1.12.12

A HERANÇA - PARTE I




 Estávamos a meio de Dezembro, os dias eram pequenos, e além disso estivera a chover. Todo o dia o céu se mantivera muito escuro e a chuva caía, forte a espaços, mas na maioria do tempo leve. Molha-parvos diziam quando era criança. E desde aí sempre lhe ocorria a palavra, em dias assim. Do seu confortável observatório, a larga montra do café, em que se encontrava, Mara olhava as pessoas que passavam na rua, apressadas fugindo da chuva. A maioria tinha descido do comboio, porque a terra era pequena, e aqueles que não trabalhavam no campo, estavam ainda àquela hora nos seus empregos. Os outros, aqueles que viviam do trabalho no campo, há muito se tinham recolhido. Forasteiros, naquela altura do ano, não havia muitos. Os turistas que vinham de férias escolhendo um sítio calmo para fugirem ao bulício da cidade, vinham de Verão. Aqueles que tinham procurado no estrangeiro uma vida melhor, – e na terra havia muitos que o fizeram – vinham duas vezes por ano. Uns no Verão para passar férias, outros pelo Natal, para passarem a festa em família. Por isso naquele dia, eram poucas as pessoas na rua. Quase todos jovens estudantes, que iam de comboio, para a Universidade no Porto. Ela mesma fizera aquele trajecto vezes sem conta, enquanto se formava. Depressa os jovens desapareceram, e na rua arrastando-se, mais do que caminhando, ficou apenas uma velha mulher.
Mara olhou-a com atenção. Teria uns sessenta anos, embora o seu rosto sulcado de rugas aparentasse mais. Vestia de negro. Uma saia a beirar o tornozelo, uma camisola, e um xaile, com que tentava cobrir a cabeça, mas que mesmo assim deixava ver o suficiente para que ela reparasse no contraste do negro xaile, com os cabelos brancos da mulher. Caminhava, de uma forma esquisita, balanceando o corpo, e inclinava-se para a frente, talvez por causa da chuva, ou talvez não, já que ela parecia não ter pressa de chegar. Mara olhou-a com pena. Conhecia a sua história. Uma história amarga e muito triste.
Piedade era muito jovem quando conhecera o Zé Bento mais tarde conhecido pela alcunha
"O cigano" embora não tivesse nada a ver com os indivíduos de etnia cigana. Mara nunca encontrara ninguém que lhe soubesse explicar, o porquê da alcunha. Talvez fosse por causa da sua cor muito morena, talvez por ter aparecido na terra, sem ninguém saber de onde vinha. O certo é que ele chegara à terra, num dia de tempestade, já quase no fim do Inverno. Era alto, muito moreno, cabelos negros, e olhos verdes rasgados. Mara nunca conhecera o Zé, mas lembrava-se da expressão da avó quando lhe contou a história. "Tinha olhar de cobra" – dissera a avó. Piedade, conheceu-o num baile de Santo António, e ao prender-se de amores por ele, assinou sem saber, um contrato com a desgraça. Ele foi buscá-la para dançar, com aquele sorriso que a gente da terra dizia ser cínico, mas que, para os seus olhos encantados, era terno e doce. Ela seguiu-o. Dançaram, enquanto ele lhe perguntava como se chamava, onde morava, e lhe dizia que ela a mulher mais bela que já vira, um raio de sol que iluminava aquela terra.
Quando aquela música acabou, Piedade fez questão de se dirigir ao sítio, onde estava a mãe e as amigas, mas ele segurando firme a sua mão, impediu-a. Logo começou outra música e viu-se de novo nos seus braços fortes, rodopiando no grande salão da colectividade. E assim foi toda a noite. Quando o baile acabou, e ele a levou por fim junto da mãe, sabia que esta estava zangada, e que ia ralhar com ela. Mas que importava isso? Ainda sentia na cintura o calor das suas mãos, e no ouvido o sussurro da sua voz. E nem prestou atenção, quando a mãe disse que ia contar ao pai, que ela tinha dançado toda a noite com um homem que não era seu noivo, nem seu marido.
Mara sorriu. "Se fosse hoje – pensou – ninguém ligava importância."
A figura desapareceu engolida pela escuridão do tempo. Mara pediu mais um café. Acendeu um cigarro, e murmurou entre dentes:
- E porque não? Quem é que me impede?

 REGISTO  6390/2011


CONTINUA


ESTA É UMA HISTÓRIA QUE GOSTARIA DE  PODER PUBLICAR EM LIVRO  E QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGISTADA. ESPERO QUE VENHAM A GOSTAR DELA. SERÁ PUBLICADA EM EPISÓDIOS DE 3 EM 3 DIAS. ENTRETANTO INFORMO QUE A HISTÓRIA DO MANUEL NÃO TERMINOU, MAS PRECISO DE MAIS TEMPO PARA AS MINHAS PESQUISAS SOBRE A HISTÓRIA, PELO QUE RETOMAREI A PUBLICAÇÃO LOGO QUE TERMINE ESTA HISTÓRIA. 

BOM FIM DE SEMANA

18 comentários:

isa disse...

E já sou fã desta história.
Gostei mt!
E como a entendo...
Beijo.
isa.

vendedor de ilusão disse...

Olá minha cara amiga,bom dia!
Venho, com muita satisfação, lhe comunicar que foi feita hoje a Abertura das apresentações do 1º Contos e Prosas.
Tenhas um ótimo fim de semana.
Um abraço e até mais!

Luis Eme disse...

está bem...

(agora que o Manuel se estava a aproximar do ano que nasci, estava curioso, para saber o que se passou...)

abraço Elvira

Vitor Chuva disse...

Olá, Elvira!

Diz-se que com o olhar as cobras hipnotizam os pássaros; neste caso os do cigano encantaram a Piedade.
E eu cá fico à espera de saber como tudo isto vai acabar.

Bom fim de semana; abraço amigo.
Vitor

São disse...

Ficando à espera, lhe desejo bom fim de semana, linda

Nilson Barcelli disse...

Enquanto lia, pensei que o teu texto poderia ser o início de um romance. E a tua nota de rodapé conforma-o...
Gostei muito, continua.
Elvira, querida amiga, tem um bom fim de semana.
Abraço.

Kim disse...

Vou ficar à espera.
E da sombra dum povo, também!
Beijinho Elvira

Lilá(s) disse...

Claro que ficarei á espera.
Bom fim de semana.
Beijinhos

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Elvira

Como a minha amiga sabe encantar! Ficarei atenta.

Beijos

FireHead disse...

Acho uma óptima ideia você publicar o que escreve. Já tem uma editora? Eu tenho uns connects numa editora, o Chiado. :)

Também já cheguei a pensar em publicar os meus devaneios, mas nos últimos tempos tenho andado com tanta falta de inspiração. Gostaria de escrever algo, mas nem sei bem o quê... e como não saio desta incerteza, permaneço quieto. ;)

Gostei da história e deu-me vontade de desejar viver um pouco nos tempos já idos, tempos em que se cultivava o respeito e os valores... e onde as mulheres tinham outra classe. Hoje ainda vemos tantas idosas que só se vestem de preto (como a minha querida avó, viúva, em sinal de luto eterno) e também conheci dois homens com a alcunha "cigano" e eram ambos de raça branca. Eram conhecidos por ciganos naturalmente por causa das suas ciganices. :)

Beijinhos.

Dulce disse...

Bom dia, Elvir

Uma história que promete. Vou ficar aguardando, ansiosa, a publicação dos novos capítulos.

Um abraço

Olinda Melo disse...


Olá, Elvira

Excelente começo, que nos dá logo vontade de saber o que virá a seguir.

Voltarei para continuar a ler e... esperando por 'Manuel'.

Bj

Olinda

aflores disse...

Mais uma história a seguir atentamente.

Tudo de bom.

lis disse...

OI Elvira
Ainda peguei o primeiro capítulo bem fresquinho rs e posso acompanhar em tempo mais real,
tudo indica que tem muita emoção nessa história, vou para o outro capítulo tá?
abraço e quero muito também ver suas histórias editadas ,

MARILENE disse...

Espero que o publique. O primeiro capítulo já despertou interesse. Bjs.

LUZ disse...

Olá, estimada Elvira!

Já li as duas partes da narrativa, que escreveu e merece os meus parabéns.
As hitórias, como vulgarmente chamamos, têm de ter enredo, trama, algum mistério e acima de tudo, estarem bem escritas. É o caso desta, que reúne tudo isso.

Gosto das frases, que deixa, em aberto, no final de cada parte (narrativa aberta). O leitor pode imaginar uma porção de coisas, para a sua continuação.

Muita coisa pode acontecer e são várias as hipóteses. A avó e a Piedade, terão algum segredo a revelar?

Beijinhos, com estima.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

E aqui estou atrasadinha,como sempre, pondo "em dia" as fascinantes narrativas. Vou agora, à parte II. Tá bom demais!

Leninha disse...

Fiquei sumida por uns tempos, mas agora voltarei sempre e já estou encantada com o início desta história...vou ler as duas outras partes, agora, amiga!

Bjsssss,
Leninha