14.12.12

A HERANÇA - PARTE VI



FOTO DA NET

Três dias depois Mara voltou a pedir à avó a história da Piedade. Esta olhou-a admirada, naqueles três dias a neta levara o tempo no computador. Escrevera algumas cartas, e não perguntara uma só vez pela história. Ela pensava que a neta se tinha esquecido. Mas agora...
- O que queres saber?
- Tudo. Desde que o Zé voltou e foi viver junto com a mulher e a sogra.
- Pensava que já tinhas esquecido essa história...
Ela fez um sinal vago com a mão. E a avó recomeçou a história.
-"Durante uns três meses o Zé realmente parecia outro homem. Foi o tempo que ele levou até descobrir que as economias da sogra não eram grande coisa, visto que o marido antes de morrer, resolvera empregar parte delas na compra do lameiro. Já era um revés para o malandro, mas ainda assim ele precisava saber onde estava o resto. E no mesmo dia em que o descobriu, fugiu de casa deixando as pobres mulheres mais pobres ainda.
Um mês mais tarde, descobriu-se que "o cigano" fora preso na fronteira. A polícia recuperara apenas parte do montante roubado em mais um assalto realizado na última semana.
Piedade arrancou das suas entranhas, forças para ir vê-lo à prisão. Mas quando isso aconteceu, o Zé riu-se. Riu-se dela, do seu amor, da sua ingenuidade, e disse-lhe que só tinha voltado para casa, porque pensava que o estupor da velha tinha bastante dinheiro guardado.
Ela saiu de lá arrasada. Não fora o filho que em segredo carregava no ventre, e teria acabado com a vida, logo ali na saída da cadeia.
A vergonha era tanta, que se meteu em casa e ninguém a via a não ser regando ou sachando lá pelo lameiro. Não veio à vila, nem sequer quando sentiu as dores do parto. Teve o filho sozinha, apenas ajudada pela mãe.
O filho ainda não teria um ano quando a polícia foi de novo a casa da Piedade.
Quando os viu, ela ficou apavorada. Que fora agora? O que é que eles queriam? O Zé não estava preso? Preso? Não. "O cigano" estava morto. Conseguira fugir, ainda não se sabia se com a ajuda de alguém. Conseguira uma arma, não se sabia se roubada, e assaltara uma dependência bancária. Alguém dera o alarme e a casa foi cercada. Depois, numa troca de tiros, uma bala acabara com a sua vida. Um polícia também tinha sido ferido e estava naquela altura a ser operado no Hospital de Coimbra, para onde tinha sido transferido.
Quando eles saíram Piedade, ficou longo tempo parada fitando o vazio, sentindo o coração apertado, mas sem forças para chorar.
O choro do bebé, que acordara fez com que por fim voltasse à realidade.
Durante um bom bocado reinou o silêncio. Arminda acabara as suas tarefas, e aprestava-se para sair. Ocupava uma pequena casa nas traseiras, que noutros tempos servira como arrecadação, mas que o marido transformara numa casa de habitação, quando o patrão morrera, para que a senhora e a menina, que nessa altura era bem pequenina ainda, ficassem sob a sua protecção.
Ajeitou a lenha na lareira, suspirou e pegou no xaile:
- Até amanhã – disse
- Até amanhã – responderam as duas.
O silêncio voltou a reinar na sala. Mara olhava as chamas e parecia perdida nos seus pensamentos. A avó levantou-se:
-Também vou filha. Se deixo passar a minha hora, depois não durmo toda a noite. Não te esqueças de apagar a lareira e verificar as janelas antes de ires para a cama.
Ela levantou-se, enlaçou a avó pela cintura, deu-lhe um beijo na testa, e disse:
- Não te preocupes. Dorme bem. Mas não te esqueças...
- Eu sei, queres saber o resto da história – resmongou a velha senhora.
E saiu, deixando a neta perdida nos seus pensamentos.

                                                   
CONTINUA 

UM BOM FIM DE SEMANA A QUEM POR AQUI PASSAR



 REGISTO  6390/2011
 

ESTA É UMA HISTÓRIA QUE GOSTARIA DE  PODER PUBLICAR EM LIVRO  E QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGISTADA. ESPERO QUE VENHAM A GOSTAR DELA. SERÁ PUBLICADA EM EPISÓDIOS DE 3 EM 3 DIAS. ENTRETANTO INFORMO QUE A HISTÓRIA DO MANUEL NÃO TERMINOU, MAS PRECISO DE MAIS TEMPO PARA AS MINHAS PESQUISAS SOBRE A HISTÓRIA, PELO QUE RETOMAREI A PUBLICAÇÃO LOGO QUE TERMINE ESTA HISTÓRIA.

18 comentários:

lis disse...

Oi Elvira
Mais um capítulo triste que a Mara teima em saber tim-tim por tim-tim rs
e ela faz bem, afinal também é parte da vida dela,
Sem mais palavras sobre o Zé _ ele teve bem o que mereceu!!
Espero pelo próximo Elvira
bom fim de semana
e grande abraço

Maria disse...

Querida Elvira:
Tenho que voltar ao principio da história. Tenho a cabeça num caos. Desgostos e problemas, são desde Abril para cá, diários. Daí, a tensão alta, as dores de cabeça, a falta de concentração. Sabe que adoro as suas histórias, mas ando fugida dos blogues todos, porque não consigo dar atenção ao que leio.
Logo que consiga por a cabeça no lugar, lerei e direi o que penso.
Beijinhos, querida amiga.
Maria

LUZ disse...

Oá, querida Elvira!

Não sei se a personagem "Jaime" voltará a entrar "em palco".
Pois, o Zé Cigano teve aquilo que mereceu.
Mara, continua envolvida nos seus sentires. Aguardemos a continuação.
As descrições das pessoas, gestos e expressões estão muito bem descritas.

Beijinhos.

Kim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kim disse...

Olá Elvira!
O Zé fez muito bem em ter morrido.
Às vezes - o amor tem destas coisas! Está um paspalho À nossa frente e nem disso damos conta.
um beijinho

Paulo Cesar PC disse...

Elvira, a publicação mais difícil de se fazer em um blog é aquela em que seu autor trabalha com narrativas construídas a partir de fatos e acontecimentos, que embora fictícios, são reais por serem exemplares para muita gente. Parabéns.

Francisco Germano Vieira disse...

Amiga

Lá vou acompanhando o seu conto com interesse.

Um bom fim de semana.

AC disse...

Elvira,
Estive a ler a história desde o início, e há aqui matéria muito interessante. O seu estilo narrativo cativa o leitor, prendendo-o à trama da história, desejando ler cada vez mais.
Continue, amiga, não quero perder o que se segue.
Parabéns!

Mariazita disse...

Como não conhecia a história estive a ler desde o primeiro capítulo, e agradou-me muito o que li.
A narrativa está muito bem estruturada; os personagens descritos de forma inteligível, e o enredo é triste, sim, mas muito real.
Crianças ignoradas pelos pais, sentindo, sobretudo, a falta da mãe, mulheres sofridas vivendo situações difíceis, insustentáveis, porque carregam um filho no ventre, fazem parte do nosso dia-a-dia.

Continuarei a acompanhar; mesmo que (por falta de tempo) não comente todas as vezes, virei de três em três dias actualizar a leitura.

Desejo a si e todos os seus um santo e feliz Natal.
Um abraço

FireHead disse...

Eis o fim do Zé. Ainda estou à espera para saber se o Jaime sempre volta a aparecer ou não. :)

Bom fim-de-semana!

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Hoje passando para agradecer a presença carinhosa no dia do meu aniversário.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

O enredo adensa-se à medida que a história, muito bem doseada, avança - despertando o interesse pelo querer saber o que virá a seguir.Que, ao que parece, terá muito mais drama e surpresas do que do que à primeira vista poderá parecer...Será?

Bom fim de semana; abraço amigo; e obrigado pelas palavras simpáticas.

Vitor

rosa-branca disse...

Cá estou para a continuação do seu livro e adorei. O mistério será pois o Jaime... Adorei. Beijos com carinho

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Muito bem apresentada a miséria moral do Zé em contraste flagrante com a grandeza da Piedade.

Bom domingo

Georgia Aegerter disse...

Elvira, se vc nao gosta de manteiga, faca com margarina. Olha, eu usei apenas meia colher de chá de manteiga para 3 rabanadas. O segredo é a frigideira antiaderente, tipo teflon. Observe lá na minha foto.

E sabe, como a manteiga é tao pouco nao se sente o sabor dela. O bom é que nao é fritura, fica muito leve o sabor epara nós que já temos uma certa idade é mais saudavel assim. Minha mae tb fez algumas vezes rabanada com vinho e assim como vc eu tb nao gostava, aliás nao gosto até hoje. prefiro mesmo as feitas com leite.

Experimente e depois me conte.

Te desejo uma linda e aconchegante noite de nata. Bencaos para o novo ano, pois sem bencaos a gente nao vive.

Um grande beijo e muito obrigada pelo carinho da tua amizade.

Georgia Aegerter disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
aflores disse...

Um bem-haja pela partilha.

Aproveito para desejar um Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

Tudo de bom.

Olinda Melo disse...


A morte do Zé fará com que a Vida de Piedade leve uma reviravolta?

Vou passar ao episódio seguinte...

Bj

Olinda