29.4.12

O SEXTA FAZ ANOS HOJE







O Sexta faz hoje 5 anos. Ou não.  Eu explico. No dia 24 de Abril de 2007 meu sobrinho abriu-me o Sexta, pois eu não sabia nada de blogues, de internet ou de pcs. Meu filho tinha acabado de mudar para a sua casa e deixara o seu velho pc cá em casa. Porém levei 5 dias para ter coragem de colocar o meu primeiro post. Um poema meu. Fiquei tão entusiasmada que nos 31 dias do Maio seguinte postei 58 vezes.. Quase 2 postagens diárias. Mas eu não sabia como ir a outros blogues e por comentadores tinha a irmã e um primo.   O meu primeiro comentário sem ser da família foi o da Dina a 16 de Julho. Estava neste impasse quando um dia olhei lá para cima, vi escrito "blogue seguinte" e cliquei. Então comecei a ler as postagens dos blogues que me apareciam em Português e daí  e a comentar aquelas que mais me agradavam.  Aos poucos os amigos vinham agradecer o comentário e iam ficando leitores. Daí a pouco estava metida num circulo de selos, selinhos, desafios etc.  Era uma loucura. Devem lembrar-se que houve uma época em que por tudo e por nada se ofereciam selos. Parecia uma competição para ver quem tinha mais.  Um dia fiz um post em que pedindo desculpa aos amigos afirmei que nunca mais aceitaria nem daria selos. Decisão que mantenho até hoje. Com o blogue tive grandes alegrias e também grandes tristezas. A maior alegria que tenho é considerar cada leitor um amigo e ter sido sempre assim tratada por vós. Aliás alguns dos que me visitam já deixaram de ser amigos virtuais, para serem reais. Alguns partiram para aquela viagem a que nenhum de nós pode escapar e isso enche-me sempre de tristeza. Alguns se casaram tiveram filhos e continuam por cá. Outros se afastaram, ou por cansaço dos blogues, ou  porque acham o Facebook mais atrativo.  Em Julho de 2008  começou o meu afastamento. Primeiro a minha saúde, depois a doença grave de meu pai que partiu em Março de 2009, o agravamento da doença e consequente partida da minha mãe, a doença do meu marido, transformaram a minha vida num periodo negro que o nascimento da minha neta, tornou menos amargo, mas que me tiraram toda a vontade de escrever e me levaram a vir por aqui muito esporádicamente. Voltei de forma constante em meados de 2011, e aos poucos fui ganhando novos leitores.  Hoje 5 anos depois, estou feliz com o blogue, e com a vossa amizade. Tenho 574 publicações e mais de 10.000 comentários, atingidos no post anterior com o comentário do amigo Luis Eme. Para uma sexagenária, que nunca estudou e foi pela vida aprendendo tudo o que podia, sinto-me muito feliz. E  é essa felicidade que quero partilhar hoje convosco. Porque vocês são a razão de viver do Sexta, e da minha felicidade.
A TODOS O MEU MUITO OBRIGADA. BEM HAJAM.

24.4.12

25 DE ABRIL - DIA DA LIBERDADE



Há 38 anos, eu era uma jovem cheia de sonhos e o 25 de Abril foi uma porta aberta para a sua realização. Desde então e durante muito tempo festejei a data com alegria. Porém a porta foi-se cerrando, primeiro tão lentamente que quase não nos apercebemos, depois mais rapidamente e de forma galopante nos últimos anos. Para trás ficaram a maioria dos sonhos que não consegui segurar no embate com a realidade. Hoje desiludida, já nem me apetece festejar Abril. O que é que nos ficou desses tempos? Temos (?) a Liberdade. E só por si chega? Perguntem aos jovens que se vêem sem futuro e sem emprego. Perguntem aos idosos que trabalharam uma vida inteira e que morrem à mingua na solidão das suas casas. Perguntem aos desempregados que não têm pão para os filhos famintos. A Liberdade é sim muito importante, mas só por si não alimenta um povo. E já agora uma pergunta: Existe Liberdade sem independência? E nós somos independentes? Ou vivemos subjugados ao FMI? E à Alemanha? E à França?  Por tudo isto não me apetece festejar Abril. E se não estiverem de acordo relevem. Eu de politica não percebo nada.

Deixo-vos  com um poema meu




 COM AS MINHAS PALAVRAS.

Com as minhas palavras invento o Sonho
terá alma o Sonho?
Saberá dos milhares de crianças chorando
a fome
revoltados
pelo vento que arranca impiedoso
os frutos ainda verdes?

Com as minhas palavras invento a Vida

terá alma a Vida?
Saberá do silêncio dos que nascem
vivem
e morrem
no desespero da solidão?

Com as minhas palavras invento a Liberdade

terá alma a liberdade?
Saberá dos milhares de homens vivendo
dia após dia
hora após hora
a esmagar a raiva que martelam na memória?

Com as minhas palavras invento a Esperança
Terá alma a Esperança?
Saberá dos milhares de idosos
Mortos-vivos
Agonizando no mar do esquecimento
Neste País que só é para alguns?
  
 Com as minhas palavras invento o Amor
Terá alma o amor?
Saberá da indiferença dos que dormem
lado a lado
frustrados
na rotina agonizante do dia-a-dia?

Elvira Carvalho


Poema escrito  pouco antes do 25 de Abril e publicado a primeira vez numa revista em 1976.

23.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXVII


 foto da net


O ano seguinte começou com a União Indiana a propor na Assembleia-geral da ONU a integração no seu território do Estado Português da Índia.
A 13 de Janeiro, dia em que em Moscovo eram presos 9 médicos acusados de terrorismo e de serem os mentores da chamada Revolução das Batas, Piedade se foi. De manhã enquanto tomava o pequeno-almoço, simplesmente deixou de respirar. Vítima de uma embolia cerebral dissera o médico. O Manuel mandou as crianças para casa do cunhado, José Varandas, para que não vissem o funeral da avó. O João o irmão que felizmente vivia bem melhor, tratou das despesas, e o féretro partiu numa fria e seca manhã, na carroça do ti’Abel, a urna coberta com uma colcha de algodão rosa, e todo o pessoal da Seca em cortejo a pé. À noite, as crianças voltaram para o barracão sem entenderem a tristeza dos pais, nem a ausência da avó. Agora Gravelina não podia ir trabalhar, as crianças eram demasiado pequenas para ficarem sozinhas, num barracão que ainda por cima estava situado à beira do rio. Depois de muito matutar, Manuel decidiu mandar vir do norte um dos cunhados mais novos, um rapazito de 12 anos, para ficar a tomar conta dos miúdos, para que a mulher pudesse continuar a trabalhar, muito embora ele não soubesse se ela aguentaria até ao fim da safra, dado o seu estado cada vez mais debilitado.
Três dias depois, Manuel foi a Santa Apolónia buscar o Luís. Era um miúdo alto e muito magro, mas esperto e agradecido por ter saído do monte onde guardava as cabras de um lavrador da Trapa.
Manuel nunca se arrependeu da sua decisão, já que Luís era carinhoso com os sobrinhos e muito responsável.
Por essa altura Eisenhower tomava posse dos destinos da América.
Em Fevereiro incidentes em Batepá, na ilha de S. Tomé eram esmagados pelas forças policiais. Cerca de mil mortos foi o rescaldo.
Pouco depois morre Estaline. O calendário marcava o dia 5 de Março  e antes de o mês acabar, é anunciado o nome do novo secretário do Comité Central, Nikita Sergueievitch Khruchtchev.
Nos primeiros dias de Abril, termina o trabalho na Seca. A URSS começa a viragem pós Estaline. O Pravda anuncia que a conjura das batas brancas tinha sido fabricada pela polícia política e os médicos foram reabilitados.
Em Portugal, Salazar comemora 25 anos da subida ao poder.
Quando Maio chegou, Gravelina já não andava. Arrastava-se como podia, a roupa a dançar sobre o corpo esquelético, o rosto encovado e macilento.
Foi nessa altura que a mulher do capitão que geria a Seca a viu e se compadeceu. Mandou chamar o Manuel, e dando-lhe dinheiro mandou que chamasse um carro de aluguer, e levasse a mulher ao médico no Barreiro. Porém quando o médico viu a mulher, escreveu uma carta e chamando uma ambulância a mandou para o Hospital de Almada, que era na altura o hospital mais perto. Manuel foi acompanhar a mulher mas voltou sozinho. Gravelina ficou logo internada dada a gravidade do seu estado. Ele voltou para casa com o coração apertado. O médico disse que a mulher tinha que ser operada com urgência, estava com a barriga toda “podre”. Verdade é que o médico primeiro dissera um nome esquisito, mas quando o Manuel quis saber o que aquilo queria dizer, o médico respondera-lhe assim. Porém dado o seu estado de debilidade física, não poderia ser operada já. Teria que ficar internada um bom tempo. Almada fica longe do Barreiro para as vistas. Além disso em casa estão três crianças, e mais o cunhado que no fundo ainda é também uma criança.
À noite sentado nas escadas do casarão, enquanto as crianças dormem, Manuel eleva uma prece a Deus e afundando o rosto entre as mãos chora. Chora a angústia de não saber se a companheira, irá resistir, chora a dor de não saber o que fazer com os filhos, se a mãe não voltar, chora enfim a miséria da vida que leva, feito besta de carga, que não trabalha nunca o suficiente para ter uma vida digna.



Esta história voltará  dia 27 de Abril. A todos desejo uma boa semana

22.4.12

4º BOOKCROSSING BLOGUEIRO

Este foi o livro que libertei ontem integrada neste movimento.  O livro conta a história de Maria do Ó  jovem actriz francesa com ambições politicas. É apresentada a Carlos de Andrade, um empresário influente, sobrinho-neto de um candidato presidencial assassinado pelas forças da ditadura, é  militante do Partido Democrático e tem a missão de cumprir o sonho do seu tio-avô. Carlos é casado, 20 anos mais velho que Maria, e ambos se envolvem numa paixão secreta.


Nota, não sei se há no Barreiro algum posto do BookCrossing, se há desconheço pelo que deixei o livro numa das mesas da pastelaria ontem aqui em Santo André.

17.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXVI




 O ano de 1952 começou com a descoberta da conspiração contra o regime, organizada por Henrique Galvão. Por essa altura o nosso Manuel apostou com o amigo Bernardino, que era capaz de fazer a correr os 3km que distavam da Seca à estação dos barcos no Barreiro em menos de 15 minutos. Se ganhasse o Bernardino dar-lhe-ia a sua senha para o açúcar, se perdesse ele ia sachar uma das leiras da quinta. O Manuel percorreu essa distância em 12 minutos, controlados pelo Aires que acompanhou a corrida numa bicicleta. Manuel ficou cansado, mas ganhou uma senha extra para o açúcar que lhe fazia falta para as crianças.
 No mês seguinte, os estudantes manifestam-se em Lisboa contra a NATO, invocando a Paz e o não às armas atómicas e ao fascismo.
 Esta acção acabaria com a expulsão da Universidade de 15 alunos das Belas Artes. Nesse mesmo mês Amílcar Cabral licenciava-se em agronomia e morre na Inglaterra o rei Jorge VI, e inicia-se o reinado de Isabel II.
 A Grécia e a Turquia aderem à NATO.
 Em Março acabou o racionamento do açúcar em Portugal, ao mesmo tempo que o seu preço baixava. Uma boa nova para o Manuel, já que se gastava bastante açúcar com as sopas de café, e até para misturar à banha de porco, com que se barrava o pão para as crianças.
 Simultaneamente acaba nesse mês a safra do Bacalhau. O Manuel tem assegurado o seu trabalho de lenhador, mas a mulher fica sem ganhar, até que voltem os navios, e este ano há mais uma pessoa a sustentar, Piedade a mãe que viera para cuidar dos pequenos.
 O chiqueiro continua vazio à espera do leitão que ainda não conseguiu comprar, e o terreno à volta sem cultivar por falta de água.
 Mas ele aprendeu a apanhar no rio Lambujinhas, e lingueirões, e nos seus tempos livres, sempre que a maré estava vazia, o Manuel arregaçava as calças quase até à virilha, pegava uma Lata de zinco, e lá se fazia ao lodo. Voltava todo sujo, mas quase sempre com comida para uma ou duas vezes.
 Em Maio os corticeiros de Matosinhos entram em greve. Em Pias, começam as greves rurais, que mobilizam milhares de trabalhadores agrícolas reivindicando aumentos salariais.
 A Assembleia Consultiva do Conselho da Europa adopta uma resolução apoiando a criação de uma comunidade europeia supranacional aberta, à qual poderiam aderir ou associar-se todos os membros do Conselho da Europa.
 Em Julho começam em Helsínquia os jogos olímpicos, e morre aquela que foi porventura a dirigente mais amada pelo seu povo. Eva Perón a quem o povo chamava com carinho Evita.
 Nas noites quentes de Verão o Manuel senta nas escadas de madeira, que dão acesso ao barracão, pega o filho ao colo, olha as estrelas e sonha. Sonha com um poço, que lhe permita cultivar o terreno à volta da casa, sonha com o porco no chiqueiro, sonha com uma bicicleta, e pouco mais. Manuel anda cansado e também muito preocupado. A mulher nunca mais foi a mesma desde o parto do filho mais novo. Enquanto acaricia o miúdo, ele engole as lágrimas de remorsos sentindo-se culpado. Se ele não quisesse tanto um filho… Se ela não tivesse ficado grávida logo de seguida ao parto da miúda…
 Se ele tivesse dinheiro para a levar a um bom médico…Se...Se... Se... A vida do Manuel era uma sequência de ses…
 No final de Setembro chegou o Gazela, e poucos dias depois, o Argus, o Crioula, e por fim o Hortense. A Seca encheu-se de trabalhadores e a vida ganhou outro colorido para quem esperava esta época, com um misto de desespero e esperança, como o condenado que espera o perdão.
 Em Novembro é decretado o ensino primário obrigatório, e Jaime Cortesão regressa do exílio.
 Em Dezembro, Henrique Galvão e os demais envolvidos na conspiração de Janeiro são condenados a penas de dois a três anos de cadeia. No Barracão, Piedade tem um ameaço de trombose, e Gravelina está tão magra e mal encarada que o pessoal da Seca já murmura que ela está tuberculosa. A vida do Manuel está cada dia mais difícil.



Provavelmente esta história já não regressará esta semana. Começou ontem ae estende-se até ao dia 23 a semana do 
BOOKCROSSING BLOGUEIRO a que aderi. Ainda não decidi o livro e o sítio onde o vou largar, mas no dia em que o fizer tenho que fazer uma postagem sobre o assunto.


TENHAM UM BOM DIA




15.4.12

BLOGAGEM COLETIVA 2ª FASE - DESENCANTO




PAULO



Lá fora, a noite dorme em silêncio.
A madrugada aproveita e vem, pé ante pé para tomar o seu lugar. No céu, sem nuvens, as estrelas observam curiosas. Algures, em qualquer recanto deste nosso universo, alguém abre lentamente uma janela. É um homem. Um homem jovem na idade, que carrega no peito uma angústia que não sabe explicar. Paulo nunca soube explicar o que se passa com ele. Sentir sim. Ele sente cada hora, cada minuto amassado na rotina duma vida que não deseja. Paulo é um homem novo, mas não raras as vezes se sente tão frustrado, que se julga um velho. É um homem culto. Estudou. E completou os seus estudos, na leitura de grandes escritores. Lê muito. E escreve. Escreve belos e amargos textos nos quais deixa impregnado o que lhe vai na alma. Apaixonado e sonhador, Paulo enamorou-se do próprio Amor. Na janela, ele olha sem ver a rua, absorto nos seus pensamentos. Na cama Graça, a mulher dorme. Paulo olha para ela, com um misto de amor e pena:
- Coitada, deve estar muito cansada – murmura entre dentes.
Graça é uma boa mulher. Que ele ama muito. Tem sido uma boa companheira, e deu-lhe dois filhos. Dois filhos por quem ele daria a própria vida. Graças a eles consegue suportar aquela vida insípida, que por vezes ameaça sufocá-lo.
Mas Graça está longe de ser o amor que Paulo tantas vezes idealizara. Ele sonha com uma mulher apaixonada, que tenha os mesmos sonhos, os mesmos anseios, os mesmos desejos. Graça é uma mulher simples, bonita, boa dona de casa, boa mãe, até mesmo boa amante. Mas com ela, ele não pode discutir aquele livro que o entusiasmou, não pode recitar aquele poema do Torga que ele sente como se fora ele a escrever, não pode contar-lhe das vezes, que deixa o seu corpo no emprego, e evade o espírito para outras paragens, outros trabalhos que satisfaçam as suas fantasias. Paulo não sabe se existe no mundo uma mulher como ele deseja. Mas tem uma certeza. Ele gostaria que essa mulher fosse a sua esposa. Volta-se e olha-a.
Mais bonita do que nunca, no abandono do sono, os cabelos soltos espalhados na almofada.
Encheu o peito de ar, suspirou, e fechou a janela. Dirigiu-se para a cama. Graça, acordou, olhou-o surpresa, sorriu e esticando os braços enlaçou o marido e puxou-o para si. E enquanto se perdia nos braços da mulher, Paulo fez o que tantas vezes fazia no emprego. Deixou que o seu espírito se soltasse e voasse para longe. Para um lugar só dele, um lugar que apenas existe nos seus sonhos de homem insatisfeito e desencantado.




Esta é a minha participação na BLOGAGEM COLETIVA ,
promovida pelas amigas

BOM DOMINGO

12.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXV



Aquele Inverno foi muito difícil para o Manuel. A mulher continuava débil e sem forças, as três crianças pequenas a necessitar de cuidados, a casa sem comida e o bolso sem dinheiro.
O Bernardino, amigo de há muito e caseiro de uma das quintas da Seca, levava alguns legumes . As galinhas que ele fora criando, foram aos poucos desaparecendo para completar as refeições. A mulher não tinha forças para ir lavar as roupas ao tanque na quinta. E a toda a hora era preciso lavar fraldas.  De uma barrica que já não era usada na Seca, Manuel fizera uma celha para ela lavar a roupa em casa. Fora só serrá-la ao meio e betumar as frinchas para não perder a água. Mas então… e a água? Como encher a celha, indo buscar a água longe e com uma bilha de cada vez? Aí o ti’Abel deu uma ajuda, levando-lhe todos os dias na carroça, um barril cheio de água.
Manuel nem soube que Eisenhower visitou Lisboa em Janeiro, nem que Portugal beneficiou do Plano Marshall na compra de cereais, e em obras de irrigação.
Nem que em Fevereiro o Avante, catalogava Mário Soares, Piteira Santos, Borges de Macedo, e Ramos da Costa como oportunistas. Muito menos que em Paris, tinham começado as negociações para a instituição da Comunidade Europeia de defesa entre a Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, e RFA.  
O seu mundo e a sua vida estava confinada ao barracão, à mulher e aos três filhos.
                   Ao mesmo tempo continuava com a sua ideia de trabalhar o terreno à volta do barracão, que já tinha limpo dos silvados e chorões que o cobriam. Mas a falta de água doce para a rega, mantinha-os ainda, sem nada semeado.
Em Março com o final do trabalho na Seca do Bacalhau, deixa de fazer os serões e se por um lado tem mais tempo livre, por outro o dinheiro minga ainda mais no seu bolso.
Felizmente o ti’Luís Estaca, dono da mercearia na Telha onde Manuel vai buscar o”avio” para a casa, sempre lhe facilita os bens essenciais tenha ou não dinheiro para pagar. Ele tem pena da vida daquele homem, e ao mesmo tempo confia em que ele lhe pagará logo que tenha dinheiro. E tem razão, porque o Manuel a cada final de semana, mal recebe vai pagar o que deve, mesmo que fique sem nada para a próxima semana.
Em Abril, dois dias antes do seu aniversário, morre Carmona. Santos Costa defende a candidatura de Salazar, enquanto Mário de Figueiredo propõe a restauração da monarquia, com a oposição de Marcelo Caetano.
No início de Maio, é assassinado o dirigente comunista Manuel Domingues. O mês de Junho começa com a União Nacional, a lançar a candidatura de Craveiro Lopes para presidente da república.
Na Europa ocorrem as primeiras execuções de oficiais nazistas, condenados pelo tribunal de Nuremberg.
No barracão a mulher do Manuel parece ter perdido a saúde e a alegria. O filho faz o seu primeiro ano no dia em que a menina faz dois anos. Manuel fez um chiqueiro, e sonha comprar um leitãozinho para criar, e ter carne durante o Inverno.
Julho decorre com grande efervescência política, terminando com Craveiro Lopes  a ganhar as eleições depois da desistência de Quintão Meireles. Com o bom tempo de Verão, a mulher do Manuel parece ter melhorado bastante, e assim quando os navios chegam com o bacalhau, a mulher do Manuel está pronta para trabalhar e ajudar nas despesas. Ele também pode agora ganhar um pouco mais aproveitando os serões. Porém enfrentam outro problema. Que fazer com  três crianças em que a mais velha ainda ia fazer quatro anos? São muito pequenas para ficarem sozinhas. Ainda mais num barracão junto ao rio. Sabe-se lá o que podia acontecer. O Manuel resolveu então pedir à mãe para vir viver com eles. O barracão era grande, tinha quartos vagos, e assim ela podia tomar conta dos netos. Por outro lado ela já não tinha idade nem forças para trabalhar no campo.
E foi assim que quando a safra começou já Piedade, estava lá para tomar conta dos três miúdos.

Esta saga, só volta dia 17, já que dia 15 estarei participando da 2ª parte da BLOGAGEM COLECTIVA. 

Tenham um bom fim de semana

8.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXIV





A segunda metade do século XX  começa com a morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa, depois de ter feito uma greve de fome. Ainda em Janeiro o partido comunista perde mais dois militantes. José Martins e José Moreira.
 Nesse mesmo mês a Inglaterra reconhece a República popular da China.
 No mês seguinte chega a recusa do governo português à proposta da União Indiana para as negociações de integração do estado português da Índia, como parte integrante do seu território.
 Em França os ministros socialistas abandonam o governo e nas eleições da Grã-Bretanha, os trabalhistas são os vencedores.
 Poucos dias depois o Congresso Mundial dos Partidários da Paz, defende em Estocolmo a interdição do uso da bomba atómica.
 Em Maio inicia-se o julgamento de Álvaro Cunhal, que acaba sendo condenado à prisão perpétua.

Na Seca, a mulher do Manuel está como no ano anterior prestes a dar à luz. Ele anda sorumbático. Teme a vinda de outra rapariga. Interroga-se sobre o que fará se isso acontecer. E chegou o mês de Junho. No dia 4 é morto em Alcobaça, Alfredo Dias Lima, um destacado membro do partido comunista que organizara uma greve. De 10 a 29 decorrem em Lisboa, as Festas Populares, que retomam o desfile das marchas.
 No dia 20 de Junho, dia em que a segunda filha faz 1 ano, precisamente três horas antes, nasce o tão almejado filho. O rapaz esperado desde o primeiro momento enchendo de alegria e orgulho o seu coração.
 Nesse dia quase não dormiu. Dividido entre a contemplação do filho, a mulher que parecia mais cansada que das outras vezes e as duas raparigas, uma extremamente franzina, – não pôde ser amamentada como devia, por causa da nova gravidez – e a mais velha com quase 3 anos e sempre a querer ver e brincar com o bebé, como se ele fora um boneco. Manuel estava alerta com ela. Lembrava-se do susto que apanhara uns meses atrás, quando fora dar com ela a meter pão na boca da menina, e esta quase sufocada já a ficar negra. Tivera que lhe pegar pelos pés, virá-la de cabeça para baixo, e dar-lhe umas palmadas, até que por fim saltaram os pedaços de pão. E o pior foi a cara de anjinho da garota, quando disse na sua linguagem ainda taramelada que “a mana estava a chorar, devia ter fome”. Ficou desarmado sem coragem de a castigar. Mas apressou-se a fazer uma cancela suficientemente alta para ela não saltar, que pôs na porta do quarto e a partir daí o berço da menina ficou assim protegido.
 No mês seguinte foi a vez do Varandas ver nascer o seu primeiro rapaz.
 Em Agosto dá-se uma remodelação do governo, com recuo da ala marcelista e avanço do grupo Santos Costa.
 Na Bélgica, Balduíno presta juramento como regente, e o Conselho da Europa aprova um projecto do Churchill, sobre a criação de um exército europeu.
 Em Novembro, estreia em Lisboa, “O Grande Elias” e antes do fim do ano, novos protestos contra o governo, no Congresso dos Homens Católicos, e nos protestos estudantis.
 O Natal desse ano não foi um Natal feliz para o nosso Manuel, apesar do rapazinho que tanto desejara. É que a mulher nunca mais fora a mesma desde o parto. Emagrecera imenso, tinha grandes olheiras, parecia estar sempre com dores e de vez em quando tinha hemorragias. Ele estava muito preocupado. 

2.4.12

MANUEL OU A SOMBRA DE UM POVO - PARTE XXIII


A 1ª metade do Séc. XX está a chegar ao fim.. Portugal está em campanha eleitoral e o governo tenta ligar Norton de Matos à oposição, numa tentativa de o desacreditar, que não resulta já que Carmona também o havia sido. Em Janeiro de 49 Norton de Matos, faz um grande comício no Teatro Avenida em Coimbra, Salgado Zenha e Palma Carlos são dois dos muitos apoiantes ao novo candidato. Mais tarde novo comício no Porto, apoiado por uma multidão de mais de 100.000.  Em Lisboa o apoio mantém-se apesar da campanha feita contra ele, através do Rádio Clube Português e do DN. Na China os comunista conquistam Pequim. Na Seca, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do Trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria… E melhor que isso, com eletricidade e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires. A 12 de Fevereiro, Norton de Matos anuncia a sua desistência, depois de ter mandado queimar os arquivos da candidatura para que não caíssem nas mãos da PIDE. No dia seguinte, surge no Porto o Movimento Nacional Democrático, saído dos apoiantes de Norton de Matos, que não concordam com a sua desistência. Nesse mesmo dia, são as eleições, e são presos muitos oposicionistas entre os quais, Mário Soares, Salgado Zenha, e Palma Carlos. Em  Março, de posse de vários documentos descobertos numa casa clandestina, a PIDE carrega em força sobre os dirigentes do PCP. Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro são presos no Luso. Em Lisboa outros dirigentes têm a mesma sorte.  Ainda em Lisboa estreia por essa altura  “A Morgadinha dos Canaviais”.  Em Abril, nasce a 2ª filha do Varandas. A mulher do Manuel, vai a caminho do oitavo mês e ele continua sonhando com o filho tão desejado. É proclamada a República da Irlanda, e Portugal está entre os membros fundadores da NATO. Em Maio, os soviéticos levantam o bloqueio a Berlim, e dias depois é instituída a República Federal da Alemanha. E finalmente chegou o mês de Junho, tão ansiado pelo Manuel. E a 20 desse mês veio a segunda decepção. A mulher dava à luz outra menina."Outra racha" disse desanimado e de tal modo decepcionado que durante dois dias nem quase ligou à filha. Em Agosto, há eleições na RFA, e em Setembro é anunciada a primeira explosão atómica na URSS. No final de Setembro, com a nova safra à porta o Carlos troca a seca da Azinheira pela seca de Alcochete, já que lá estava quase toda a sua família. No barracão ficou mais um quarto vazio para onde foram as filhas do Manuel. Outubro chega com a República Popular da China em Pequim. A 12 do mesmo mês é criada a República Democrática da Alemanha, e precisamente nesse dia, o Manuel descobre que a mulher está de novo grávida. E como o povo diz que à terceira é de vez, renascem-lhe as esperanças do filho homem, pelo qual suspira. Mas a vida está cada dia mais difícil, quatro bocas para alimentar são demais para o que ganha, e ele leva noites a pensar na maneira como conseguir mais dinheiro. Decidido vai falar com o patrão e pede-lhe autorização para cultivar o terreno à volta da casa. O patrão ri-se. “Se conseguires alguma coisa, que não sejam chorões e silvas, podes ficar com isso. Mas diz-me uma coisa: - Vais regar o terreno com a água salgada do rio, ou com as bilhas de água que a tua mulher vai buscar à Telha?” Manuel não se importou. Começou por roçar alguns silvados e arrancar os chorões.  Pediu ao patrão se podia dar uma escolhas nalgumas das tábuas velhas que se amontoavam à porta da oficina e com elas construiu uma casinha um bocado afastada da casa. Era uma espécia de guarita, assente nuns troncos. Lá dentro um buraco, por onde se faziam as necessidades para uma cova com cama de palha. Era o adubo de que precisava para as terras. Fez também junto à casa, uma pequena capoeira, onde colocou uns quantos pintos, comprados no mercado de Azeitão. Antes de o ano acabar o Aires muda-se também para uma pequena casa na Telha e o Manuel da Lenha fica sozinho no imenso barracão com a mulher e as filhas. Em Novembro o Varandas anunciou que a mulher estava outra vez grávida. E o ano chega ao fim, com Portugal a subscrever a Declaração Universal dos direitos Humanos, ao mesmo tempo que desmantela e prende em Coimbra, o núcleo intelectual do partido comunista.






Esta narrativa só volta agora depois da Páscoa que vos desejo seja passada o mais feliz possível.