9.12.12

A HERANÇA PARTE IV



A velha senhora agarrou no copo e bebeu o sumo de laranja. Depois de olhos fitos na serra, que se perdia no horizonte retomou a história.
- Aquela foi a primeira sova, mas não a última. O Joaquim não admitia o namoro da filha. Mas Piedade era tinhosa. E como já deves ter ouvido, fruto proibido tem muito mais sabor. Tenho para mim, que se o pai, não se tivesse oposto tanto, se calhar aquilo não passaria de um namorico. E uma certa noite, ela juntou meia dúzia de vestidos, certificou-se de que os pais tinham adormecido, e fugiu de casa com o Zé.
Voltaram 15 dias depois. Pensavam que o pai, por vergonha os aceitaria. Mas não foi assim.
Joaquim escorraçou-os como se fossem animais. Morreu naquele maldito acidente que vitimou também o teu avô, sem nunca ter perdoado à filha.
Entretanto Piedade fora viver com o marido num quarto alugado. Estava tão apaixonada, que se sentia a mulher mais feliz da terra. Porém a sua felicidade não durou muito. À medida que o tempo passava sem o Joaquim perdoar à filha, o feitio do Zé, ia-se alterando. Depressa começaram as brigas. Do rapaz meigo, carinhoso que ela conhecera, não havia rasto. O homem que vivia com ela era preguiçoso, passava os dias entre a cama e a taberna. Quando ela lhe disse a chorar que não tinham dinheiro para pagar o quarto, ele encolheu os ombros, e disse-lhe que ela era uma imprestável, que não servia sequer para arrancar ao pai o dinheiro a que tinha direito como filha única. E saiu, deixando-a a chorar. Passou-se algum tempo mais, e um dia o Zé, não veio dormir em casa. No dia seguinte também não, e na manhã do terceiro dia a polícia apareceu por lá.
Ao vê-los Piedade pensou que o seu Zé tinha sofrido algum acidente. Mas os polícias pareceram não se importar com a preocupação dela. Eles vinham em busca dum meliante, conhecido pelo nome de guerra "o cigano" que era acusado de ter assaltado uma ourivesaria em Viseu, e ter fugido num carro roubado, depois de maltratar o dono. As investigações conduziram-nos ali. Ela não sabia de nada. Não via o seu Zé há três dias. Quando por fim convencidos que ela nada sabia, se foram, ela julgou morrer de vergonha e dor. Quando a senhoria lhe disse uma semana depois que ele tinha sido preso, Piedade já não tinha mais lágrimas para chorar.
O Zé não ficou preso muito tempo. Teve várias atenuantes. O ser réu primário, o ter sido resgatado o produto do roubo na sua totalidade, o seu bom comportamento na prisão, e o indulto pela visita a Portugal do Papa Paulo VI, cedo o trouxe de volta.
Quando isso aconteceu, já o Joaquim do Outeiro, tinha morrido, e a Piedade vivia com a mãe.
Foi lá que o Zé se foi instalar. A princípio parecia ter mudado. Como se a vida da prisão lhe tivesse feito bem. Mas tudo não passava de um jogo. Ele pensava, que os sogros tinham dinheiro amealhado em qualquer sítio, e estudava a maneira de se apropriar dele. Para ganhar a confiança das duas mulheres, ele levantava-se cedo, e trabalhava no campo, regando, sachando, semeando o lameiro, que se julgava ser arrendado ao teu avô, mas cuja venda ele assinara no cartório, precisamente no dia da sua morte.
- Não é difícil enganar duas mulheres carentes – disse Mara
- Especialmente se essas mulheres são ingénuas e ignorantes da maldade, – respondeu a avó
 Pela estrada que dava acesso à casa, surgiu uma mota. Era o carteiro que pouco depois parava junto ao alpendre saudando:
- Bons dias
- Bons dias – responderam as três mulheres, pois Arminda já se encontrava ao fundo das escadas, para receber o correio
- Trago uma carta registada para a menina Mara.
 Esta levantou-se e descendo os degraus, assinou o recibo que ele lhe estendia com mal disfarçada admiração.
- Aqui está.
- Obrigada. - Olhou o remetente. -É da mãe disse simplesmente, e guardou a carta no bolso das calças.
- Até amanhã – disse o carteiro fazendo arrancar a mota.
- Não vais ler? - Admirou-se a avó
- Mais logo. Agora por favor continua.
- Que coisa filha. Parece que estás obcecada. Será que estás a pensar escrever a história?
Seja como for, hoje não conto mais nada. É quase hora de almoço.
E levantando-se deu a conversa por terminada. Mara não insistiu. Sabia quando devia dar-se por vencida.



REGISTO  6390/2011

 
CONTINUA 

ESTA É UMA HISTÓRIA QUE GOSTARIA DE  PODER PUBLICAR EM LIVRO  E QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGISTADA. ESPERO QUE VENHAM A GOSTAR DELA. SERÁ PUBLICADA EM EPISÓDIOS DE 3 EM 3 DIAS. ENTRETANTO INFORMO QUE A HISTÓRIA DO MANUEL NÃO TERMINOU, MAS PRECISO DE MAIS TEMPO PARA AS MINHAS PESQUISAS SOBRE A HISTÓRIA, PELO QUE RETOMAREI A PUBLICAÇÃO LOGO QUE TERMINE ESTA HISTÓRIA.

13 comentários:

Luis Eme disse...

grande "folhetim"!(apetece continuar a ler)

abraço Elvira

vieira calado disse...

Quando vier a Lagos, logo vai à Mata de Barão.
Leve um lanche, sente-se no Parque das Merendas, repouse naquela bela paisagem e vá ver as pedras, no Passeio dos Poetas, que é logo ali.
Beijinho para si!

Mariazita disse...

Hoje venho convidar-te a visitar o meu blog
HISTÓRIAS DE ENCANTAR
, onde, excepcionalmente, acabo de publicar um post.
Desde já fico muito grata.
Beijinhos

PS - No próximo dia 14 haverá post novo em A CASA DA MARIQUINHAS

São disse...

Fico esperando...

beijinhos, muitos - para partilhar com a neta, rrss

António Querido disse...

São histórias de vidas, em tudo semelhantes à realidade, estou à espera duma com final feliz...Gosto mais! Mas minha amiga, devo confessar que estou a ficar fã das suas histórias.
Aqui fica o meu abraço

FireHead disse...

Quantas e quantas mulheres que não se apaixonam pelos homens errados... Naqueles tempos acredito que era tudo bem pior, mas as separações pareciam ser tabus e muitas levavam porrada em silêncio (faz-me lembrar a série Grabriela, onde os homens podem fazer tudo e mais alguma coisa e as mulheres são umas submissas). Hoje em dia, infelizmente, a violência doméstica continua a ser uma realidade e continuam a morrer muitas mulheres vítimas disso todos os anos... mas também há homens vítimas de violência doméstica e acredito que não são muitos os casos denunciados porque muitos têm vergonha de o dizer.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Este enredo vai ficando cada vez mais denso, e a história cada vez mais misteriosa...

E só nos resta esperar por mais!

Abraço amigo, boa semana
Vitor

edumanes disse...

Poderia ser uma historia imaginada, Mas credito que seja verdadeira. Às vezes a gente pensa que só acontecem aos outros. Mas nem sempre é assim.
As vítimas são sempre as pessoas, que sendo sérias se deixam enganar, por aqueles que só pensam na maldade que onde causar a quem neles confiar. Assim como aconteceu com a Piedades, e continuará a acontecer com outras pessoas, por que a maldade, essa maldita nunca terá fim!...

Boa terça-feira para você,
amiga Elvira,
um abraço
Eduardo.

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

O seu conto/história continua muito interessante e com muito boa sequência na ação.
As personagens "saltitam", nas suas mãos e no seu cérebro, naturalmente.
Esta história não teve como base nenhum caso parecido, de que tenha ouvido falar?
Ontem, a avó de um aluno meu, contou-me uma semelhante, mas o desfecho foi tétrico.

Os pais nunca, ou raramente, se enganam, a respeito destas e doutras coisas, em relação aos seus filhos/as.

E o que dirá a carta da mãe da Mara?

Beijinhos para todos.

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Elvira

Continua a cativar-me com a narrativa desta sorte má que é a da Piedade.

Beijos

Mariazita disse...

Eis a resposta ao teu comentário que deixei no blog
HISTÓRIAS DE ENCANTAR

Eu é que agradeço, amiga Elvira, e peço desculpa pelo contratempo.
Estava uma definição errada nos "comentários", que já rectifiquei.

Uma feliz semana. Beijinhos
10 de Dezembro de 2012 13:47

Graça Pereira disse...

Uma história que despertou o meu interesse, como tu o sabes fazer bem...Como acabará tudo isto?
Penso que a carta da mãe vai trazer muitas novidades à Mara. Será?
Beijocas e boa semana.
Graça

Olinda Melo disse...


Pobre Piedade, vai de desilusão em desilusão... Quer parecer-me que as decepções ainda não acabaram.

E o interesse da Mara continua e o nosso também. :)

Bjs

olinda