30.11.11

REQUIEM

REQUIEM


No silêncio deste dia, de nevoeiro
Em que o orçamento de estado
(assim mesmo em letra minúscula
que mais não merece)
foi aprovado
senti em mim uma enorme tristeza.
Como pensamento esquecido a oração surgiu nos lábios
e como palavra proibida aí ficou amordaçada.
Era um sonho, um pouco quase nada
que um rei no passado foi alargando
e que um Infante levou até aos confins da terra.
Hoje não passa dum sonho morto
um mundo de gente moribunda
no agravamento das condições de vida
na agonia estridente do desemprego
na fome e na doença que alastra todos os dias
na loucura dos impostos crescentes
como cogumelos venenosos
amassados no pão do povo.
Sob uma máscara fascinante de belas praias
radioso sol, céu sem nuvens,
mulheres de helénica formosura,
mares calmos, véus de espuma.
serras de onde brota água límpida e fresca
( que contudo não mata a sede de justiça ),
brisa quente como fruta madura,
vibrante de cor e desejo
definha o país real,
o verdadeiro Portugal.
E não há pedidos de desculpa
nem lágrimas nos olhos hipócritas
daqueles que o ajudaram a enterrar.

Elvira Carvalho

25.11.11

CELESTE




Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau às batatas e o sal, quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem à beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água às batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pêra e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.

Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa com que teve que encobrir, perante a família, a vergonha e a dor que sentia tanto ou mais do que os hematomas. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurra-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam à água. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema.
Anda Luísa,
Luísa sobe...
Sobe que sobe,
Sobe a calçada...
Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...


FIM

Maria Elvira Carvalho


 Hoje dia 25 de Novembro, é o Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres.  Daí a reposição deste conto. Aproveito para  informar quem me visita que este conto está a concurso aqui. Peço aos amigos que tenham perfil no FB, que se gostaram do conto, vão lá e votem nele.  Muito obrigada

19.11.11

HISTÓRIA DO BACALHAU - PARTE V

Até aqui eu falei da pesca à linha. Mas porque esta pesca era muito dura, e arriscada, os pescadores sempre sonhavam com uma maneira mais fácil de pescar o bacalhau. Daí que na primeira década do séc. XX apareceram os primeiros barcos arrastões de origem francesa. A Parceria Geral de Pescarias, sempre na vanguarda, manda construir um navio a vapor arrastão, tentando assim competir com os já citados arrastões franceses e quem sabe se resultasse deixar de lado a pesca à linha. Recorde-se que a Parceria Geral de Pescarias tinha na altura quatro veleiros, o Argus, o Creoula, actual navio escola da Marinha de Guerra, o Hortense e o Gazela Primeiro actual museu marítimo em Filadélfia.
Partiu pois o Elite para a pesca nesse longínquo ano de 1909, mas a verdade é que se a sua prestação não foi famosa nesse ano, no seguinte foi ainda pior. Consta que a máquina apesar de demasiado grande não tinha contudo força suficiente para puxar as redes.  Mas parece que o facto de os pescadores não estarem habituados a esse tipo de pesca, o enorme consumo de carvão, também contribuíram em muito para o insucesso do Elite.

Por certo já todos ouviram falar do navio NRP AUGUSTO DE CASTILHO, heroicamente afundado, em 14 de Outubro de 1918 após luta desigual com o submarino U-139 da Imperial Marinha Alemã, a fim de dar fuga ao paquete S. MIGUEL em rota do Funchal para Ponta Delgada, transportando 206 passageiros. Agora o que talvez não saibam é que este navio era o mesmo arrastão Elite reconvertido e ao serviço da Marinha de Guerra.
Eis um pequeno excerto da história que poderão ler na integra AQUI
“Foi no dia 14 de Outubro de 1918 que, encontrando-se a escoltar o paquete «São Miguel», que se dirigia da Madeira para os Açores com mais de 1500 pessoas a bordo, foi surpreendido pelo fogo alemão disparado a partir do submarino U-139, ao largo dos Açores.
O caça minas «Augusto de Castilho», a navegar sob o comando do 1.º Tenente Carvalho Araújo, enfrentou o inimigo, colocando-se entre o paquete e o submarino, ainda que consciente da desproporção de armamento entre as duas unidades de guerra.
Visivelmente em desvantagem, este pequeno caça minas improvisado conseguiu, através da sua intervenção, pôr a salvo o paquete «São Miguel» que se afastou do cenário de guerra, chegando incólume ao seu destino. Tal acção resultou, no entanto, na perda do «Augusto de Castilho» e na morte do seu comandante, de um aspirante a oficial e de quatro praças. “

Voltando à Pesca do Bacalhau, a partir de 1942 os armadores viraram-se em força para a compra de navios arrastões. Mas foi a chegada do “Fairtry” um enorme navio de bandeira inglesa que marcou o início do fim para a pesca do bacalhau do Atlântico e na verdade para muitas das fainas no mundo. 

 Foto da net

Este era o primeiro arrastão fábrica congelador, uma embarcação de vários milhões de dólares, equipada com todas as inovações do pós-guerra. Debaixo do convés havia uma fábrica de processamento com máquinas automáticas de filetes, refeições de peixe e um enorme conjunto de armazéns frigoríficos. Podia pescar sem parar 7 dias por semana, semanas sem fim, içando redes durante terríveis temporais de Inverno que facilmente deitariam abaixo a Estátua da Liberdade. Com radar, sonar, detectores de peixe, podia detectar e capturar cardumes inteiros de peixe com uma eficácia assustadora. Depois deste, outros vieram e cada vez maiores. A par destes navios fábrica continuavam a ir à Pesca os veleiros de pesca à linha.
O Bacalhau começou a ser pescado cada vez mais cedo. Um Bacalhau precisa de cerca de seis anos para atingir a sua maturidade sexual e se poder reproduzir. De cada 20 bacalhaus bebés só um conseguirá sobreviver até essa idade.
A partir de 1968 aconteceu que os grandes navios apesar de toda a sua capacidade em detectar o peixe, não encontravam os grandes cardumes a que estavam habituados. Também não era para menos por essa altura existiam mais de 700 destes grandes navios fábricas, sendo que só a União Soviética possuía 400.
Por outro lado em Portugal cuja pesca continuava a ser feita à linha, os pescadores começaram a recusar embarcar, os salários eram de miséria, os riscos muito grandes, e por outro lado começava a vaga da emigração portuguesa, que apresentava menos riscos e dava mais dinheiro.
Daí até à última partida destes veleiros mediaram apenas 3 anos.
Em 1975 a Islândia decide alargar a sua ZEE zona económica exclusiva para 200 milhas, à volta da ilha, proibindo assim a pesca dentro dessa zona. Isto deu origem à “ guerra do bacalhau” com os navios patrulha islandeses a tentarem expulsar os barcos pesqueiros e a marinha inglesa a proteger estes.
Apesar de ambos os países pertencerem à Nato, esta manteve-se neutral e foi a diplomacia que acabou por resolver o assunto, e conduziu a um acordo entre as partes.
Em 1977 o Canadá resolveu seguir o exemplo da Islândia, alargou os seus limites para as 200 milhas, mas não teve a visão suficiente para diminuir ou cessar a pesca do bacalhau pelos seus arrastões. Chegou ao limite em 1992 quando fechou os bancos à pesca, encerrando fábricas e mandando para o desemprego mais de 2000 pessoas. Porém pode ter sido tarde de mais e nunca mais se conseguir recuperar o stock de bacalhau, porque os arrastões não destruíram apenas os cardumes de bacalhau, mas também terão alterado todo o ecossistema que ele precisava para a sua sobrevivência.
Em 1999, a E.U. instaurou um plano de longo prazo para a recuperação da população do bacalhau na região do Báltico. E em 2003, foi proibida a pesca de bacalhau com redes de arrasto, redes de cerco dinamarquesas e similares, no mar Báltico, no período de Abril a Maio.



Segundo a Greenpeace neste momento existe apenas um stock “saudável” de bacalhau no Mar de Barents no Norte da Noruega e da Rússia.  Se as regras não forem infringidas  e as quotas ultrapassadas poderá manter-se assim . O problema continua a ser  com os arrastões fábricas. Porque as suas redes têm no fundo um cabo grosso que chega a pesar mais de 300 toneladas,  que serve para as manter bem no fundo mas que arrastam tudo no fundo, provocando no ecossistema feridas incicatrizáveis.
Resta a esperança de criação em cativeiro. Mas a produção de bacalhau em cativeiro, em gaiolas flutuantes, enfrenta um sério obstáculo. É que contrariamente ao salmão, o bacalhau apenas come organismos vivos, não aceita ração. E se este obstáculo for ultrapassado no futuro, alguém acredita que o bacalhau terá o mesmo gosto de agora?



Fontes 

http://vilapraiadeancora.blogs.sapo.pt/91205.html
Wikipédia

 http://www.greenpeace.org/

e o conhecimento  da autora que.tendo nascido e vivido toda a sua infância na Parceria Geral de Pescarias, ali trabalhou durante largos anos





Maria Elvira Carvalho

16.11.11

HISTÓRIA DO BACALHAU - PARTE IV

BACALHAU - PARTE IV

Antes de eu nascer, o meu pai falou com o Sr. Capitão para ver se a minha mãe podia ficar na seca o ano todo com ele, visto que o meu pai era o lenhador e ficava o ano todo enquanto a minha mãe quando acabava a safra ia pró norte  prá casa dos pais. Então o patrão mandou os meus pais para  uma  barraquita de madeira que havia debaixo de um pinheiro manso, na parte alta da Seca e aí eu nasci e vivi os primeiros seis meses, até que o Capitão Ramalheira, que era o gerente da Seca nos mandou para um barracão de madeira, junto ao rio, onde já viviam outros 3 casais nas mesmas condições. Era um barracão enorme, com 4 quartos, um para cada casal, e respetivos filhos, um salão com 11m de comprimento com uma grande mesa no meio e bancos corridos, e num canto sobre uma chapa, dois tijolos ao alto com uns ferros no meio para poisar as panelas. Era aí que se cozinhava. Mais tarde os outros 3 casais partiram e só lá ficaram os meus pais. Foi neste barracão que nasceram os meus irmãos e que vivi até aos 18 anos. Esta introdução servirá a quem me lê para me conhecer melhor.
Quando os navios chegavam, fazia-se a descarga. Embora a Seca estivesse junto ao rio, os barcos ficavam ancorados na parte mais funda e era preciso ir lá descarregá-lo. Fazia-se isso da seguinte maneira. Iam umas tantas mulheres para o porão do navio e arrancavam o bacalhau das pilhas, jogando-o para uma pequena plataforma onde 2 mulheres o apanhavam e jogavam pró convés. Era especialmente duro, quando os navios chegavam pois normalmente vinham muito cheios, e até sair bacalhau suficiente para nos pormos de pé, levavam-se as horas a trabalhar de "gatas" ou de joelhos.

  No convés duas mulheres apanhavam-no e atiravam-no para uma  lancha acostada ao navio. Quando a lancha estava cheia dois homens levavam-na para o cais, num pontão de madeira com carris de ferro, por onde deslizavam as " zorras". As" zorras" eram uns vagões que levavam o bacalhau pelo pontão até ao armazém principal para ser pesado, e depois para as câmaras frigoríficas para ser empilhado.


Mesmo no fim do pontão, havia degraus que desciam até ao rio. Nessas escadas estavam mulheres, uma a cada dois degraus. Quando a lancha chegava ao pontão dois homens agarravam o bacalhau, sempre pelo rabo, uma média de 4 a 5 bacalhaus de cada vez e passavam á mulher que estava no fundo da escada que por sua vez o dava á seguinte que passava á outra até chegar á zorra que enchiam. Duas mulheres, normalmente das mais moças empurravam a correr as "zorras" para a pesa e para as câmaras frigoríficas. Largavam uma cheia que outras mulheres se apressavam a empilhar e levavam a vazia. 
Nas camaras frigoríficas empilhava-se o bacalhau descarregado, onde ficava a aguardar a fase seguinte, que era a saída para o armazém de lavagem.
Nesta altura,  meia dúzia de mulheres, geralmente as mais jovens, iam para as pilhas de bacalhau nas camaras frigorificas, onde arrancavam o bacalhau e o jogavam em carros de mão que os homens levavam para o armazém de lavagem
Nesta zona, havia umas enormes tinas (tanques) eram ladeadas por 20 mulheres, dez de cada lado. Os homens vinham com os carros de mão cheios de bacalhau e despejavam-no nas tinas. As mulheres de escova na mão pegavam o bacalhau de dentro de água e levavam-no um a um, lançando-o de seguida para outra carrinho que estava colocado no intervalo entre cada duas tinas. Enquanto faziam este trabalho cantavam em coro melodias dos ranchos folclóricos das suas terras, e não raras vezes cantavam ao desafio . Era uma maneira de passar o tempo mais rapidamente e não sentir tanto as dores nas costas, provocadas pela posição sobre a tina. Imaginam o que era estar oito horas diárias de pé, em cima de um estrado, curvadas sobre uma tina de água a lavar o bacalhau? Sem luvas, com a água gelada de inverno?
Lavado o bacalhau, era novamente salgado e empilhado e ficava assim por cinco ou seis dias. Depois era banhado. Banhar o bacalhau era mergulhá-lo em água com sal, e tirá-lo imediatamente. Isso fazia com que não fosse a secar com excesso de sal.

Estava então pronto para a seca. Se estava bom tempo era estendido ao sol, se chovia ia prá estufa. Com bom tempo começávamos a encher a seca às 5 da manhã e terminávamos volta das 10. Almoçávamos, às 11, merendava-se às 16 e acabava-se o dia pelas 22 horas, em dia que havia serão da noite para lavar o bacalhau. Quando assim não era terminava por volta das 19horas
Bacalhau secando ao sol. Foto da net.


Durante 4 ou 5 dias o bacalhau secava. À medida que secava, os escolhedores, ( homens que separavam o bacalhau seco em montinhos consoante a classe,  iam separando o bacalhau por tamanhos e categorias). Do miúdo ao graúdo.
Quando à tardinha as mulheres iam com os carros de mão, apanhar o bacalhau, levavam o bacalhau seco e escolhido para o armazém de enfardamento, e o outro para outros armazéns onde se guardava o que ainda precisava mais tempo de sol.
O armazém de enfardamento, era composto por duas partes. No rés do chão, ficava o bacalhau pronto para enfardar que depois era transportado para o primeiro andar, onde era pesado amarrado em molhos de 60 kg,  e metia-se em sacos de serapilheira.  Era o enfardamento.
Depois era levado cada fardo em carro de mão, para o pontão onde era metido em fragatas, " os varinos" que o levavam pelo rio para os compradores. E aqui terminava tudo. Só voltávamos a vê-lo no prato. 




Da próxima vez falarei da "queda do bacalhau" ou seja, do que aconteceu para terminar com algo que chegou a ser uma das nossas grandes fontes de economia.
Se até lá não estiverem ainda enjoados de bacalhau.

14.11.11

HISTÓRIA DO BACALHAU - PARTE III

Na Seca do Bacalhau, da Parceria Geral de Pescarias, havia duas quintas, cada uma com o seu caseiro, onde se produzia tudo o que a terra dá. Das batatas ás frutas e ao feno para os animais. Numa delas, Havia um depósito de água que servia toda a Seca e vários tanques que serviam para regas e para lavagens de roupa.  Na outra um poço e uma nora movida geralmente por uma vaca, completava as exigências. Havia uma casa grande senhorial, com garagem, e quintal. Era a casa do sr. Capitão o gerente deste pequeno mundo. Ficava isolada junto dum pequeno eucaliptal. Depois mais afastadas ficavam meia dúzia de casas, habitadas por pessoas que viviam todo o ano na Seca. e que tratavam da manutenção para que tudo sempre estivesse em ordem quando começava a safra.


 Depois mais afastadas ficavam meia dúzia de casas, habitadas por pessoas que viviam todo o ano na Seca,e que tratavam da manutenção para que tudo sempre estivesse em ordem quando começava a safra.
 O electricista, os dois empregados de escritório, o ferreiro, os vigias, e o Ti'Abel.

Havia ainda uma casa em cada quinta, para os caseiros, uma casa junto ao portão principal, para a porteira e um barracão grande no portão junto à praia, para o pessoal do Barreiro que ia a pé para o trabalho pela "caldeira do alemão" O terceiro portão junto ao moinho de maré, para quem vinha de Palhais, atravessando a Quinta do Himalaia, era o próprio moleiro que abria e fechava à hora do pessoal entrar ou sair, sendo que à saída em qualquer dos portões tinham que mostrar a alcofa que traziam de manhã com o almoço, para ver se não levavam, alguma coisa que não lhes pertencesse. Havia ainda duas enormes camaratas, e o posto da guarda fiscal que ficava pegado a uma destas camaratas, que era chamada de "malta".
 
O Ti'Abel era o encarregado de ir todos os dias, levar a correspondência da firma, e também do pessoal que trabalhava nela á estação dos correios no Barreiro. Na volta, trazia o correio, que havia para a Seca, e trazia também peixe, e carne do mercado, para quem lhe tinha encomendado. Tudo isto numa carroça, puxada por um manso cavalo. Os caseiros tinham também uma carroça, que usavam para levar para o mercado, os produtos da quinta que excediam os gastos da Seca.

A actividade da seca do bacalhau, decorria de Outubro até Abril. Durante esses meses a Seca chegava a ter mais de trezentos trabalhadores residentes, a maioria dos quais vinha do Norte do país. Vinham homens e mulheres muitos dos quais casados. E então acontecia uma situação algo caricata.


É que os casais não podiam viver juntos. Os homens viviam numa das camaratas, que além dos imensos quartos colectivos, tinha um grande refeitório com mesas enormes e bancos corridos , e uma cozinha com um enorme fogão a lenha,com mais de 50 bocas e dois cozinheiros que cozinhavam para os homens. No extremo oposto, a camarata das mulheres, era igualzinha só que em vez de dois cozinheiros tinha duas cozinheiras. A única concessão que era feita aos casais era poderem comer juntos, numa ou noutra camarata. Mas antes das onze da noite todos tinham que estar recolhidos sob pena de terem que dormir ao relento.
Havia ainda  um pequeno pinhal com umas ribanceiras á volta, e um canavial que ladeava a vedação da Seca. Então quando os casais, queriam fazer amor, recorriam a estas instalações. Ou o pinhal, ou o canavial.
 Usavam um nome de código que era : "Aviar a caderneta" Parece que a pessoa que vos está a contar esta história, é filha de um "aviamento de caderneta". Corria o ano de 1946, tinha acabado a II Guerra Mundial.

Vou deixar para outro dia o trabalho de pôr o Bacalhau seco e salgado, como todos o conhecem.


Para todos uma excelente semana 

11.11.11

HISTÓRIA DO BACALHAU - PARTE II




O Maria da Glória, afundado por um submarino alemão. Foto Daqui


Durante a II Guerra Mundial, tornou-se perigoso ir á pesca por causa dos submarinos alemães que não davam tréguas aos barcos. Portugal era então um País neutral, mas não podia prescindir de uma das suas fontes de alimentação. A pesca do bacalhau. Mas também não podia permitir à sua frota a sorte do "Delães" e do "Maria da Glória"ambos afundados por submarinos alemães em 1942. Se a tripulação do Delães, se salvou, o mesmo não aconteceu com a tripulação do Maria da Gloria, que dos 44 tripulantes distribuídos pelos pequenos dóris, só encontraram 8. Os restantes 36 foram engolidos pelo mar. Para que o mesmo não voltasse a acontecer, o governo português conseguiu negociar com as forças do Eixo, a  autorização para mandar os seus 45 barcos de pesca bacalhoeira em dois comboios, de 20 e tal barcos cada um, comandados por dois oficiais de marinha embarcados respectivamente em dois navios de apoio, e para  evitar confusões decidiu-se ainda que todos os barcos seriam pintados de branco,e levariam o pavilhão nacional bem á vista. Até aí os barcos tinham cores variadas consoante os armadores a que pertenciam.  Este sistema de comboios durou até 1945 e ficou conhecido como a Frota Branca.
Para rentabilizar a pesca, esta era feita por vários barcos pequenos onde se juntavam vários homens para pescar. Estes pequenos barcos espalhavam-se á volta do barco grande. Mais tarde apareceram os pequenos barcos de fundo chato, "os dóris" que se empilhavam e ocupavam assim muito menos espaço. Quando chegavam ao local da pesca, o comandante mandava arriar os dóris e cada pescador partia a fazer a sua pesca. Com os dóris cada barco passou a ter apenas um pescador.




Foto da net

Era um trabalho muito duro e perigoso. Naquela zona os nevoeiros e o mau tempo são frequentes.
Inicialmente pescava-se o bacalhau com" zagaia," uma peça de chumbo com dois ganchos. Mais tarde apareceram os "trol" que mais não era do que linhas com anzóis, que pescavam vários peixes duma vez.
Quando o bacalhau chegava a bordo, era -lhe separada a cabeça que depois de escalada era salgada. Chamamos-lhes "caras de bacalhau". Separavam-se os fígados e os buchos. Os fígados eram levados para uma caldeira de água a ferver, para fazerem o óleo de fígado de bacalhau.


Foto da net

Depois, os escaladores abriam o bacalhau da cabeça ao rabo. Mandavam-no então para o porão, onde os salgadores procediam á salga, e ao empilhamento do bacalhau. Esta era uma tarefa extremamente dura. O bacalhau era salgado e empilhado em camadas sucessivas até atingir o tecto do porão.


A Casa Bensaúde adquire em 1891 a Azinheira Velha, na Telha, que pela sua localização privilegiada já tinha sido utilizada como feitoria, para as naus dos descobrimentos, e aí instala uma das maiores secas de bacalhau do País, com modernas instalações para tratar do bacalhau em terra.
Em 1902 mudou o nome para Parceria Geral de Pescarias. 
A Seca da Azinheira Velha, era composta por uma larga extensão de mesas compostas por cimento e fileiras de arame, onde o bacalhau era estendido ao sol para secar. Por um armazém enorme, com várias tinas, espécie de tanque, onde se lavava o bacalhau, três armazéns para guardar o bacalhau, enquanto não estava bom para enfardar, um armazém de enfardamento, um armazém frigorífico, para guardar o bacalhau quando era descarregado dos navios.
Tinha ainda os escritórios, um armazém de lenha, uma oficina mecânica, um posto médico, e um posto de guarda-fiscal e um moinho de maré.


Foto minha
Havia mais, mas isso fica para a próxima


UM BOM FIM DE SEMANA A TODOS

9.11.11

HISTÓRIA DO BACALHAU



 Foto da net.  Nela se pode observar o Hortense, o Argus, o do meio que não dá para observar, mas tem 4 mastros e ao fundo o Gazela I.



Na verdade quando nos sentamos à mesa para saborear um bom prato de bacalhau, na esmagadora maioria das vezes não pensamos em como o bacalhau já foi importante na economia portuguesa.
Se a primeira referência à pesca do bacalhau pelos portugueses, data de 1353, a verdade é que noruegueses já vinham buscar sal a Portugal para salgar o bacalhau o que prova que já nessa altura o “fiel amigo” tinha muitos admiradores.
A cura do bacalhau, foi uma revolução na conservação de alimentos, já que passariam ainda alguns séculos até à invenção dos frigoríficos, e os alimentos estragavam-se rapidamente.
Salgar e secar os alimentos, veio garantir que estes não só se conservavam em perfeitas condições, como mantinham todos os nutrientes e o paladar.
Empenhados nos descobrimentos, cedo os portugueses tiveram conhecimento da Terra dos Bacalhaus, a Terra Nova, e logo pensaram que seria a melhor maneira de combaterem a fome que no séc. XV grassava na Europa. Portugal foi dos primeiros a começar a pesca do Bacalhau, logo seguido pelo resto da Europa.
No séc. XVI Portugal tinha uma frota de mais de 150 navios que partiam em finais de Abril, princípios de Maio e regressavam em Outubro com mais de três mil toneladas de bacalhau.
 Porém em 1580 a perda da Independência para Espanha, parou esta actividade e durante os 60 anos da ocupação espanhola, os franceses e holandeses apoderaram-se daquelas águas.
 Nos finais do séc. XIX fundou-se em Portugal a Parceria Geral de Pescarias, Ldª e reanimou-se a pesca do bacalhau.
 A Parceria Geral de Pescarias, Ldª possuía quatro veleiros de pesca á linha, a saber, o "Gazela I"
Cuja foto se apresenta no início do poste, e que fez a última viagem de pesca em 1969. Dois anos depois foi vendido para a América, para Museu Marítimo de Filadélfia, e em 1985, o Gazela foi transferido Philadelphia Preservation Guild, uma corporação sem fins lucrativos que agora mantém e opera o navio com a ajuda de doadores e voluntários, enviando-a como Tall Ship Filadélfia aos eventos acima e abaixo da costa leste dos EUA onde ainda navega.
 O Creoula, adquirido em 1980 pela Secretaria de Estado das Pescas, e que é hoje o navio escola que todos conhecem na Marinha Portuguesa.

O Creoula.  Foto da net.




 Foto do Argus em Ílhavo, à espera da recuperação. Foto daqui


O Argus, que fez a sua última campanha em 1970 e que foi depois adquirido por uma empresa canadiana. Mais tarde esta mesma empresa vendeu-o para uma empresa de navios turísticos de Miami que o rebaptizou de Polynesia II e o pôs a fazer passeios turísticos entre ilhas no mar das Caraíbas. Posteriormente regressou a Portugal, tendo sido comprado num leilão em Aruba, pela Empresa Pascoal & Filhos, S. A., com sede na Gafanha da Nazaré, que projecta a sua recuperação para o pôr a navegar ao serviço do Turismo. Esta mesma firma já recuperou o Santa Maria Manuela, um lugre gémeo do Argus e do Creoula.  O Hortense, um navio de três mastros parecido com o Gazela. O Hortense foi oferecido ao estado português para um museu marítimo. Semi abandonado no mar da Palha, acabou afundando-se depois de um incêndio que não se sabe como começou.
 E desde 1958 o Neptuno, um navio motor, que efectuou pescas durante 20 anos sendo depois transformado em navio congelador em serviço nos Açores, tendo sido desmantelado em Alhos Vedros em 1992.


 O  navio-motor Neptuno. Foto daqui

Nota:  Este post foi construído com conhecimento próprio e com ajuda dos arquivos do Oceanário de Lisboa




Continua