25.11.11

CELESTE




Mal o despertador tocou, Celeste saltou da cama. Lavou-se a correr e foi para a cozinha. Com gestos completamente automatizados, pegou no isqueiro e acendeu o fogão. Era noite ainda, mas Celeste trabalhava longe. Começou a fazer o almoço, para ela e para o marido. Uma lágrima soltou-se e veio cair no alguidar onde tinha as batatas para descascar. Estava cansada. Cansada daquela vida de miséria física e moral em que se encontrava. Onde tinham ficado os sonhos de menina? -Interrogou-se enquanto acabava de descascar as batatas. Onde a ilusão de um homem bonito, que se apaixonasse por ela e lhe desse uma vida de amor e felicidade?
Juntou duas postas de bacalhau às batatas e o sal, quase sem dar por isso absorta nas suas recordações.
Celeste era uma mulher bonita, sem ser nenhuma beleza estonteante. Era pequena, de pele trigueira, com aquela cor das pessoas que vivem à beira-mar. Tinha o cabelo preto e uns olhos castanhos, que muitas vezes se enchiam de lágrimas. Era uma menina ainda, com toda a inocência dos seus quinze anos quando conheceu aquele que era o seu marido.
Afonso era um homem bonito. Mais velho e mais vivido, não foi difícil apoderar-se do coraçãozinho de menina que batia no peito da Celeste.
Casaram um ano depois. Celeste já carregava no ventre um filho. Ainda menina, teve que aprender a ser mãe, e a cuidar daquele pequeno ser, que Deus lhe quisera enviar.
Depressa se apercebeu que o marido não era o príncipe com quem sonhara. Um dia, tinha o filho três meses, Afonso saiu depois do jantar, deixando-a em casa com o filho, e só regressou depois da meia-noite completamente bêbado.
Como se fora um autómato, Celeste apagou o fogão, escorreu a água às batatas e dividiu a comida pelos dois termos. Pegou as duas lancheiras, que estavam em cima do aparador, colocou um termo em cada uma, juntou uma carcaça do dia anterior, uma pêra e um garfo. Encheu uma garrafa de meio litro de tinto e colocou numa das lancheiras. Foi ao quarto e acordou o marido. Na volta pôs um pano de cozinha em cada lancheira e fechou-as.
Tirou as chaves que estavam na porta, pegou na carteira, e na lancheira, e atirou um seco até logo, saindo de seguida. Não foi ao quarto despedir-se do marido. Há muito que não trocavam um beijo carinhoso.
Enquanto se dirigia à paragem do autocarro, na cabeça fervilhavam as recordações, dos olhos soltavam-se as lágrimas.
O filho crescera e saíra de casa. Nunca se sentira lá muito bem, nem tivera uma relação de amor com o pai. E assim que se empregou, arranjou uma casita e foi morar sozinho. A sua vida ficara então mais triste, sem a presença do filho.
Já lhe ocorrera pedir o divórcio. Porém o medo e a vergonha sempre a faziam desistir da ideia.

Recordou a primeira vez que o marido lhe batera. E a desculpa com que teve que encobrir, perante a família, a vergonha e a dor que sentia tanto ou mais do que os hematomas. E os dias sem lhe falar. Dias em que ela lhe gritava o nome de manhã antes de sair de casa, e não se falavam mais.
Como agora que não se falavam desde que há oito dias ele lhe tinha voltado a bater. E tudo por causa do álcool. Mordeu os lábios para abafar um soluço ao lembrar - se daquela noite. Ela já dormia, quando Afonso chegou. E estava tão cansada que nem deu por ele se deitar. Acordou com o peso do marido em cima dela. E aquele bafo nauseabundo de bêbado. Quis empurra-lo, fugir da cama. Mas não conseguiu. Ele era muito mais forte e puxara-lhe os cabelos com violência. Virou o rosto e isso enfureceu mais " a besta". Porque Celeste não reconhecia mais o marido naquele selvagem. Quando consumados os seus intentos se virou para o lado e adormeceu, ela levantou-se e meteu-se debaixo do chuveiro. Esfregou o corpo com raiva, enquanto as lágrimas se misturavam à água. Voltou para a cama, e acomodou-se tentando não tocar no marido. Não dormiu mais. E agora enquanto esperava pelo autocarro, pensava que rumo dar à sua vida. O amor que sentira um dia por aquele homem, já sofrera muitas alterações. Foi raiva, medo, ódio, desprezo e agora era também nojo.
De repente saído do nada, veio-lhe à memória, o poema.
Anda Luísa,
Luísa sobe...
Sobe que sobe,
Sobe a calçada...
Sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que pensava, se o poeta saberia da sua existência.
É que aquela Luísa era ela...


FIM

Maria Elvira Carvalho


 Hoje dia 25 de Novembro, é o Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres.  Daí a reposição deste conto. Aproveito para  informar quem me visita que este conto está a concurso aqui. Peço aos amigos que tenham perfil no FB, que se gostaram do conto, vão lá e votem nele.  Muito obrigada

28 comentários:

Paulo Cheng disse...

Lindo texto Elvira, e é triste saber que, em pleno século 21 ainda se cometa barbaridades como essas, de mulheres ainda serem espancadas e agredidas, seja fisica ou moralmente, espero que nossas sociedades possam se conscientizar de que as mulheres merecem todo o respeito, e as Leis endurecam mais as penas para os agressores e covardes que espancam mulheres. Ótimo texto, parabéns.

Dulce disse...

A triste história que se repete com tantas Celestes por este mundo afora!...

Beijos

Emíliana disse...

Há muitas mulheres no mundo passando pelo mesmo dilema,desamor, violência...
Tomara que todas elas,Celestes,Marias,Anas,acordem e procurem o caminho da liberdade!
Passa no blog e deixa o link do face pra mim votar ok,Elvira?
Ótimo fds querida.
Beijocas

São disse...

Ah, bem me pareceu que já lera o conto!

Fez muito bem em o colocar de novo, amiga.

A violência é uma coisa vergonhosa!
Também assinalei o Dia .

Até amanhã.

Joicy Sorcière disse...

Me emocionei com a Celeste!!! Parabéns pelo conto...

Pensar que tantas outras "Celestes" estão por aí. O mundo evoluiu, mas nem todos evoluíram com ele. Muitos ainda agem da mesma maneira que Afonso.

Abraços JoicySorciere Blog Umas e outras...

Petrus Monte Real disse...

Elvira,


Bonito conto, que retrata o velho problema, mas sempre actual, da violência contra as mulheres.
Admirei a ligação ao poema do A. Gedeão, com que remata a narrativa.

Muito grato pelas visitas ao meu espaço. Aprecio muito os seus comentários. Só agora retribuo, devido à ausência temporária em ocupações que impediram a resposta a todos os comentários. Regresso para recuperar o tempo, visitando os meus amigos. Faço-o com todo o gosto.
Aguardarei sempre as suas visitas e encorajadoras palavras.

Bom fim de semana
Um abraço

BlueShell disse...

ora...cá está ele! Foi o que eu disse: um problema que, infelizmente, se abate sobre muitas mulheres.
Te abraço forte!
BShell

Mariazita disse...

Boa noite, Elvira, minha amiga
Gostei muito do conto (revoltante!!!) e quis votar, mas não consegui perceber como se faz. Cliquei no link, mas depois não vi lá espaço para votar...
Importa-se de me explicar como fazer?

Noite feliz e bom domingo.
Um abraço

Je Vois La Vie en Vert disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Je Vois La Vie en Vert disse...

Um conto de actualidade, sem dúvida mas...infelizmente ! Qualquer violência em qualquer circunstâncias é inadmissível e revoltante !
Um passarinho disse-me que escrevias bem e estou a constatar por mim própria que é verdade.
Beijinhos, Elvira, espero que hoje será o início de uma amizade.
Verdinha

aflores disse...

Infelizmente ainda hoje este conto está actual.

Tudo de bom.

Mariazita disse...

Pronto, amiga.
Através do Face foi um, dois, três :)
O de hoje já está. Fiquei com a impressão que se pode votar todos os dias porque apareceu uma janela dizendo que o voto DE HOJE já está contabilizado. Amanhã volto lá a ver se me deixam votar de novo.
E assim sucessivamente.
Até que dia se pode votar?

Um bom domingo. Um abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Tem muita razão: a heroína que nos mostrou hoje é igual à Luísa da "Calçada de Carriche", do Gedeão, que todos os homens deviam ser obrigados a ler e a repetir tantas vezes quantas as necessárias para lhe perceberem o sentido - e sentirem vergonha.

Beijos

nacasadorau disse...

Muito bem amiga Elvira!

Infelizmente esta é a vida de muitíssimas mulheres.
A violência doméstica é um facto, mas há quem continue a dizer que entre marido e mulher não se deve meter a colher. Nada de mais errado.
Denunciemos os casos conhecidos e em situação, de alguma forma semelhante, não temamos nada. É urgente perder a vergonha e denunciar os monstros.

Abraço

BlueShell disse...

Vim...te dar um beijo de boa noite.
BShell

Lilá(s) disse...

Já votei várias vezes e vou para lá agora votar novamente, o conto é lindo!
Beijinhos

Nilson Barcelli disse...

Infelizmente a violência doméstica continua a fazer as suas vítimas, quase todas mulheres.
É tempo de dizer basta. Todos devemos denunciar os casos de violência sempre que nos apercebamos da sua existência.
Excelente texto.
Querida amiga Elvira, desejo-te uma óptima semana.
Beijos.

Graça Pereira disse...

Uma verdade triste, actual (mais do que nunca infelizmente) e que enxovalha a alma de uma mulher!
Um conto que se acompanha com avidez da primeira à última palavra. Parabens!
Beijos e boa semana.
Graça

São disse...

Amiga, venho dizer-lhe que gostei muito de poder confirmar - finalmente! - ao vivo a excelente impressão que formara ao longo de tantos anos acerca de si.

UM abraço bem apertado, linda.

Zé Povinho disse...

Infelizmente há demasiada gente deste calibre e muitos outros que sofrem com a violência boçal e inexplicável como esta que aqui pude ler.
Abraço do Zé

。♥ Smareis ♥。 disse...

Elvira um texto excelente. Acho que o que falta é a conscientização das pessoas em denunciar essas violência. Beijos e ótima semana.

Francisco Germano Vieira disse...

Bonito texto, muito bem escrito, actual. Parabéns.

Green Knight disse...

Houve um tempo, em que estas situações eram tão vulgares, devido ao poder que o homem tinha na família, que quase era normal. Infelizmente nem a instrução, ou cultura fazem, com que estes casos se extingam nos dias de hoje.
O instinto animalesco prolifera.
Foto tirada, em pormenor deste tipo de vivença.
Uma realidade presente.
Boa semana minha amiga
jrom

Luis Eme disse...

eu gostei mas não uso FB...

abraço Elvira

gaivota disse...

também já passei no face a dar o meu apoio e comentário, infelizmente há tantas luísas, tantas celestes...
beijinhos

AC disse...

Elvira,
A sua convicção por causas justas é profunda, precisamos de mais pessoas assim. Obrigado.

Beijo :)

Severa Cabral(escritora) disse...

Belo alvorecer minha linda!
Estou com saudades de vc ...minha ausencia se dar por conta do trabalho que me tira todo o tempo quando chega final de ano...mas sempre que der passarei por aqui nem que seja para soltar um beijo...
Texto atualissimo só falta coragem para denunciar...
bjs

Kimberly Oliveira disse...

Quantas mulheres sofrem violência e não tem coragem de denunciar, Elvira!! Seu conto é comovente... espero que ajude muitas mulheres a criar coragem.
Como faço para votar no Facebook?
Bjos.