão.
- Bom Natal, Mara.
Saiu. Cá fora olhou o pequeno relógio de pulso. Quase meio-dia. Ainda podia ir ao escritório do Dr. Morais. Levar as prendas e um abraço. O Dr. Morais fora durante três anos, mais do que um chefe, mesmo mais do que um amigo. Tratara-a como uma filha. Levara-a a sua casa, apresentara-lhe a esposa e a filha. Fizeram amizade. E ela chegara a pensar que gostaria de ser filha deles.
Como esperava foi muito bem recebida pelo seu ex-chefe, que a convidou para almoçar com a família. E foram quase três horas de agradável convívio. Quando se despediu, fê-lo com uma certa tristeza. Não podia esquecer que aquela família demonstrava mais carinho por ela do que a sua fútil mãe.


Continua


  REGISTO  6390/2011
 

10 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Gosto de chegar aqui e depois de me situar faço a leitura de uma penada.
Um português sem acordo nem falhas.
Uma leitura agradável.
Um fio condutor que nos leva a viver toda a situação.

Beijinhos


esteban lob disse...

Hola Elvira:

Es una entretenida y humana historia,que mantiene la curiosidad por esperar cada vez la continuación.
Además me sirve para leer en un idioma ajeno, pero muy cercano por su condición de ser igualmente latino.

Un abrazo.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Em dia de Reis, lemos sobre o presente que Mara se prepara para oferecer ao Jaime. Está a ser, também, um presente seu para quem a lê.

Beijos

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

E cá estou eu, Elvira, neste novo ano que está a começar para continuar a ler as tuas belas histórias. Quero te dizer que foi para mim um grande gosto ter convivido contigo durante o ano que passou e tenho a certeza que este convívio continuará cimentando assim esta amizade que nasceu através de palavras, mas que mesmo assim é grande e sincera. Uma bela semana, amiga! Um beijinho e até sempre

FireHead disse...

Ainda não foi agora que ela reencontrou o tal dos olhos bonitos. Estará para breve? ;)

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

O capítulo anterior já o li, de modo a poder retomar o fio à meada.Que lentamente vai sendo desenrolada por mão hábil, de modo a prender-nos a uma caso de advocacia, que vai ganhando contornos amorosos...

E também a mim já aconteceu: achar que deixei um comentário - e depois não encontrar lá nada...

Abraço amigo; boa semana.
Vitor

Kim disse...

Olá Elvira!
Sempre à espera do que vem a seguir!
Beijinho

Olinda Melo disse...


Bem a coisa está encaminhada e esperemos pelo desenrolar do processo.

A Mara também tem um pendor solidário que me agrada. Não se esqueceu de tornar mais alegre o Natal dos pequeninos.

Bj

Olinda

aflores disse...

Uma "Herança" que nos mantem atentos neste inicio de ano novo.

Tudo de bom.

LUZ disse...

Olá, Elvira!

Mara continua interessada em distinguir o trigo do joio.
Advogada, deveria proceder sempre assim.

Beijinho.