17.12.12

A HERANÇA PARTE VII



Faltavam poucos dias para o Natal. Naquela manhã, Mara deixara a avó em casa após a Missa e dirigiu-se à vila. S. Pedro do Sul era a sede de concelho e já uma vila de alguma dimensão. Talvez tivesse evoluído mais se as suas termas se encontrassem dentro da vila e não a três km do centro. Mas ainda assim era uma vila com alguma importância. Tinha escolas, tribunal, e cadeia. Uma estação de caminhos-de-ferro que ia encerrar em breve dizia-se. Bombeiros, igrejas, lojas. Claro que não se comparava a Viseu, ou Aveiro, mas ficava situada a onze km da casa da Avó, e Mara acreditava no futuro da vila. Tanto assim que estava firmemente decidida a instalar aí o seu escritório de advogada.
Ela terminara o Curso há quase três anos. Durante os últimos três estagiara no escritório de um dos mais eminentes advogados do Porto. Poderia ter continuado a fazer parte do grupo de advogados que trabalhavam sob as ordens do Dr. Morais. Poderia igualmente continuar a trabalhar no Porto, mas estabelecendo-se por conta própria. Mas ela entendia que tinha chegado a hora de regressar às origens. E as suas origens eram a casa da avó, onde passara grande parte da sua vida. Como a aldeia era pequena, o sítio ideal para se estabelecer seria pois S. Pedro.
Naquele dia Mara dirigiu-se à vila por duas razões. Desejava ver como estavam as obras de montagem do seu escritório, e percorrer as montras já todas engalanadas para a festa de Natal, na esperança de encontrar o que queria para as prendas e não ter que ir a Viseu.
Foi almoçar ao Hotel Vouga, nas termas, pois gostava muito do restaurante, e gostava de almoçar vendo o rio ali mesmo ao lado.
De tarde voltou a S. Pedro. Estacionou o carro nas traseiras de Câmara, e vendo que a Igreja do Convento estava aberta entrou uns momentos. Não por religiosidade, mas por curiosidade, pois sempre que lá passava, a porta estava encerrada. Depois deu a volta, passou pela frente do edifício camarário, atravessou o jardim, deitou uma olhadela rápida ao tribunal, pensando que aquele seria um dos seus locais de trabalho no futuro, e dirigiu-se ao café em frente onde tinha combinado encontrar-se com o decorador, para ver os croquis do seu futuro escritório.
Durante uma hora, viu os desenhos, contestou pontos, combinou cores para reposteiros, e estofos. Por fim despediu-se do decorador, e dirigiu-se ao carro. Acabara de o pôr em movimento quando viu uma figura conhecida, sair do prédio em frente. A mulher era a Piedade.
E o edifício era a prisão, muito embora se parecesse mais com uma escola do que com uma prisão. Era um edifício de dois pisos, em tudo semelhante às escolas do primeiro ciclo que existem por esse país fora. Apenas as grades nas janelas, o tornavam diferente.
Então é aqui que ele está – pensou.
- Quer uma boleia? - Perguntou parando o carro ao lado da mulher
- Obrigada, menina. Tenho aqui o bilhete, – respondeu envergonhada sem a olhar de frente.
Mara ficou a vê-la afastar-se pensativa. Os carros a apitar atrás de si sobressaltaram-na. Pôs o carro em marcha e dirigiu-se a casa.
Parou o carro sob o alpendre e retirou os vários embrulhos que trouxera. Na sala a avó parecia absorta na leitura.
- Correu tudo bem? Estão adiantadas as obras? - Perguntou ao ver a neta entrar carregada de embrulhos
- Não tanto, quanto eu gostaria. Vi a Piedade. Ofereci-lhe boleia, mas preferiu vir no comboio.
Logo contas-me o resto da história? - Perguntou, enquanto punha os embrulhos no chão, por baixo da árvore de Natal.
A avó não respondeu.
 ********************************************************************************
 Depois do jantar, sentaram-se como de costume junto à lareira. Era o momento esperado por Mara para que a avó continuasse a história da Piedade.
- Quando os polícias se foram o que fez a Piedade? - Perguntou
- Nada. Piedade continuou levando a mesma vida de sempre, trabalhando no campo e cuidando do filho. O tempo passou e menino fez-se um rapazinho e foi para a escola. Deves lembrar-te dele, andaram juntos.
Ela assentiu com a cabeça, mas não disse palavra. Depois de um silêncio a avó continuou.
- O rapaz era esperto. Mas as crianças às vezes são cruéis umas com as outras. As crianças nunca aceitaram bem o Jaime. Era o filho do "cigano", que era um ladrão. E o feitio introvertido do rapaz, também não ajudava. Piedade, essa vivia com o coração nas mãos. O filho era o retrato vivo do Zé. O mesmo sorriso, os mesmos olhos verdes, o mesmo ar altaneiro do pai. Creio que o maior medo dela era que o filho se transformasse noutro Zé Bento, para acabar com a sua vida. Por isso, quando um dia faltou um estojo de desenho a um colega, todos os outros meninos acusaram o Jaime. E quando depois de ele protestar que não tinha sido, a professora quis examinar as suas coisas, o rapaz fugiu, e isso foi como se assinasse uma confissão de culpa.
Mandaram chamar a mãe que se debulhou em lágrimas.
Em casa, o rapaz afirmava não ter visto o estojo, e havia tal dor nos seus olhos que a mãe acreditou.
Mara cerrou os olhos. Lembrou aquela tarde, quando ele chegara perto dela, e dissera:
- Não me interessa o que dizem os outros. Não fui eu. Acredita, eu não roubei nada.
E ela estúpida respondera:
- Mas então quem foi? Mais ninguém é...
- …filho de ladrão, – disse ele voltando-lhe as costas. E desde aí nunca mais olhara para ela.
- Em que pensas, filha?
- Nada avó. Continua por favor.
- Uns dias depois a mãe do outro catraio apresentou-se na escola. Tinha encontrado o estojo do filho caído atrás da cama. A professora pediu muitas desculpas à Piedade e ao filho, pediu para ele voltar à escola, mas o rapaz nunca mais lá foi.
O Padre Miguel arranjou maneira de ele ir para o seminário. Foi lá que ele estudou. Agora filha vou-me deitar. Não gosto de me deitar tarde.
- Boa noite avó. Vá descansada eu vejo as janelas e a lareira antes de ir.
- Até amanhã então.

Continua

 Uma boa semana para quem por aqui passar

   REGISTO  6390/2011
 

ESTA É UMA HISTÓRIA QUE GOSTARIA DE  PODER PUBLICAR EM LIVRO  E QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGISTADA. ESPERO QUE VENHAM A GOSTAR DELA. SERÁ PUBLICADA EM EPISÓDIOS DE 3 EM 3 DIAS. ENTRETANTO INFORMO QUE A HISTÓRIA DO MANUEL NÃO TERMINOU, MAS PRECISO DE MAIS TEMPO PARA AS MINHAS PESQUISAS SOBRE A HISTÓRIA, PELO QUE RETOMAREI A PUBLICAÇÃO LOGO QUE TERMINE ESTA HISTÓRIA.



18 comentários:

MARILENE disse...

Seu conto prende a atenção. Não imaginava o destino que deu para Jaime. Se foi para o seminário, presumo tenha se tornado um padre. Mas aguardo a continuação.

Elvira, aproveito para lhe desejar um Natal de luz, com harmonia, união e amor. E que o ano que se aproxima lhe traga muitas alegrias, inclusive a publicação de seu livro. Bjs.

Nilson Barcelli disse...

O teu romance tem todos os condimentos para ser muito bom, pela tua narrativa e pela trama que já está em curso...

Elvira, querida amiga, tem uma boa semana e um Feliz Natal, extensivo aos que te são mais queridos.

Beijinhos.

edumanes disse...

Faltavam poucos dias
Se aproximava o Natal
Nos dias e noites frias
Nesta época ser natural!

Por aqui passar
Boa semana me desejou
Obrigado por se lembrar
De quem de você também se lembrou.

Boa noite para você,
amiga Elvira
Um abraço
Eduardo.

rosa-branca disse...

Amiga Elvira, estou a gostar muito do seu conto e cá fico a aguardar a continuação. Um feliz Natal e beijos com o meu carinho sempre

Andre Mansim disse...

Ainda bem que resolveu publicá-la aqui Elvira! É mesmo um belo conto. As pessoas vão gostar muito!
Parabens minha amiga!

Mariangela disse...

Muito bom o seu conto Elvira! Gostei muito!
Te desejo um Feliz Natal, e um Ano Novo cheio de paz e bençãos!
Abraço,
Mariangela

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

A história está a ir lindamente; recheada de acontecimentos num mundo que aqui parece tão pequeno e onde toda a gente se encontra, como se comandados pelo destino - neste conto que tem o condão de prender.

Boa semana e abraço amigo.
E o meu obrigado pelas palavras simpáticas que deixou a propósito da minha mãe- que me souberam muito bem ler.

Vitor

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

A história está interessantíssima e muito bem contada.
A Mara, futura advogada, também está muito bem "retratadaa".
Vivemos cada pormenor, como se tivéssemos conhecido as ppersonagens.
Bem, costuma dizer-se: "Quem sai aos seus, não degenera", mas o Jaime, o filho do Zé Cigano de olhos verdes, não mentiu.
Aguardemos, como será a vida dele no Seminário.

Beijinhos para todos.

FireHead disse...

Mau, se é aquilo que eu estou a pensar, ainda vai haver o "crime do Pe. Jaime". :)

Beijinhos.

lis disse...

Oi Elvira
É triste quando as pessoas transferem os problemas dos pais aos filhos e não lhes dá chance de tomar outros caminhos senao aquele mesmo,
Piedade é uma guerreira e sofredora rs
Estou gostando do seu futuro livro de contos! vamos editá-lo!! rs
grande abraço e um lindo Natal
com abraços

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

E é sempre nesta época de Natal que mais nos lembramos das injustiças, dos preconceitos, do desprezo a que são votados os mais desfavorecidos. O ser humano mostra nesta quadra o seu lado mais belo. Pena que acabe mal se apaguem as luzes que enfeitam as ruas e cassa. E amiga, penso que o melhor que te posso desejar é que não tenhas de ver muitos destes casos no teu caminho, pois sei que é isso que mais queres, é isso o que no fundo todos desejam. Por isso deixo-te um beijinho muito especial e os votos de que o teu Natal seja feliz, alegre, sem sofrimento. Que sejam assim todos os dias que a vida te conceder. Muito obrigada pelo carinho que sempre me dedicas. Fica bem e boas festas junto dos que te são mais queridos
Emília

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Fiquei preso à leitura quer pela história quer pelo narrar dos acontecimentos que vão aclarando a vida das pessoas numa aldeia de S. Pedro do Sul.

Tantas memórias que estes acontecimentos nos trazem... quantas coisas nunca foram reparadas... quantas crianças marcadas por nunca lhe darem crédito....???

Desejo um Santo Natal e um Próspero Ano Novo. Paz e Bem.

Observador disse...

Passo para deixar os votos de um feliz Natal.

Um abraço

Mar Arável disse...

Excelente

... entretanto...

o natal vai começar

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Continuo atenta e a gostar, mas desta vez quero, essencialmente, deixar-lhe os meus votos de Boas-Festas

Lilá(s) disse...

‎.•*´¨`*•.¸¸.•*´¨`*•.¸¸.•★♥ Hoje venho desejar saúde, paz, amor e muita alegria... FELIZ NATAL!

Beijinhos

Socorro Melo disse...

Oi, Elvira!

A história está empolgante, e estou curiosa para ver o desfecho.
Parabéns pela criatividade!

Grande abraço
Socorro Melo

Olinda Melo disse...


Interessante! Assim a vida vai fazendo com que se cruzem os destinos destas personagens. Para já sabemos que Mara vai estabelecer-se na terra como advogada e que o Jaime está no Seminário. Além disso foram colegas na escola.

Vou já já ler o episódio seguinte...

Bj

Olinda