12.12.12

A HERANÇA - PARTE V




 Horas mais tarde, no seu quarto Mara tirou a carta do bolso, e finalmente abriu-a. E leu:

"Mara, como não deste notícias desde que estás com a tua avó, permite-me lembrar que a minha festa de aniversário é no próximo sábado, e espero a tua presença."

Assim fria, quase telegráfica, sem qualquer alusão ao parentesco que as unia era a carta da mãe. Mara sorriu, mas nesse sorriso não havia alegria. A mãe não estava preocupada com ela, nem com o seu bem-estar.  Estava preocupada, que ela se esquecesse da sua festa. A mãe sempre fora assim. Nunca soubera lidar com os problemas, como também nunca soubera lidar com a filha. Mara não se lembrava do pai. Falecera de enfarte aos vinte e sete anos, quando Mara contava 18 meses. A mãe ficara desorientada, e a sogra fora buscar a menina para sua casa. A mãe entregou a filha com algum alívio. Ela não tinha a certeza de ser capaz de cuidar da filha.
Jovem, e bonita Júlia não ficou muito tempo carpindo a viuvez. Mara tinha acabado de completar quatro anos, quando a mãe se casara de novo.
Nessa altura, Mara pensou que a mãe a vinha buscar, mas enganou-se. O marido era um homem de negócios, viajava muito, e não era aconselhável para uma criança essa vida. Com esse argumento, a filha continuou em casa da avó, e ela podia levar a vida fútil que tanto desejava.
A jovem rasgou a carta, e dirigindo-se à cómoda, pegou numa moldura, em que se via um casal jovem com uma bebé ao colo e olhou-a por momentos. Fechou os olhos e tentou imaginar como teria sido a sua vida se o pai não tivesse morrido tão jovem. Decerto não se teria sentido tão só durante toda a sua infância. As recordações atropelavam-se na sua mente, e ela viu-se no pátio da escola. Viu um grupo de meninas e meninos brincando no recreio, e viu-se sozinha, sentada no canto. Ela não era criança de vir brincar para a rua, só se viam no pátio da escola, e além disso morava na casa grande, era menina fina. Por isso as outras crianças não iam buscá-la para brincar. E lembrou-se de Jaime. Jaime era um menino lindo, mas estava sempre sozinho como ela. A ele também não iam buscar para brincar. Um dia foi até ele e perguntou:
- Não vais brincar?
Ele levantou para ela os mais belos olhos verdes que já vira e disse elevando a voz.
- Não.
Virou-lhe as costas. Ela ficou a olhar para ele. Estava limpo, mas não vestia roupas como as suas. Os pais deviam ser da aldeia. Então porque não brincava com os outros meninos?
Algum tempo depois quando ela já fizera amizade com os outros meninos, e brincavam no recreio, Mara voltou a ver o menino sozinho. Largou a roda e foi até ele.
- Vem brincar
- Não.
E de novo lhe virou as costas.
A jovem pousou a moldura, abriu a janela, e sem reservas deixou que as recordações a invadissem.
Naquele dia era a festa de Natal. Mara ia recitar um poema, alusivo ao Natal, e ia fazer de anjo na representação do nascimento do Menino Jesus. Mais do que contente, ela estava orgulhosa de ter sido escolhida. A mãe prometera que viria a tempo de assistir à festa, e ela estava muito feliz.
Era a primeira vez, desde que voltara a casar, que a mãe prometera passar o natal com ela e a avó. Porém a mãe não chegou até à hora da festa. Desiludida, mas ainda pensando que a mãe ia chegar a qualquer momento, ela recitou sem se enganar, o pequeno poema que lhe fora atribuído. Depois, foi vestir o fato branco e colocar as asas para o papel de anjo no quadro do nascimento que encerrava a festa.
Esperançada em ver a mãe chegar, saiu para o pátio. Mas cá fora estava tudo em silêncio. Mara sentou-se num degrau e deixou brotar a sua tristeza em grossas lágrimas.
Sentiu que alguém se sentava a seu lado.
- Porque choras?
Antes de olhar sabia que era o Jaime. Olhou e viu naqueles extraordinários olhos verdes a mesma interrogação
- Porque estou triste, porque a minha mãe não gosta de mim, porque nunca me vem ver.
- Não chores. Meninas bonitas não choram.
 Estendeu a mão, endireitou-lhe as asas e disse baixinho.
- Vai para dentro. Se o anjo não faz o anúncio, o Menino não nasce. E tu não queres isso pois não?
Ela fez um sinal negativo com a cabeça. Não se atrevia a falar tão surpresa estava com a súbita amabilidade do rapaz. Ele passou-lhe o indicador pelo queixo e disse:
- Entra.
Ela obedeceu, mas por mais que o procurasse com o olhar durante a récita, nunca o encontrou.



REGISTO  6390/2011

 
CONTINUA 

ESTA É UMA HISTÓRIA QUE GOSTARIA DE  PODER PUBLICAR EM LIVRO  E QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGISTADA. ESPERO QUE VENHAM A GOSTAR DELA. SERÁ PUBLICADA EM EPISÓDIOS DE 3 EM 3 DIAS. ENTRETANTO INFORMO QUE A HISTÓRIA DO MANUEL NÃO TERMINOU, MAS PRECISO DE MAIS TEMPO PARA AS MINHAS PESQUISAS SOBRE A HISTÓRIA, PELO QUE RETOMAREI A PUBLICAÇÃO LOGO QUE TERMINE ESTA HISTÓRIA.


 

15 comentários:

Luis Eme disse...

bonito e sensível.

abraço Elvira

Olinda Melo disse...


Uma agradável surpresa...A história da Mara, que me parece também muito interessante, dentro da história de vida da Piedade.

A Mara, com uma infância não muito feliz, ansiando pela presença e amor da mãe e sentindo-se desintegrada do seu ambiente escolar. Isso acontece muito, infelizmente.

Será que o futuro lhe reserva algum conforto com a amizade de Jaime?

Bjs

Olinda

António Querido disse...

OLÁ amiga Elvira!
Passei, li, e como sempre gostei!
Deixo o meu abraço

Lídia disse...

BOA TARDE ELVIRA!!!

BONITO TERNURENTO, E SENSÍVEL, O SEU TEXTO!!!

1 BEIJO LÍDIA

Mar Arável disse...

Venha daí
o nosso livro

Maria Rodrigues disse...

Minha amiga estive a ler os capitulos anteriores para continuar a seguir a sua história. A Piedade pode ter tido uma vida dificil, por ter gostado de um homem de mau caracter, mas hoje fiquei também com muita pena da Mara, nem consigo imaginar a tristeza da menina sem o carinho da mãe. Uma infãncia de solidão, pois por muito amor que a avô desse, faltava sempre o afago e carinho da mãe.
Beijinhos
Maria

lis disse...

Oi Elvira
Li o capitulo anterior porque nao cheguei a tempo e entendi nem _ só fiquei triste com o desfecho do amor de Piedade.
E o de hoje um pouco triste tambem pela menina Mara que nao tem na mãe a amiga que precisava,
tomara surja algo bom pra ela rs
abraços Elvira,
e obrigada pelo carinho

Luma Rosa disse...

Jaime é um anjo, um amiguinho imaginário ou alguém bem real? Muito curiosa para conhecer toda a história que cerca a vida de Mara.
Bom restinho de semana!! Beijus,

Socorro Melo disse...

Oi, Elvira!

Li agora, de uma tirada só, as cinco partes da história, e estou empolgadíssima para saber o que aconteceu com Piedade, qual o segredo escondido por trás da sua história, qual o interesse de Mara, quem é Jaime, enfim...

Uma bela história, viu!

Beijos
Socorro Melo

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

História com gente triste, como por vezes é triste a vida, mesmo em tempo de Natal.Oxalá acabe bem!

Abraço
Vitor

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Tenho acompanhado a tua história, embora não tenha deixado comentário. Tenho andado um pouco ausente dos blogs por vários motivos, mas tenho vindo de vez em quando e cá estou à espera de ver o próximo capítulo. A Mara, coitada, também não tem tido grande sorte, pois falta-lhe o carinho da mãe, mas, acredito que será feliz. Vamos ver!!! Beijinhos, amiga e desculpa a ausência. Fica bem!
Emília

MARILENE disse...

Como é triste a frustração das crianças que aguardam, ansiosamente, a presença de mãe ou pai! Crescerão com enormes vazios, lutando por preenchê-los ao longo da existência.
Espero que o novo amiguinho seja um anjo protetor. Bjs.

rosa-branca disse...

Olá amiga Elvira, amei demais a história, pois a amiga tocou-me na ferida sem querer. Também eu era posta de lado para brincar. Também eu ia vestida de anjo. Também eu estava com a minha avó e também eu chorei, porque a minha mãe nem se dignou a aparecer. Só eu não tive uns olhos verdes para me olhar. Desculpe amiga emocionou-me com a história e quando estiver em livro eu quero e com o seu autógrafo. Fico à espera da continuação. Mesmo que queira dar seguimento à história, não posso dar, pois a minha história de vida é bastante magoada. Beijos com muito carinho

FireHead disse...

Cá para mim, o Jaime ainda vai voltar a entrar na vida da Mara e não será apenas para uma relação de amizade. :)

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Mais uma menina "sem" mãe, embora, biologicamente ela existisse.
Traumas e frustrações próprias de situações similares.
Vamos ver, então, onde paravam, os olhos verdes de Jaime.
Até já.

Beijinhos.