7.12.12

A HERANÇA - PARTE III



Durante todo o tempo que durou a Missa, Mara manteve-se em silêncio ao lado da avó. Esta participava na celebração, recitando em voz altas as preces, e até cantando os salmos, com a naturalidade de quem o fazia todos os dias. E a verdade é que ela não se lembrava de uma única vez que a avó faltasse à Missa. Às vezes, perguntava-se se ela o fazia por devoção ou por rotina.
- Vamos em paz, e que o Senhor nos acompanhe – terminou o velho sacerdote, traçando no ar o sinal da Cruz.
- Graças a Deus, – responderam os fiéis persignando-se
Cá fora, a avó apertou o casaco, acenou a duas ou três pessoas, e deu o braço à neta. Esta apressou-se a conduzi-la ao carro. A distância até casa era pequena, mas ela convencera a avó a vir de carro. Fora difícil. A avó argumentava que estava habituada ao caminho, que andar fazia bem ao coração, e que até parecia ostentação ir de carro. Ela resolvera empregar os métodos da avó, e dissera:
- Ou de carro, ou não vou
E a avó subira resmungando para o automóvel.
Estacionou o carro debaixo do pequeno alpendre e ajudando a avó a sair disse:
- Vou trocar de sapatos. Quero que me contes a história da Piedade. Promessa é promessa.
 A velha senhora entrou em casa, pousou o missal e dirigiu-se ao quarto pensativa. Trocou o casaco que levara à Missa, por um xaile de caxemira, e saiu para o alpendre. O frio matinal desaparecera com o avançar da manhã. A neta já aí se encontrava. Balouçava-se na cadeira de olhos fechados. Ao sentir a avó sentar-se, abriu os olhos e olhou-a na expectativa.
- Porquê tanto interesse? Quantas vezes já te contei essa história? - Perguntou
- Algumas avó. Mas por favor conte de novo
A velha senhora suspirou e depois começou lentamente:
 - Quando o Zé Bento apareceu na terra, Piedade era uma moça muito bonita. Filha única do Joaquim do Outeiro, um homem rude e muito severo, que não deixava a filha pôr o pé em ramo verde. Uma noite de Santo António, conheceram-se no baile, a que o pai acabara por a deixar ir depois de avisar a mulher, que iam ver o baile, mas que não queria que a deixasse dançar. A mãe coitada lá foi com a filha, e nessa noite Piedade conheceu o Zé, e pior que isso dançou toda a noite com ele. Quando o pai soube, prendeu-a em casa, e ameaçou que se soubesse que voltava a encontrar-se com o desconhecido, desancava os dois à pancada. A filha porém arranjou maneira não se sabe bem como de continuar a ver o Zé. E à noite depois dos pais se deitarem, vinha para as traseiras da casa encontrar-se com ele. A terra não é muito grande hoje, imagina naquele tempo. E em terra pequena tudo se sabe. Não tardou que o Joaquim viesse a saber dos encontros secretos da filha. Nessa noite, mal a filha saiu, o Joaquim levantou-se, pegou na caçadeira, e saiu no seu encalço. Estava disposto a matar o "malandro". Na verdade, por essa altura, o Zé já tinha granjeado uma fama nada lisonjeira. Dizia-se em surdina que era um foragido, que já tinha praticado vários furtos, e que só não tinha "ido dentro" porque era muito esperto, e conseguira colocar a culpa noutras pessoas. Nunca cheguei a saber se era verdade, ou se eram invenções do povo que não gostava dele. Foi por essa altura que uns ciganos acamparam por detrás do cemitério, e como o Zé foi visto por lá algumas vezes, logo lhe puseram a alcunha de "o cigano" Ora naquela noite o Joaquim estava decidido a acabar com o Zé, mas ou porque estava muito escuro, ou porque tivesse medo de ferir a filha, que se pusera entre a arma e o rapaz, o certo é que o tiro do Joaquim foi para o ar, enquanto o Zé fugia espavorido.
Foi a primeira vez, que o Joaquim bateu na filha. E se a sova não foi maior, foi porque o teu falecido avô, e o António, que vinham da taberna do Luís Rouxinol, ouviram os gritos e interromperam batendo desalmadamente à porta. Naquela altura o lameiro que o Joaquim cultivava era arrendado ao teu avô e o Joaquim tinha-lhe muito respeito.
Mara não se atrevia a interromper a avó. Esta calou-se por momentos enquanto Arminda colocava em cima da mesa um jarro com sumo de laranja acabado de fazer, e dois copos.
Quando ela se afastou, pegou num copo e mirando-o entre os dedos, pediu:
Continue Avó...


REGISTO  6390/2011
 
CONTINUA 
ESTA É UMA HISTÓRIA QUE GOSTARIA DE  PODER PUBLICAR EM LIVRO  E QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGISTADA. ESPERO QUE VENHAM A GOSTAR DELA. SERÁ PUBLICADA EM EPISÓDIOS DE 3 EM 3 DIAS. ENTRETANTO INFORMO QUE A HISTÓRIA DO MANUEL NÃO TERMINOU, MAS PRECISO DE MAIS TEMPO PARA AS MINHAS PESQUISAS SOBRE A HISTÓRIA, PELO QUE RETOMAREI A PUBLICAÇÃO LOGO QUE TERMINE ESTA HISTÓRIA.

20 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Ora pois ...
Estava muito atento que nem dei pelo final.
Fico a aguardar por muito mais que parece haver por aí no cabaz das recordações...

Georgia Aegerter disse...

Elvira, corra atrás de uma editora ai em Portugal. Você escreve muito bem.

Seu comentario na Saia:

Isso mesmo Elvira. Muita gente arruma o presépio somente nesta época do ano. Eu penso que o presépio tem que fazer parte de todos os dias da nossa vida.

Beijos

ana costa disse...

A sua escrita minha amiga levanos para lá da nossa imaginação...
è pena que as editoras não possam dar o seu contributo para a divulgação de talentos como o seu
Bj e bom fim de semana

Dulce disse...

E aqui continuamos nós à espera da continuidade da história...

Um abraço, Elvira, e um ótimo dia para você.

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Tempos diferentes estes aqui descritos: com sabor a amores proibidos, defesa da honra e bom nome da família.

E eu cá fico à espera de saber que rumo esta história que promete vai tomar...

Abraço amigo, bom fim de semana.
Vitor

FireHead disse...

Naqueles tempos os padres terminavam a missa dizendo "Vamos em paz que o Senhor nos acompanhe"? Isso foi nos tempos em que vigorava a Missa Tridentina, pré-Concílio Vaticano II, supostamente em latim? Hoje, nas missas ditas modernas, a celebração acaba com um "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe".

Bom fim-de-semana!

Luma Rosa disse...

Elvira, me deixou na ansiedade para ler o restante da história.
A rotina alimenta a devoção, assim como as ladainhas ou rezas, funcionam como mantras. Se por devoção, não é necessário sentir prazer, afinal, segundo a religiao, precisamos nos sacrificar para perceber até onde o prazer domina os nossos pensamentos. Um certo auto controle se faz necessário. Bem, confesso que desde menina, acho graça no "Graças à Deus", o que dissemos quando algo dá certo. Enfim, terminada a crônica, fico no aguardo na sua desenvoltura.
Elvira, a vida anda tumultuada por aqui e estou tentando manter as visitas aos bloggers amigos em dia. A começar pelo seu!!
Bom fim de semana!! Beijus,

Fátima Pereira Stocker disse...

Bom dia, Elvira, em dia de N.ª Senhora da Conceição

Tenho a certeza de que havia (há?) pais assim. Graças a Deus, só os conheço da literatura e dos filmes.

Bom fim-de-semana

LUZ disse...

Olá, estimada amiga!

A história, que nos está a contar, a narrar, continua muito bem encadeada, com um excelente e interessante diálogo e correta pontuação.

Gostei muito de algumas frases, passagens do seu texto, especialmente, os diálogos.
Parece qie estamos dentro da ação, que participamos dela, não só como leitores, mas também como "personagens".

Interessantíssima a curiosidade da neta, em relação à história, que a avó tantas vezes já lhe contara.

Os tempos eram outros, e como tal as mentalidades e os processos de atuação e resolução de determinadas situações era também bem diferentes, dos de agora.

Parabéns, mais uma vez, pela sua fértil imaginação, criatividade e encaixe de personagens e assuntos.

Bom fim de semana. Temos sol, em Lisboa.
Beijinhos para todos e um, em especial, para a Nita.

Nilson Barcelli disse...

Estou a gostar imenso da tua história.
Não só pela narrativa, que é magnífic, mas também pelo conteúdo.
Continua...
Elvira, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Estou a gostar muito da história que está muito bem escrita e que de certeza que ainda vai parar num belo livro.


Beijinho com carinho
Sonhadora

Francisco Germano Vieira disse...

Texto com a qualidade habitual, vou fazer os possíveis por ir acompanhando o seu desenrolar.

Bom fim de semana.

lis disse...

Oi Elvira
Um bom rumo a história vai tomando,
O Joaquim já está me saindo um tirano, batendo na filha, vamos ver quem sai na frente e se ela o obedecerá rs
Parabéns Elvira
meu abraço

vendedor de ilusão disse...

Por vezes, as estórias que ouvimos são tão significativa, nos atraem tanto, que não nos cansamos de ouvi-las. Achei essa parte do Conto fabulosa...,muito expressiva; de modo que, além de suscitar desejo de ler as anteriores, não quero perder as partes que, pelo que disseste, ainda virão. Parabéns Elvira, suas narrativas são envolventes, dignas de elogio.
Um abraço, bom domingo e uma ótima semana.

Kim disse...

Amiga Elvira
Percebe-se perfeitamente que, não sendo uma estória de princesas, não terá um final feliz.
Beijinho e bom fds.

Teté disse...

Li este e os dois capítulos anteriores e estou a gostar da história.

E acho que deves manter o teu sonho em publicar esta ou outras histórias. Mas tanto quanto me é dado perceber, as grandes editoras atualmente só publicam livros de escritores que garantam vendas. Nas pequenas não sei bem como funciona - alguns amigos têm publicado contos ou poesia - mas a "visibilidade" é reduzida ao seu círculo de familiares e amigos... nem sei se pagam parte da publicação!

Esta opinião não serve para te desmotivar, antes pelo contrário: importante é não desistir, nunca se sabe se amanhã o mundo não dá uma reviravolta...

Beijinhos!

FireHead disse...

Permita-me, Elvira, responder à sua amiga Luma Rosa.

As rezas e ladainhas não são como mantras, não. Mantras são "repetições vãs". Não se compara o Cristianismo ao paganismo.

De facto, as "religiões" que pedem e exigem sacrifícios são as de base gnóstica, as que pedem aos seus crentes a meditação como forma de alcançar a harmonia/luz, prescindindo dos prazeres da vida e calando os seus próprios sentidos. E a Gnose é apenas e só a inimiga mais mortal da Igreja, que tanto pode ir do ascetismo total (que é que o dizia anteriormente) como à bodega da gandaia cósmica. Essa ideia de que a Igreja é contra o prazer, ou o sexo, ou a riqueza, o desenvolvimento, a ciência, etc. são artifícios criados pelos detractores anticristãos.

Por fim, se de facto é de achar graça que nos lembremos de Deus quando as coisas nos correm bem, também não deixa de ter a sua graça o facto de haver quem não acredite em Deus por existir miséria, doenças ou guerras no mundo. É a lógica da batata.

Beijinhos.

Leninha disse...

...e eu te digo como a Mara à avó; "continua, Elvira"...pois no melhor da história tu paras e nos deixas ansiosas a esperar o desfecho. Não demora, por favor, amiga querida!

Bjsssss,
Leninha

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Lembro-me de quado pegava um romance para ler e, se gostava, não queria deixar para depois...queria continuar até ao fim. Assim está, este verdadeiro romance. Há que ser publicado!
Aguardo, o próximo episódio.
Produtiva semana, Elvira.
Um abraço.

Olinda Melo disse...


O Zé Bento escapou de boa...vamos lá ver se a sorte continua a sorri-lhe.

Um enredo que já começa a envolver-nos e a sua forma de escrever contribui para a que a história nos 'agarre' deste o primeiro momento.

Bjs

Olinda