4.12.12

A HERANÇA - PARTE II



O dia seguinte amanheceu seco e frio. Mara acordou cedo. Saltou da cama, e dirigiu-se à janela. Esta não tinha persianas, como a sua casa da cidade.  Tinha um portal  de madeira, no interior dos vidros. Abriu esse portal, e viu o dia lindo que estava lá fora. Tentando respirar o ar puro abriu um pouco a janela de vidro e um arrepio de frio percorreu-lhe o corpo. Voltou a fechar a janela, ao mesmo tempo que decidia estar na hora do duche.
Meia hora mais tarde apresentava-se na cozinha para o pequeno-almoço. Era uma jovem muito bonita. Alta, magra, de longos cabelos negros, pele morena. No rosto destacavam-se duas coisas, a boca pequena e carnuda, e os grandes olhos escuros. Vestia calças de ganga, cingidas ao corpo, e uma camisola de gola alta branca, que acentuava a cor da sua pele.
- Bom-dia, – saudou alegre.
- Bom-dia, – responderam as duas mulheres ao mesmo tempo
Eram duas mulheres idosas. Uma era a avó. Uma simpática anciã de ar franzino, mas que possuía apesar da idade, uma força de vontade, que o seu aspecto físico não deixava adivinhar. A outra, uns anos mais nova, era a velha empregada da casa e era o oposto da avó.
Forte de físico, e sem vontade própria.
- Está um lindo dia. Nem parece que ontem esteve a chover, todo o dia, – disse a jovem enquanto se sentava.
- Quando saíres, e o cheiro a terra molhada te invadir, vais lembrar da chuva de ontem, – disse a avó.
A jovem pegou numa torrada que a empregada acabara de lhe colocar na frente, e levou-a à boca. Deu-lhe uma dentada, e fechou os olhos deliciada.
- Hum! Que bom. Ninguém consegue fazer torrada como tu, Arminda.
- Bondade sua, menina.
- Ontem vi a Piedade. Parece que desceu do comboio – disse ela, olhando a avó.
- Coitada! - Murmurou a avó
- Ainda...
- Sim, – respondeu a avó adivinhando a pergunta.
- Avó contas-me de novo essa história? - Perguntou levando a caneca do leite à boca
- Só se me acompanhares à Missa.
- Isso é chantagem avó, – protestou rindo
- Se não for assim, nunca me acompanhas; - respondeu rindo também.
- Bom dia
Um homem alto de aspecto robusto entrou na cozinha, trazendo um braçado de lenha que depositou junto da lareira. Era António, o marido de Arminda. Ele era o faz-tudo daquela casa. Tratava da pequena quinta, e dos animais. Era ele também quem podava as árvores de fruto, fazia a vindima, arrancava as batatas, semeava o milho, e vendia para o mercado o que tinham em excesso. Quando o trabalho apertava, contratava Joaquim, um sobrinho que nunca tivera jeito para mais nada, senão para trabalhar no campo, e ele vinha ajudá-lo. O rapaz ficava contente, porque o tio sempre pagava bem, e ele ficava descansado, porque sabia que o sobrinho era trabalhador, e era de confiança.
Da sua rotina fazia parte o levar todas as manhãs, lenha para a lareira.
- Bom-dia, António. A lenha está seca. Vejo que a chuva não te surpreendeu, – disse Mara
- Ora menina, tenho sempre alguns troncos recolhidos na adega – disse ele
- És um homem previdente.
E rindo saiu da cozinha. 



REGISTO  6390/2011

 
CONTINUA 

ESTA É UMA HISTÓRIA QUE GOSTARIA DE  PODER PUBLICAR EM LIVRO  E QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGISTADA. ESPERO QUE VENHAM A GOSTAR DELA. SERÁ PUBLICADA EM EPISÓDIOS DE 3 EM 3 DIAS. ENTRETANTO INFORMO QUE A HISTÓRIA DO MANUEL NÃO TERMINOU, MAS PRECISO DE MAIS TEMPO PARA AS MINHAS PESQUISAS SOBRE A HISTÓRIA, PELO QUE RETOMAREI A PUBLICAÇÃO LOGO QUE TERMINE ESTA HISTÓRIA.





21 comentários:

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Mais uma estória que vou seguir com agrado, voltarei para o próximo capitulo.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um texto diferente daqueles que costumo ler por aqui.
Parece que este está ainda melhor.As personagens falam e movimentam-se tornando a história numa vida actual.

Luis Eme disse...

bem escrita esta herança.

abraço Elvira

Fátima Pereira Stocker disse...

A Elvira sabe muito bem como inserir a quebra da narrativa na altura da curiosidade. Cá voltarei para saber mais...

Beijos

FireHead disse...

Na semana passada estive a conversar com a minha avó de 92 anos lá na santa terrinha. Ela lá anda, toda rijinha e lúcida, fruto dos seus fortes genes. Adoro-a e tenho nela a imagem duma mulher sofrida, mas feliz, humilde e devota a Deus e à Sua Santa Igreja.

E por falar em Igreja, a propósito do que li no seu texto, é impossível não estabelecer um paralelo fiel com o que acontece na realidade, o afastamento - apostasia - da Igreja por parte das pessoas, nomeadamente os mais jovens. Gente que, sem valores nem princípios, ou que os contrariam em nome das suas paixões, modas e tendências, caminham perdidamente sem rumo. Como muito bem dizia o Pe. António Vieira, antigamente baptizava-se os convertidos e hoje é preciso converter os baptizados.

Eu sou um bicho citadino por natureza, mas às vezes sabe tão bem procurar refúgio na aldeia, ao pé da natureza, ao pé dos bichinhos e sobretudo ao pé de quem nos ama e tanto bem nos quer.

Beijinhos.

FireHead disse...

Errata: no lugar de "Gente" queria escrever "pessoas". Sei que é um sinónimo, mas os verbos foram conjugados no plural.

António Querido disse...

Esta história retrata na perfeição, a vida cotidiana dos antigos camponeses e que ainda hoje existe nalgumas aldeias do interior, menos desenvolvido...É bom lembrar aos jovens que não podem ficar de braços cruzados à espera de subsídios do Estado, porque se arriscam a ver a sua vida voltar ao 24 de Abril de 1974, boa inspiração! Fico a aguardar os próximos capítulos.
O meu abraço

Maria Rodrigues disse...

Minha amiga terei muito prazer em vir conhecer a sua história, adorei a forma como escreve. Já me deixou curiosa para saber o que aconteceu à Piedade, mas calculo que o Zé Bento deve ter tornado a vida dessa mulher bem amargurada. Beijinhos
Maria

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

A história cá vai sendo tecida, ganhando corpo e forma, e enquanto isso revivendo hábitos antigos - muitos deles para mim familiares.
E eu com muito gosto cá fico à espera do próximo capítulo.

Abraço amigo, e obrigado pelo comentário lá no meu sítio - que li com muito gosto.

Vitor

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Olá Elvira. Já me pus a par da tua história, muito interessante e bem escrita. Enquanto esperamos pela continuação da saga do Manuel vamos nos deliciando com esta.Um dia, Elvira, tenho a certeza que vais realizar o teu sonho e publicar um livro. Nem sempre é quando a gente quer, mas a vida encarrega-se de recompensar o muito que lhe damos e tu, amiga, dás muito de ti escrevendo estas maravilhas que partilhas connosco. Muito obrigada e parabéns. Cá estarei daqui a três dias para ver o próximo capítulo. Até lá!!! Um beijinho muito especial
Emilia

lis disse...

E vamos caminhando Elvira, o que será que virá por aí ... estou curiosa pelo segredo que envolve a Piedade ,
abraços até lá

isa disse...

Aguçou-me a curiosidade e o desejo de acompanhar a história destas personagens!
Espero que um dia a possa publicar em livro.
Beijo.
isa.

Olinda Melo disse...


Bom dia, Elvira

Vim ver como é que se vai desenrolando esta história que me parece profundamente humana, pelo que já nos deixou entrever.

Temos aqui um ambiente familiar já definido e que me agrada.E é a avó da Mara que vai contar a história, não é?

Bjs

Olinda

MARILENE disse...

Li a parte I para não ficar desatualizada e não perder os detalhes do conto. Agora, nos apresenta um outro lado e as características de pessoas que vão surgindo para compor sua narrativa.
Muito bom de ler! Bjs.

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Ora, estamos no caminho certo.
Deixe o leitor, sempre, suspenso, isto é, sem saber qual será a próxima etapa.
a pontuação está muito bem feita.

PARABÉNS PELO TALENTO(e só possui a 4ª classe)!

Beijinhos para todos.

Mar Arável disse...

Venham mais cinco

Paulo Cesar PC disse...

Elvira; posso perceber o seu fascínio por textos desse tipo. Também posso observar a maneira muito bem pontuada e detalhada com que os coloca. E vejo em ti, talento para tal. Penso que, sonhar é preciso. É o começo de tudo. Escrever um livro com a narrativa que nos apresenta e outras pode e é muito possível. Basta crer. Um beijo no seu coração.

Paulo Cesar PC disse...

Elvira; posso perceber o seu fascínio por textos desse tipo. Também posso observar a maneira muito bem pontuada e detalhada com que os coloca. E vejo em ti, talento para tal. Penso que, sonhar é preciso. É o começo de tudo. Escrever um livro com a narrativa que nos apresenta e outras pode e é muito possível. Basta crer. Um beijo no seu coração.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Capítulo devidamente lido e apreciado. Lá vou eu, para o o episódio III. A história está crescendo, e espectativa...a sua maneira de narrar, Elvira, prende o leitor...empolga! Parabéns!

Leninha disse...

Está esquentando, Elvira, rsrsrs. Estou a gostar tanto que o dia em que o livro sair vou querer um exemplar logo...escreves muito bem e me parece que estou a assistir aos diálogos.

Vou ao terceiro...
Bjsssssss

Mariangela disse...

Oi Elvira, agora me atualizei, devido ao excesso de trabalho desde final de ano, andei meio sem tempo, agora já posso dar continuidade, estou gostando muito!
Abraços e um ótimo dia Elvira!
Mariangela